Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=Bc6HloRYZGc

— Annelise. — Escuto alguém me chamar ao longe.

— Acorda, temos que nos apressar. — A pessoa insiste. Aos poucos, vou recuperando a consciência e me deparo com um par de olhos verdes me fitando impacientes. Ele para de me chacoalhar quando percebe que estou acordada.

— Já amanheceu? — Pergunto, sonolenta.

— Já. — Afirma. Ele pega minha mochila e a puxa para si. Nem me lembrava mais dela; por mim, a tinha esquecido na casa. — Aqui, pegue. — Ele diz, me entregando uma faca parecida com a minha, mas com o cabo longo, quase do tamanho de um machadinho, e parecia afiada. Pego-a com cuidado, olhando-o em seguida.

— Não é muito segura, mas é o melhor que temos agora. Pelo menos é mais segura do que sua mini faca.

— Obrigada. — Agradeço sinceramente.

— Chega de "obrigados", já disse. Não precisa ficar agradecendo por tudo. — Ele me olha irritado.

— Vou tentar me lembrar. — Sorrio de leve.

— Agora preste atenção. Eu vou lutar no combate direto, não sei o que pode acontecer. — Me preocupo com o modo como ele fala.

— Você luta bem, nada vai acontecer. — Tento ser positiva.

— Lutar não é garantia de nada, qualquer coisa pode acontecer, e preciso que você se defenda, que fique atenta. Não posso entrar lá me preocupando com você. — Confessa de modo direto. Não gosto da ideia de que ele possa se ferir, mas concordo.

— Vou ficar. Vou tentar ser cautelosa. — Garanto.

— Ótimo. — Ele fala e sai do carro, indo ajudar a desmontar o acampamento. Amarro os sapatos que a Beth conseguiu para mim para que fiquem mais firmes. Não posso garantir que não terei que andar hoje, então preciso que fiquem firmes. Os ferimentos incomodam um pouco, mas ignoro o ardor. Me surpreendo quando Carl se senta na pick-up comigo, visivelmente bravo.

— O que aconteceu? — Pergunto calmamente. Adoro crianças; antes de tudo isso começar, eu tinha acabado de me formar em pedagogia e meu trabalho em uma escola municipal infantil já estava organizado, mas acho que essa não deveria ser minha vocação, se não o apocalipse não teria começado uma semana antes das aulas.

— Meu pai não quer que eu lute com os zumbis de perto, disse que tenho que ficar longe deles. — Conta, revoltado. Entendo o que se passa; acho que, em um mundo como esse, as crianças não podem se dar ao luxo de viverem calmamente, mas Carl ainda tem um pai e uma mãe que querem protegê-lo, mesmo que ele já saiba como as coisas funcionam.

— Queria isso? — Pergunto, mesmo sabendo a resposta.

— Claro que sim!

— Eu também queria. — Ele me olha curioso.

— E por que não faz? Já é adulta, não podem te impedir. — Sorrio com o seu pensamento inocente.

— Não é só porque sou adulta que posso fazer tudo o que quero. Não posso lutar direito por causa dos machucados, então o Daryl me pediu pra ficar afastada. É melhor assim. — Conto.

— O Daryl? Ele tá parecendo até meu pai. — Novamente ele fica emburrado. Me divirto com seu comentário.

— Está mesmo. Mas pra mim ele parece mais com o Arqueiro Verde.

— Gosta de quadrinhos? — Pergunta animado.

— Claro que sim! Os dos X-Men são os mais legais.

— Também acho! Eu ainda tenho alguns quadrinhos, quer que eu te mostre? — Ele fala tão rápido que tenho que prestar atenção para acompanhá-lo.

— Claro, seria ótimo. Assim que as coisas se ajeitarem, você me mostra. — Ele concorda e fica em silêncio assim que lembra que não pode ir com o pai.

— Não precisa se preocupar, Carl, vamos achar algo em que possamos ser úteis, vamos ajudá-los. — Ele me lança um meio sorriso. Lori se aproxima do carro, colocando a mão sobre o ombro do filho.

— Está pronto? — Carl concorda. — Vai indo pro carro então. — Ele obedece e sai, nos deixando sozinhas. Lori senta-se, apoiando a mão na barriga.

