Viva la Vida
6 Dance Dance
Notas iniciais
"Dance, dance
We're falling apart to half time
Dance, dance
And these are the lives you love to lead
Dance, this is the way they'd love
If they knew how misery loved me"
Maya
No dia seguinte, acordo como se diversos flashes estivessem pipocando nos meus olhos, e caio da cama de novo.
Sério, eu tenho que parar com isso.
Ouço um barulho alto do outro lado da porta divisória do meu quarto, o que provavelmente indica que Henrique também caiu da cama, mas então ele parece cambalear pelo quarto dele e abre a porta divisória, metendo a cabeça no meu.
—O que que a aconteceu? — ele pergunta, bem atordoado, com o cabelo todo bagunçado.
Luto pra me livrar das cobertas e levantar do chão.
—Não foi nada, só caí da cama de novo — resmungo, jogando as cobertas em cima da cama e pensando que depois vai ficar difícil para organizar aquilo tudo.
Henrique só olha para minha cama bagunçada com uma careta (ele tem TOC e odeia tudo o que esteja desarrumado) e fala:
—É, pois é, minha cara também foi de encontro ao chão agora há pouco.
Rio dele e vou para o banheiro, pegando meu uniforme no caminho.
Ainda é terça, o último dia de "folga" do Henrique, mas como a Charlie vai brincar na casa de uma amiga (sim, com cinco anos a menina já tem uma vida social mais agitada que a minha), ele vai ficar livre e disse que quer dar uma estudada.
Que irmão esforçado eu tenho.
Depois de tomar um banho rápido e fazer minha higiene pessoal, saio para meu quarto e vejo Henrique dormindo na minha cama.
Pego o celular, digito "É o Tchan" no YouTube, aumento o volume e coloco o celular grudado ao ouvido dele.
Dou o play.
Faço uma careta com o barulho que sai do meu celular, mas vale a pena, porque Henrique dá um pulo na cama, acordando, e tampa os ouvidos.
—Mas que po... — ele nota minha presença e retoma a regra dele de não falar palavrão na minha frente: — porcaria!
Rio que nem uma hiena e ele olha para mim com uma expressão que me dá arrepios.
—Aprenda a não dormir na cama dos outros! — digo, enquanto saio do quarto e desço para o andar de baixo, sendo acompanhada pelo olhar fuzilante dele.
Nico hoje está sentado no sofá.
Na verdade, sentado não é uma palavra muito adequada, já que ele está jogado lá com os tênis e tudo, aparentemente hibernando.
O cutuco, porque dá pra ver que ele dormiu lá sem querer enquanto tomava o café (tem comida num prato que está no braço do sofá).
Nico não acorda.
Faço cócegas nele, ele não se mexe.
Assopro na cara dele, mas não dá resultado.
Como já tá todo mundo acordado mesmo, pego meu celular e meto no ouvido dele, dando o play em "É o Tchan" pela segunda vez no dia.
—Merda! — Nico pula do sofá, se pondo de pé, e então me olha assustado.
Dou de ombros.
—Você pegou no sono e eu não conseguia te acordar, então usei essa técnica milenar utilizada para acordar indivíduos em coma de sono — exagero. Nico pega meu celular, dando play na música de novo e a ouvindo.
Realmente, ouvir "É o Tchan" três vezes dentro de cinco minutos nas primeiras horas da manha não estava nos meus planos de hoje.
Ele me pede, meio escandalizado:
—O que que é isso?
Explico pra ele que é uma música popular no Brasil e que tem uma dancinha particular.
Dou uma rodadinha para enfatizar.
Ele me olha como se tudo fizesse sentido, e vamos para a cozinha para terminar de comer antes de irmos para a escola.
•••
No intervalo da minha quarta para minha quinta aula da manhã, vou até meu armário para pegar meu material, que eu tinha esquecido mais cedo.
Algumas pessoas que têm aulas comigo sorriem para mim quando me veem, e eu retribuo o gesto.
De repente, as pessoas começam a se afastar do centro do corredor, e me pergunto o motivo.
O garoto loiro, Walker, passa andando pelo meio do corredor, usando jaqueta de couro e fones de ouvido com uma música rápida e alta, e nem nota a comoção que causou.
Depois que ele passa, nem percebendo que todo mundo no corredor abriu caminho para ele e que o encaravam, as pessoas ainda o observam virar no fim do corredor.
