Vivendo entre os mortos
3 Sem forças pra continuar
Notas iniciais

O sol já começava a se pôr a oeste. O céu parecia ser a única coisa que ainda estava igual a antes do apocalipse; olhando para ele, é possível fingir, pelo menos por breves segundos, que o mundo ainda não acabou. O vento gelado parece penetrar pelas minhas entranhas, e a velocidade só colabora para piorar a situação, mas não me atrevo a comentar. Afinal, ele, além de me poupar, ainda me salvou, mas isso não impede meu corpo de demonstrar o incômodo.
— Tudo bem? — Daryl grita, olhando de relance para trás.
— Está! — Grito para que possa ser ouvida, e ele apenas acena com a cabeça e continua pilotando.
Ainda não consigo confiar no motivo por trás da minha recente admissão no grupo. Eles poderiam ter me deixado morrer; seria mais fácil e menos trabalhoso para eles, afinal, nem consigo andar sem cair com o rosto no chão. Pode ser somente mais uma armadilha que finalmente vai me levar à morte, ou talvez seja porque são boas pessoas, mas esse seria o primeiro grupo que encontro que não aparenta querer apenas me usar como isca para depois me jogar contra os zumbis. Será que dessa vez pode ser diferente?
Eles não pareciam querer me machucar, principalmente Daryl. Quando ele tirou a mochila da minha mão, me fazendo mudar de ideia sobre não ficar no grupo, ou quando todos começaram a correr e eu não consegui acompanhá-los por causa dos machucados, ele brigou comigo para que eu tivesse uma chance de viver. Isso despertou algo em mim: uma confiança cega, completamente insana e ilógica, de tal forma que sinto que minha vida pode mudar completamente. Só resta saber se para melhor ou não.
Daryl para a moto, me fazendo voltar à realidade; todos os outros carros param atrás dele. Ele desce e logo coloca seu "arco" nas costas. Se tiver uma oportunidade no futuro, tenho que me lembrar de perguntar o nome da arma que usa.
— É melhor ficar aqui. Depois que eu voltar, vemos o que fazer com isso. — Ele aponta para os meus pés e sai em seguida, indo em direção ao grupo que estava reunido. Vejo o menino ir para a extremidade da estrada e ficar com a arma pronta. Isso me entristece. Esse mundo é tão sujo que nem mesmo as crianças se livraram da triste lei do "mate ou morra". Depois que vi como o seu pai o trata, consegui relaxar um pouco em relação a Rick. Sua aparência, tão semelhante ao monstro que encontrei no início de tudo, ainda é assustadora e me deixa nervosa, mas não é pior do que o medo que estou sentindo de que se livrem de mim.
— Quer um pouco? — Pergunta a menina loira, se aproximando de mim.
— Não precisa, já bebi ontem. — Respondo, abaixando a voz.
— Por que não desce daí e se junta a gente? Agora é uma de nós, precisamos nos conhecer melhor. — Ela me surpreende com a espontaneidade.
— Desculpe, acho que não consigo. — Respondo, apontando para baixo. — O Daryl disse que era melhor eu ficar aqui, então vou só esperar.
— Meu Deus, Annelise! Como você se machucou assim? — Ela fica chocada e se abaixa para olhar meus ferimentos. Seu grito chama a atenção de Daryl, que observa o que se passa antes de voltar seus olhos para o mapa.
— Andei mais do que devia...
— Não se preocupe, vou chamar meu pai. Ele pode fazer um curativo e te dar uns analgésicos, deve estar morrendo de dor.
— Não... — Tento impedi-la, mas ela já foi até o homem idoso com a barba engraçada, e ele logo a acompanha até a moto. Assim como Beth, ele se abaixa para avaliar os machucados.
— Deixe-me ver, querida. — Sem muita alternativa, colaboro. — Parece que andou um bocado.
— Sim, senhor.
— Oh! Não precisa me chamar de senhor, não estou tão velho assim. Só Hershel já está bom. — Ele fala divertido. — Beth, pegue minha maleta que está no porta-malas.
— Desde quando está sozinha? — Ele pergunta, olhando-me de forma atenta.
