Vivendo entre os mortos
1 O começo do fim
Notas iniciais
Não sei desde quando estou caminhando sem rumo, mas, afinal, quem tem algum lugar para o qual voltar hoje em dia? Essa é uma possibilidade que foi simplesmente arrancada dos seres humanos no momento em que os mortos começaram a se levantar.
Limpo o suor da testa e me encosto em uma árvore próxima. Sinto meus pés molhados e tenho certeza de que os cortes se abriram novamente. Sei que deveria ter parado para descansar um pouco, mas, depois de quase ser descoberta por uma horda de mais de 300 zumbis, não posso me dar ao luxo. Às vezes, fico imaginando se não seria melhor simplesmente parar de lutar, de tentar viver em um mundo onde não existe mais vida. Afinal, por que viveria? Por qual motivo? Sou simplesmente mais um pedaço de carne em um mundo dominado pelos mortos-vivos.
Suspiro fundo, tomando fôlego, e olho por entre os galhos das árvores. Vejo que o sol está se pondo. É melhor que eu encontre um abrigo logo. Não estou em condições de fugir e muito menos de lutar. Coloco a mão sobre a faca que guardo na cintura, confirmando para mim mesma que ela ainda está ali. Infelizmente, ela é a melhor e única companhia que me permito ter desde a morte dos meus pais e de toda aquela história que eu realmente queria poder esquecer.
Respiro fundo, criando coragem, e começo a andar, ordenando que meu corpo continue funcionando, pelo menos mais um pouco. Escuto a mata agitada e sei que isso nunca é um bom sinal. Então, decido sair da floresta e seguir em direção à estrada. Não demora muito até que a encontro. Prefiro nunca me afastar muito dela, porque sei que às vezes ela é o meu melhor ponto de fuga. É graças a esse esquema que posso dizer que ainda estou viva. Não sei lutar, e até agradeço imensamente à minha mãe por me obrigar a fazer aulas de ginástica olímpica. Graças à flexibilidade que as aulas me proporcionaram, sempre que corria perigo, conseguia subir nas árvores ou em lugares mais altos, e assim ficava escondida. Mas, com tantos cortes nas mãos e nos pés, não consigo mais fazer isso; mal consigo ficar em pé.
Avisto algo ao longe, forço a visão e percebo a estrutura de uma casa. Há tempos não via uma. Respiro aliviada. Por mais que entrar em casas seja perigoso, no momento é o lugar mais seguro para mim. Vou até lá, observando os arredores. Constato que, por enquanto, tudo está limpo e livre de zumbis, mas nunca abaixo a guarda, porque, se fizer isso, estarei morta! Subo o hall lentamente para evitar fazer barulho, enquanto tiro a faca do cinto. Ignoro a dor que o movimento me causa. Puxo a maçaneta e a porta se abre lentamente. Prendo a respiração, tentando escutar qualquer som que possa indicar a presença de um zumbi. Passam-se dois minutos até que finalmente aceito que a casa está limpa e entro, fechando a porta em seguida.
Guardo a faca novamente e vou para a cozinha. Abro todas as portas e a geladeira em busca de alguma garrafa de água, mas não encontro nada. Faz tanto tempo que não falo que até esqueci minha própria voz. Minha garganta está sempre seca e o medo de atrair algum zumbi me impede de falar. Mas, no fundo, é melhor assim. Agora, mais calmamente, abro novamente as estantes e encontro algumas barrinhas de cereais, três potes de sopa enlatada e alguns potes de comida para cachorro. Me pergunto se ainda existem animais domésticos como esses. Nem perco tempo olhando as datas de validade. Prefiro morrer comendo comida estragada do que morrer de fome. Se bem que, depois que o mundo acabou, nosso organismo parece ter criado resistência contra essas comidas velhas. Pena que não criaram resistência suficiente para manter os mortos onde deveriam ficar.