Uns meninos cochicham enquanto o encaram e algumas meninas parecem meio nervosas perto dele, mas logo a movimentação já vota ao normal.
Me pergunto o porquê de tudo isso.
Parece que o cara é alguma espécie de lorde de mil e trocentos anos, mas ele é só mais um aluno. Meio sombrio e misterioso, admito, mas só mais um aluno.
Confusa, termino de tirar as coisas do meu armário e o fecho, seguindo para a próxima aula.
•••
Quando estou na frente da porta da sala da aula de História, quase entrando, alguém vem correndo e põe as mãos nas minhas costas para parar e adquirir equilíbrio.
Viro e me deparo com Aya, agora com as mãos apoiadas no joelho, respirando ofegante enquanto tenta falar:
—Eu... Não vou poder ir pra aula de História agora... Tenho que resolver umas coisas — ela fala com dificuldade e estranho, porque Aya é daquelas intelectuais que nunca faltam aula.
Sem querer sem intrometida, peço apenas:
—É algo grave?
—Ah, não — ela diz, olhando para mim sorrindo meio vacilante. — Não se preocupe, depois te falo.
Concordo e ela se manda, correndo na direção oposta ao mar de alunos que se move em direção às salas de aula. Dou de ombros e entro na sala.
Escolho um dos únicos lugares vagos. No fundão.
Então tá né.
Vou até minha carteira e me sento.
Dou uma breve olhada ao redor pra checar geral: tem um menino negro ao meu lado, muito compenetrado em escrever algo no caderno, um cara com pele bronzeada e cabelos cor de areia atrás de mim, que sorri quando olha para mim, uma menina loira de aparência esnobe ao meu lado (ui, credo) e, na minha frente, tem aquela garota ruiva punk de ontem.
Ao olhar para ela, decido que devo acrescentar "emo" à lista de adjetivos que a definem.
Ela ainda está vestida toda de preto, mas com estilo, e bate os coturnos pretos surrados no chão ao ritmo de "Misery Business" do Paramore, que toca em seus ouvidos.
Como gosto muito da música, a acompanho fazendo a batida da música com meus tênis no chão.
Sei que ela tá ouvindo Paramore porque, sério, no volume que a música está, não duvido que os chineses consigam ouvi-la como um eco distante.
De repente, um homem entra na sala, com uma blusa de abotoar e calça jeans, naquele estilo intelectual que alguns caras têm.
Ele sorri amplamente para a turma e quase sinto um ventinho vir em mim, de tanta menina que suspira.
Eu hein.
Não que o professor não seja bonito, ele é bem fofo, mas, tipo, ele é nosso professor. Respeito, mas não compreendo.
—Bom dia, turma! Meu nome, pra quem é novo ou não se lembra, nunca se sabe, é Marcos, mas vocês me chamam de Mark porque é mais fácil e etecetra. — ele sorri de novo. — Vejo que temos uns rostinhos novos aqui.
Depois que ele fala isso, me encolho, porque não quero geral olhando para mim se ele comentar do meu intercâmbio.
Nunca se sabe, talvez ele saiba.
Quando ele pede para os alunos novos ficarem de pé e se apresentarem, quase cavo um buraco no chão e meto a cara.
Depois da aula de Biologia de ontem, eu não tive que me apresentar mais nem nada do gênero, e eu, ingênua, achei que essa coisa de "oi, meu nome é Júlia, venho de Wakanda e ninguém que saber, blá blá blá" já tinha acabado.
Alegria de pobre dura pouco.
Pelo menos não sou só eu que vou me apresentar pra turma.
No estresse, começo a criar minhas paranóias na cabeça, do tipo "misericórdia, eu vou esquecer como se fala isso em inglês".
Trato de tirar os pensamentos indesejados da mente e me acalmar, afinal é só uma apresentação.
A garota de aparência esnobe ao meu lado empina o nariz e fala que veio da Royal não sei o que, aparentemente uma escola em que ela estudou, e todo mundo parece impressionado.
Minha reação é neutra, até porque não entendi porcaria nenhuma do que ela falou com o sotaque carregado e a voz afetada, então só faço cara de paisagem até chegar minha vez.
—Meu nome é Maya, tenho dezessete anos e sou intercambista do Brasil. — digo para ninguém em particular, olhando para o professor porque ele parece amigável com aquele sorriso na cara.
