Vivendo entre os mortos
2 Sem mais opções.

POV Daryl
Já fazem aproximadamente 8 meses desde que a fazenda foi invadida e estamos tentando sobreviver na estrada. Indo de casa em casa, sem podermos parar. Tanto o velho como suas duas filhas agora estão conosco, mas não sabemos onde Andrea está, provavelmente morta, afinal esse mundo não perdoa ninguém, não seria agora que ele faria uma exceção. Depois de tudo o que aconteceu, lutando a cada dia para poder viver, acho que acabamos virando os próprios zumbis.
Olho para Rick e ele está concentrado no caminho. Sinto pena dele, como se não bastasse ter um filho pequeno para criar em um mundo onde não tem vida, agora ele também terá um bebé que nem sabe se é mesmo dele. Não foi nenhuma surpresa quando ele nos contou que teve que matar o Shane, ele lembrava muito o Merle pra poder ser algo que preste. Mas confio no Rick, por mais perturbado que pareça até agora ele mantém o grupo vivo, matou o melhor amigo antes que ele acabasse nos matando, então não reclamei quando ele estabeleceu que isso não seria mais uma democracia, e não podia deixar o cara sozinho nessa, já pasta os problemas que ele tem que superar sozinho.
— Daryl! — Rick me chama a atenção.
— Parece ter uma casa ali, vamos entrar! — Concordo e preparo minhas flechas.
Rick deixa as mulheres e o velho pra trás enquanto nos aproximamos. Agora, até o Carl faz parte da formação, mesmo sendo um menino. Me faz lembrar da minha infância quando era caçar ou morrer de fome.
Analiso a casa com cuidado. Ela é grande, provavelmente dois andares, com um jardim nos fundos. Está escondida pelas árvores, então se dermos sorte terá poucos desses mortos lá dentro. Volto para onde o grupo está reunido.
— Vamos nos dividir, a casa é grande, será mais seguro assim e temos que ariscar. Rick, Gleen e eu vamos entrar e olhar a casa por dentro, enquanto T-dog e o Carl fazem a vistoria pelos jardins e garagens.
— De acordo. Lembrem-se de tomar cuidado e sem armas de fogo que não tenham silenciador. Não queremos atrair mais zumbis. Carl, olhos atentos. — Todos se dispersam analisando a casa, enquanto termino de preparar um plano B, por precaução.Acabo escutando a conversa dos dois.
— Sim pai.
— Ótimo, tome cuidado e qualquer coisa corra de volta para onde sua mãe e os outros estão. -Ele apenas concorda com e cabeça e Rick se aproxima novamente de mim enquanto prepara a munição na arma.
— Pronto? — Me pergunta.
— Sempre estou!
Rick e eu ficamos cada um de um lado da porta enquanto Gleen a abre. A porta estava trancada, mas logo conseguimos entrar. Bato na porta tentando escutar se tem algum zumbi, mas a única resposta é o silêncio. Bom sinal, mas ainda não da pra descansar.
— Todos em formação. — Falo enquanto entro. A sala é ampla, mas sem muitos moveis, o sofá que antes deveria estar no centro do cômodo devido as marcas no chão, agora está bloqueando a passagem para a escada, provavelmente alguém tentou atrasar algum zumbi enquanto fugia. Não me preocupo muito com o piso superior, aparentemente se tinha algo lá já foi morto.
— Vou chamar os outros. — Rick volta do que parece ser o deposito e sai.
— Certo. Gleen vá olhar lá fora novamente enquanto faço uma vistoria aqui e depois subimos juntos. A casa parece limpa, mas é melhor não ariscarmos.
Assim que ele sai começo a andar pela sala e abrir os móveis a procura de algo que possamos usar como arma, ainda temos munição, mas não sabemos quando vai acabar. “Mas que merda!” só consigo achar facas, pelo menos aqui em baixo. Essa não é uma boa arma, você tem que se aproximar muito para surtir algum resultado e isso pode ser o atestado de óbito.
— Achou alguma coisa Daryl? — Rick volta junto com o Carl.
— A casa parece estar limpa e não achei nenhuma arma aqui em baixo. Ainda não fui no segundo andar, mas aqui parece ser seguro. Sugiro que passemos a noite aqui.
