Vizinhos

7 Clarissa


“For I will bear the error of my ways,

And on my frailties why should others gaze?”

— Sonnet 89, William Shakespeare.


Não peço que me vejam — só que não me apaguem completamente.

Porque até a dor tem seu brilho, se for sentida por inteiro.



Clary


A semana passa como uma linha reta interminável, onde cada dia se arrasta como uma maratona exaustiva e sem destino. O tempo se torna uma tortura silenciosa; cada segundo se estende, como se o relógio estivesse preso em um loop eterno. As horas pesam, e a sensação de espera parece nunca chegar ao fim.

Cada tarefa exige mais do que deveria, e até os gestos mais simples ganham um peso desproporcional. As conversas se arrastam, as pausas entre uma atividade e outra são tão silenciosas que consigo ouvir o eco do meu próprio tédio. Tudo é monótono. Nada me prende. Nada me faz esquecer do tempo. As horas escorrem como se eu estivesse presa num filme repetido tantas vezes que já perdeu qualquer impacto.

São dias em que o relógio se torna meu inimigo. E, sempre que olho para ele, me pergunto: “Já passou quanto tempo?”

A resposta é sempre a mesma: pouco.

Nenhuma notícia de Sam. Nenhuma mensagem.

Começo a perceber que, embora me recuse a admitir, estou esperando. Involuntariamente. Me pego verificando o celular sem perceber. O som das notificações se torna uma esperança vazia — reflexo de um desejo que eu preferia não ter. Que não deveria ter.

Essa expectativa silenciosa se infiltra na minha rotina. Não é uma espera ativa, mas um tipo de intoxicação lenta, que vai se acumulando até que tudo o que resta é um vazio maior do que antes. Tento convencer a mim mesma de que estou bem sem ele. Que posso seguir sem depender do olhar, da presença ou das palavras do meu vizinho. Mas, a cada minuto sem resposta, cresce a sensação de que, no fundo, estou esperando algo que talvez nunca venha.

Então, deposito toda a minha energia na festa de Halloween da Emy. Passo a semana imersa nos preparativos: procuramos decorações, compramos uma quantidade talvez desnecessária de bebidas, escolhemos flores para suavizar o ambiente e discutimos fantasias como se disso dependesse nosso equilíbrio emocional.

Na sexta-feira, depois da aula do Sr. Ford — que, é claro, não perdeu a chance de perguntar por Lockwood, recebendo apenas um levantar de ombros como resposta — chego à galeria onde trabalho. E reconheço, imediatamente, um rosto familiar na recepção.

– Olha só, ela acabou de chegar. – Anna, a recepcionista, me aponta por trás do balcão.

O rapaz, cujo nome não consigo lembrar, se vira na minha direção. Parece ter uns trinta anos. Seu estilo é refinado sem esforço: blazer bem cortado, um relógio discreto e elegante, um sorriso sereno. Os traços do rosto são harmônicos, com uma barba por fazer que suaviza sua aparência — e olhos atentos, que passeiam brevemente pelo curativo em meu rosto.

– Olá, Clarissa. – ele sorri, a voz tranquila. – Acho que você esqueceu da nossa entrevista.

Meu estômago afunda. O rapaz do museu. O mesmo da noite em que Sam me levou para o coquetel de inauguração. Meu rosto arde em vergonha. Eu marquei uma entrevista com esse cara?

– Eu… eu… – gaguejo, desesperada por algo minimamente coerente a dizer. Um buraco no chão também serviria.

– Não se preocupe – ele ri, gentil – tenho certeza de que foi culpa do vinho. Acho que eu também bebi demais naquela noite. Mas me lembrei de que você disse que trabalhava aqui.

Agradeço mentalmente pela gentileza.

– Me perdoe. Não costumo esquecer compromissos. – começo, desconcertada. – Nem beber assim.

Ele solta uma risada baixa, genuína.

– Se não se importar, poderíamos conversar enquanto você me mostra a galeria? – sugere, arqueando uma sobrancelha. – Aliás, só para você não ficar ainda mais vermelha: Thomas Brown. – diz, estendendo a mão.

Seu aperto é firme, mas delicado.

– Clarissa Blackwell. – respondo, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

A recepção é clara, ampla, minimalista. A estética do espaço transmite uma elegância contida, permitindo que a arte respire. Seguimos juntos para o interior da galeria.