— Não sei muito bem, mas acho que já tem uns sete meses. — O tempo é algo que não tem muito valor hoje em dia. Antigamente, pensava que se o tempo não fosse mais importante, as coisas seriam mais fáceis; aparentemente, estava errada.
— Deve ter sido difícil. — Ele segura minha mão. — Agora está com a gente, logo vai melhorar. — Sua voz é suave e pacífica, me acalma. Ele apenas me lança um sorriso singelo enquanto torço para que seja verdade.
— Aqui está, pai. — Beth volta entregando a maleta para o pai e se apoiando na moto, colocando seu braço ao meu redor.
— Obrigado, Beth.
— Aqui, tome isso. Deve aliviar um pouco a dor. — Ele me entrega um comprimido branco e a garrafa de água. Tomo-o rapidamente, não queria alarmar ninguém falando que estava doendo, mas está.
— Isso só vai doer um pouco no início.
— Qualquer coisa, é só apertar minha mão. Sei que é difícil, mas é melhor não gritar. Ainda não estamos seguros. — Beth coloca sua mão sobre a minha enquanto continua rodeando o tronco do meu corpo com o braço. Evitaria gritar mesmo que não me pedisse. Não quero chamar a atenção deles e colocar o grupo em risco.
Hershel pega algumas gazes e molha-as com o que parecia ser clorexidina, começando a desinfetar os ferimentos. Assim que o produto entra em contato com o corte, a dor é absurda, mesmo que os ferimentos não sejam grandes. Não consigo impedir que algumas lágrimas desçam pelo meu rosto. Desvio minha visão para a direção de Daryl e vejo que ele está me olhando com uma expressão preocupada. Encontro seus olhos, eles me acalmam e me fazem esquecer um pouco a dor. Sua cor verde cristalina chama a atenção, deixa-o transparente, pelo menos para mim. Mantenho meu olhar fixado ao dele até que Hershel acaba.
— Pronto, querida. Agora é só esperar que melhore. Evite andar por um tempo. — Aliviada, olho para meus pés e vejo que estão muito bem enfaixados.
— Agora é minha vez. — Beth diz, afastando-se de mim e se abaixando novamente. — Achei esse tênis nas coisas do Glenn, ele tem um pé grande, então vai ficar largo em você. É melhor assim, evita que pegue no seu machucado e também não te deixa desprotegida.
— Obrigada, aos dois. — Falo sinceramente.
— Não foi nada. — Ela me lança uma piscadela com tanta animação que acabo rindo de leve. Daryl chega até onde nós estamos, nem percebi quando a reunião terminou.
— Beth, tem um riacho a uns 12 minutos daqui. As meninas vão se limpar, e o T-dog vai com vocês pra pegar água.
— Um riacho, sério? — Ela pergunta mais animada do que antes. — Até mais, Annelise. Hershel ri adoravelmente da atitude infantil da filha.
— Hershel, tem como você ficar com a... — Ele aponta com a cabeça para Lori.
— Podem ir tranquilos, cuido deles.
— Vou avisar o Rick. — Ele me manda mais um sorriso gentil antes de sair.
Assim, ficamos apenas nós dois. Tantas coisas passam pela minha cabeça sobre o que falar com ele. Tenho tantas coisas pelas quais agradecer, perguntar, mas ele não parece gostar muito de me escutar; sempre parece bravo. Opto por ficar em silêncio.
— Ele fez um bom trabalho. — Ele fala, analisando os curativos feitos por Hershel. — Vamos, você tem que se limpar também, está parecendo um zumbi. — Não protesto. Sei que devo estar horrível. Não me importo de ser comparada a um zumbi, afinal, já estou morta por dentro. Não há tantas diferenças assim. Começo a descer da moto.
— O que pensa que está fazendo? — Daryl segura meus braços, me impedindo de cair.
— Nós temos que ir até o riacho... — Respondo.
Novamente, sua expressão fica séria.
— Está louca se pensa que vai andar até lá! — A raiva em sua voz me faz murmurar agoniada. Não sei o que fazer para agradá-lo. Ele salvou minha vida e sou muito grata, mas não consigo demonstrar isso. Só pareço enfurecê-lo. Daryl não espera que eu responda e se abaixa de costas, igual quando me tirou da casa. Sem querer piorar seu humor, passo os braços pelo seu pescoço e ele me levanta como se não pesasse mais do que um saco de arroz, arrumando minhas pernas em sua cintura. Ele ajusta seu "arco" nos braços e começamos a andar depois que acena para Rick antes de sairmos.
