Vizinhos

19 Clary


Às vezes, quando a casa inteira se cala — quando nem os carros se atrevem a passar pela rua e os ponteiros do relógio parecem hesitar — eu juro que ainda ouço a chaleira apitando.

Não é só o som, mas a sensação que vem junto.

A luz filtrada atravessando as cortinas finas da cozinha, dourando o piso antigo com um brilho tímido, quase triste.

O cheiro do chá de camomila.

O ranger da cadeira de madeira quando minha mãe se sentava, sempre com os ombros tensos, como se estivesse à espera de algo — ou como se estivesse evitando se quebrar.

Aquela era nossa rotina.

Toda tarde, por volta das cinco, ela colocava água para ferver, e enquanto esperávamos, ficávamos em silêncio.

Não era um silêncio confortável, daqueles que existe entre duas pessoas que se amam e já se entendem sem precisar falar.

Era um silêncio pesado, espesso, como se algo estivesse suspenso no ar, prestes a cair.

Minha mãe sorria.

Sempre sorria.

Mesmo com a borda da xícara tremendo levemente entre os dedos, mesmo quando os olhos dela pareciam ter esquecido como brilhar.

Ela fazia questão de sorrir pra mim.

E eu sorria de volta, porque era isso que se esperava.

Sorrir de volta. Fingir que estava tudo bem.

Meu pai chegava logo depois.

Com passos firmes demais, com o cheiro de hospital ainda grudado na pele, e uma presença que enchia todos os cantos, mesmo quando ele não dizia uma palavra.

Quando ele falava, falava alto.

Quando se calava, era pior.

Durante muitos anos, ela dizia que ele só estava cansado.

Que o trabalho era estressante. Que médicos tinham dias ruins.

E que tudo aquilo — os gritos, as portas batendo, os hematomas disfarçados com mangas longas — fazia parte da vida.

Mas eu sabia.

Sabia desde cedo que não era assim que as outras casas funcionavam.

Que nenhuma das minhas amigas chorava só de ouvir o som de passos fortes no corredor.

Cresci aprendendo a andar leve.

A respirar devagar.

A me calar quando minha vontade era perguntar: por que ele faz isso com você? por que você deixa? por que ninguém vê?

Mas ela nunca respondia.

Ela só passava a mão no meu cabelo, me chamava de florzinha, e dizia que tudo ia ficar bem.

Era quase convincente.

Até o dia em que ela começou a esquecer como mentir.

A doença levou o que restava dela com mais rapidez do que qualquer um esperava.

E com ela, se foi a última faísca de algo que pudesse ser chamado de casa.

Depois que ela morreu, o silêncio se transformou em outra coisa.

Ficou mais cruel, mais duro.

Meu pai, sem ninguém para fingir que era normal, parou de fingir também.

Ele nunca pediu desculpas.

Nunca disse que estava com dor, ou que se sentia perdido.

Ele apenas passou a descontar tudo em mim — com o mesmo peso, a mesma raiva, o mesmo silêncio.

E eu fui desaparecendo.

Não de uma vez, mas aos poucos.

Fui me tornando alguém que evitava chamar atenção, que falava baixo, que preferia observar do que participar.

Alguém que carregava sorrisos breves no rosto, e fantasmas longos na memória.

Hoje em dia, quando alguém pergunta por que eu sou tão quieta, eu rio.

Digo que sempre fui assim.

Como se fosse uma escolha.

Como se houvesse alguma poesia nisso.

Mas não é poesia.

É só sobrevivência.

E às vezes, no meio de uma tarde qualquer, eu paro tudo e fico escutando.

Esperando ouvir a chaleira apitar.

Porque parte de mim ainda acredita que, se aquele som voltar, minha mãe vai estar ali.

Sentada na cozinha, com a luz dourada em volta dela, tentando fingir que o mundo lá fora — e dentro da nossa casa — não estava desmoronando.

E eu juro, por segundos inteiros, que quase consigo ouvir.

Houve uma noite em que tudo mudou.

Não sei se foi a primeira vez. Mas foi a que me quebrou por dentro.

Eu devia ter uns oito anos.

Chovia — e meu pai odiava chuva. O barulho, a umidade, o cheiro.

