Vivendo entre os mortos

10 Revivendo o passado


Notas iniciais
Eu sei que eu demorei, mas eu fiquei tão triste como os resultados dos vestibulares que eu não consegui ter criatividade o suficiente para escrever algo que preste. Eu juro que tentei, mas como não consegui, preferi me estabelecer para poder algo escrever algo digno de vocês. Apesar de não estar como eu quero, é um começo... Espero que gostem! Com amor, Gabbs Silva.

P.O.V Annelise

Me sinto meio desconfortável com o assunto, mas sinto que o mínimo que devo a Daryl depois de tudo é uma explicação. Respiro fundo e me encosto na cabeceira gelada da cama ao seu lado.

— Tudo começou quando eu era pequena sabe? — Começo. — Nunca estive no que as pessoas chamam de família, realmente. — Vejo Daryl me olhar nos olhos prestando atenção em cada palavra que eu falo.

— Meus pais são da “elite” do país. — Falo com desgosto. — Eu sinceramente nunca gostei disso. Eles eram aquele tipo de riquinhos fúteis, que só sabiam gastar dinheiro e enganar as pessoas por status. — Escuto Daryl bufar em desgosto e sorrio de leve. — Meus pais se casaram para fundir a empresa do meus avós. Nunca houve qualquer tipo de sentimento entre os dois, mas eles se davam bem mesmo assim. — Me lembro dos momentos em que os dois pareciam cúmplices, mesmo que extremamente frios. — Acho que eles eram tão iguais que acabaram virando amigos. Com o tempo meus avós começaram a cobrar por um herdeiro para assumir a empresa, que estava indo muito bem. Meu pai falava que com o trabalho que ele tinha, como chefe de um dos maiores centros de policia dos EUA, ter filhos não era uma opção. No início minha mãe também era totalmente contra essa ideia. Ela era uma mulher muito bonita, e se importava muito com a beleza. Ela não queria que um “parasita” como dizia ela, arruinasse seu corpo. — Sinto meus olhos lacrimejarem, a magoa ainda era muito grande, de todas as vezes em que eu e o Josh tivemos que escutar coisas horrendas dela desde pequenos por causa disso.

Daryl percebe que eu as partes ruins da história vão começar a surgir e me dando forças, ele se aproxima mais de mim e me envolve em seus braços. Encosto minha cabeça em seu peito escutando o bater do seu coração, e continuo a história.

— E assim eu nasci, mesmo contra a vontade dela. Sabe, quando eu era pequena eu achava que a culpada por eles me odiarem era eu. — Conto com a voz embargada.

— Não era. — Daryl é firme, me apertando um pouco mais em seus braços. — Eles que eram idiotas por não saber a filha maravilhosa que tinham.

— Eu sei, agora eu sei disso. — Confirmo passando a mão pelo rosto. — Eu lembro de cada vez em que ela me acusou por estragar a vida dela. Com meu pai não era diferente, ele não queria uma menina e como a minha mãe teve problemas na gestação, ela acabou tendo que ficar muito tempo em tratamento para poder engravidar de novo. Isso deixava meu pai estressado e minha mãe furiosa. — Conto sem emoção. — E então, quando eu tinha 17 anos, ela engravidou de novo. Logicamente ela não gostou nem um pouco da ideia. E as coisas só pioraram quando descobriram que o menino era cego. Ele acabou sofrendo de retinopatia da prematuridade. Acho que nem preciso te contar o quanto ela tentou se livrar dela né? — Pergunto olhando-o, e ele apenas acena que não, evitando me interromper.

— Assim que eu fiz 18 anos eu convenci eles a me deixarem estudar fora e levar o Josh comigo. Não foi muito dificil. Eles foram pessimos pais, mas não nos deixaram passar por dificuldades financeiras, então consegui fazer com que aquele menininho se acostumasse com o mundo da sua própria forma. No inicio foi um pouco dificil estudar e cuidar dele, eu só tinha 18 anos. Mas eu consegui ajuda, conheci pessoas muito boas e consegui me formar. Fiz pedagogia, foi como um sonho realizado pra mim. Eu amo crianças desde sempre. Elas são sinônimo de inocência pra mim. Consegui um emprego, o Josh tinha amiguinhos e adorava as aulas de piano...Tínhamos pouco contato com meus pais, mas éramos felizes. Fui mais feliz nos 7 anos em que saí de casa do que nos 18 em que fiquei com eles. Mas aí… Tudo acabou. Eu estava na escola quando tudo começou de verdade. Era o meu primeiro dia dando aula, mas não tinha nenhum aluno então as aulas foram canceladas. Eu morri de preocupação e logo fui buscar o Josh na aula de piano e corri pra casa dos meus pais. Eu sabia que não conseguiria sozinha, e afinal de contar meu pai era policial, ele achava que ele saberia lidar com a situação. — Começo a ficar nervosa e sinto que as lágrimas não demorariam a chegar. — Foi a pior decisão que tomei na vida.

— Não Anne, você agiu bem. Estava nervosa e com uma criança. — Daryl diz beijando meus cabelos. Nego.

— Você não vai achar isso quando eu terminar de contar. — Respiro fundo evitando soluçar. — Eles resolveram ir pra uma casa de campo que a gente tinha em uma área rural perto de Atlanta, mas só servia para fazer algumas festas. Conseguimos ficar lá sem problemas por duas semanas. Tínhamos muita comida e meu pai ficava caçando como robe. Eu cuidava do Josh, e sempre o mantinha perto de mim. Eu achava que as coisas estavam normais demais pra ser verdade.