— Fico feliz que tenhamos te achado. — Conta. Vejo em seu olhar a sinceridade de suas palavras e fico grata e surpresa.

— Eu também. — Lembro-me de Daryl e evito agradecer.

— Você parece ser uma menina adorável, se deu bem com o Carl.**

— Ele é um menino bom, bom até demais pra esse mundo. — Comento. Ela sorri tristemente.

— Também acho, mas fico feliz que ele possa ter essas pessoas em sua vida. — Diz e concordo; nunca pensei que ainda poderia existir um grupo assim. Ele realmente tem sorte. — E você também, Annelise. — Olho-a sem entender.

— Mesmo que só te conheça há três dias, confio em você. Você conquistou o Carl, isso é algo difícil de acontecer. — Fico sem palavras, sorrio sem graça.

— Vocês estavam juntos desde o início? — Pergunto curiosa, querendo saber mais sobre eles, mais sobre ele.

— Sim. Estávamos querendo ir para Atlanta quando tudo começou, nos conhecemos na estrada e formamos um acampamento em uma pedreira depois de vermos Atlanta cair. Era tudo lindo, água corrente, tínhamos um barco, ferros de passar roupa, como se algo assim fosse importante. Parecia que tudo ainda continuava a mesma coisa. — Conta.

— Devia ter sido lindo. — Queria ter tido essa sorte. Ter começado o fim do mundo bem foi um presente que poucos conseguiram.

— Foi. Perdemos pessoas, mas acabamos virando uma família. — Diz orgulhosa.

— Queria ter conhecido esse lugar. — Divago, meio pensativa.

— Queria que tivesse estado lá também. — Ela segura minha mão e eu a aperto, receosa.

— Lori, como você mesma disse, vocês já são uma família, mas, se me permitissem, queria ficar com vocês.

— Annelise, estava pensando que te mandaríamos embora? — Pergunta surpresa. Confirmo com a cabeça. Ela exclama, surpresa.

— Não pense mais nisso então. Não vamos te mandar embora. Agora entendo porque fica tão desconfortável, cheguei a achar que tinha alguém te incomodando.

— Não tem. — Nego rapidamente.

— Imaginei que não era isso. Mas não precisa ficar se controlando, pode ser só você mesma. — Afirmo que entendi suas palavras com um aceno de cabeça.

— Obrigada. — Falo, me sentindo mais leve. Hershel e Daryl já tinham me tranquilizado antes, mas ainda estava receosa, agora parece que essa preocupação diminuiu.

— O que é todo esse clima de cumplicidade? Estou me sentindo traído. — Gleen nos alarma.

— Apenas conversa de meninas. — Lori o responde.

— Sei. — Ele nos examina com os olhos semicerrados. Eu prendo o riso.

— Não seja tão dramático, Gleen. — Lori o repreende, se levantando. — Já vamos?

— Sim. — Ele confirma.

— Até a prisão, Lise. — Ela fala, me abraçando novamente. — Não se preocupe mais, agora é parte da família! — Novamente me garante e vai para o carro; Gleen a ajuda, carregando sua bagagem para ela.

Começo a me levantar e me apoio no carro, em busca de equilíbrio. Meu pé está bem melhor; os analgésicos que Hershel me deu parecem ter surtido efeito. Mesmo que doa, consigo me manter em pé. Olho ao redor e todos parecem saber para onde ir, e eu simplesmente fico ali. Gostei dessas pessoas e sinto que um dia poderão ser grandes amigos que terei.

Conversar com Lori agora me abriu os olhos. Não poderei conquistá-los, fazer com que se abram pra mim, se eu não der o primeiro passo. Mudar é uma decisão que depende somente de mim. Alguém segura meu braço por trás, me assustando.

— Vamos. — Era Daryl. Ele se arruma novamente para me pegar em seus braços, mas o impeço.

— Não precisa disso. Acho que consigo andar.

— Guarde energia para quando chegarmos. — Ele me ignora e me levanta, nos levando até a moto.

Dessa vez não tem pressa para sair a ponto de me jogar na garupa como no dia anterior. Ele sobe na mesma em seguida. Fico em duvida se devo segurar-me na sua cintura ou não. Escuto-o expirar pesadamente pegando minhas mão que estavam no ar e rodeando-as pelo seu corpo. Ele para por um minuto como se estivesse surpreso, ele balança a cabeça de forma negativa e liga a moto pegando a estrada. Ficar perto dele me causa uma sensação estranha, não sei explicar.

