Vivendo entre os mortos
12 Arrependimentos
Notas iniciais

Finalmente chego a prisão. A única coisa iluminando o caminho são os faróis da moto, gasolina estava quase acabando. Estava tão irritado que nem parei pra prestar atenção nesses detalhes. Se eu tivesse ido mais longe provavelmente estaria com problemas agora. Desacelero a moto pegando a besta e atiro em dois zumbis que estavam perto da passagem que fizemos na cerca. As carcaças podres caem no chão e eu me aproximo retirando as flechas de seus crânios. Passo a moto, e fecho a abertura novamente.
Estaciono a moto no mesmo lugar em que a deixei da última vez. Aquela criança ainda em minha mente. Algo me diz que não deveria te-la deixado lá, mas o que eu poderia fazer? Não conheço aquelas pessoas e muito menos estava preparado para entrar em confronto com ele. Desço da moto e arrumo a besta novamente nas costas.
Tiro a chave do bolso e abro as grades, trancando as em seguida. Tudo estava quieto e escuro. Mas vejo Carol para perto da porta, provavelmente fazendo ronda.
— Você demorou. — Ela diz.
— Precisava pensar. — Comento tirando a corda com a coruja das costas e entregando para ela.
— Parece que pelo menos pra alguém a noite rendeu. — Ela comenta e eu sinto certa acidez em seu tom de voz.
— O que quer dizer com isso? — Pergunto.
— Você fez uma das maiores burradas pós-apocalípticas da sua vida e não sabe? — Pergunta irônica.
— Não vejo o porque. — Digo começando a ficar irritado.
— Daryl, como teve coragem de dizer aquelas coisas pra menina?
— Falei o que ela precisava ouvir. — Respondo, mesmo sabendo que exagerei com ela. Carol respira pesadamente, como se estivesse esgotada.
— Você realmente acha que tratar alguém que coloca sua vida e sua segurança em risco por você, mesmo estando machucada, merece ouvir o que ouviu? Ou então, alguém que queira se arriscar sozinha fora desses portões para ir atrás de vocês mereça.
— O que quer dizer com isso? — Pergunto curioso.
— O que eu quero dizer com isso é que depois que você saiu, ela ficou por horas chorando sozinha lá fora na esperança de você voltar. Não deixou nem mesmo o Rick ajuda-la. E quando viu que estava anoitecendo simplesmente entrou no prédio do nada, e disse que ia atrás de você. Sabe o quanto foi dificil mante-la aqui dentro? — Ela fala e assustando. Como assim? Mesmo depois de tudo o que aconteceu hoje ela ainda se importa comigo ou isso é só fingimento de novo?
— Não posso fazer nada sobre isso. — Respondo, mesmo que por dentro minha cabeça esteja a mil.
— Daryl não faz isso com você. — Ela pede se aproximando de mim.
— Não estou fazendo nada. — Falo.
— Está sim. — Ela ressalta colocando sua mão sobre meu braço, me impedindo de simplesmente sair dali. — Sei que tudo antes não foi fácil pra você, também entendo que não queira falar sobre. Mas por favor, não deixe de poder viver algo especial porque seu passado não deixa.
— Meu passado não tem nada haver com nada. — Falo bravo querendo fugir do assunto. Não gosto de pensar sobre antes, na verdade preferia que nem tivesse acontecido.
— Não? — Ela indaga com um semblante pesado. — Você simplesmente não sabe diferenciar seus próprios sentimentos e por isso conseguiu magoar alguém que daria a vida por você.
— Sei muito bem o que eu sinto, e no momento é repulsa por ter sido enganado por tanto tempo. — Digo querendo que o assunto termine.
— Você não foi enganado Daryl, pelo menos não por ela. — Ela diz, me deixando ainda mais confuso. — Você está se auto enganado ao deixar o ciúmes falar mais alto do que seus sentimentos verdadeiros.
— Eu não estou com ciúmes de nada Carol. Sei muito bem o que eu vi. — Ressalto.