– Trabalho no departamento de Museus, Galerias e Arquivos de Bristol – Thomas começa, andando ao meu lado. – Não achei que fosse fã de arte contemporânea.

Ele me encara por um instante, olhos verdes faiscando curiosidade.

– Nada contra – continua – você só não parece… contemporânea.

Dou risada, entendendo o que ele quer dizer. A galeria mistura salas amplas e outras mais intimistas, com exibições que variam entre o experimental e o clássico, numa espécie de dança entre o provocativo e o estético.

– Não gosto. Não muito. – dou de ombros. – Mas pagam bem.

Ele ri de novo.

– Imagino. Estava procurando alguém para o Museu da Casa Georgiana. Achei que você poderia gostar.

Seus olhos me estudam em silêncio. E ele está certo. A Casa Georgiana sempre me encantou. Há algo naquelas paredes preservadas, nos móveis de época, na delicadeza da decoração e na austeridade dos cômodos que me transporta. Parece uma casa de bonecas de tamanho real. Perfeita. Intocável.

Fico impressionada com a capacidade de Thomas de adivinhar meus gostos com tanta precisão. Quero dizer, mal me lembro da nossa conversa naquela noite no museu — mas, considerando o nível etílico em que me encontrava, devo ter falado mais do que falaria em qualquer outro contexto. Recordo vagamente de termos falado sobre viagens, arte, trabalho…

E de Lockwood, plantado ao meu lado, em silêncio absoluto, com o cenho franzido e a postura rígida de quem se leva a sério demais.

Como um guarda-costas de aluguel. Ou um animal prestes a morder.

Lockwood.

Bufo mentalmente.

– Uau. Seria incrível. Mesmo. – digo, enquanto seguimos por uma das salas de exposição interativa. Os sons ambiente — vozes, ruídos urbanos, fragmentos de música — se sobrepõem como uma TV esquecida ligada no fundo de uma casa vazia.

– Mas ainda estou terminando a graduação. Prolonguei para fazer um ano na Itália, no verão passado, e…

– Não se preocupe. – Thomas me interrompe, com gentileza. – Podemos começar com meio período. Estamos realmente precisando de pessoas capacitadas. Com tanta tecnologia, tem sido difícil encontrar quem se interesse por peças antigas. – Ele diz com sinceridade. – Quanto ao salário e aos detalhes, te mando por e-mail. E aí você me diz o que acha. – completa, aguardando minha reação.

Seus cabelos loiros têm aquele tipo de ondulação que parece cuidadosamente despreocupada — como se tivessem sido moldados por brisas suaves e não por produtos modeladores. Ele se move com uma elegância tranquila, do tipo que não precisa se anunciar para ser notada.

– Claro. Vou te passar o meu contato. – respondo, revirando a bolsa à procura do celular.

Thomas me observa com um sorriso calmo, tão natural que não há esforço nele. É apenas a expressão de alguém genuinamente educado, criado entre vinhos caros, bibliotecas de madeira escura e silêncios confortáveis.

– Sem pressa nem pressão, mas… gostaríamos muito de ter você lá. – Ele acrescenta, com a mesma serenidade.

Ele não tenta agradar. Ele simplesmente é agradável. Sem esforço. Sem artifício.

– Vamos conversar sobre isso. – respondo com um sorriso leve, mais cortês do que empolgado.

Mas então, percebo em seu olhar que ele ainda guarda algo. Um peso que deseja verbalizar. E antes mesmo de ele falar, já sei o que está por vir. É o tipo de frase que se sente antes de se ouvir.

– Escuta… – começa. – Não sei se você está com aquele rapaz do museu ou não, mas… se quiser sair algum dia desses, eu gostaria. Também foi um dos motivos que me trouxeram até aqui, pra ser honesto. – ele admite, com uma sinceridade desarmada.

Contenho uma risadinha.

O babaca do Lockwood estava certo, no fim das contas. Claro que estava.

E só de pensar nele de novo, algo em mim se irrita. Uma irritação muda, funda, que pulsa na base do estômago.

– Somos apenas amigos. – minto, fazendo um gesto casual com a mão, como quem minimiza a importância. – Sair seria ótimo. – acrescento, com um sorriso que soa mais como provocação do que como convite.