— Ficaremos então. Carl ajude a sua mãe a se sentar próximo a cozinha, vamos ficar todos juntos.
— Tá bem.
Não demora muito e todo o grupo começa a entrar e se instalar na sala. Vou para o lado contrario deles e deixo minhas coisas no chão, gosto dessas pessoas mas não consigo ficar excessivamente perto. Então antes que estrague o humor de todos, já fico mais afastado. Logo Carol se aproxima de mim, ficamos meio que amigos, se é poderia usar essa palavra, depois do que aconteceu com Sophie. Essa é uma perda que todos sofremos até hoje, mas é pior ainda pra ela.
— Daryl, acha que consegue caçar alguma coisa?
— Não agora Carol, está muito escuro e passamos por um grupo grande de cabeças ocas a pouco. Acho melhor não ariscar. -Ela apenas assente desanimada, faz tempo desde que comemos então posso entender.
— Carl olha pra gente se tem algo que possamos comer, sua mãe precisa alimentar o bebê.
Carl acha algumas latas no armário e as abre para a mãe, mas quando vejo do que são meu estomago embrulha. Estamos literalmente vivendo no inferno e não a nada que possamos fazer. Rick se aproxima dele com a expressão devastada e arranca a lata de sua mão a jogando longe e de repente, para a nossa surpresa, um grito é ouvido próximo de onde a lata bateu. Rapidamente me coloco de pé e afasto o sofá, e sei que os outros estão do meu lado.
Assim que foco minha visão em quem estava atrás do sofá fico completamente chocado. Era apenas uma criança, devia ser uma adolescente em seus 17 anos e estava toda suja de sangue e barro. Se não fosse pelos cabelos longos nem saberia dizer que é uma menina. Ela me lembra a Sophie e não consigo não analisa-la, mas o que mais me chama a atenção são seus olhos, castanhos claro, tão claros e atraentes que pareciam falsos. "Mas que merda eu estou pensando?" Balanço a cabeça afastando tais pensamentos inúteis.
— Quem é você? Rick pergunta mas ela apenas nos olha assustada enquanto aponta uma pequena faca para nós. "Por favor, me diz que essa não é sua única arma pirralha."
— EU PERGUNTEI QUEM É VOCÊ!- Rick volta a perguntar, gritando. Ele rapidamente se aproxima dela e arranca a faca de suas mãos e a lança longe. Ela fica ainda mais assustada e cai no chão chorando. Me enfureço com a sua atitude exagerada, está aparente que ela não conseguiria matar uma mosca. Aspiro estressado e chego perto dele apertando seu ombro com um pouco mais de força do que o necessário, tentando fazer com que ele se acalme antes que faça besteira.
— Rick, calma! — Abaixo a besta e a uso como apoio enquanto me abaixo na frente da menina. Tenho que abaixar o rosto para tentar encontrar seus olhos.
— Qual é o seu nome? — Pergunto calmamente. Ela abre a boca, mas logo volta a fecha-la.
— Ela não responde, como pretende resolver isso Daryl? — Pergunta Rick impaciente.
— Ela é apenas uma criança, e nem consegue segurar uma faca direito. Não é uma ameaça pra gente, tenha paciência! — Respondo-o estressado sem tirar os olhos dela. Não consigo deixar que ele continue gritando com a menina, ela já parece ferrada demais sem precisar de ajuda. Tento novamente:
— Eu sou o Daryl, aquele é o Rick e aquele é o nosso grupo. Você tem um grupo? — Sei que disse que ela não é uma ameaça, mas não abaixo a guarda e tento sondar se alguém que ela conheça possa ser. Ela apenas nega com a cabeça.
— Amigos ou família? — Tento novamente obtendo outra negação como resposta.
— Está sozinha? -Maggie pergunta chocada enquanto se abaixa ao seu lado. Fico aliviado por não ter que acalmar a menina, não sei fazer isso. Me afasto e deixo que Maggie cuide da situação, mas fico encostado na parede próximo a escada, apenas por precaução.
— Eu sou a Maggie, pode me dizer seu nome? — Novamente ela abre a boca para responder, mas a única coisa que sai é um ruído estranho que parece doer, pois ela leva as mão ao pescoço. Um rápido instinto de ir até ela me vem a cabeça, mas continuo encostado na parede.