— Obrigada! — Tomo coragem para falar quando já estamos mais afastados.
— Por? — Daryl não diminui sua atenção na área e isso me desencoraja um pouco.
— Por tudo. Por não me matar, por me impedir de negar a proposta do Rick, por me salvar.
— Qualquer um teria feito o mesmo.
— Até hoje você é o primeiro que fez isso.
—Ajudar alguém? É claro que não, ainda existem algumas pessoas boas no mundo Annelise.
—Não, se importar se vivo ou morro.
Seus músculos ficam retesados e ele não comenta nada, continuamos andando por cerca de 5 minutos até que chegamos no riacho. Daryl me desce de suas costas e me deixa na margem da água ficando de guarda em seguida enquanto me limpo. Decido lavar o cabelo, está tão sujo e grande que pesam sobre minha cabeça.
—Por que diz isso? -Ele resolve me perguntar. Fico surpresa que esteja começando uma conversa comigo sem gritar.
—Porque é a verdade. Desde que o apocalipse começou vocês foram os únicos seres humanos que não quiseram simplesmente me usar para ficarem vivos.
—Ainda é uma criança, não tem pais?
—Tinha, estão mortos.
—Sinto muito. -Ele abaixa o tom de voz, mas acho que é apenas natural quando se fala algo assim, não é como se isso importasse de verdade para ele.
—Não tenha, é melhor assim. É porque eles estão mortos que hoje eu ainda estou viva.
—Entendo. Se sacrificaram?
—Tentaram me sacrificaram. -Sua feição é de completo pavor por um momento, Não consigo olha-lo, se algum dia descobrir as coisas que me aconteceram terá repulsa de mim.
—Mas... -Ele não consegue terminar de formular a frase, e simplesmente dou de ombros.
Começo a limpar meu rosto e braços. Estavam tão sujos de barro e sangue que arranhei toda a área para conseguir tirar toda aquela sujeira de morte. Um zumbi se aproxima na outra margem do rio, me alarmando. Suas roupas que pareciam de marca estão todas rasgadas com um colar extravagante, e morta. Pedaços estavam faltando em tanto lugares que tenho certeza que foi devorada antes da transformação. Vejo a flecha atravessar seu crânio e ela cair espatifada no chão, fazendo com que o tendão se desprenda do osso da perna e se espalhe.
As cenas das pessoas com quem estive sendo mortas devoradas começam a surgir na minha mente. Meus pais, meu irmão, meus amigos. Meu estomago começa a embrulhar e antes que eu perceba estou colocando uma boa parte da sopa de ontem pra fora. Sinto Daryl segurando meus ombros com uma de suas mãos e apoiando meu corpo com o braço. Minhas vistas ficam embaçadas e apoio as mão no chão. Não consigo respirar direito, é como se estivesse sufocando, o que é isso?
—Annelise, calma! — Meu corpo treme, mesmo que não esteja com frio, e sinto o suor começar a descer pela minha testa. Fico mais nervosa, o que está acontecendo comigo?
— Presta atenção em mim! Acompanha a minha respiração. — Ele começa a aspirar e expirar lentamente e começo a imita-lo, repito o processo várias vezes até conseguir sentir o ar entrar pelos meus pulmões. Suspiro aliviada, mas algo ainda me preocupa. Não sei como vão ser as coisas a partir de agora e simplesmente não aguento mais.
Não sei quando o choro começa, mas dessa vez não são apenas algumas lágrimas, não consigo impedir, é como se estivesse demonstrando todo o meu cansaço, toda a minha dor, toda a minha alma quebrada e despedaça em mil pedacinhos. Afundo meu rosto no peito de Daryl e passo meus braços por sua cintura. Me surpreendendo ele me abraça de lado, apertando-me contra seu peito.
— Calma, vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. — Ele sussurra palavras de conforto tentando me acalmar e acaricia meu braço de leve.
— Daryl... — Engasgo com as palavras sem conter o choro.
— Sim?