Rapidamente chegamos no local e todos descem dos carros. Daryl dessa vez não me paga no colo, mas me ajuda a descer e me deixa usa-lo como apoio para ir até onde o grupo está. Paramos assim que chegamos até ele, fico perto da Beth que assim como ele me deixa-la usa-la como apoio e Daryl começa a ajudar a derrubar os zumbis próximos.

— Primeiro de tudo vamos entrar. Fiquem todos juntos e evitem ao máximo se separar. — Todos concordam. Rick se aproxima de mim, me surpreendendo. — Annelise, sei que está com os pés machucados, Hershel me contou, mas não podemos deixar nenhuma ajuda de fora. Acha que pode nos ajudar?

— Claro! — Concordo. — Não pretendia ficar só olhando de qualquer jeito. Me acolheram, é o mínimo que pode fazer. — Ele me sorri gentil.

— Aqui! — Me estende um pedaço de madeira grosso, olho-o interrogativa. — Vai te ajudar a manter o equilíbrio.

— Certo. — Pego-a e começo a testar qual o melhor jeito de usa-la.

— Acha que melhora? — Beth pergunta.

— Sim, vai ajudar. — Sorrimos cúmplices.

Todos começam a se aproximar das grades, Rick tira o alicate do bolso e começa a cortar uma parte dela enquanto os outros lhe dão cobertura e matam os zumbis que se aproximam demais.

— Me deem cobertura. — Fala passando primeiro pelo buraco.

— Certo. — Lori responde. Todos passam e fico por ultimo para ajudar Lori a passar, o pedaço de madeira que o Rick me arrumou ajuda a me manter firme.

— Rápido! — Ele me apressa. Gleen e Daryl habilmente começam a fechar a abertura com um arrame impedindo que os zumbis entrem na área que permanece limpa. Começamos a correr até o portão que dá para o pátio. É como se fosse um grande corredor que nos separa dos mortos, pelos dois lados, enquanto se jogam nas grades em busca de saciar a fome inacabável com as nossas carnes.

— É perfeito, se fecharmos aquele portão evitando que mais deles entrem no pátio podemos abater esses errantes. — Rick fala analisando o local.

— Conseguimos tomar o campo até de noite. — Daryl conclui.

— E como fecharemos o portão? — Questiona Hershel preocupado.

— Eu vou, posso correr até lá e fechar. Só preciso que me deem cobertura. — Gleen se oferece.

— Não. Isso é suicídio Gleen. — Maggie o impede.

— Sou o mais rápido do grupo.

— Não. — Rick discorda. — Você, Maggie e Beth atraiam os que puderem pra lá, matem-nos pela cerca, assim será mais seguro. Daryl, volte para a outra torre, leve Annelise junto com você e lhe dê uma arma, ela pode ajudar. Carol você virou uma ótima atiradora, suba nessa torre junto com o Carl e o Hershel, mas tome cuidado não temos muita munição. Eu correrei até o portão.

— Tem certeza? — Lori se preocupa.

— Sim. — Ele afirma. Todos se deslocam para seus postos. Vou com Daryl até a outra torre, ele me deixar ir na frente e vai me dando suporte até que conseguimos subir. Andamos até as grades de proteção, estão um pouco enferrujadas mas devem aguentar algum peso. Olho pra baixo e vejo que todos já começaram a trabalhar matando os zumbis pelas cercas e Rick já está a posto esperando o sinal de que estamos prontos. Olho para Daryl e ele me entrega uma arma.

— Use isso, não vai precisar da faca aqui em cima.

— Não sei atirar.

— Preste atenção, isso é um revolver, é simples. Quando quiser atirar abaixe e cão e puxe o gatilho. Acha que consegue?

— Acho quem sim.

— Mas não atire se não tiver certeza da mira, pode acabar acertando o Rick. Sempre mantenha o braço firme.

— Só quando tiver certeza e deixar o braço firme, okay. — Respiro profundamente analisando a mira da arma. Nunca atirei, mas meu pai era policial, tento me lembrar de como ele fazia. Daryl da o sinal de que estamos prontos e Lori abre o portão para ele. Não demora até que os zumbis o percebam e comecem a se aproximar. Daryl atira suas flechas e vejo que os outros também já estão atirando.