Eu estava desenhando no tapete da sala, com as canetinhas espalhadas. Tinha feito um rabisco da minha mãe com uma capa de chuva vermelha. Ela sorria no desenho. Uma mentira que inventei porque, por algum motivo, eu precisava muito acreditar que ela ainda podia sorrir.

Quando ele entrou em casa, encharcado e furioso com o mundo, escorregou no tapete.

Caiu.

Bateu o joelho.

O grito que deu não foi de dor. Foi de ódio.

As canetinhas voaram com um chute só.

Minha mãe tentou se colocar na frente — entre mim e ele — como se ainda pudesse me proteger.

Como se ela ainda acreditasse que o corpo dela era escudo suficiente.

O primeiro tapa veio seco. O segundo, mais alto.

Quando tentei correr até ela, ele me empurrou com tanta força que bati a cabeça na quina da estante.

Fiquei tonta. O mundo girava.

Senti o sangue quente escorrer pela testa.

Ele congelou por um segundo — não sei se por medo, por arrependimento ou surpresa.

Mas não disse nada. Só saiu da sala. Como se não fosse com ele.

Minha mãe me pegou no colo. Chorava, e me pedia desculpas como se tivesse sido ela.

E eu… eu fiquei quieta.

Com medo de fazer barulho.

Com medo de que ele voltasse.


Meu pai sempre foi uma pessoa egoísta, de uma maneira que talvez ele nem perceba. Ele é o tipo de homem que só vê o mundo sob o seu próprio ponto de vista, como se tudo tivesse que girar em torno dele. Não importa o que aconteça ao nosso redor, o que importa é o que ele quer, o que ele sente.

Ele nunca teve paciência para ouvir o que eu realmente preciso. Quando tento falar sobre algo que me preocupa, seus olhos se desviam, como se ele estivesse mais interessado em qualquer coisa que não fosse eu. Suas palavras são poucas e, quando existem, são secas e desinteressadas.

Se há algo que ele não compreende, simplesmente se cala ou se afasta, como se a minha dor fosse algo irrelevante, algo que não merece sua atenção. Ele não tem tempo para entender as minhas angústias, mas sempre exige que o mundo se curve diante das suas próprias necessidades.

E, claro, quando ele está por perto, tudo parece girar ao redor dele. Cada movimento meu, cada decisão, cada escolha que faço parece ser observada com um olhar que mistura indiferença e controle.

Não há espaço para que eu viva sem a expectativa do que ele pensa, sem a preocupação de que posso dizer algo errado, de que posso ser o estopim de uma nova explosão emocional.

Por mais que eu tente me distanciar disso, ele sempre está lá, como uma presença sufocante. E é difícil não sentir uma tristeza profunda ao ver que ele nunca vai mudar, que nunca vai encontrar um equilíbrio.

Naquela noite, parei de desenhar.

Parei de perguntar.

Parei de acreditar que alguém ali dentro podia, de fato, me proteger.

Depois disso, fui me transformando devagar.

Como um animal que aprende que o silêncio salva.

Que o olhar baixo é mais seguro.

Que carinho demais vira armadilha.

Hoje eu sou como um gato arisco, desses de rua.

Meus ombros enrijecem quando alguém se aproxima.

Meus dentes ficam prontos antes mesmo do perigo chegar.

Ataco antes de ser atacada. Porque assim… eu sinto que controlo alguma coisa.

Mesmo que seja só a minha própria ruína.

Teve uma vez que eu quase contei.

Eu já era adolescente. Estava cansada de fingir.

A orientadora me chamou depois da aula. Disse que percebeu minhas faltas, meus olhares vazios, os arranhões escondidos.

Ela me olhou como se visse. Como se soubesse.

Por um segundo, achei que ia conseguir.

Minha garganta tentou abrir a verdade, mas tudo travou.

O peito ficou apertado, como se alguém o esmagasse por dentro.

E eu menti.

Disse que tinha caído da escada.

Disse que estava tudo bem.

Sorri daquele jeito automático, treinado, covarde.

Ela acreditou. Ou fingiu acreditar.

E eu fui embora com aquele gosto ácido de verdade engolida.

Engasgada.

Desde então, aprendi que algumas coisas, se saem da boca, vêm acompanhadas de tudo.

Dor, vergonha, raiva.