— Não me manda embora, por favor. Eu juro que vou ser útil, eu aprendo a lutar, eu como pouco, eu faço o que quiserem mas por favor não me manda de volta pra lá. Não aguento isso de novo. — Suplico apressadamente. Ele me abraça mais apertado.
— Você não vai a lugar nenhum, tá me ouvindo? Você alimentou aquelas pessoas, ganhou o coração deles, não vão te mandar embora.
— Mas e se mandarem? — Pergunto ainda chorando.
— Então me mandam também. Você não vai mais a lugar nenhum sem mim, e eu não em lugar nenhum sem você. Vou te proteger, Anne.
— Promete? Não posso continuar sozinha, não consigo! — Imploro. Não consigo mais pensar em ficar sozinha nesse mundo, não quero ter que não dormir pra não ser morta, não quero ter que morrer sem que pelo menos uma pessoa se lembre de mim nesse mundo infernal.
— Sim, mas agora se acalma, vai acabar piorando se continuar assim e temos que ir. — Ele diz aflito. Concordo e tento me acalmar, não posso nos deixar vulneráveis. Torno a deixar minha respiração lenta e ritmada, até sentir as lagrimas diminuírem consideravelmente. Respiro fundo e me afasto de seu corpo. Ele começa a me analisar, limpo uma lagrima solitária que desse e seu rosto parece relaxar um pouco.
— Assim é melhor. — Ele afasta sua mão do meu braço levando-a até a água e limpando meu rosto em seguida. Não temo sua ação, não sinto nenhum objetivo oculto em nenhuma de duas ações, e é exatamente por isso que acabei confiando nele.
— Obrigada... — Minha voz soa baixa e ele apenas me lança um sorriso de lado.
— Hora de ir. — Assinto e novamente ele faz o processo de se abaixar de costas na minha frente e arrumar minhas pernas envolvendo seu corpo.
Assim que viramos vejo mais corpos de zumbis estirados no chão, pelo menos 5 deles. Daryl provavelmente os matou enquanto tentava me acalmar, me condeno por tê-lo colocado em risco inutilmente, coisa que tentei evitar e sem perceber aconteceu. Ele se abaixa levemente perto dos corpos e retira suas flechas e limpando-as nas roupas dos zumbis. Percebo que Daryl muda a direção, e decide seguir pelo lado contrário ao rio. Ele fica atento e também não me descuido. Andamos pelo que pareceu ser uns 10 minutos, até que vejo algo que me chama a atenção.
— Daryl, olha aquilo! — Falo fazendo com que pare. Retiro os galhos finos da árvore com a mão para que ele possa enxergar melhor.
— Isso é...
— Uma prisão. — Completo.
O lugar que antes era usado para manter gente perigosa agora poderia servir para nos abrigar. Haviam cercas por todo o pátio o dividindo dos pavilhões. Penso em Lori, sua gestação já estava avançada e um lugar pra ficarmos pelo menos por um tempo séria perfeito. Daryl me olha por entre os ombros animado, e aceleramos o passo. Assim que chegamos ele corre comigo até onde Rick está, ele nos lança um olhar divertido. Provavelmente por ele estar comigo sobre as costas. A cada tempo que passa vejo que ele é menos parecido com o Carter do que eu pensei.
— Rick! — Ele chama-o apressado.
— O que aconteceu? — Ele fica sério novamente.
— Achamos uma prisão, tem grades. — Ele não precisa explicar mais nada. Rick corre até o carro para se preparar e Daryl vai comigo até onde o restante do grupo está reunido, me colocando sentada do lado da Beth.
— Beth, arrume algo pra ela secar o cabelo, está escurecendo. Voltamos logo. — Tanto ele como o Rick começam a correr até o local que encontramos, e percebo que os olhos do grupo então atentos a mim.
— O que aconteceu? — Lori pergunta sentada ao lado de Beth que tira uma blusa da mochila e a coloca-a sobre minha cabeça.
— Quando estávamos voltando do rio acabamos encontrando um lugar com muros.
Todos se agitam esperançosos. Depois que Daryl me tirou a mochila e saiu, fiquei conversando com a Maggie, e ela me contou um pouco sobre eles: que estiveram fugindo pela estrada durante todo o inverno com a Lori grávida, que perderam pessoas, crianças. Carl senta-se na minha frente, visivelmente empolgado, e começa a me fazer perguntas.