Seu rosto se ilumina e me desce um nervoso.
—Brasileira! Seja muito bem-vinda, Maya — Mark, o professor, fala. Ele diz a última frase em português, e é aí que eu não entendo mais nada mesmo.
O moço negro ao meu lado vê minha cara de confusão e só explica:
—Mark é do Chile.
Bem, isso não explica muita coisa, já que no Chile eles falam espanhól, não português, mas concluo que Mark deve ter aprendido nossa língua em algum momento da vida.
Sorrio para ele diante da demonstração de apoio, meio vermelha, e, sério mesmo, procuro uma pá no chão para cavar um buraco e ver se eu acho o reino subterrâneo de Alice no País das Maravilhas pra passar umas férias.
Entretanto, logo me distraio da minha vergonha e dos suspiros que as meninas dão enquanto Mark explica a matéria, porque Walker, o Loiro, passa na frente da nossa porta.
Não sei o que me chama a atenção, e não consigo ver muita coisa porque a janelinha da porta é pequena, mas tenho quase certeza que vejo mais alguém com ele.
Me pergunto o quê aquele cara está fazendo fora da aula uma hora dessas, mas logo depois decido que não é da minha conta e deixo pra lá, voltando a prestar atenção na aula.
•••
De tarde, depois das aulas e tal, estou correndo pelo colégio para encontar Aya no rinque de patinação.
Alguns minutos antes ela me mandou uma mensagem assim:
Oiii, voltei. Estou no colégio e, espero que se lembre, hoje começam as aulas de patinação. Eu falei ao clube de leitura, mas agora já estou aqui. Te encontro no rinque às dez pras quatro, que é quando a aula começa. Beijos de luz.
Anexado, estava um mapa do colégio indicando onde é o tal do rinque de patinação.
Corro pelos corredores sem o Nico, aquela criatura se mandou para a aula de basquete e me deixou, dizendo que eu "preciso ser mais independente e aprender a me locomover sozinha".
Minha mão é que vai se locomover sozinha em direção à cara dele quando eu encontrá-lo.
Aonde já se viu, agora eu me perco aqui e me trancam na escola de noite porque ninguém sabe que estou dentro e...
Ok, vou parar com o drama porque já tô parecendo o Henrique.
Logo quando já estou a ponto de ligar pra Aya vir me ajudar a chegar no bendito do rinque, esbarro com a menina ruiva dos punk rock.
—Oi! — digo, meio desesperada por ajuda.
Ela para quando me vê, me analisando. Fico meio incomodada, mas deixo quieto.
—Hã, você pode, por favor, me ajudar a chegar no rinque de patinação? Eu tenho aula e sou nova, então meio que me perdi.
Ela me analisa mais um pouco.
—Você é aquela garota que estava com o Long ontem. — afirma ela então, e demoro um pouco pra processar que ela se refere ao Nico.
—Ah, sim, sim. Nico é meu irmão de host-family — explico, porque ela não fala mais nada.
—Não gosto dele — ela diz simplesmente, mas não vai embora.
—Hã, ele é bem legal, sério. Mas, enfim, você pode me levar pro rinque, por favor? Vou me atrasar.
Ela revira os olhos e continua seu caminho. Eu acho que ela está desistindo de mim, mas então, quando vê que não a estou seguindo, se vira, do fim do corredor, e pede:
—Você não vem?
Quase a abraço em agradecimento por me ajudar, mas me controlo.
Ela continua seguindo na direção oposta à em que eu estava indo, e dessa vez a sigo
Caramba, minha noção de geografia é péssima mesmo.
•••
A aula de patinação é muito zoada.
Logo que chego, Aya me dá um patins e diz:
—Nossa, achei que você já tinha se perdido!
Não conto que realmente me perdi, não é relevante.
—Desculpe ter vazado da aula de História, o meu pai meio que tentou me fazer uma visita, mas não quero vê-lo. Ele pode ser meio insistente quando quer — ela fala essa última parte fazendo careta.
Sem querer me intrometer, mas confusa, peço:
—Então vocês ainda mantêm contato?
—Ah, não. Prefiro manter distância. É uma longa história, ele abandonou eu e minha mãe quando eu ainda era um bebê, e agora meio que quer "recuperar o tempo perdido", de um jeito estranho — ela dá de ombros e prefiro ficar quieta, é coisa pessoal.