Resolvo derrubar os zumbis a uma distancia segura do Rick, não quero correr o risco de acerta-lo. Arrumo minha mira em um zumbi um pouco mais distante e atiro. Meu corpo vai pra trás e quase me desequilíbrio, vejo que errei o tiro.

— Deixe o braço firme. — Daryl fala sem desviar a atenção para mim. Apoio minhas pernas firmemente no chão e tento novamente, dessa vez acerto bem na cabeça e o corpo cai no chão. Fico animada e continuo derrubando os que estão mais distantes mesmo errando alguns tiros até que Rick consegue fechar o portão e se esconde no que parecia ser o quarto de energia.

— Desçam bala. — Daryl grita da torre. Aos poucos os mortos vão caindo e pouco a pouco o pátio vai ficando limpo. Fico fascinada com a força deles. Me viro para Daryl sorrindo e vejo que ele também está feliz. É a primeira vez que vejo seu sorriso, ele devia fazer mais isso, o deixa bonito.

— Me deixa ver. — Ele coloca a besta no chão e tira a arma de mim.

— O que?

— Sua mãos. — Olho para as mesmas e vejo que estão vermelhas e arranhadas. Tento esconde-las mas ele é mais rápido e consegue segura-las. Ele analisa-a e tira um pano branco do bolso da calça e enrolando-o sobre a mão que usei para disparar a arma.

— Depois pede para o Hershel olhar isso.

— Já está ótimo assim. — Falo levantando a mão e deixando evidente o curativo improvisado que ele fez. Ele sorri de lado.

— Vamos, temos que descer. — Ele abre o alçapão e nós descemos. Encontramos todos animados.

— Fantástico. — Carol grita.

— Ótimos tiros. — Daryl elogia.

— Ótimas flechas. — Eles se olham cúmplices. A interação entre eles é espontânea e natural. Algo dentro de mim se incomoda com isso. Decido deixar que conversem e vou até Lori.

— Você está bem? — Pergunto.

— Melhor impossível.

— Que bom. — Falo aliviada.

— Agradeço por ter ajudado.

— Não fiz mais do que devia. — Sorrio. Vamos andando até o pátio. Daryl e Carol vão na frente, em nenhum segundo olha para trás. Mas que tolice, não devia me importar com uma coisa dessa.

— Não temos tanto espaço desde a fazenda.

— Pai. — Carl grita começando a correr até Rick que acaba de descer da terceira torre.

— Estão todos bem? — Ele pergunta se aproximando com um dos braços envolvendo os ombros de Carl. Todos concordam.

— Vamos começar a tirar os corpos do campo. Hershel e Carl, ajudem as meninas a montarem o acampamento. — Rick fala sério se afastando de nós e se aproximando dos corpos dos zumbis. Ninguém sabe direito como agir com a falta de reação dele. Não entendo porque ele está assim, estava tão feliz a pouco para que conseguíssemos limpar esse lugar e quando finalmente conseguimos ele parece indiferente. Tenho certeza que tem algo incomodando-o. Daryl é o primeiro a reagir e ir até onde Rick está ajudando-o a carregar os restos.

— Vamos começar. — Lori incentiva. Percebo que está incomodada com a atitude do marido.

— Podemos montar o acampamento no meio, será mais seguro. — Carol afirma.

— Vamos pegar as coisas nos carros então. — Maggie fala. Lori, Hershel e Carl sentam-se na grama, esperando até que as coisas cheguem. Lembro-me de que deixei minhas coisas na moto do Daryl e tenho a leve impressão de que ele não deixaria ninguém pilotá-la.

— Também vou. — Afirmo.

— Vamos, eu te ajudo. — Diz Beth, parando ao meu lado e novamente me estendendo o braço para que eu possa me firmar.

— Machucou a mão?

— Só arranhei. É difícil atirar. — Respondo.

— Eu sei. Mas você se saiu bem.

— Você também.

— Esqueceu suas coisas no carro?

— Na moto do Daryl. — Ela faz uma careta engraçada enquanto arqueia as sobrancelhas.

— O que? — Pergunto, rindo.

— Na moto do Daryl é?