– Certo. Maravilha. – Thomas parece visivelmente aliviado. – Bom, meu tempo está curto, e imagino que você tenha que trabalhar… então, já vou indo. – diz, estendendo a mão mais uma vez.

O aperto agora é mais demorado. Quase um toque.

– Até mais. – murmuro, observando-o se afastar com passos seguros.

Fico encarando as costas do seu terno azul escuro por tempo demais. Algo em sua elegância calma contrasta com a inquietação que carrego nos ombros.

E então, um pensamento — impulsivo, inconsequente, quase infantil — surge como uma faísca na mente:

Afinal, estou mesmo precisando de uma aventura.

Preciso me sentir melhor, e Thomas parece uma escolha razoável para isso. Alguém que pode me distrair. Me manter ocupada. Um rosto bonito, uma conversa leve, um toque de atenção. Nada mais.

O pensamento de que posso estar sendo egoísta me atravessa — frio, breve, incômodo — mas já não tenho paciência para me importar com isso. Todo mundo é egoísta às vezes, certo? E não é como se esse rapaz realmente gostasse de mim. Ele está interessado. Curioso.

Não pretendo iludi-lo, nem prometo nada. Só quero me entreter com sua companhia.

Se der errado, ao menos vai render uma boa história.

Ou uma desculpa.

O que vier primeiro.

– Thomas! – chamo, antes que ele atravesse a porta. – Vou dar uma festa de Halloween no sábado… drinks, algumas comidas… – começo, me aproximando devagar, observando sua reação.

Os olhos dele, de um verde denso, brilham com algo que não sei nomear de imediato. Curiosidade? Interesse? Talvez só prazer pela proposta inesperada.

– É algo pequeno – acrescento, o tom leve –, mas você está convidado.

– Se tiver uma fantasia, óbvio. – Brinco, com uma ponta de provocação só para manter as coisas minimamente interessantes.

Ele arqueia uma sobrancelha, e uma risada baixa escapa de seus lábios. O sorriso, suave e seguro, carrega uma confiança discreta que quase poderia ser perigosa, se eu me importasse.

– Gostei. – diz, divertido. A voz dele é firme, agradável. – Parece que o sábado promete. Vou começar a pensar numa fantasia à altura do convite.

– Hm, eu vou adorar ver isso. – Respondo, sorrindo de leve, como quem joga uma isca por tédio. – Surpreenda-me. – dou de ombros.

Bufo por dentro. Como se eu realmente esperasse alguma surpresa. Como se isso fosse mesmo importante.

Mas não é.

Só estou tentando afastar um pensamento que insiste em voltar. Um nome que continua grudado na minha memória.

Thomas se aproxima um pouco mais. Seu olhar, agora mais firme, pousa em mim com uma intensidade que não chega a incomodar — mas que também não me toca de verdade. Há algo na sua postura que transmite segurança, como se estivesse sempre um passo à frente da situação. Talvez ele seja mesmo o tipo de homem que está acostumado a ser desejado.

Mas, para mim, ele é apenas uma pausa.

– Você gosta de surpresas, é? – pergunta, ainda com aquele sorriso insinuante. – Aposto que posso te mostrar algumas que você nem imagina.

Tenho vontade de rir, mas me seguro.

– Gosto de surpresas, sim. – Respondo, sem dar muito peso às palavras. – Mas só se forem boas. Não perco meu tempo com qualquer coisa medíocre, sabe?

Ele sorri ainda mais, como se estivesse exatamente onde queria. Como se a conversa estivesse seguindo o roteiro perfeito.

– Não se preocupe, Clarissa. – diz, a voz se tornando quase um sussurro, tentando se insinuar pelas frestas da minha resistência. – Eu sei o que é bom. Tenho certeza de que você vai gostar. Aliás, você tem um jeito de tornar tudo mais interessante. Até um simples convite de Halloween…

Me mantenho calma, quase entediada, deixando que ele fale.

– É só uma festa, Thomas. – corto, com um sorriso tranquilo. – Não sei se é algo que vai te desafiar muito. Mas você é bem-vindo, claro. Quem sabe me surpreenda mesmo.