E eu nunca soube onde colocar isso tudo.

Então enterrei. E continuo enterrando.

Até hoje, às vezes, me pego olhando pra alguém e desejando que eles enxerguem.

Mas no fundo, sei que não quero.

Porque ser vista de verdade dói mais do que ser ignorada.

Às vezes me pergunto se o que eu sinto por Lockwood é amor ou apenas fome.

Fome de ser vista. Fome de existir com todas as minhas rachaduras expostas, sem que isso afaste alguém.

Porque ele não vira o rosto quando vê as partes feias.

Ele olha mais fundo.

Sam não recua quando eu mostro os dentes.

Não se assusta quando meu afeto vem coberto de desconfiança, ou quando minha carência parece mais raiva do que desejo.

Ele entende. Como se estivesse esperando exatamente isso.

Como se já tivesse me lido antes mesmo que eu dissesse uma palavra.

Eu sou o tipo de pessoa que empurra antes de ser empurrada.

Que destrói antes de ser deixada.

Mas com ele… não funciona.

Ele não vai embora.

Ele me puxa de volta mesmo quando eu finjo que não quero ser puxada.

Mesmo quando eu mordo, grito, me fecho.

Tem algo de errado nisso, eu sei.

Mas é o tipo de errado que reconhece o que em mim também é torto.

Ele me vê. Não como uma vítima, nem como um fardo — mas como alguém que carrega suas dores como cicatrizes que ainda sangram.

E mesmo assim… ele me deseja.

Deseja justamente essas partes. Como se as falhas fossem o que o atrai.

Com Sam, até a dor tem colo.

Até o sexo tem silêncio confortável depois.

Até as brigas têm um tipo estranho de cuidado — como se ele dissesse: Eu aguento. Pode vir quebrada.

É vicioso. Eu sei.

Mas por tanto tempo eu me acostumei a esconder tudo — que agora, ter alguém que insiste em ficar, mesmo depois de ver tudo…

Me desmonta.

Nunca ninguém fez questão de mim desse jeito.

Não como ele faz.

Não com essa fome, essa necessidade, essa intensidade quase doente.

Ele é o oposto do silêncio do meu pai.

O oposto da negação da minha mãe.

Ele me invade, me toca, me obriga a sentir.

E por mais que eu saiba que isso pode me destruir, também sei que…

Pela primeira vez na vida, eu me sinto em casa.

Mesmo que essa casa esteja em chamas.

Caminho sem pressa.

É estranho como uma cidade tão barulhenta pode fazer a gente se sentir em silêncio.

Caminho sem pressa por uma rua de paralelepípedos em Shoreditch, deixando que os sons abafados da cidade fiquem para trás. Não estou fugindo exatamente. Só… evitando. Evitando pensar no que me espera em Bristol. No que deixei em casa. No que deixei na casa da frente.

A manhã está fria, mas o sol aparece tímido entre as nuvens — o suficiente pra iluminar o letreiro de uma loja pequena, com a tinta descascando nas bordas: Maud’s Flowers & Oddities.

Não entro porque gosto de flores. Entro porque estou cansada de andar.

O cheiro me acerta antes que eu perceba: terra molhada, folhas cortadas e incenso de lavanda. Tem vasos antigos empilhados no canto e uma estufa nos fundos, onde uma mulher de cabelo grisalho ajeita um arranjo de crisântemos.

Ela levanta os olhos assim que o sino toca.

— Pode entrar, querida. Só não repara na bagunça — diz, com um sorriso leve, como se eu já fizesse parte da manhã dela.

— Não tem problema — murmuro.

Ela volta ao que estava fazendo, sem me vigiar. Sem aquele olhar que pesa. Me dou conta de como isso é raro.

— Você está de passagem? — pergunta, enquanto amarra o caule das flores com barbante.

— Algo assim.

Ela me lança um olhar curto e gentil, sem invadir.

— Londres tem esse efeito em algumas pessoas. A gente chega achando que está só se distraindo. Mas, na verdade, está tentando respirar.

Concordo com a cabeça, mas não digo nada. Meus olhos passeiam pelos detalhes da loja: uma coleção de cartões antigos colados na parede, uma escultura de bronze com partes enferrujadas, um aquário vazio cheio de pedras coloridas. É um lugar estranho. Mas acolhedor. Como se alguém tivesse reunido memórias empoeiradas e decidido transformá-las em abrigo.