— Como é o lugar?
— Na verdade, é uma prisão, mas as grades pareciam firmes.
— Igual aquelas dos filmes?
— Confirmo.
— Que demais! — Vibra.
— Não está cheio de zumbis, então? Deve ser perigoso. — Indaga Glenn.
— Tem mais cercas dividindo o pátio dos pavilhões, e não tem muitos zumbis lá. — Explico.
— Ah! — Beth me surpreende, me abraçando. — Desde que encontramos você, só temos sorte. — Quase todos riem, e fico envergonhada.
— Não é verdade...
— Como não? Estávamos com fome e você nos alimentou, precisávamos de um lugar e você achou. — Maggie conclui. Realmente é verdade, mas eles não sabem que foi por causa deles me encontrarem que ainda estou viva. Ainda não consigo dar dois passos sem cair; se tivessem aparecido mais tarde, teria sido morta pela horda.
— Você parece até um Maneki-neko. — Glenn comenta, rindo.
— Maneki o quê? — Carl tira as palavras da minha boca.
— Maneki-neko. São aqueles gatos da sorte japoneses.
— Espera, você é japonês? — T-Dog pergunta, achando estranho.
— Muito engraçado. — Ele ri, irônico. — Que mania vocês têm de achar que, só porque eu tenho os olhos puxados, sou japonês.
— Mas por que eu pareço esse gato? — Pergunto, curiosa.
— Ah, é mesmo. Existe uma lenda no Japão que conta a história de um monge. O templo dele estava muito desgastado e caindo aos pedaços. Ele nem tinha o que comer, aí, um dia, quando tudo parecia que ia desmoronar, ele viu um gato sentado sobre as patas traseiras, acenando para o lado com a pata dianteira. Aí, de repente, caiu um raio na direção em que o gato estava apontando, em umas árvores um pouco distantes do templo. O monge pegou o gato nos braços e foi ver mais de perto. Nisso, ele acabou encontrando árvores cheias de frutos e um pequeno fazendeiro que tinha algumas plantações de arroz. Então, fizeram uma troca: o monge abençoava suas terras com todas as suas orações, e o fazendeiro dava-lhe comida e ajudava a arrumar o templo. No final da história, o monge acabou com comida e casa, e tudo porque o gato chamou sua atenção e foi meio que um amuleto da sorte para ele.
— Glenn... — Beth fala pausadamente, preocupando-o.
— O quê?
— Você não é tão burro quanto eu pensei. — Ela completa, caindo aos risos, junto com as pessoas ao nosso redor. Ele se limita a mostrar-lhe a língua e volta a abraçar Maggie por trás.
Avistamos Rick e Daryl voltando e vindo até nós, e todos ficam tensos e esperançosos. Assim que chegam perto de nós, Daryl me olha e lanço-lhe um sorriso leve.
— E então?
— Podemos fazer. — O grupo começa a discutir sobre o local.
Fico feliz que a prisão possa dar certo. Vi como eles lutam, vão ficar bem. Como um ímã, meu olhar vai novamente até Daryl, e ele está concentrado, começando a se planejar e organizar as estratégias para que possam limpar o pátio da prisão.
Daryl, Rick, Glenn, T-Dog e Maggie vão entrar e participar do combate direto, enquanto eu, Lori, Beth, Hershel, Carl e Carol ficamos atrás, dando cobertura.
Deixar que lutem e se arrisquem por mim me incomoda, mas, mesmo que eu possa ser útil para eles, vou tentar dar o meu melhor para proteger tanto Carl quanto Lori e o bebê, nem que para isso tenha que oferecer minha vida como pagamento.
Anoitece, e eles decidem terminar os planejamentos amanhã, ao analisarem tudo mais de perto. Os carros são posicionados com as partes de trás viradas para fora do acampamento, nos protegendo e deixando uma possível fuga fácil. Daryl prepara um esquilo e entrega para Lori, que divide com Carl. Ninguém parece se importar com isso, pelo contrário, parecem aliviados que eles estejam comendo. São como uma família. Então, sem mais o que fazer, todos começam a se preparar para dormir.