Ele ri, baixo, como se já tivesse conquistado mais do que de fato conquistou. Seus olhos me encaram com uma pergunta silenciosa, como se estivesse avaliando quanto pode avançar.

– Não duvide que eu consiga. – afirma, com aquele sorriso travesso que parece treinado. – Então… quer me dar alguma dica da sua fantasia ou prefere que eu descubra depois?

Dou uma risada breve, mais pelo jogo do que pela graça.

– Não seja tão apressado. – digo, o tom leve, quase brincalhão. – Mas, se a sua fantasia estiver à altura, talvez a diversão seja garantida.

Ele assente, satisfeito. Como se já pudesse prever o desfecho.

– Vou me lembrar disso, Clarissa. Até sábado, então.

Fico observando enquanto ele se afasta, o terno azul escuro desaparecendo lentamente na saída. Há algo elegante em sua figura — composto, impecável — mas nada nele me prende de verdade.

Sinto uma leve agitação por dentro.

Não de desejo.

Mas de curiosidade.

Quero ver até onde ele vai tentar me conquistar.

Só isso.

Eu não estou procurando por ele.

Estou apenas tentando preencher um vazio.


(...)


— Isso é claramente uma tentativa de assassinato por decoração — resmunga Nick, equilibrando uma abóbora enorme enquanto Emy tenta colar morcegos de papel no teto.

— Se você morrer esmagado por uma abóbora, pelo menos vai ser temático — retruca Emy, com um sorriso sarcástico.

— E dramático — acrescento, observando os dois com um saco de teias falsas nas mãos. — O que combinaria perfeitamente com o seu histórico, Nicholas.

Ele lança um olhar nada divertido na minha direção.

— Eu sou dramático? Clarissa, você está usando uma fita métrica pra alinhar velas. No escuro.

— Estética importa — rebato com um ar sério. — O horror tem que ser harmônico.

Emy solta uma gargalhada alta, enquanto luta contra um dos morcegos que insiste em cair do teto.

— Horror harmônico! Vou tatuar isso.

— Você devia tatuar “não subestime a gravidade”, porque esse morcego claramente não quer ficar aí — Nick murmura, finalmente colocando a abóbora no canto da sala, ao lado de uma fileira de velas laranjas. — Pronto. Eu oficialmente contribui com a vibe assombrada. Agora posso me aposentar e pedir pizza?

— Pizza só depois que você montar a guirlanda de esqueletos — digo, jogando uma caixa na direção dele. — E sem roubar os mini Snickers que estão na mesa. Eles são para as visitas.

— Então pra que você abriu dois e escondeu as embalagens no vaso da cozinha?

— Traição! — Emy aponta em minha direção, com um dedo acusador. — Clarissa Blackwell, ladra de doces e mentirosa.

— Eu precisava de energia. Decoração exige sacrifícios. E açúcar.

Nick balança a cabeça, como um adulto decepcionado com duas crianças hiperativas.

— Vocês duas vão acabar cercadas de morcegos mal colados, com overdose de açúcar e glitter no cabelo. E ainda vão achar que venceram na vida.

— Exatamente! — Emy e eu respondemos ao mesmo tempo.

A sala está ficando quase irreconhecível: luzes laranjas e roxas emolduram a estante de livros, teias falsas cobrem os cantos das janelas e há um esqueleto de plástico no sofá com um chapéu de bruxa e um copo de plástico na mão, como se estivesse pronto para socializar.

— Demos um nome pra ele já? — Nick pergunta, olhando para o esqueleto.

— Lorde Mortem. — Emy responde sem hesitar.

— Claro que sim — ele suspira. — Me lembrem de não deixar vocês decorarem meu apartamento nunca.

— Você mora num estúdio com cinco plantas e um sabre de luz — rebato. — Nem tem espaço pra teias de aranha.

— As plantas são tranquilas. Diferente de vocês duas.

Enquanto Emy tenta montar uma playlist “aterrorizante, mas dançante”, e Nick reclama do glitter que grudou na calça, percebo que, apesar do caos, esse é exatamente o tipo de distração que eu precisava.

— Isso aqui parece mais um ninho de rato do que decoração de Halloween — ele comenta, sério, sua vigésima reclamação da tarde. — Quem comprou isso?

— Foi você. — respondo, com um sorriso presunçoso.