— Se quiser, pode escolher uma flor pra levar — ela diz. — Não precisa pagar. Só escolher.

— Por quê?

— Porque às vezes a gente precisa segurar alguma coisa bonita. Só isso.

Não sei responder. Me aproximo da bancada e escolho uma camélia cor de creme, com as bordas quase douradas.

Ela sorri, enrola a flor num pedaço de papel pardo e me entrega com um gesto tranquilo.

— Aqui. Pra você lembrar que ainda existem dias simples.

— Obrigada.

— E se quiser voltar, pode. A porta fica sempre entreaberta.

Saio da loja sem pensar. Segurando a camélia com uma delicadeza que me surpreende. Como se aquilo importasse.

E por um momento, só por um, não penso em Sam.

Nem no meu pai.

Nem em mim.

Só caminho.

Com algo bonito nas mãos.


Depois da floricultura, sigo andando com a cabeça mais leve. Como se o peso não tivesse sumido, mas tivesse mudado de lugar.

A loja aparece do nada — uma fachada esverdeada, com janelas cheias de pôsteres de exposições antigas, molduras tortas e pincéis usados em potes de vidro.

O nome, quase apagado: Rowan’s Curios & Artifacts.

Entro. O sino não toca. O chão range.

O interior da loja é silencioso, exceto pelo leve farfalhar de papel antigo quando o vento da porta movimenta os objetos.

Estantes apertadas, livros gastos de lombadas curvas, esculturas de gesso sem nome. Tudo ali parece ter vivido mais do que eu.

Meus dedos param sobre um exemplar de capa cinza-clara. Sem título visível. Abro sem pensar, por puro reflexo. Entre as páginas, algo escorrega: uma folha dobrada, cor de marfim. Papel grosso, daqueles que já não se fabrica mais. Tem cheiro de tempo. E tinta.

Começo a ler em silêncio.


“Nunca acreditei em amores que se explicam. Nem nos que pedem licença.

As coisas mais verdadeiras que vivi não se encaixam nas palavras certas — só nas erradas, nas incertas, nas que tremem por dentro. São essas que me seguram até hoje.

Não estou dizendo que o amor salva. Mas talvez ele saiba habitar. E isso, às vezes, é mais do que suficiente.

Se for pra sentir, que seja com todas as falhas. Com todas as margens borradas. Com todos os medos. Se for pra amar, que não seja com permissão, mas com urgência.

Você não precisa caber no mundo. Talvez só precise encontrar quem escolha caber no seu.”


Eu releria se tivesse coragem.

Mas dobro a carta com cuidado e a deslizo de volta entre as páginas.

Sinto uma irritação surda no peito. Como se alguém tivesse arrancado um pensamento direto da minha cabeça e colocado ali, impresso, anos antes de mim. E de Sam.

Saio da loja com a carta ainda viva atrás dos olhos. Não quero admitir que pensei nele. Muito menos que uma parte minha — a parte que finjo que não existe — quer ouvir o que ele tem a dizer.

Não é amor.

Não.

Mas talvez seja o começo de um silêncio que eu já não consigo preencher sozinha.

O ar frio me acerta, mas não é o suficiente para dissipar a pressão no meu peito. Cada passo que dou parece mais pesado que o anterior, como se o concreto sob meus pés se tornasse cada vez mais espesso. Tento focar na paisagem, nas pessoas que passam, mas tudo parece desbotado, irrelevante.

Entro em um café. O cheiro de grãos moídos e leite vaporizado me atinge, mas não consigo me concentrar nisso. Peço um cappuccino, como sempre, automático. O barista me olha, mas eu nem noto. Eu só queria que isso tudo fosse mais simples. Eu só queria poder parar de pensar nele.

Me sento na mesa de canto, do jeito que gosto. A xícara à minha frente ainda está intocada. Só observo o vapor que sai dela, subindo para o teto, como se estivesse tentando me dizer algo. Como se eu pudesse seguir, ir embora, esquecer. Mas não consigo.