— Você quer que eu te conte o que você realmente viu? — Ela pergunta elevando em pouca coisa o tom da voz. — Você viu alguém que teve uma vida muito pior do que a nossa desde que tudo começou, você viu um irmão cuidando de uma irmã. Daryl, todos aqui amam e respeitam você demais. Nunca fariam nada para magoá-lo. Não sei exatamente o que viu, mas sei que tem uma explicação… Só tenta perceber. — Ela não deixa que eu fale nada e volta para seu posto, com a coruja em suas mãos.
Respiro fundo e paro na ponta da escada ponderando se subo ou não, por culpa da minha vontade de proteger Annelise eu acabei deixando-a se aproximar demais. Não sei o porque eu deixei as coisas chegarem onde chegaram. Isso não era comum para mim. Sempre fui e eu, principalmente depois que o Merle foi embora me deixando com nosso pai, se é que aquilo poderia ser considerado um pai. Estava mais pra um bêbado que teria morrido no próprio vômito se não me tivesse por perto.
Por mais que possam me considerar um monstro uns dos dias mais felizes que passei com aquele traste foi quando ele morreu. Na verdade foi até um favor, acho que se ele tivesse continuado vivo por mais algum tempo eu não aguentaria e eu não conseguiria me tornar um assassino. Depois que ele morreu as coisas melhoraram para mim, pensei que mudaria completamente mas aquela merda de vida nunca saiu de mim. Pra piorar aconteceram aquelas coisas e eu me perdi do Merle. Talvez nem esteja mais vivo. Na hora em que o Rick me falou que eles tinham deixado ele para trás eu nem sei o que eu pensei, só sei que eu me senti sozinho. Mais do que me senti a merda da minha vida toda. Talvez tenha sido por isso que Annelise se tornou tão importante pra mim em pouco tempo. Sua dependência por mim me fez sentir como se eu fosse importante, como se minha vida valesse alguma coisa pra alguém, mas aparentemente não foi bem assim.
Carol me deixou confuso com toda história. Ela realmente tentou ir atrás de mim? Rio de leve. Essa menina realmente não tem o mínimo de amor a vida.
Me preparo mentalmente para encará-la e subo as escadas. Agora, mais calmo, sei que falei coisas que não pensava, mas eu estava tão cego… Estava com tanta raiva. Não consegui ver mais nada além dos dois juntos e se abraçando. Algo em meu peito doeu ao vê-la em uma cena que era tão comum pra mim. Se brincar eu é que fui o idiota da história que viu coisas onde não tinham, igual Carol me falou. Não seria a primeira vez certo? Eu só sei ver as coisas do jeito errado.
Para a minha surpresa a cela está vazia e sem nenhum rastro dela. Deixo a besta encostada na parede ao lado da minha cama improvisada e entro em sua cela, depois da sua última crise pode ser que algo possa ter acontecido, mas para meu total desespero a cela estava vazia. Totalmente vazia, nenhum dos pertences da Annelise estavam na cela. Nem mesmo a sua mochila surrada. Mesmo que eu deteste, começo a ficar nervoso. Principalmente depois que a Carol me falou que ela tentou sair hoje. Desço as escadas rapidamente procurando por todos os cantos possíveis da prisão, até mesmo no banheiro.
Realmente fico nervoso quando não a encontro em lugar algum e corro para a cela de Rick, engolindo meu orgulho.
— Rick! — Chamo-o ofegante vendo-o dormir. — Rick! — Grito-o fazendo com que ele se levante rapidamente em alerta. Ele me olha alarmado e não dou tempo para que fale alguma coisa.
— A Annelise sumiu. — Conto. Ele franze as sobrancelhas e parece relaxar abaixando a arma.
— Ela não sumiu, estava com a Lori agorinha mesmo. — Ele conta, me acalmando.
— Ah! — É o que eu falo, ficando sem graça. Rick se senta novamente na cama e começa a falar me impedindo de sair.
— Já está mais calmo? — Ele pergunta. A cena de mais cedo ainda me incomoda mas concordo. — Sabe que você foi um completo idiota certo? — Ele pergunta me fazendo franzir o cenho.
— Provavelmente. — Respondo a contra gosto. A cena ainda me incomoda, mas também estou ciente de que acabei falando muitas coisas que não deveria para ela.