Abro a sopa e me sento no chão, sentindo novamente dores por todo o corpo. Começo a virar a lata com tudo na boca. O caldo, que já parece mais uma gosma, alivia minha sede. Assim que termino minha primeira refeição em semanas, me levanto e coloco as barrinhas e as latas de sopa na mochila. Tive uma enorme sorte em encontrá-las, e não sei quando terei que fugir. Por mais que minha existência não tenha mais sentido, não me permito ceder. Não posso simplesmente fazer com que a morte dos meus pais tenha sido em vão.
Uso os joelhos para empurrar o sofá, tampando a passagem para as escadas, e coloco a mesinha ao seu lado. Agradeço mentalmente por ela ser leve. Sento-me embaixo da mesinha, escondida pelo braço do sofá, e coloco a mochila ao meu lado, deixando a faca na mão. Sei, no momento em que deito minha cabeça sobre o braço do sofá, que não conseguirei me mover por um bom tempo.
Não sei quanto tempo faz desde que dormi, mas acordo sobressaltada quando escuto barulhos do lado de fora. Tento me levantar, mas o máximo que consigo é me sentar, encolhida, encostada na parede.
— Temos que arriscar, Rick... — Escuto vozes, e minha respiração acelera. Pessoas, não! Por favor! Prefiro os zumbis a pessoas. Não sei o que me espera se for encontrada por elas. A porta se abre e me encolho mais, na esperança de não ser percebida.
— Todos em formação. — Ouço uma voz grossa e melodiosa falar, mas meu medo não diminui. Olho por entre as pernas da mesinha e vejo três homens entrando. Um deles parece ser asiático, o outro tem cabelo comprido e carrega algo que parece um arco e flecha, só que diferente. Quando olho para o último homem, calafrios começam a tomar conta de mim. Ele tem o cabelo grande, mas não de forma a cair sobre os ombros; o usa alto, e tem uma barba por fazer. Aponta um rifle, sem medo nos olhos. Sinto meus olhos começarem a lacrimejar quando flashes da noite em que meus pais morreram invadem minha mente, e fico nervosa. Eles socaram a porta e ficaram esperando algo. Acho que estavam fazendo uma análise igual à minha antes de entrar. O homem de cabelo alto virou-se para o outro e falou:
— Vou chamar os outros.
— Não pode ser, mais deles não. Não me importo em morrer, mas não consigo passar pelas mesmas coisas de novo.
— Certo. Gleen, vá olhar lá fora novamente enquanto faço uma vistoria aqui e depois subimos juntos. A casa parece limpa, mas é melhor não arriscarmos. — O homem que parecia um caçador fala, sendo obedecido em seguida. Ele começa a andar, analisando tudo ao redor. Quando ele se distrai e vai olhar os armários, aproveito e, com muito cuidado, consigo me esconder atrás do sofá. Me abaixo na escada, ficando em uma posição totalmente desconfortável. Só preciso aguentar mais um pouco, só mais um pouco. Não demora muito até que mais vozes começam a surgir.
— Achou alguma coisa, Daryl?
— A casa parece estar limpa e não achei nenhuma arma aqui embaixo. Ainda não fui no segundo andar, mas aqui parece seguro. Sugiro que passemos a noite aqui.
— Vamos ficar então. Carl, ajude a sua mãe a se sentar perto da cozinha, vamos ficar todos juntos. — Espera, eles tinham uma criança? Isso ainda existia?
— Tá bem.
— Daryl, acha que consegue caçar alguma coisa? — Uma voz feminina pergunta.
— Não agora, Carol, está muito escuro e passamos por um grupo grande de cabeças ocas há pouco. Acho melhor não arriscar. Carl, olha se tem algo que possamos comer. Sua mãe precisa alimentar o bebê. — Eles tinham até um bebê? Talvez não sejam tão perigosos assim. Olho por entre a pequena fresta do sofá e vejo um menino realmente, abrindo os armários. Ele tem cabelos longos, roupas muito melhores que as minhas e é magrinho. Ele pega as latas de comida para cachorro. Será que, além de um bebê, eles também tinham um cachorro? Ele abre a lata e vai até a mulher grávida, estendendo a comida com um rosto triste. Sinto como se tivesse levado um soco no estômago. Ela estava grávida e comeria comida para cachorro só porque eu peguei toda a comida que tinha ali.
