Vivendo entre os mortos
15 Decidida.

— Lise, acorde. Já está tarde. — Abro os olhos escutando os chamados de Lori. Ela se afasta me um pouco me dando espaço para poder me sentar. Olho para ela e me encosto na cabeceira da cama.
— O Daryl chegou? — Pergunto esperando ansiosa por sua resposta.
— Chegou, pouco depois de você dormir. — Ela responde me fazendo respirar aliviada.
— Quer me contar o que aconteceu? — Ela pergunta.
— Eu não sei direito o que houve. — Digo cansada de pensar sobre o assunto. — O Daryl apareceu e de repente começou a falar coisas.
— Entenda. — Lori começa suavizando a voz. — Daryl pode ser explosivo às vezes e tenho certeza que deve ter se arrependido, mas isso não quer dizer que o que ele fez foi certo, muito menos quer dizer que não te magoou.
— Eu sei. — Digo sinceramente. Eu devo a minha vida a Daryl, mas isso não quer dizer que eu consiga ouvir tudo o que eu ouvi dele e não sentir meu peito doer toda vez que eu lembro. Não vou ser mais um peso pra ele, isso é certo. Eu só não sei como farei isso sem desmanchar na sua frente. — Agora que eu sei que ele voltou eu estou mais tranquila, mas aqui ainda está doendo. — Digo apertando a mão próximo ao coração. — E eu estou com raiva do Daryl. Eu nunca faria aquilo com ele e ele não sabe disso. Ele me acusou de coisas que eu não sou Lori, eu juro que quero desculpa-lo agora mesmo mas sinto que não consigo. — Digo sem forças.
— Isso é normal meu bem, e confesso que faz muito bem. — Ela se aproxima me abraçando de lado.
— Eu não quero ser mais alguém que ele considere fraca. Não vou se um peso, nem pra ele nem pra ninguém. Vou provar isso pra ele. — Digo decidida.
— Eu sei que vai. É forte, só não percebeu isso ainda. — Ela diz com firmeza.
— Você acha? — Pergunto ainda insegura.
— Eu tenho certeza. — Ela me olha me encorajando. — Agora vamos, parece que Daryl encontrou alguma coisa ontem, Rick está chamando todo mundo lá em baixo. — Ela diz levantando.
— O que ele encontrou? — Pergunto curiosa sentindo uma estranha sensação no peito enquanto levanto.
— Não sei. — Ela diz me esperando. Juntas descemos as escadas ainda não encontrando ninguém.
— Devem estar la fora. — Ela diz e eu concordo. — Eu tenho que ajudar com o Hershel e tenho que olhar o Carl, fale para o Rick que qualquer coisa estou aqui dentro, sim?
— Tudo bem. — Respondo a deixando e saindo do bloco. Logo vejo o grupo reunido e consequentemente vejo ele. Meu coração se aperta e me sinto fraquejar. Não posso parecer fraca perto de Daryl ou ele pode achar que eu estou tentando usá-lo de novo. Mas como fazer isso? Meus pensamentos se embolam tentando encontrar uma maneira e eu me aproximo ficando atrás de um dos carros até me sentir preparada para encará-lo.
— É o seguinte. — Daryl começa a falar e eu respiro fundo prestando atenção a cada palavra dita. — Ontem quando eu fui dar uma volta eu acabei encontrando uma cabana perto daqui, mais ou menos 120 quilômetros. Eu resolvi caçar e acabei achando o lugar, mas isso não é importante. Tinha uma criança lá. — Ao escutá-lo falar criança sinto novamente uma sensação estranha no peito.
— Sozinha? — Carol pergunta me fazendo voltar toda a atenção pra ela.
— Não, parece que vive com o pai. — Daryl responde e eu consigo ver sua testa ficar marcada de preocupação. Algo não está certo. — Mas eu não gostei daquilo, ele nem parecia saber que a menina estava com fome e ela parecia até mesmo sentir medo dele.
— Nós vamos agir e averiguar, por isso chamamos vocês. — Rick continua. — Daryl disse que o homem estava armado, irmos sozinhos sem saber realmente o que tem lá pode ser perigoso.
— Mas é claro que vamos. — T-dog logo se prontifica. — Não podemos deixa-la sozinha lá.
— Então podemos fazer. — Rick diz confiante. — Vamos chegar lá primeiro e depois de avaliarmos o lugar bolamos um plano.
— Carol, se importa de ficar com meu pai? Se algo acontecer você será de mais ajuda do que eu. — Beth pede a Carol.
— Claro, deixamos a Maggie ir. Ela é mais experiente que nós e saberá se sair melhor por lá. Podem ir, cuidamos das coisas por aqui.
— Obrigada. — Beth agradece abraçando Carol.
Respiro fundo decidida. Algo nessa história realmente parece errado e eu não posso deixar que eles ajam sozinhos quando se trata de uma criança. Sei que na verdade posso mais atrapalhar do que ajudar, mas eu não ficaria parada. Vou tentar ajudar, por Josh. Mesmo que para isso eu tenha que mascarar tudo o que se passa no meu interior, eu irei ajudar.
— Eu vou Rick! — Digo saindo de trás do carro e chamando a atenção de todos. Mantenho minha expressão fechada. Não posso fraquejar agora.
— O que? — Rick olha para mim surpreso. — Não precisa Lise. Lise, não sabe lutar direito ainda. — Ele diz tentando me convencer, sei que está preocupado mas isso é algo que eu preciso fazer. Olho para Daryl atrás de Rick e fico aliviada ao ver, mais de perto, que realmente está bem. Mesmo que sua expressão esteja cansada.