— Ah, então tá ótimo. — Nick dá de ombros, largando o que, supostamente, era pra ser uma teia de aranha.

Ele tenta pendurar uma fileira de morcegos de papel no batente da porta, mas um deles insiste em ficar de cabeça pra cima.

— Eu desisto. Esse morcego claramente tem um espírito rebelde — Nick comenta, esticando o braço de novo. — Ou ele era artista na vida passada.

— Você também não era? — provoco, passando com uma abóbora nos braços. — Lembro bem da sua fase dramática no colégio. Usava boina e tudo.

— Era uma fase estética, Clarissa. Não dramática. — Nick corrige com falsa indignação. — E era um boné, por sinal. De tweed.

— Com uma pena na lateral! — Emy grita da cozinha, gargalhando. — Meu Deus, eu tinha esquecido disso.

— Ah, e vocês eram muito melhores, né? — Nick rebate, rindo. — A Emy que colou estrelinhas no rosto achando que ia virar uma fada gótica.

— Fadas góticas são um conceito válido. — ela responde, aparecendo com os braços cobertos de glitter. — Inclusive, estou voltando às origens.

Eu deixo a abóbora sobre a mesa e me encosto ao balcão, observando os dois.

— Vocês sabem que são a única razão pela qual eu ainda não enlouqueci, né?

Nick se vira, com um meio sorriso no rosto. Ele se aproxima e toca meu ombro de leve, com aquele jeito contido de sempre.

— Mas você enlouqueceu, Clary. E tá tudo bem. — Ele observa, com um sorrisinho brincalhão. — Crescemos juntos, sobrevivemos ao ensino médio e até à minha ex-namorada obcecada por filmes suecos e terapia em grupo. Acho que isso cria um laço, não?

— Isobel? — Emy faz uma careta.

— A própria. Quase me fez meditar pelado numa cachoeira em fevereiro. — Ele revira os olhos. — Nunca mais.

Eu e Emy explodimos em risadas.

— Isso sim é trauma — digo, ainda rindo. — E você achou que o morcego era o problema.

Nick dá de ombros, teatral.

— Pelo menos o morcego não me pediu pra dizer meu mapa astral em voz alta durante o sexo.

— NICK! — grito, cobrindo os ouvidos.

Ele sorri, satisfeito por nos fazer rir.

— Sério, só queria que vocês soubessem que… tô por perto, tá? Pra qualquer coisa. Londres é aqui do lado. Deveriam me visitar mais.

— Quando estiver fora, posso usar o seu apartamento como hostel para ir com alguns esquisitos pro Wide Awake? — Emy pergunta, com um sorriso.

— Não. — ele responde, puxando cada uma de nós para um abraço desajeitado, mas genuíno. — Não força, Emy.

O clima muda só um pouquinho. Ainda leve, mas com aquele calor bom que só existe quando estamos juntos.

A decoração de Halloween supera todas as minhas expectativas. Longe dos clichês assustadores, a casa ganha uma aura de elegância sombria — um equilíbrio entre o charme feminino e o mistério intencional. Assim que os convidados cruzam o hall de entrada, são imediatamente envolvidos pela atmosfera única que criamos. O salão, amplo e imponente, é iluminado por lustres de cristal cujos reflexos dançam suavemente pelas paredes, adornadas com molduras douradas e tapeçarias de tons profundos.

A trilha sonora — uma curadoria cuidadosa de clássicos dos anos 80 — preenche o ambiente com uma nostalgia irresistível. “Sweet Dreams”, do Eurythmics, ecoa entre os cômodos como um feitiço, ditando o ritmo de uma noite que flutua entre o real e o imaginário.

Junto das teias de aranha e esqueletos pendurados, apostamos também em uma estética mais refinada. Arranjos de flores escuras — rosas vermelhas, lilases e negras — decoram as paredes e aparadores, em contraste dramático com a paleta neutra da casa. Dispostas em jarros delicados de vidro, com discretos toques de dourado, as flores trazem um ar de beleza melancólica, minimalista e chique.

Nos corredores e salões principais, bandejas com coquetéis circulam em mãos bem vestidas. As taças, longilíneas e cintilantes, abrigam bebidas de nomes sugestivos como Black Widow e Vampire’s Kiss. À luz bruxuleante das velas — muitas delas em candelabros de ferro negro — as bebidas ganham tons hipnóticos, refletindo sombras dançantes nas paredes.

