Viva la vida
6 Viva la vida
Notas iniciais
Era destino que o local escolhido fosse uma igreja. Pequena, de vitrais antigos e uma pequena torre com sino. Talvez, na época de sua construção, quando era novinha em folha, fosse mais bonita e agradável. Agora com as paredes descascando e manchas de infiltração disseminadas em cada canto, a igreja não parecia mais tão acolhedora. Ela lembrava decadência e abandono. O local ideal para o antigo rei do inferno ser recepcionado e mantido prisioneiro.
Fergus Roderick McLeod sempre fora um homem sortudo. Sobrevivera até os 50 anos, quando a média de idade em sua cidade era no máximo 35 anos, isso se não houvesse guerras, epidemias, ou um mequetrefe não quisesse roubá-lo, e para tanto lhe tirasse a vida. Ele fora um homem esplêndido no vigor de sua mocidade...
– Hum-hum! — Sam pigarreou.
– O que? Minha estória não lhe agrada? — Crowley sibilou, com os dentes cerrados.
– Menos, Crowley. Não precisa enfeitar essa estória. Nós já a conhecemos.
– É de bom tom que não interrompa seu convidado quando ele está contando a estória de sua vida. — Crowley arqueou as sobrancelhas enquanto fazia um muxoxo.
– Tá bem! Que tal a verdade nua e crua? Eu prefiro mais esse jogo.
– A verdade nua e crua não tem glamour. Não tem glória. Não tem verniz. Afinal eu fiz jus a tudo isso. Eu. sou. o rei. do inferno.
– Por muito pouco tempo, agora.
– Só porque você pensa assim. No fim você vai fazer o que? Me destruir? Já passei por tudo isso, centenas de vezes. No final eu ressurjo das cinzas como uma fênix. E você, meu caro Jolly Green, não está habituado aos baques e rasteiras que a vida lhe prega. Você está se acabando.
– Infelizmente nós Winchesters sempre ressurgimos dos mortos, também. Isso já está ficando cansativo. — Sam baixou a cabeça e pareceu pensar com seus botões.
– Não quer saber minha verdadeira estória? Pois bem, irei sumarizar. Eu mandava no mundo, regulava as navegações, decidia o destino das pessoas ao azar. Tive castelos, reinos, haréns e jardins do Éden. Comandei tropas, estive nos altos postos da igreja católica, estive na guarda avançada de invasão e pilhagem. Imagine você, eu matei pela fé cristã. Meus inimigos me temiam e desejavam minha morte. Exigiram minha cabeça diversas vezes, e algumas vezes eu balancei na ponta de uma corda, mas era o risco que eu corria, sendo o rei da danação.
Sam bateu palmas sarcástico.
– Não me ofenda, alce. Você é um infiel, mas sabe o que é mais irônico? Eu gosto de vocês. Alceu e Dentinho, meus rapazes favoritos entre os caçadores. Eu adoraria brincar com vocês no inferno.
Sam gracejou.
– Você é horrível, Crowley. O mais triste de tudo, é que você poderia ter se salvado, quando ainda era Fergus McLeod. Poderia ter levado sua vida miserável e medíocre pelos 35 anos que lhe era de direito. Mas não, o orgulho e ganância falaram mais alto. Você tinha que vender a porra da sua alma para um mercador de meia-tigela.
Crowley semicerrou os olhos e deu de ombros.
– Ela.
– O que?
– A mercadora de meia-tigela. Sabe como é, naqueles tempos não havia tanta homoafetividade como agora. — Crowley piscou para Sam.
– E você se acha o maioral por causa disso? Sente orgulho da sua carreira chafurdando na escória do inferno?
– E não deveria, Jolly Green? Após a prisão de Lúcifer, a morte de Lilith, a destruição de Azazel, etc, etc, e etc. Sobrou apenas eu. O único com conhecimento de causa e pulso forte para controlar aquela horda de condenados.
– Você tem que concordar que já é hora de sair de cena. Já é hora de descansar, Crowley. Até o rei da danação tem que ter um fim.
– Fale por você mesmo.
– Você não sente ... saudade ... do tempo em que era um simples ser humano? Quando sua única ambição era ser um feliz pai de família?
Crowley piscou e fez um muxoxo.
– Bem... isso já passou. Não se pode ter tudo, afinal de contas, e a ingenuidade perdida não volta mais.
Sam pareceu absorver as palavras de Crowley e ficou em silêncio.
– Você acha mesmo que um homem... uma entidade como eu, que já dominou demônios, exterminou nações, chacinou famílias, extinguiu toda a chama de esperança dos seres humanos ... Você acha que alguém como eu pode voltar a ser o que era em seu primórdio? Isso é impossível, alce. Quem lhe disser que isso existe está mentindo.
– Segundo os homens de letras isso é possível, e eu tenho como prová-lo.
– Você é um tolo. No fim eu voltarei a ser o que sempre fui.
Sam levantou-se e pegou o material do exorcismo. Retirou seu sangue com a seringa antiga e depois foi até onde estava Crowley, manietado em uma cadeira de tortura. Sam injetou o sangue da seringa no pescoço do demônio. A seguir recitou a ladainha de exorcismo. Crowley começou a suar e a ranger os dentes. Após o ritual, Sam foi se sentar. Estava exausto.
– Viu? Eu lhe disse que isso não ia adiantar. — Crowley gracejou, ainda trêmulo e banhado em suor.
– Mais algumas sessões e o processo do ritual termina.
– Pelo seu estado, eu lhe garanto que você vai desmaiar antes que consiga algo de mim.
– Eu sei. — Sam franziu o cenho. — Parece até que você quer que eu tenha sucesso. Estranho.
– Não estranhe. Eu só estou curioso. Quero ver se você consegue me destruir.
– Você deseja voltar a ser humano... ? É isso mesmo? O rei do inferno anseia por ter sua humanidade de volta?
– Não abuse da sorte, alce.
Algumas injeções depois, Crowley estava descontrolado. Uma mágoa forte lhe oprimia o peito. A sensação de abandono, perda e incompletude o aturdia e o fazia chorar.
– Sam, Sam... eu mereço ser amado... como todo mundo na terra ou no inferno. Eu... eu não quero mais sofrer... Por favor, Sam.
Sam Winchester, suado e mortalmente extenuado, com o pouco de resistência física que ainda possuía, iniciou o exorcismo final. Talvez ele não durasse muito depois daquilo tudo. Todas as provações que ele de bom grado se submeteu pelo bem maior, para lacrar os portões do inferno, exigiam um alto preço, sua própria vida. Ele e Crowley estavam no fim. O ex-rei do Inferno voltaria a sua singela humanidade e o caçador de demônios poderia partir desta para uma melhor.
canção: Viva la vida (Coldplay)
I used to rule the world
Seas would rise when I gave the word
Now in the morning I sleep alone
Sweep the streets I used to own
I used to roll the dice
Feel the fear in my enemy's eyes
Listen as the crowd would sing
"Now the old king is dead! Long live the king!"
One minute I held the key
Next the walls were closed on me
And I discovered that my castles stand
Upon pillars of salt and pillars of sand
I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can't explain
Once you're gone there was never
Never an honest word
But that was when I ruled the world
It was the wicked and wild wind
Blew down the doors to let me in
Shattered windows and the sound of drums
People couldn't believe what I'd become
Revolutionaries wait
For my head on a silver plate
Just a puppet on a lonely string
Oh who would ever want to be king?
I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can't explain
I know Saint Peter won't call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world
Woahahahah oh, woahahah oh
Woahahahah oh, woahahah oh,
Woahahahah
I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can't explain
I know Saint Peter won't call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world
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