— E então, um dia eles encontraram a casa. Estavamos na varanda quando meu pai chegou correndo com vários zumbis atras dele. Ele estava perto de casa quando foi alcançado, acabou sendo devorado nossas frentes. Nunca fiquei tão grata por Josh não poder enxergar. Peguei a mochila que eu tinha deixado preparada perto da porta e comecei a correr. Pedi para que minha mãe me ajudasse a levar as coisas para que eu pudesse carregar o Josh, mas ela apenas jogou a mochila no chão e correu sem a gente. — Agora era impossível evitar as lágrimas que caia, ao lembrar das cenas. — Eu acabei correndo devagar por causa dos pesos e fui pro fundo da terreno, onde tinha um muro grande. Tentei passar o Josh primeiro pelo muro mas não consegui, então o coloquei em pé sobre uma lixeira que tinha e sentei apoiada no muro, que era alto, para puxa-lo. E então minha mãe apareceu do nada e começou a saltar e me puxar pelo pé, me desequilibrando. Eu tentei faze-la parar, chutei-a. Eu estava quase caindo e aquela era nossa unica saída. — Sinto meu peito apertado e as palavras começam a sair com bastante dificuldade. Eles estavam tão próximos… Eu puxei o Josh pra mim e coloquei ele sentado no muro para poder ajudar minha mãe depois, mas um zumbi agarrou-a e no desespero ela puxou o pezinho do Josh tentando leva-lo com ela. Eu não consegui descer porque nesse momento o muro já estava cercado por eles. Eu puxei o Josh com todas as forças que eu consegui, mas ela não soltava-o.

Os soluços estavam tão constantes e meu peito começou a doer tanto que eu novamente mal conseguia respirar.

— Anne. — Daryl me chama com uma voz assustada, enquanto seus braços me apertavam mais. — Tá tudo bem, já chega. Não precisa continuar. — Sua voz soava desesperada, mas eu não podia mais parar. Eu precisava tirar aquilo de mim, e as cenas não paravam de vir. Então mesmo com dificuldade voltei a falar, em meio a todo o desespero.

— Ela foi mais forte Daryl. — grito com remorso. — Eu não consegui segura-lo! Eu não consegui proteger meu menininho!. — Falo batendo com as mãos em punho no peito. Eu não sabia mais o que fazia. Eu só queria que aquela dor sumisse.

— Não foi sua culpa, pequena. — Daryl me puxa para seu colo me apertando mais forte. — Não foi. — Sinto meu peito doer e meu corpo começar a tremer e escondo o rosto em seu peito, me apertando a ele com força.

— Eu juro que tentei Daryl, eu juro que eu tentei! — Falo entre os soluços, sentindo toda a culpa que eu tive na morte da minha vida. Eu sou o pior tipo de ser humano que existe, eu não deveria ter confiado naqueles que se diziam meus pais. Não devia. Choro mais intensamente.

— Eu sei que sim. — Ele acaricia meu cabelo. — Eu sinto muito por não ter estado lá por você pequena. — Sua voz é rouca. — Mas agora eu preciso que se acalme, tudo bem? — Ele pede mas eu não consigo, dói demais.

— Igual fizemos no lago Anne. — Daryl fala calmamente. — Respira fundo e acompanha minha respiração, tudo bem? — Eu tento mas dessa vez eu não consigo, pelo contrário, só sinto meu peito doer cada vez mais, até o momento em que sinto minhas vistas escureceram e meu corpo desfalecer nos braços de Daryl e sua voz se tornar mais distante.

P.O.V Daryl

— Anne! — Grito assustado sentindo seu corpo mais leve. — Annelise! — Chamo-a afastando seu corpo do meu, vendo-a desacordada. Fico nervoso e deito-a sob a cama e analiso-a. Sua respiração está mais normalizada, assim como as batidas do seu coração, que antes estava disparada. Respiro aliviado. Foi bom que ela tenha desmaiado. Fico nervoso ao pensar o que poderia ter acontecido e o pior é que essa não é a primeira vez.

Tenho que conversar imediatamente com Hershel assim que ele melhorar, acho que Anne pode estar sofrendo de crises de pânico, levando em consideração sua reação sempre que o irmão vem a tona. Me sinto culpado por tê-la feito falar, mas se não o tivesse feito nunca saberia o que a atormenta tanto. Sinto a raiva por sua família voltar com força total e respiro fundo me deitando ao seu lado e puxando-a para mim, abraçando-a. Minha vontade de protegê-la de tudo e todos só aumentou depois de toda essa história. Que tipo de pessoa faria algo assim com os próprios filhos? Não que pais sejam o melhor exemplo do mundo. Os Dixon estão aqui para provar isso, mas mesmo assim. Uma mãe fazendo uma coisa assim com uma menina inocente como ela era assombroso. Eu nunca contaria isso pra ela, mas ele tivessem sobrevivido, eu mesmo os matava.

Respiro fundo e decido velar pelo sono dela até que acorde. As coisas aqui se acalmaram por enquanto e quero aproveitar, porque assim que ela acordar, eu a tornarei alguém forte. Pode ser egoísmo meu, e talvez realmente seja, mas eu não conseguiria perdê-la. E não vou deixar que aconteça.

Notas finais
Apesar de pequeno, novamente foi um dos capítulos necessários.... Espero que tenham gostado. Beijos beijos, Gabbs Silva.