A mesa de comidas é um espetáculo à parte. Com toalhas de linho preto e velas baixas em jarros transparentes, ela abriga pequenas obras-primas culinárias: mini tortas de abóbora com especiarias, canapés de salmão defumado com creme azedo, queijos artesanais ladeados por geleias exóticas, frutas secas e chocolates amargos. É uma mesa que brinca com contrastes — doce e salgado, rústico e sofisticado — sem jamais perder a harmonia.

O ponto alto, porém, é a antiga banheira de mármore no canto da sala de estar. Um objeto que já carrega sua própria história, agora transformado em bar improvisado. Dentro dela, garrafas de vinho e champanhe repousam sobre o gelo, salpicado com glitter dourado. Ao redor, velas e arranjos florais completam a composição, evocando a sensação de que estamos numa fábula glamourosa, onde o luxo se mistura ao sobrenatural.

Entre os convidados, há de tudo um pouco: vampiros elegantes, bruxas de alta-costura, criaturas encantadas que parecem saídas de um sonho distorcido. Sorrisos, risos e olhares surpresos se espalham pelo ambiente. A casa, por uma noite, parece suspensa no tempo — como se um universo alternativo dos anos 80 tivesse se infiltrado pela porta da frente.

E, de algum modo, tudo funciona.

Emy e eu arrasamos.

— Você está ma-ra-vi-lho-sa! — ela praticamente grita, pulando animada quando entro na cozinha com uma bandeja de taças. — Tipo… meu Deus, Clary!

Dou uma risadinha, tentando parecer blasé, mas não consigo disfarçar o orgulho.

— Acha que a banheira foi demais?

— A banheira foi genial. É tipo… a cereja gótica do bolo. — Ela ergue uma taça, fazendo um brinde imaginário. — Ao nosso reinado. Longo, obscuro e cheio de glitter.

Sorrio, satisfeita.

Depois de muito tempo pensando em uma fantasia que fosse a minha cara — e que combinasse com a proposta da festa —, acabei optando por me vestir de Vênus. A deusa romana do amor, da beleza, do desejo. Bom… a minha versão dela.

Meus cabelos, uma cascata flamejante de fios ruivos intensos, caem soltos e ondulados até a base das costas, deixando à mostra o recorte profundo do vestido. Mas o que realmente chama atenção são as flores que se entrelaçam por entre os fios, como se tivessem nascido ali: pequenas rosas vermelhas, lírios brancos e ramos delicados de lavanda. Tudo parece brotar da minha própria pele, como se eu fosse uma extensão selvagem da natureza.

O vestido — longo, fluido, feito de cetim branco — reflete a luz dos lustres com um brilho etéreo, quase hipnótico. Ele envolve meu corpo com sutileza, destacando as curvas com discrição e graça, como se tivesse sido esculpido para mim. Uma faixa dourada marca a cintura, fina como um fio de ouro, combinando com as sandálias delicadas. O tecido se move comigo como se flutuasse, e por um instante raro… eu me sinto linda. Linda de verdade.

Sexy, mítica, sofisticada. Feminina de um jeito que não parece frágil — parece poderoso.

Com exceção do curativo que tentei disfarçar com esparadrapo cor da pele na lateral do rosto — os pontos poderiam muito bem ser parte da fantasia de Halloween, por ironia —, estou satisfeita. A desculpa de que escorreguei no gelo foi aceita com facilidade por quase todos. Quase. Nick me olhou com desconfiança, como quem conhece a verdade e opta por engolir o incômodo. Conhece nosso pai bem demais para acreditar em tropeços inocentes. Mas, em silêncio, entendendo que eu preferia não tocar mais no assunto, aceitou. A insatisfação ficou só no olhar.

— Você também está perfeita. Tenho que admitir, até que essa festa foi uma ótima ideia — digo a Emy, animada.

Ela entra na sala carregando uma bandeja de taças como se fosse a estrela principal de um filme. O sorriso é um espetáculo à parte: confiante, encantador, audacioso. Emy está deslumbrante como Vivian Ward, de Pretty Woman. A fantasia é impecável, até a peruca platinada e o chapéu preto foram reproduzidos com perfeição. Mas o que chama mais atenção é o blazer vermelho sobre o vestido justo e provocante. Nos pés, botas pretas de salto alto completam o look com aquele toque de atitude que é 100% Emy.