De repente, o homem assustador se aproxima, tira a lata da mão dele e a joga com raiva perto de onde eu estava. Grito de medo, tampando a boca em seguida, percebendo a merda que tinha feito. Não demora muito até que o sofá seja arrastado e minha localização seja descoberta. Levanto rapidamente, estendo meu braço e uso minha pequena faca como proteção. Os três homens apontam suas armas para mim, mas o que mais me chama atenção é o que me aponta o "arco".
— Quem é você? — O homem barbudo pergunta. Ele me olha, esperando uma resposta.
— Eu perguntei quem é você! — Ele se aproxima de mim rapidamente, tira a faca da minha mão e a joga longe. Os flashes vêm com mais força e, paralisada, sinto minhas pernas enfraquecerem e baterem no chão, enquanto meu rosto começa a ficar molhado.
— Rick, calma! — O caçador abaixa seu arco e se aproxima do homem, encostando em seu ombro, como se dissesse para deixar com ele. O homem barbudo se abaixa na minha frente.
— Qual é o seu nome? — Ele pergunta calmamente. Abro a boca para falar, mas não consigo. Acho que esqueci como se faz.
— Ela não responde. Como pretende resolver isso, Daryl? — Pergunta o homem que agora sei que se chama Rick. Ele me assusta, mas olhando novamente para o seu rosto, parece cansado, muito cansado.
— Ela é apenas uma criança, e nem consegue segurar uma faca. Não é uma ameaça, tenha paciência. — Ele responde rudemente, sem desviar os olhos de mim. Fico um pouco mais calma, por saber que ele acha que sou uma criança. Talvez assim não me machuque como eles fizeram.
— Eu sou o Daryl, aquele é o Rick e aqueles ali são nosso grupo. Você tem um grupo? — Ele volta a me fazer perguntas. É estranho, mas não consigo sentir medo dele. Aceno que não. Vejo que uma mulher de cabelos curtos e pretos se aproxima de nós.
— Amigos ou família? — Novamente, aceno que não.
— Está sozinha? — A mulher pergunta, chocada, e se aproxima de mim, sentando ao meu lado. O caçador se afasta e fica encostado na parede próxima à escada, enquanto me observa. O homem Rick não se afasta, infelizmente. Ele me lembra aquele homem, e isso me desarma completamente. Olho para a mulher e tento focar minha visão apenas nela.
— Eu sou a Maggie, pode me dizer seu nome? — Ela pergunta docemente. Abro a boca novamente e tento responder, mas só sai um som estranho e minha garganta dói. Levo as mãos até a garganta.
— Beth, pega um pouco de água pra mim. — Logo, uma menina loira, que aparenta ser alguns anos mais nova do que eu, se aproxima trazendo uma garrafa de água. Quando a vejo, meus olhos se alargam em surpresa. Maggie abre a garrafa e a entrega para mim. Olho para ela, tentando saber se aquilo em suas mãos era real.
— Pode beber, deve estar com sede. — Com a mão trêmula, levo a garrafa até a boca. Quando o líquido desce pela minha garganta, é como se mil pesos saíssem de mim e minha garganta parecesse estar viva de novo. Percebo que já tinha bebido muito e entrego a garrafinha para ela, envergonhada, mas ela apenas me retribui com um sorriso. Rick finalmente parece relaxar um pouco depois de perceber que eu não passava de um corpo quase morto e se afasta, mas nunca tira os olhos de mim. Agradecida e surpresa por estar bem e não morta como achei que estaria, tento novamente falar. Para surpresa de todos — e a minha também —, escuto minha própria voz, um pouco rouca, dizer:
— Annelise.
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