Me sento nos bancos com Aya e logo colocamos os patins. São bonitos e a escola mesmo empresta. Cada patinador o seu, para ser mais higiênico, mas acho admirável que a própria escola tenha toda essa infraestrutura e equipamento disponíveis aos alunos.
Entro no rinque com Aya e a professora então começa a aula, que dura uma hora.
Como é o primeiro dia, ficamos alongando e a professora, a Jen, nos ensina a patinar "com classe", como ela fala.
Já tenho um pouco de experiência, porque patinava um pouco no bairro lá em Floripa, mas não é nada comparado a pisar no gelo mesmo.
Aqui obviamente é mais difícil, mas ao mesmo tempo eu me sinto mais livre, o patins risca o gelo com mais facilidade.
A sensação é maravilhosa, nunca senti algo assim.
Aya faz tudo com muita classe, se movendo como uma profissional.
Ela me diz que já faz patinação há tempos, mas ainda assim me impressiono com sua habilidade.
É divertido e o tempo parece passar voando.
Faço outras amigas que também patinam. O bom é que tem gente experiente como a Aya e principiantes também, então não me sinto sozinha.
Amanda, uma garota asiática muito fofa, Ria, uma menina de Liverpool, e Aya pegam no meu braço e nós ficamos rodopiando como quatro loucas. O movimento não é gracioso nem nada, até porque, com exceção da Aya, não somos aquelas coisas, mas é divertido.
Depois de uma das horas mais engraçadas da minha vida, o treino acaba e eu saio rindo do rinque, encontrando Nico do lado de fora.
Aya sai, faz um toquinho com o Nico, joga beijos no ar e vaza, recusando a oferta de carona dele, alegando que tinha que resolver algo.
Eu e Nico deixamos quieto, já sabendo que provavelmente tem algo a ver com a história do pai dela, que ele provavelmente já sabe.
Ele e eu vamos andando pelos corredores, rindo e falando sobre nosso dia, e até esqueço de socá-lo por ter me deixado sozinha pelo colégio.
Apesar de que agora a vontade não é mais tão forte, acabou que a recusa dele de me levar ao rique me fez aprender o caminho, já que realmente tive que prestar atenção.
Ao passarmos pelo corredor central, vejo o garoto loiro, Walker, parado na frente da televisão acima da porta do diretor.
Sim, tem até TV aqui, é mais pro diretor Fisher se inteirar das notícias do que para os alunos, mas ainda assim achei bacana.
O jornal está passando, e fico confusa quando vejo uma confeitaria bem perto aqui da escola ser arrombada.
A imagem é de uma câmera de segurança e antes de um cara encapuzado dezabilitá-la, só consigo ver que ele está sozinho e que seus olhos tem um tom cinza líquido que nunca vi antes.
Paro diante da TV também, um pouco atrás de Aaron, e ele se vira, notando eu e Nico.
Passando as mãos nos cabelos loiros sempre bagunçados, ele fala:
—Um cara arrombou a NT hoje de tarde, um pouco depois do almoço. — ele faz uma pausa, olhando de novo pra TV, onde agora os jornalistas analisam as imagens da câmera da NT, uma confeitaria bem próxima da escola, sem muito sucesso. — É estranho, quase nunca assaltam essa parte de Londres, mas parece que esse aí tem algo a arriscar.
Aaron então ajunta sua mochila do chão, onde ela estava jogada, a coloca sobre o ombro e sai, sumindo na ponta do corredor e deixando um cheiro amadeirado para trás.
Nico, que eu nem tinha percebido que estava rígido, relaxa, pegando minha mão e me tirando dali. Viro a cabeça a tempo de ver os olhos acinzentados do assaltante logo antes de ele ter desligado a câmera, e um calafrio me acomete de novo.
Me chacoalho para afastar a sensação ruim, e acompanho Nico para fora do colégio.
Não vemos mais Aaron, que sumiu tão de repente quanto apareceu.
Nico continua com a mão nas minhas costas, como um protetor, e me pergunto se é tão incomum mesmo esse assalto e o porquê Aaron pareceu e agora Nico parece tão alerta.
Ao descermos para a plataforma e entrarmos no trem, Nico vai se tranquilizando, e eu automaticamente me acalmo também e fico alegre.
—Então, continue me contando como foi seu dia.
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