É claro que ela é a alma da festa.

Amigos da faculdade, colegas da galeria, conhecidos do Nick e alguns completos estranhos — provavelmente os nerds da engenharia de software que Emy vive mencionando — circulam pelos salões, divididos em grupos animados. A música, a decoração, os drinks com nomes misteriosos… tudo parece conspirar para criar uma noite perfeita.

Nick caminha entre os convidados com sua habitual tranquilidade, segurando uma cerveja na mão.

— Nada mal, vocês duas — comenta, arqueando uma sobrancelha, visivelmente impressionado. — Nada como uma desilusão amorosa para impulsionar a criatividade feminina.

Nick sempre teve esse ar sereno. Cabelos castanhos claros que caem na testa de um jeito preguiçoso, olhos azuis iguais aos do nosso pai — mas nele, são suaves. Há uma quietude nele que me conforta. Como se ele observasse o mundo de fora, sem pressa, como um expectador.

Vestido como o Fantasma da Ópera, está discreto, mas ainda assim chama atenção — como uma nota grave que vibra no fundo de uma canção.

— Meu convidado chegou. Sejam legais ou vou perder o emprego que ainda nem consegui — sibilo, avistando Thomas parado junto à porta, recostado com elegância casual.

Ele veste uma capa preta e vermelha com detalhes em seda, uma camisa social branca e um colete escuro. Está simplesmente lindo como Drácula. Uma beleza que parece deslocada do tempo, clássica e misteriosa, como um personagem literário saído direto de uma página amarelada.

Seus olhos verdes passeiam pela sala até me encontrarem — e quando encontram, há um brilho que não passa despercebido. Um instante de encantamento silencioso.

— Uau. Você está… uma verdadeira obra de arte — diz, com um tom quase hipnotizado. — E a festa… está incrível.

— Drácula. Gosto de clássicos — sorrio, passando a mão por sua capa impecável. — Vem, vou te apresentar ao meu irmão e à minha melhor amiga. Na verdade, a ideia da festa foi dela.

Conduzo-o até a mesa de comidas, onde Nick e Emy já nos observam com expressões de análise sutil.

— Thomas — digo, apoiando levemente a mão no braço dele. — Thomas, essa é Emy. E esse é o Nick, meu irmão.

— Olá, Thomas! Fique à vontade. Temos drinks, vinho, champanhe, cerveja… e coisas não alcoólicas também, caso precise estar sóbrio para correr de alguma assombração — diz Emy, com um sorriso encantado.

Ela me lança um olhar que quase grita: FINALMENTE, VOCÊ ARRASOU.

— Não moro mais aqui, mas faço das palavras dela as minhas: sinta-se em casa — diz Nick, oferecendo a mão num aperto firme e educado.

— Obrigado — responde Thomas, com aquele sorriso de canto de boca que é ao mesmo tempo charmoso e discreto.

A noite é, surpreendentemente, divertida.

Os problemas que até então pareciam enormes e pesados se dissolvem por alguns instantes, como se estivessem suspensos em uma bolha que não pode me alcançar. A névoa suave que paira no ambiente e as luzes cintilantes me transportam para outro plano, onde nada importa — exceto o agora. O prazer de simplesmente estar aqui.

Uma seleção impecável de músicas preenche a casa. The Cranberries, The Cure, ABBA, Kiss, A-ha, The Killers, The Strokes… Um verdadeiro túnel do tempo dançante. Quando as bebidas começam a fazer efeito, os convidados se soltam — cantam refrões aos berros, dançam com os olhos fechados, gargalham entre goles de vinho ou cerveja artesanal. É como se cada música fosse uma chave que destranca lembranças e euforia em partes iguais.

A pista de dança improvisada — minha ideia brilhante de remover o sofá da sala — pulsa com vida. Luzes suaves giram no teto, projetores lançam sombras que se movem como fantasmas brincalhões. Em um canto, o karaokê virou o centro das atenções. “Time After Time” ecoa pelos alto-falantes enquanto um grupo de calouros desafinados canta, sem a menor vergonha, arrancando risadas e aplausos de quem observa.