— Apenas me dê uma arma, sei me virar. — Digo decidida. — Não vou deixar uma criança inocente em perigo sem fazer nada, não de novo. — Percebo que Daryl me olha com pena ao entender meus motivos, e isso me entristece. Não quero que sinta pena de mim.
— Deixe ela ir. — Daryl diz se aproximando de mim, me distraindo por um momento.
— Daryl, sabe que ela ainda não está pronta. — Rick diz não entendendo o amigo.
— Deixe-a ir Rick. — Daryl é firme e isso parece passar alguma confiança a Rick. — Tomarei conta dela.
— Não preciso de babá. — Digo respirando fundo e colocando uma máscara de frieza que não me pertencia.
— Sei que não precisa. — Daryl responde me olhando como se estivesse culpado por algo.
— Ótimo, porque eu não preciso de você perto de mim. — Digo firme me afastando dele e me aproximando de Rick que me analisa. Dou um meio sorriso para ele para que perceba que estou bem e ele assente. Apesar do pouco tempo de convivência Rick se tornou um irmão para mim e eu sou imensamente grata por isso.
— Certo. — Rick diz. — Vamos trazer os outros carros e estacioná-los na entrada leste do pátio. — Rick decide fazendo uma análise do território.
— Ótimo, deixa-los lá fora seria um convite para estranhos. — Daryl diz parecendo satisfeito com a ideia.
— Depois vamos juntar os corpos para queimar, depende de como tudo ocorra por lá. — Ele continua.
— Será um longo dia. — Diz T;
— Onde estão Gleen e Maggie? Mais ajuda seria bom. — Pergunta Carol fazendo-me pensar que desde que ela e Gleen passaram por mim eu não os vejo.
— Estão na torre. — Diz T.
— Na torre de vigia? — Rick pergunta estranhando.
— Pelo menos estavam lá ontem. — T responde enquanto andamos em direção a torre.
— Glenn? Maggie? — Grito chamando-os. Não demora muito até que escutamos alguns barulhos.
— Oi, o que foi pessoal? — Glenn aparece arrumando as calças.
— Está pronto? — Daryl pergunta.
— O que? Pra que? — Ele pergunta confuso.
— Está pronto para vir? — Pergunta novamente. — Venham, precisamos de ajuda.
— Já estamos descendo. — Ele diz fechando a porta novamente. Não demora muito até que eles comecem a rir dos dois.
— Ei Rick. — T diz chamando chamando nossa atenção. Os dois presidiários se aproximam da cerca.
— Venham comigo. — Rick fica sério e vejo Daryl se aproximando de mim novamente, mas finjo não perceber.
— Podem parar exatamente aí. — Rick diz firme. — Estão quebrando o acordo.
— Por favor, senhor. — O loiro pede. — Nós sabemos que fizemos um acordo, mas precisa entender… Não podemos mais viver lá, entende? Não com todos aqueles corpos. Nós os conhecíamos. — Ele diz parecendo estar se sentindo torturado lá dentro e fico triste por eles. — Sangue e cérebro por todo o lado. São fantasmas.
— Por que não os retiram? — Rick pergunta. — Deveriam queimá-los.
— Nós tentamos. Mesmo — Ele diz.
— A cerca do outro lado está caída. Toda vez que levamos um corpo há uma fila deles esperando. Então temos que voltar correndo. — O maior fala.
— Olhe, não tinhamos nada a ver com Tomas e Andrew. — O loiro continua. — Você queria mostrar seu ponto e conseguiu. Faremos o que for preciso para nos juntar a vocês, mas por favor… Não nos faça morar naquele lugar.
— Nosso acordo não é negociável. — Rick diz e por mais que me doa não poder ajuda-los me mantenho quieta, não discordaria da decisão de qualquer um deles.. — Ou vivem lá, ou vão embora.
— Eu te disse que seria perda de tempo. — O maior fala parecendo ter previsto o final da conversa. — São iguais aos desgraçados que atiraram nos rapazes. Sabe quantos corpos de amigos retiramos esta semana? Largamos seus corpos lá fora. Eles eram caras bons. Caras bons que nos protegiam dos caras realmente maus, como Tomas e Andrew. Todos cometemos erros que nos trouxeram aqui, chefe. E não viu fingir ser santo, mas acredite… Pagamos os nossos pecados. O bastante para preferir ir pra estrada, do que voltar pra aquela merda lá dentro.
Suas palavras mexem com a gente e vejo Rick se virar para Daryl pedindo opinião e o vejo discordar. Rick assente parecendo entender a negativa e então se vira para eles.
— Sinto muito. — Ele diz enquanto Daryl se aproxima dos dois e os encaminha novamente para a cerca.
— Sério? — Escuto Rick perguntar ao T, me fazendo desviar a atenção de Daryl. — Você os quer morando na cela ao lado da sua? Esperando uma chance para pegar nossas armas. Quer voltar a dormir com um olho aberto?
— Eu nunca parei de dormir assim. — Ele responde fazendo-o calar.
— Podemos deixar para resolver isso depois. — Digo chamando a atenção deles. — A criança pode precisar da nossa ajuda.
— Annelise tem razão. — Daryl diz se aproximando. — Deixamos isso pra resolver depois.
— Tudo certo lá? — Rick pergunta.
— Por enquanto sim. — Ele responde.
— Então vamos! — Rick diz andando até os carros. Logo Gleen e Maggie se junta a nós e vamos todos em um carro enquanto Daryl vai na frente com sua moto mostrando o caminho. Não sei onde essa estrada vai nos levar, mas sinto que nada mais será igual
Fale com o autor