Viva la vida

5 Beautiful day


Notas iniciais
Sammy conhece um rapaz libertário com grande imaginação.



– Poderia se levantar e dizer seu nome, meu jovem?


– Paul David Hewson, Senhora.


– De onde você vem, Paul?


– Dali e acolá, Senhora. Realmente lugar nenhum, pois minha família vive se mudando de tempos em tempos.


– Espero que se adapte bem em nossa comunidade, Paul. Pode se sentar.


Paul Hewson, o novo estudante transferido no meio do ano, tal qual Sammy Winchester. Provavelmente também não iria se demorar naquela cidadezinha. Sammy conhecia bem essa rotina nômade, sem paradeiro, sem um lugar fixo para chamar de seu, dependendo do humor de seu pai e uma nova caçada sobrenatural.
Sammy o observou. Olhos vivos, curiosos, impertinentes. Uma postura blazè de quem não se importa tanto com coisa nenhuma, pois sabia que nada daquilo era permanente. Igual a ele mesmo. Por um momento, Sammy considerou que talvez ele fosse filho de caçadores também. Não, isso seria sorte demais. Não haveria dois garotos órfãos de mãe, com um pai metido a militar, sendo arrastado por aí numa existência perigosa e sofrida.


– Oi! Eu me chamo Paul, e você?


A oferta da mão estendida diante de si o pegou de surpresa. Sammy titubeou um pouco, mas resolveu apertar a mão do outro garoto e até forçou um sorriso para ele.


– Sam Winchester. Prazer em conhecê-lo!


– Tudo bem se eu sentar aqui?


– Fique à vontade, cara.


O novo garoto sentou-se a seu lado na hora do almoço. Comeu pouco. Ficou observando tudo e todos, mas era como se ele não estivesse ali, mas em outro lugar. Talvez uma outra dimensão.


– Você parece que está em outro lugar. Bem distante do "Colégio George Washington". — Sam comentou baixinho. Tinha medo de chatear o outro garoto.


– E estava. Já conheceu o Grand Canyon, Sam?


– Não, mas ... tenho certeza que um dia irei lá.


– Sabia que neva lá? — Paul perguntou com um meio sorriso, sem olhar para Sam, como se estivesse contando uma anedota ou lembrando uma estripulia.


– Não? Lá é deserto. Não imaginei que nevasse, mas... é possível.


– Pois é! Seis da manhã e o saco de dormir fica incômodo. Você tem que esvaziar a bexiga, mas está frio demais. Então você caminha até a beira do abismo e fica admirando aquela maravilha da natureza sendo banhada pelo seu xixi.


– O que...? Você tá inventando isso... — Sam sacudiu a cabeça mas não conseguiu evitar de rir.


– E você, Sam, já viajou muito por aí?


– Um pouco dali e daqui. Como você mesmo falou pra professora.


– É. Meu velho é militar. Ele não para em canto nenhum. Nós viajamos um bocado.


– Isso é horrível, cara.


– Não! Eu até gosto. Conheço diferentes pessoas, cidades, outras realidades, diferentes colégios...


– Você não sente falta da normalidade?


Paul se espreguiçou na cadeira e empurrou a bandeja de comida para o centro da mesa.


– Sabe o que é Sam, a vida é curta e o mundo é enorme. Eu tenho que conhecer tudo isso. Tenho que aprender, saber... eu não conseguiria ficar parado por muito tempo num mesmo lugar. Sejamos cidadãos do mundo, Sam.


– Nós somos adolescentes, não temos que sair por aí tentando viver tudo num instante. Isso é idiotice.


– Ok! — Paul ergueu as mãos em sinal de rendição. Pegou sua bandeja e a levou para o dispensário de comida.


Sammy ficou aflito. Ele não quis ofender seu novo colega. Deveria se aproximar e pedir desculpas. Talvez ele voltasse a falar consigo. Sammy abaixou a cabeça e mordeu a própria bochecha por dentro. Seria melhor deixar as coisas seguirem seu curso normal. Nada de amigos. Logo logo ele teria que ir embora novamente. Seria melhor não sofrer por deixar esse colégio e os possíveis amigos que fizesse.



No dia seguinte, Paul sentou-se em outra mesa e logo estava conversando animadamente com o grupo de nerds do colégio. Sammy sentiu uma pontinha de ciúmes. Deveria ter sido ele a partilhar as lorotas do colega, mas ele tinha que ser tão antissocial? Resolveu persistir na sua introspecção e mutismo, mas de vez em quando olhava de soslaio para o outro.