Penso nele. Nos olhos dele, em como ele parecia me ver de uma maneira que ninguém mais vê. Não sei se me sinto desconfortável ou atraída. A maneira como ele se aproxima, como invade meu espaço, não dá para ignorar. E pior ainda, não consigo parar de pensar no que isso significa. Eu deveria estar racionalizando, seguindo em frente, mas a única coisa que consigo é me perder nos detalhes. Cada gesto, cada palavra, ainda ecoa em minha mente, e eu não consigo deixá-lo ir.

Eu fico ali, imóvel, a xícara na minha frente já fria, ignorada. Não sei há quanto tempo estou assim, perdida em pensamentos que não consigo organizar. A imagem dele, Sam, ainda está gravada na minha mente, mas não é só ele. São as coisas que encontrei no computador dele. As pastas, os arquivos, as informações sobre mim. Tudo ali, tão… calculado.

Por que ele faria isso? O que ele queria com isso? Me sinto como se estivesse em um jogo, mas não entendo as regras. Ele tinha todos os meus dados. Todos. E ele sabia. Sabia mais sobre mim do que eu mesmo poderia lembrar.

O peso disso ainda me sufoca. Como é possível alguém me observar dessa forma, sem que eu perceba? Eu me pergunto se ele já sabia antes, se isso tudo já fazia parte do plano dele. Ou será que foi só uma obsessão que cresceu com o tempo, até ele sentir que precisava ter tudo, controlar tudo? Eu não sei, mas sinto um nó na garganta toda vez que tento entender.

Parece que a cada minuto que passa, mais perguntas surgem e nenhuma resposta parece boa o suficiente. Por que ele me fez isso? Para me assustar? Para me provocar? Ou simplesmente porque podia? Porque, se é isso, então o que mais ele pode fazer?

A raiva vem, mas não é a raiva que eu esperava. É uma raiva silenciosa, fria, que se mistura com uma sensação desconfortável. E, por mais que eu tente me convencer de que estou no controle, que isso não vai me afetar, sinto que ele conseguiu alcançar algo em mim que eu não consigo controlar.

Eu respiro fundo. Tento tirar isso da cabeça, mas é impossível. A realidade dele e a minha estão entrelaçadas de um jeito que eu não sei mais onde começa um e onde termina o outro.

Finjo calma. Tomo um gole morno e amargo. Meu celular vibra.

Olho por impulso.

É ele.

Sam.

Meu coração trava antes mesmo de abrir a mensagem. Não quero ler. Mas leio.


“Cherry,

Eu sei que você deve estar me odiando agora, e eu não te culpo. Mas, por favor, me dê a chance de explicar.

Eu não estou pedindo perdão, não sei nem se mereço isso.

Mas você merece entender. Merece ouvir tudo, com calma, do jeito certo.

Eu nunca fui de implorar, mas por você, se for preciso, eu faço isso. Faço qualquer coisa.

Estarei em Londres para te ver no fim da tarde. Se quiser me encontrar — nem que seja só pra me dizer que nunca mais quer — eu estarei lá. Só quero te dar o que você tem direito: a verdade.”


Meus olhos percorrem cada linha, devagar. Leio uma vez. Depois outra. E mais uma. Como se isso fosse mudar alguma coisa. Como se, relendo, eu fosse encontrar alguma brecha. Um sinal de mentira. Uma fraqueza. Uma intenção escondida.

Mas não tem.

A mensagem é simples. Direta. Quase humilde. E isso me desarma mais do que se ele tivesse dito que me ama.

Ele sabe que não merece nada de mim. E mesmo assim tá vindo. Mesmo assim tá me dando escolha. Minha escolha.

Mordo o lábio. Sinto o gosto do café, da raiva e do medo tudo misturado.

Eu devia apagar. Fingir que não vi. Deixar ele esperando, como castigo.

Mas a verdade é que ele nunca esperou nada de mim. Nunca precisou me pedir. Nunca precisou se explicar.

E agora tá fazendo tudo isso.

Fecho os olhos por um segundo. Tô cansada de não entender. Tô cansada de correr.

E, mais do que isso, tô cansada de fingir que não quero saber a verdade.

Olho a tela mais uma vez. E, pela primeira vez em dias, deixo meu dedo pairar sobre o teclado.

Mas ainda não respondo.

Só deixo ele lá.

Sabendo que eu li.

E talvez isso já seja resposta o bastante — por enquanto.





Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.