Ninguém se importa com a afinação — o que importa é cantar como se o mundo fosse acabar amanhã.

Nick está encostado perto da estante, observando tudo com um copo na mão. Seu figurino do Fantasma da Ópera dá a ele uma aura misteriosa — e, por alguma razão, ele parece ainda mais introspectivo do que o normal. Mas então, um dos nerds da engenharia — Kenji, tímido até a alma — o desafia para um duelo de karaokê. E, para surpresa geral, Nick aceita.

Quando ele sobe no mini-palco improvisado, a sala silencia por um segundo. Mas basta o primeiro verso de “Don’t Stop Believin’” sair da boca dele, com uma afinação absurda e uma entrega teatral, que o público explode em aplausos e assobios. Emy e eu trocamos olhares surpresos, boquiabertas.

— Desde quando o seu irmão canta assim? — ela pergunta, entre uma risada e um gole de champanhe.

— Desde nunca. Isso é… novo. Ou ele é muito bom em esconder talentos. — respondo, ainda sem acreditar.

Ela solta uma gargalhada e me puxa pela mão.

— Vem. Hora de humilhar com Dog Days Are Over. Ninguém pediu, mas todos precisam disso.

E ela estava certa.

A batida contagiante nos envolve e, antes que eu perceba, estamos no meio da pista, pulando, gritando a letra, nossos vestidos esvoaçando como se o vento também quisesse dançar conosco. É libertador. Me sinto viva, leve. Cada passo é um rompimento com o passado recente, como se meu corpo quisesse dizer “eu ainda estou aqui”.

Thomas me observa do canto da pista. Seus olhos verdes me seguem com uma intensidade doce, mas firme. Ele parece fascinado, como se eu fosse algo raro — e talvez seja isso mesmo que ele vê. Algo que ele quer cuidar.

Aproximo-me com os cabelos colados nas costas suadas, o peito arfando com o ritmo acelerado da dança. Entrelacei os braços atrás do pescoço dele, e ele, sorrindo, me segura pela cintura com firmeza.

— Você já é absurdamente linda — sussurra perto da minha boca —, mas vê-la assim, radiante, é ainda mais satisfatório.

Sorrio, os olhos semiabertos. Sinto o coração batendo nos ouvidos. Estou embriagada, não só pelo álcool, mas pela leveza.

— Sei que você é muito educado e tudo mais… — começo, puxando-o ainda mais para perto. — Mas eu ficaria ainda mais radiante se você me beijasse.

Thomas ri, com aquela risada que parece aquecer o ar entre nós, antes de me puxar e colar os lábios nos meus. O toque é sutil, cuidadoso, como se ele estivesse tentando prolongar a sensação até o último segundo. E quando aprofundo o beijo, seus dedos deslizam pela minha cintura como se quisessem memorizar cada curva.

A respiração dele falha quando me ouve gemer contra sua boca, e ele desce os lábios até meu pescoço.

— Clarissa… — ele murmura, com a voz rouca. — Assim você não me ajuda.

— Vamos pegar algo para beber. Sua taça sumiu, e a minha também. — digo, puxando-o pela mão.

Rimos, tropeçando levemente nos próprios pés até o bar, um móvel entalhado em madeira escura que carrega as memórias da minha mãe. Enquanto ele escolhe dois drinks, prendo os cabelos em um coque improvisado, sentindo um alívio imediato ao expor a pele quente das costas.

E é nesse instante que sinto.

Uma língua quente percorre a extensão da minha coluna, do fim das costas até o pescoço. Um arrepio me atravessa. Um calafrio que não tem nada a ver com prazer — é puro gelo.

Thomas está imóvel ao meu lado. O copo em sua mão treme levemente. Quando o encaro, vejo o olhar dele fixo em algo — ou melhor, em alguém — atrás de mim.

Seu sorriso desapareceu.

— Bela festa, Cherry. Só faltou o meu convite. — sussurra a voz rouca e inconfundível no meu ouvido, melosa como veneno.

Lockwood.

Meu sangue esfria. Não pode ser.

— Quem é o seu novo amigo? — ele pergunta, ainda muito próximo, o ciúmes afiado como uma lâmina, cortando a noite com precisão cirúrgica.

Não. Não. Não.