— Beth! Não tem nada demais nisso. Daryl é apenas alguém que respeito.

— Respeita, sei. — Ela continua rindo.

Assim que chegamos nos carros, vou até a moto e pego minha mochila. Vejo que a dele também está lá. Ele está trabalhando até agora, deve estar cansado. Talvez seja melhor pegar a dele também e arrumar suas coisas. Decido arriscar e pego a mochila dele, colocando sobre o ombro livre.

— Vamos, Annelise. — Gleen me chama do carro.

— Estou indo.

Colocamos os carros para dentro dos portões e arrumamos o acampamento. Quando finalmente terminamos, o dia já acabou, e um azul escuro, quase preto, toma conta do céu. Fico apreciando-o. É estranho como, mesmo sendo tão escuro, parecendo sem luz às vezes, sempre há alguma estrela, uma luz própria que ilumina a Terra e torna as coisas claras e bonitas, mesmo que não consigamos perceber isso de primeira instância.

— O que tanto olha? — Lori pergunta, se sentando ao meu lado. Sorrio para ela.

— O céu está bonito. — Comento, olhando para o mesmo.

— Tem razão. Faz tempo desde que vi um céu tão bonito.

— Agora vamos poder ver vários. Estamos seguros aqui. — Animo-a.

— Espero que tenha razão. — Ela fica calada por um momento antes de voltar a falar. — Posso te pedir algo? — Sua voz se torna séria e me chama a atenção.

— Claro.

— Sei que pode parecer estranho te pedir isso, talvez nem tenha o direito de te dar um peso como esse, mas é algo que não posso pedir a nenhum deles. — Seu tom sério me preocupa.

— Annelise, se algo acontecer comigo, preciso que pense primeiro nele. — Ela acaricia sua barriga e percebo a dor que tais palavras lhe causam. — Eles não teriam coragem de fazer o que for preciso se alguma coisa acontecer, e eu não posso viver sabendo que não tentei de tudo, entende?

— Mas... — Tento argumentar.

— Por favor! — Implora. — Você é a única pessoa para quem posso pedir isso no momento. Por favor, proteja meus filhos. — Seu desespero me corta a alma. Concordo. Ela respira pesadamente como se um simples balançar de cabeça tivesse a livrado de um peso enorme em sua consciência. Sei que essa é uma decisão que pode significar acabar com a minha permanência no grupo, mas não consigo negar, nunca poderia. Ela me abraça agradecida e retribuo.

— Vou tomar conta deles, não importa o que aconteça. — Garanto. Seu abraço se torna mais forte.

— Obrigada. — Ela se afasta e sorrimos uma para a outra. Uma parte minha fica preocupada com essa possibilidade, mas sinto orgulho também. Orgulho de poder conhecer pessoas. A partir desse momento, sei que não poderia deixá-los e que vou protegê-los sem covardia, mesmo que isso custe minha vida.

— O que acham de uma fogueira? — Maggie pergunta, se sentando ao nosso lado.

— Igual quando acampávamos na escola? — Pergunto animada.

— Claro, como mais séria? — Responde Gleen por ela, colocando pedaços de madeira no chão para fazer uma fogueira.

— Só se for agora. — Apoio. Logo todos começam a se aproximar da fogueira. T-Dog começa a preparar alguns dos pássaros que Daryl caçou.

— Aqui é lindo. — Comenta Beth, sonhadora.

— É mesmo, querida. Esse solo é bom, podemos plantar nele. Alguns tomates, pepinos, soja. — Diz Hershel.

— Morangos! — Falo, com uma vontade repentina. Todos os olhos se voltam para mim, me deixando um pouco desconfortável.

— Morangos. — Hershel completa, rindo.

— Já é a terceira vez que ele confere essas grades. Se alguma parte já estivesse comprometida, ele já teria encontrado. — Gleen fala, depositando as atenções no Rick, que andava pelas grades desde que todos os corpos foram amontoados do lado de fora.

— Este será um bom lugar para ter o bebê. É seguro. — Beth tenta distrair Lori. Me preocupo com ela e com Carl. Ele é só um menino e é visível que já se preocupa com o pai. Levanto e resolvo ir falar com ele. Caminho devagar, mas decididamente. Ele demora para me ver e para de andar assim que percebe. Chego perto dele e resolvo tentar conversar normalmente.