— Beth, pega um pouco de água pra mim. — Maggie pede a irmã que logo aparece trazendo uma das poucas garrafas de água que sobram. Quando os olhos da menina veem o liquido logo olha assustada para Maggie, como se quisesse comprovar o que aquilo era real. "Mas por que infernos você passou?" Me pergunto mentalmente. Toda aquela reação dela não era normal. Vi algo semelhante quando estava com Merle em uma noite em que fomos em mais um dos seus lugares prediletos e eu me encontrei com uma mulher que tinha essa mesma expressão vazia e assustada que ela tem agora, como se estivesse pronta para marcar sua vida pra sempre por um pouco de comida e água.
— Pode beber, deve estar com sede. — Maggie entrega a garrafa aberta para ela que a pega com as mão trêmulas e vira a água como se não bebesse algum liquido a anos, mas do nada ela para de beber e fecha a garrafa devolvendo-a a Maggie. "Guria idiota, podia ter tomando tudo." Novamente ela abre a boca para falar, mas dessa vez pra minha surpresa eu escuto uma voz suave e melodiosa dizer:
— Annelise.
— Há quanto tempo está sozinha Annelise? — Rick pergunta agora mais calmo. Ela abaixa o rosto como se tivesse medo dele e isso me preocupa, mesmo que não deva.
— Não sei dizer, mas faz muito tempo. — Sua voz ainda é um pouco arrastada e baixa.
— Está machucada? -Ele torna a perguntar, sendo respondido negativamente. "Pelo menos isso."
— Tem alguma arma com você? — Percebo que ela respira fundo, antes de conseguir encara-lo.
— Só a faca que você pegou, pode me devolver? Juro que não vou ferir ninguém! — Ela fala rapidamente. Ele apenas concorda e Lori se levanta pegando a faca que estava próxima dela e começa a se aproximar da menina, dando a ela.
— Obrigada, obrigada mesmo. — Ela agradece e seus olhos caem para a barriga de Lori.
— Vocês tem mesmo um bebê! Achei que era mentira quando escutei vocês falando. — Ela continua encarando ela até que parece se lembrar de algo e puxa uma mochila velha e surrada de baixo de uma mesinha que estava próxima a escada, tirando o que pareciam ser algumas barrinhas de cereais e estendendo-as para Lori.
— Pode pegar, você precisa comer. — Lori a olha sem reação e as pega, sei que deve estar aliviada por finalmente conseguir alimentar a criança. — Desculpe não ter dado antes, mas eu estava com medo que me machucassem. Sabem, nem todos os grupos são bons...
— Não se desculpe querida...Eu...eu...Obrigada! — Lori se afasta limpando o rosto e coloca as barrinhas na sala, Hershel se aproxima a ajudando a dividi-las para que todo mundo coma.
Rick se aproxima novamente de Annelise, percebo que ele também está aliviado por eles terem conseguido comida e sei no momento em que se abaixa, que ele não conseguiria deixar ela para trás.
— Obrigado Annelise. — Novamente ela só concorda.
— Não precisa se preocupar, não vamos machuca-la. Desculpe-me ter gritado com você antes.
— Tudo bem, eu entendo. Nunca baixar a guarda, não tem problema. Eu apenas...me assustei. -Novamente ela abaixa a cabeça.
— Que bom. Annelise, sabe que não precisa ficar sozinha certo? Pode ficar com a gente, se juntar a nós. — Pela primeira vez na noite ela o encara. Ela para pra pensar por um tempo, negando em seguida, me causando um incomodo que não consigo explicar.
— Não posso. Não sei lutar direito, vou acabar atrasando vocês.
— Nenhuma vida hoje em dia é um atraso Annelise, basta que você tente. -Rick fala firme, tentando convence-la.
Ela levanta o rosto e começa a olha as pessoas que estão na sala, calmamente e com uma expressão de duvida. Seus olhos param em cada integrante do grupo, até que finalmente seus olhos me alcançam. Novamente fico preso em seu olhar sem saber como agir, sei que ela está pensando se aceita a proposta ou não e subconscientemente eu torço para que aceite. Ela me olha intrigada, como se procurasse alguma coisa em mim e desvio o rosto. Não quero que ela descubra quem eu realmente sou, porque se ela o fizesse estaria tudo acabado e logo fugiria. Frágil como parece, ela não conseguiria sobreviver por muito mais tempo.