As aulas transcorreram modorrentas e pouco instigantes. De quando em vez, um ou outro professor brilhava, tentando captar a atenção dos alunos e transmitir um pouco de conhecimento. Sammy mergulhava na leitura dos livros, e procurava compensar o parco apelo do aprendizado com uma metódica luta para assimilar tudo o que podia. Por um momento o raciocínio de Paul fez sentido.


–Oi? Você se incomoda se eu sentar aqui? — Paul perguntou com uma expressão tímida no rosto.


Sammy se limitou a puxar a cadeira da mesa da biblioteca para o outro sentar. Paul aquiesceu. Tirou um livro da bolsa e mergulhou na leitura, sem dar maior atenção a Sammy. Este o observou tristemente por alguns minutos até que resolveu quebrar o gelo.


– Desculpe pelo outro dia. Foi mal. — Sammy se desculpou.


– Tudo bem. Já esqueci.


– Você tem razão. Em querer conhecer tudo que puder. As pessoas de modo geral não nos dão muita chance de fazermos o que queremos.


Sammy tentou ser o mais diplomático e honesto que pôde. Então se calou e retomou a leitura de seu livro. Ele não viu o olhar amistoso de Paul e o sorriso que enfeitou o rosto do outro, o tempo todo em que este permaneceu na biblioteca. Voltaram a ser amigos depois disso.


Paul discorria livremente sobre suas andanças. Verdadeiras e imaginárias. Sua viagem à China. A pesca de atum em mar aberto. A fogueira dos beduínos à noite. Os campos petrolíferos na primeira luz da manhã. Revoada de pássaros no monte Ararat. As águas das monções na Índia. As cerejeiras em flor no Japão. E o Grand Canyon imerso em nuvens.


Tudo era maravilhoso e épico. Sammy nunca imaginou o ambiente ao redor como algo fabuloso, miraculoso, digno de admiração e respeito. Nunca se imaginou cidadão do mundo, com toda a responsabilidade que essa palavra trazia embutida dentro de si. Na prática era algo parecido com o que sua família fazia. Salvar pessoas, caçar coisas ruins. Só que Paul se permitia ir além. Ele abraçava o mundo todo como seu lar, e consequentemente a população mundial como sua própria família. Esse conceito era algo grande.


– Sério, pra onde você vai depois dessa cidade? — Sam perguntou uma tarde.


– Provavelmente Abilene. Ainda não a conheço, mas tenho certeza que contarei belas estórias sobre esta cidade no futuro. — Paul respondeu pensativo.


– Você deveria ser um político. Pelo menos um melhor do que os que existem por aí. — Sammy falou jovial.


– Pensei que você fosse meu amigo. — Paul falou sério, para depois rir da cara espantada de Sammy.


– Por um momento pensei que tinha atingido um nervo. — Sammy falou aliviado.


– Não... eu nunca seria um político. Não tenho estômago para isso, mas nada impede que eu trabalhe em a favor dos meus sonhos e do planeta Terra, não é?


– Talvez... talvez não nos vejamos mais, pois minha família também viaja um bocado. E ... eu não tenho a mínima ideia do próximo lugar para onde vamos.


– Sim, eu sei. Mas veja, Sam... o mundo é um lugar imenso e bonito. As pessoas ao nosso redor também procuram ser felizes. Elas se preocupam em viver cada dia de cada vez, aproveitando ao máximo a beleza que é estar vivo. Vamos então aproveitar este lindo dia? Que tal um passeio na represa da cidade?


– Vamos então!



Beautiful day (U2)

The heart is a bloom
Shoots up through the stony ground
There's no room
No space to rent in this town

You're out of luck
And the reason that you had to care
The traffic is stuck
And you're not moving anywhere

You thought you'd found a friend
To take you out of this place
Someone you could lend a hand
In return for grace

It's a beautiful day
Sky falls, you feel like
It's a beautiful day
Don't let it get away

You're on the road
But you've got no destination
You're in the mud
In the maze of her imagination

You love this town
Even if that doesn't ring true
You've been all over
And it's been all over you

It's a beautiful day
Don't let it get away
It's a beautiful day

Touch me
Take me to that other place
Teach me
I know I'm not a hopeless case

See the world in green and blue
See China right in front of you
See the canyons broken by cloud
See the tuna fleets clearing the sea out
See the Bedouin fires at night
See the oil fields at first light
See the bird with a leaf in her mouth
After the flood all the colors came out

It was a beautiful day
Don't let it get away
Beautiful day

Touch me
Take me to that other place
Reach me
I know I'm not a hopeless case

What you don't have you don't need it now
What you don't know you can feel it somehow
What you don't have you don't need it now
Don't need it now
Was a beautiful day