— Estamos assando carne. Devia ir comer.

— Vou daqui a pouco. — Ele diz, agradecido.

— Não precisa ficar olhando as cercas toda hora, está preocupando eles. — Resolvo ser sincera. Ele olha por cima do meu ombro e suspira pesadamente.

— Entendi. Só vou conferir uma última vez e vou até lá. Agradeço pelo que está fazendo. — Olho interrogativa.

— Nos ajudando, se importando com eles. — Responde sem que eu precise perguntar.

— São boas pessoas, Rick. Merecem isso. — Ele concorda com a cabeça. Parece cansado.

— Saindo um pouco do assunto, posso te perguntar uma coisa? — Me pede. Fico preocupada, pois são as mesmas palavras que Lori me dirigiu minutos atrás.

— Claro.

— No dia em que te encontramos, você pareceu ter medo de mim. Por que?

— Ah, isso... — Fico desconfortável. — É só que você me lembra alguém que conheci no começo disso tudo, sabe? Não foi uma experiência muito boa, e deve ter uns 8 meses desde que tive contato com outro humano que esteja vivo.

— Entendo. Acho que todos devem parecer monstros hoje em dia. — Comenta cabisbaixo.

— Nem todos. Não me entenda mal, não te associei a ele por parecer alguém ruim, foi mais pelo seu estilo. Barba grande, cabelos por fazer...

— Sinto por tê-la assustado. Quase não ficou conosco.

— Não se preocupe, você tem pessoas bem convincentes no grupo. — Falo divertida. Olho ao redor e vejo Daryl, que ainda continua no mesmo lugar há pelo menos duas horas. Parece até o Rick, ele só dá voltas no carro, indo e voltando incansavelmente.

— Por que não vai até lá? — Rick pergunta.

— Ir aonde?

— Até o Daryl. Ele vai acabar sem sapatos se continuar assim.

— É melhor não. Ele poderia não gostar, não quero que fique bravo.

— Bravo com certeza ele vai ficar, parece que você tem algum poder que ativa a raiva dele mesmo sem ter feito nada.

— Eu sei.

— Isso não é ruim, sabe. Ele é um homem muito quieto, fechado. Tem medo de se abrir, mesmo com a gente que o conhecemos no início disso tudo. Depois que o irmão desapareceu, então, parece que piorou. Não que isso seja ruim, ele não fazia bem para o Daryl. Mas você, Annelise, foi a única pessoa até agora que conseguiu fazer ele demonstrar alguma coisa. Você faz bem para ele.

Fico envergonhada e penso em tudo o que já vivemos até aqui. Nem parece que faz só três dias. Mesmo sem querer, acabei me ligando ao Daryl de forma assustadora, e fico pelo menos um pouco mais aliviada em saber que não foi unilateral, mesmo que em proporções diferentes.

— Vamos, te ajudo a ir até lá. — Aceno com a cabeça, ainda na dúvida se isso é o certo a fazer ou não. Paramos a uma distância mínima do carro, e Rick me olha nos olhos, agradecido, antes de se afastar. Me aproximo mais do carro, chamando a atenção de Daryl. Ele coloca a besta sobre as costas e me ajuda a subir no mesmo. Permanecemos em silêncio até que decido falar.

— Não está com fome? Assamos carne. — Comento em um tom baixo.

— Depois eu como. Os pirralhos devem estar com bastante fome. — Sinto um aperto bom no peito.

— Eu sei, mas não precisa deixar de comer sempre para alimenta-los. Essa é a segunda vez que faz isso em três dias e essa é a segunda vez que comemos. Sua saúde também é importante. — Ele me olha surpreso e dá de ombros sem saber como agir. Mudo o pé de apoio incomodada.

— Qual é o problema? — Daryl pergunta preocupado.

— Meu pé dói um pouco. A gente andou muito hoje.

— Senta um pouco.

— Vou te esperar. — Falo firme impedindo que me ajude a sentar. Ele analisa meu rosto e vê que estou falando serio. Suspira um pouco irritado e pula do carro me ajudando a descer em seguida. Sorrio vitoriosa.

— Não sei como consegue fazer isso. — Fala revoltado.

— Fazer o que? — Pergunto curiosa.