— Isso é bom. — Ele diz. — Pelo menos é um primeiro passo. Mas sabe que vai ter que ralar muito pra conseguir que ela te perdoe, certo?
— Eu sei. — Respondo. — É só que naquela eu… eu.
— Você se deixou levar. — Ele me interrompe e eu concordo, não achando palavras melhoras.
— É, acho que sim.
— Isso é normal, não se preocupe. — Ele diz se encostando na cabeceira da cama. Com um pouco de esforço tome coragem para realmente resolver as coisas de maneira clara, mesmo isso nao sendo do meu feitio.
— Sobre o que eu falei mais cedo, sobre o Shane…- Começo a me desculpar.
— Eu sei. Tá tudo bem. — Ele diz. — Não fiquei feliz, confesso. Mas Daryl, você é um irmão pra mim, é da família. Nunca faria nada que te magoasse. — Ele diz me deixando envergonhado e sem reação. Realmente acho que posso ter exagerado.
— Desculpa. — Peço, mesmo que seja difícil. É a única coisa que consigo falar no momento.
— Esquece isso Daryl, tá tudo bem. Mas já que você tocou no assunto, quero falar sobre o que viu mais cedo. — Ele fala. Por mais que me incomode gosto da ideia e com certeza não irei impedi-lo. — Quando eu fui fazer a minha ronda na parte de tras acabei a encontrando dormindo no chão. Parecia que ela tava tendo algum tipo de pesadelo, mas ela não acordar e se remexia muito. Sinceramente eu fiquei muito preocupado com ela. Ela simplesmente não acordava. Ela chamou por você. — Ele conta fazendo meu coração errar um compasso e mais uma remessa de culpa me alcançar. — Chamou muito por você, na realidade. E então ela começou a pedir que a soltasse, alguma memória do passado, presumo. Só então ela conseguiu acordar. Foi isso que estavamos do jeito que você me encontrou. Depois que ela se acalmou um pouco, eu tentei destrai-la falando sobre você. Na verdade falei que te chamaria para ser o padrinho do bebê junto com ela. — Novamente outro baque forte de culpa me alcança. — Sabe que pra mim, não existe pessoa em quem confiaria mais meu filho do que a você.
— Eu… Rick, eu não sei o que te falar. — Eu tento buscar as palavras mas nada me vem à cabeça. Eu realmente sou um babaca idiota.
— Vou aceitar isso como um sim. — Ele diz rindo. Não nego. Na verdade, minha cabeça está como se fosse o limbo. Não consigo mais raciocinar logicamente. Simplesmente concordo. Mas então eu me lembro dela e uma nova preocupação vem a minha mente.
— Rick, preciso da sua ajuda. — Peço, alertando-o novamente.
— O que aconteceu? — Ele pergunta sentando-se direito.
— Depois de tudo eu resolvi dar uma volta. — Conto envergonhado. — Nessa ida eu acabei indo cerca de 120 quilômetros ao sul e eu encontrei uma casa. Tem uma menininha lá, parece que só tem ela e o pai. Mas Rick, tem algo errado lá. Eu sei.
— Conseguiu ver o pai? — Ele pergunta sério.
— Consegui. Ele nem viu que a menina saiu, ela estava caçando na floresta sozinha. Acho que ele nem deve alimentá-la direito. — Conto lembrando da cena da pequena espalhando as folhas com o graveto.
— Veremos isso assim que amanhecer. Deixarei eles em alerta. — Ele diz decidido e eu agradeço. — Porque não vai descansar? Deve estar cansado da viagem e vai ter um longo dia amanhã com a Annelise. — Ele diz me fazendo suspirar. Infelizmente sei que é verdade. Mas eu fui o idiota que estragou tudo, então eu irei consertar. Só de pensar que realmente posso ter ferido-a de algum modo me devasta.
— Até amanhã. — Concordo e digo ao me afastar e subir para o poleiro, me jogando na cama.
Não faço ideia de por onde começarei a me desculpar, mas sei que farei o possível para que ela me desculpe. Sinceramente, mesmo que ainda estivesse cego, não sei como conseguiria seguir se não a tivesse por perto mais uma vez.
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