Notas iniciais
New wave, revistas em quadrinhos e fotos da infância



Sam estava arrumando o sótão da casa de Bobby. Revirou móveis velhos, objetos antigos danificados, armas defeituosas, livros amarelados e esfarelados. E entre os diversos trastes e lixo mantidos estocados — quem diria que Bobby era um acumulador? — ele encontrou uma caixa grande o bastante para caber um chapéu de cowboy. Dentro dela ele encontrou fotos antigas de Dean, seu irmão.


As fotos mostravam Dean aos 10 anos, ele e Sam bem pequenos, Dean e seu pai, Dean e Bobby. Era o tipo de foto que se tira em eventos, como aniversários ou formaturas da escola. Dean parecia feliz e ingênuo. Não havia ainda aquele olhar de caçador mortal e eficiente. Era só um menino comum. Sam ficou emotivo com essas fotos e resolveu manter a caixa de papelão para si.


Ele terminou de arrumar a garagem de Bobby e jogou fora o entulho velho. A garagem ficou espaçosa e mais organizada. Ele foi então para o quarto dos fundos que ocupava com Dean, quando se hospedavam com Bobby. Remexeu nas coisas da caixa de memórias. Havia além das fotos, fitas de músicas antigas, mullet rock, new wave e sinth rock. "Adivinho a cara do papai ao ouvir essas músicas. Dean deve ter sido castigado por tamanha falta de gosto musical".


Havia também revistas em quadrinhos, em estilo antigo, em um berrante colorido new wave. Eram as revistinhas em quadrinhos do menino Dean Winchester. "Imagino quando foi que Dean deixou de ser criança para se tornar um caçador. Deve ter sido bem cedo, aos 10 anos. Meu mano merecia ter tido uma infância normal". Sam esfregou os olhos pois eles começaram a arder.


Ele estava assim, folheando gibis antigos e ouvindo uma fita cassete da banda "A-ha", quando Dean entrou no quarto. Ele observou a caixa velha de papelão, o monte de fotos antigas espalhadas e seus antigos objetos pessoais.


– Bobby lhe disse para jogar o lixo fora, e não para guardar quinquilharias. — Dean falou seco.


– Memorabilia. — Sam o corrigiu calmamente.


– O que seja. Isso tudo não tem serventia. Não sou mais criança e nem tenho saudade desse tempo.


– Tudo isso tem um valor inestimável. Essa foi sua vida, Dean. Nossa vida. Vê? Eu também estou em algumas fotos.


Dean apanhou a foto que mostrava ele e Sam pequeninos, sorridente e gordinhos. Sorriu e sentou-se na cama ao lado de Sam.


– Você era tão ... gorduchinho. Eu já te via como minha responsabilidade. Era também meu bichinho de estimação.


Sam riu afetado.


– Ainda bem que você sempre foi bom com os animais.


– Estou brincando. Eu sabia a diferença entre Toto e Sammy.


– Ao menos você foi feliz nessa época, Dean.


– Nós fomos felizes. Veja como você era um bebê sorridente.


– Sim, porquê você tomava conta de mim. Depois que mamãe morreu, você assumiu o papel de pai e mãe pra mim.


– Não dramatize, papai estava presente, na maior parte do ano.


– É? E por que suas fotos da infância estão na casa de Bobby?


– Bobby gosta de guardar coisa velha.


– Porque papai nos deixava com outras pessoas enquanto ia caçar. Bobby, Pastor Jim, Missouri... Deus sabe quantas pessoas doaram seu tempo para cuidar de nós, como um favor a papai, ou por pena dos meninos órfãos.


– Não seja tão duro com papai, Sam. Ele nos amava. A morte de mamãe o traumatizou. E ele nunca nos deu para adoção. Fez questão de nos manter com ele, pro melhor e pro pior.


Sam se calou. Começou a arrumar as fotos metodicamente na caixa, junto com as fitas cassete e os gibis.


– Esse gibis são tão velhos... Esse aqui eu me lembro perfeitamente do dia que o comprei. Foi o mesmo dia em que dei uma surra naquele encrenqueiro que lhe roubou. Você se lembra?


Sam nada respondeu, apenas olhou para Dean significativamente.


– E este aqui, eu adquiri depois que economizei três meses de dinheiro do ônibus. Você lembra? Eu usei parte do dinheiro para lhe comprar uma bicicleta... Não estou me vangloriando, é só uma lembrança. — Dean falou encabulado.


Num impulso, Sam se atirou sobre ele e o abraçou de banda, sem jeito. Enterrou a cara na nuca de Dean e tentou conter as lágrimas.


– Que é isso, Sam? Sem frescura de garotas, ok? — Dean falou emocionado e tentando se controlar também.


Sam resolveu se afastar e enxugou as lágrimas na manga da camisa.


– Que maricas! Você sempre foi um chorão... — Dean falou com a voz embargada, já com as lágrimas escorrendo na face.


– Olha quem está falando! Estúpido! — Sam falou sorrindo.


– Puto! — Dean respondeu com um sorriso.

canção: Take on me (A-Ha)

We're talking away
I don't know what I'm to say
I'll say it anyway
Today's another day to find you
Shying away
I'll be coming for your love, OK?

Chorus:
Take on me
Take me on
I'll be gone
In a day or two

So needless to say
I'm odds and ends
But I'll be stumbling anyway
Slowly learning that life is OK
Say after me
It's no better to be safe than sorry

Chorus

Oh the things that you say
Is it life or just to play my worries away
You're all the things I've got to remember
You're shying away
I'll be coming for you anyway

Chorus