— Me desarmar. — Fico surpresa com sua resposta. Nunca achei que ele podia ser tão direto, mesmo que agora pareça que quer me esganar. Queria ter conhecido-o antes. Sentamos em volta da fogueira e estendo o braço pegando um pedaço de carne e entregando-o para Daryl, tenho a impressão de que se não o fizesse ele não comeria. Ele apenas me olha constrangido e agradece com a cabeça. Sorrio voltando minha atenção para o Hershel.

— Beth, cande Paddy Reilly pra mim. — Pede. — Não escuto isso desde que sua mãe era viva.

— Pai, essa não por favor. — Pede Maggie. Ele concorda penoso.

— E "the parting glass" então?

— Ninguém quer me ouvir cantar. — Diz envergonhada.

— Eu quero! — Afirmo ganhando seu olhar fuzilador em troca.

— Cante! — Gleen intensifica a ideia.

— Tá bem. — Se rende. Ela respira fundo e começa a cantar. Sua voz é doce e melodiosa, seu ritmo é perfeito e ela se entrega a música. Fecho os olhos e aprecio a música. A letra fala muito sobre esse momento, desejo que todos fiquem bem, que possamos vencer os mortos que andam, que possamos ter um final feliz. Maggie começa a cantar junto com ela e abro os olhos ajudando-as. Sorrimos umas para as outras e continuamos cantando juntas de forma suave até que a música termina.

— Lindo. — Hershel elogia.

— Não sabia que cantava Lise. — Comenta Maggie.

— O chuveiro era meu fã número 1. — Comento fazendo com que eles riam.

— É melhor irmos dormir. — Rick diz sério, quebrando o clima de tranquilidade e nos fazendo lembrar do fim do mundo. — Dormirei na torre e ficarei de olho. Teremos um grande dia amanha.

— O que quer dizer? — Questiona Gleen.

— Olha, sei que estão todos exaustos. Está foi uma grande vitória, mas temos que nos esforçar mais um pouco. — Ele pausa escolhendo as palavras. — A maioria dos errantes parecem guardas ou prisioneiros. Acho que foram contaminados bem cedo, isso pode significar que pode ter medicamentos, comida lá dentro. Eles tinham uma enfermaria, um refeitório, um arsenal.

— O arsenal ficaria fora da prisão, mas não muito longe. — Corrigi Daryl.

— Esse lugar pode ser uma mina de ouro. Estamos quase sem munição.

— As munições acabariam antes que entrássemos lá. — Comenta Hershel.

— É por isso que quero entrar lá mano a mano. — Todos se olham desconfortáveis com a ideia de enfrentar os zumbis cara a cara.

— Sei que da medo, mas depois de tudo o que passamos, damos conta. Sei disso. — Ele nos olha. — Esses cretinos não tem chance. — Ele tenta nos convencer, mas ninguém diz uma palavra. Ele apenas assente e levanta se afastando de nós.

— É melhor dormirmos. — Hershel quebra o silêncio. Todos começam a se separar, indo cada um para seu canto. O clima agora é pesado e todos estão visivelmente preocupados. Daryl me surpreende ao me pegar no colo sem que eu perceba, e logo estamos de volta a pick-up. Me deito e pela primeira vez ele se deita ao meu lado, de costas para mim.

— Acha que conseguimos? — Pergunto.

— Sim, nós conseguimos. Você não!

— Quero ajudar. — Afirmo.

— Já disse, me ajuda ficando a salvo. — Me corta.

— Mas você vai. -Tento convence-lo.

— Eu sei me virar.

— Mas também pode se machucar.

— Isso é problema meu.

— Não quero que se machuque. — Conto preocupada. Ele se vira pra mim e captura meu olhar. Seus olhos verdes brilham nesse escuro do mesmo jeito que uma estrela brilha na noite. Ele me analisa por vários momentos, como se não acreditasse nas minhas palavras.

— Eu não vou. — Garante. Sorrio torcendo para que isso possa se tornar verdade.

Queria que ele entendesse que a vida dele é importante, que não precisa se preocupar somente com as outras pessoas e decido, nesse momento, que até que ele saiba preocupar-se consigo mesmo eu me daria o direito de me preocupar com ele, mesmo que ele não goste.

Notas finais
Espero que gostem! Comentários são bem vindos. Xoxo