De relance vejo que ela olha pra baixo com a feição abatida, e sei que ela negaria. Não posso deixar que isso aconteça, simplesmente não consigo deixa-la ir pra morrer. Me afasto da parede e ando impaciente até ela, puxando sua mochila pra mim.
— Não seja idiota, é claro que ela aceita. — Sei que ela deve ter se assustado, melhor com medo do que morta! Vou andando e coloco sua mochila próxima da cozinha saindo da casa em seguida, preciso tomar um ar. Menina idiota, como pode se quer pensar em tentar ficar sozinha em um mundo desses sendo que mal consegue levantar uma faca?
Resolvo explorar a área e ver se acho alguma coisa, mas nesse escuro duvido muito que consiga algo. Paro no carro e pego um galão de água vazio, nunca se sabe o que pode encontrar na floresta. Amarro-a na cintura e deixo a besta pronta para qualquer imprevisto, começo a seguir a trilha atento. Horas depois, com dificuldade, acho um esquilo em uma árvore e consigo pega-lo, mas nada de água e resolvo voltar por hoje.
No caminho percebo passos arrastados pelo chão e sei que o problema se aproxima. Coloco a besta sobre as costas e subo uma árvore alta, é um grupo grande de cabeças ocas se aproximando da casa onde todos estão. Hora de ir. Começo a correr desviando do caminho deles até que finalmente consigo chegar. Abro a porta com brutidão atraindo os olhares de todos.
— Hora de ir. — Todos começam a arrumar as malas rapidamente. Pego a minha do chão e coloco o esquilo lá, assim que fugirmos posso limpa-lo para que o Carl e a Lori possam comer, eles são os que mais precisam de proteína do grupo.
— Quantos? — Rick pergunta enquanto enfia algumas facas que poderiam ser uteis na mochila.
— Uma horda. Parece ter uns 50 deles pra mais e estão perto. — Enquanto todos saem vou para o fundo da casa e vejo que alguns errantes já estão se aproximando, se sairmos agora ainda conseguimos fugir. Quando passo pela cozinha olho para o balcão e vejo a mochila surrada. Annelise. Estava tão concentrado na caça que até me esqueci dela, pego a mochila e corro até as escadas encontrando-a sentada no mesmo local enquanto olha apressadamente para todos os lados.
— O que ainda tá fazendo ai? Temos quer ir! — Falo apressando-a.
— Não consigo... — Diz assustada.
— MAS QUE MERDA VOCÊ TEM NA CABEÇA? -Grito. -Prefere mesmo ficar sozinha do que ir com a gente?
— Não é isso! — Responde com a voz embargada. Só consegue me enfurecer mais.
— O QUE É ENTÃO? — Ela aponta para baixo e só então percebo. Seus pés estavam tão cortados e machucados que eu não sei como ela não está chorando de dor. Ela nunca conseguiria andar assim, ainda mais descalça. Me xingo mentalmente por ser tão estupido. Sem ter muito tempo pra achar uma solução coloco as mochilas para frente e me ajoelho de costas pra ela.
— O que?
— Sobe logo! — Ordeno. Temo que se demorarmos mais um pouco possamos estar em sérios problemas. Logo sinto seus braços finos a meu redor, passo suas pernas pela minha cintura e começo a correr até a moto. Ela é tão leve que me assusto, depois preciso pedir que Hershel dê uma olhada nisso também. Passo pela porta e consigo matar três zumbis antes que se aproximem demais. Vejo que Gleen pega minhas flechas antes de entrar no carro e dar a partida. Finalmente chegamos na moto e a coloco na traseira, jogando as mochilas para que segure.
— Segure firme. — Aviso antes de arrancar com a moto. Escuto ela gritar antes de seus braços arrodearem minha cintura, e assim vamos ganhando a estrada. Todos os carros enfileirados e a moto na frente, guiando.
Fico pensando que teria sido melhor coloca-la em um carro, quando olhei para as suas mãos também estavam cortadas. O que ela deve ter passado pra chegar a esse estado é algo que eu sinto que não vou querer descobrir.
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