— Não vai deitar? — Daryl me surpreende ao parar ao meu lado.
— Não acho que consiga dormir. — Respondo baixo, evitando chamar atenção.
— Precisa descansar, está machucada.
— Não sabemos quando uma horda pode aparecer, tenho que estar preparada. Não quero ficar para trás.
— Ninguém vai te deixar para trás, Annelise, não precisa se preocupar com isso. — Ele suspira pesadamente. — Vamos. — Diferente das outras vezes, ele me pega no colo e me coloca na parte de trás da picape, subindo na mesma em seguida. — Pode deitar, tenho que ficar de guarda. Fico com você.
Pondero por alguns segundos antes de me deitar ao seu lado. Ele mantém os olhos fixos na estrada enquanto apoia o braço na lateral do carro. Resolvo, então, confiar novamente nas palavras dele.
— Obrigada. — Escuto seu suspiro.
— Descanse, vamos ter um dia difícil amanhã.
— Queria poder ajudar.
— Já me ajuda o bastante ficando a salvo. Não podemos perder mais ninguém para os mortos.
— Vou dar o meu melhor. — Falo sinceramente, olhando-o nos olhos.
— Sei que sim. — Novamente, ele desvia o rosto para a estrada.
— Daryl?
— Hum?
— Tem algo que eu preciso te perguntar. — Comento sutilmente. Ele me olha preocupado. Sorrio de leve e aponto para a arma ao seu lado. — Como se chama isso? — Ele me olha como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo e me responde, de mau humor.
— Isso é uma besta.
— Pra mim, ainda parece um arco e flecha. — Ele bufa e não comenta nada. Acho divertido como ele age.
Ele é intrigante. Daryl aparenta ser um homem frio, impaciente e rude, mas me ajudou quando nem me conhecia, me manteve segura quando tudo o que fiz foi atrasá-lo. Quando entrou naquela casa avisando que estava na hora de fugir, vi em seus olhos que daria a vida por aquelas pessoas. Mesmo que queira parecer ruim, ele é o homem mais puro que conheci em toda a minha vida.
— Obrigada! — Agradeço mais uma vez.
— Você só conhece duas palavras? — Questiona, irritado. — Só sabe falar "obrigada" e "me desculpe" pra tudo.
— Desculpe. — Me desculpo, achando engraçada a sua revolta. — Já faz algum tempo desde que tive que falar alguma coisa, acho que meu vocabulário diminuiu.
— Me lembre de te arrumar um dicionário. — A cara amarrada ainda está lá.
— Vou lembrar. — Ficamos em silêncio por alguns momentos, enquanto vejo que ele me olha de relance.
— Pode falar.
— O quê? — Ele se faz de desentendido.
— Sei que tem algo pra falar. Se não tivesse, não me olharia a cada dois segundos. — Ele me analisa antes de começar a falar.
— Você realmente só tem aquela faquinha? — Sei que não é isso o que ele realmente queria perguntar, e fico feliz que não o tenha feito.
— Sim. — Novamente, ele parece chocado com a minha resposta.
— Como ainda está viva? Com uma faca daquelas, não duraria mais de três dias.
— Aprendi a fugir. Nunca precisei lutar realmente de frente com um deles. — Conto.
— Vou te arrumar uma arma e você vai aprender a lutar. Você ainda é uma criança, não pode morrer só porque só tem uma arma dessas. — Fala decidido. Agradeço que ele se preocupe comigo, mesmo que eu saiba que isso pareça natural para ele.
— Não sou uma criança. — Corrijo-o. Ele novamente me analisa.
— Não é o que parece.
— Daryl, eu tenho 24 anos. — Conto. Novamente, ele abre a boca para falar, mas prefere se manter em silêncio, e assim ficamos por um longo tempo.
— Sabe, sobre mais cedo... Obrigada por me ajudar. — Meus olhos começam a ficar pesados. Escuto seu suspiro.
— Apenas durma, Annelise. Ainda vai ter muito pelo que enfrentar. — Sua voz vai ficando cada vez mais distante. Sei que ainda teremos muito o que ver, e espero que não esteja sozinha de novo quando o momento chegar. Gradativamente, sinto meu corpo amolecer, até que sou tomada pela inconsciência.
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