Viva la Vida
7 In the end
Notas iniciais
"I tried so hard
And got so far
But in the end
It doesn't even matter"
Maya
No dia seguinte eu custo a acordar.
Pelo menos não caio da cama.
Fico me enrolando na cama até o despertador de Henrique tocar com aquele sertanejo depravado.
Resmungando, pego minhas coisas e vou para o banheiro.
Não sei ao certo o porquê estou tão cansada. Ontem ficamos em casa, jogando uns jogos e rindo um monte, e praticamente esqueci toda aquela história estranha com a Aya e a tensão de Walker e de Nico ontem, ao assistirem ao noticiário.
Ao me deitar de noite, dormi logo, mas sonhei com várias coisas loucas, e agora todos os sonhos se misturam e se sobrepõem, e não consigo ter certeza de nada a não ser dos olhos cinza líquidos daquele assaltante que me assombraram a noite toda.
Depois de tomar banho, me vestir e tal, desço como um zumbi as escadas e me deparo com um Nico incrivelmente alerta sentado tomando café.
Ele me dá um sorriso e peço:
—Algum raio caiu na tua cabeça pra você estar feliz a essa hora da manhã?
Ele me ignora, voltando a tomar seu achocolatado.
Parece que não é só a Charlie que ama a bebida.
Por falar nela, Charlie desce as escadas com uma cara que deve estar pior do que a minha.
—Que saco — ela fala, mau-humorada. Nico olha para ela com os olhos arregalados e pede:
—Da onde você tirou essa palavra, Charlie?
—Você vive falando quando está bravinho.
—Primeiramente, eu não fico bravinho. Segundamente, eu não falo palavrão na sua frente.
— Primeiramente— Charlie começa, imitando-o fazendo voz grossa — você vive bravinho sim, nem venha. Segundamente, você acha que eu sou surda? Não precisa falar na minha frente, eu escuto as coisas.
Nico faz uma cara de choque e Charlie pega outra garrafinha de achocolatado na geladeira, subindo as escadas.
Eu rio pra caramba.
•••
Ao descermos para a plataforma da estação de trem, ela está tão apinhada quanto nos outros dias.
Suspiro ao ver o outdoor de Animais Fantásticos, e Nico constata:
—Você ainda não superou esse pôster.
—Não é um pôster. — digo, indignada. — E sim, eu poderia me casar com ele.
—Tenho quase certeza de que seu casamento será considerado ilegal, mas boa sorte — ele diz então, e rimos, embarcando quando nosso trem dá as caras.
Achamos um lugar vazio e ficamos por ali mesmo, rindo e conversando por um tempo.
—OLHA O PASTEEEEEEEL — ouço um brado familiar e me viro, procurando a fonte do barulho.
Um garoto moreno com cabelos e olhos escuros, aparentemente latino, está ao nosso lado, a careta de riso se transformando em uma cara assustada ao notar que o volume de seu celular está alto.
Seus olhos então encontram os meus e a mágica acontece:
—Brasil? — pede ele.
—Brasil — eu respondo.
Só faltamos nos abraçar.
—Eu amo esse meme! — falo quando ele faz sinal para eu chegar mais perto e ver ao vídeo do meme com ele.
Rimos como dois adoidados e as pessoas nos observam como se fôssemos loucos.
Chamo Nico para mais perto quando vejo que ele nos olha com uma expressão interrogativa.
Ele vem e explico:
—É um meme brasileiro.
Tudo parece fazer sentido para ele, que agora segura a risada enquanto a moça continua berrando: "OLHA O PASTEEEEEL" na praia, mas agora só para nós três ouvirmos.
Depois de vermos o vídeo e suas adaptações não sei quantas vezes, o menino brasileiro fala:
—Ah, à propósito, sou o Leo — ele estende a mão, pomposo, e nós rimos.
—Sou o Nico — Nico (dã) se apresenta e eu faço o mesmo.
Ficamos conversando coisas aleatórias até nossos destinos, e ficamos sabendo que Leo (Leonardo, né) é de Belo Horizonte (BH para os íntimos), e que ele está aqui porque veio fazer uma surpresa para a namorada, que está fazendo intercâmbio.
Rimos um monte e trocamos os números de celular para nos falarmos mais. É impressionante como as pessoas podem chegar na nossa vida tão rápido e aleatoriamente que às vezes nem percebemos.
Nico e Leo, por exemplo, depois de cinco minutos parecem que se conhecem a vida inteira.
Homem pra fazer amizade é um bicho rápido, eu hein.
Quando chegamos na escola, nos despedimos como se fôssemos amigos de infância e as pessoas ao redor nos olham como se fôssemos três doidos.
Com todo o papo e sono matinal, eu tinha esquecido que minha primeira aula da manhã é química.
Merda.
Vamos enfrentar o professor louco e as palavras que eu não entendo nada.
Nico vai para sua aula de Matemática Aplicada (o gênio) e eu sigo meu caminho sozinha.
Pego minhas coisas no armário rapidamente e vou olhando os corredores à procura de Aya, mas não me afasto muito da massa de alunos porque não quero me perder que nem ontem e não posso me distrair e perder o horário da aula.
Quando o sinal bate, já estou na frente da sala, o que para mim é um progresso, já que consegui chegar a um lugar em menos de dez minutos sem o Nico e sem me perder nem uma vez.
Comemoro mentalmente e entro na sala, estranhando o fato de Aya não ter chegado ainda.
Levanto o olhar para a sala e a primeira coisa que vejo são dois olhos verdes. Me encarando.
Ok, tinha esquecido.
Vou ter que encarar o professor doidão, o sotaque que eu não entendo e O Loiro.
O Loiro. Acho que é um bom nome para ele.
Me segurando para não revirar os olhos, vou para os fundos da sala, onde tem as bancadas de laboratório, e me sento no meu lugar, ao lado de Aaron.
Ele parece mais inquieto do que nos outros dias, e quando me sento ao seu lado ele fala muito distraído:
—Bom dia.
—Bom dia — retribuo o comprimento, franzindo as sombrancelhas.
O cheiro amadeirado fica mais forte quando ele se abaixa para pegar o material na mochila quando o professor, Louis, entra.
—Olá, bom dia — Louis diz, entrando de supetão na sala e batendo a porta na parede ao empurrá-la.
Olho ao redor, mas Aya ainda não chegou. Não sei se devo me preocupar ou não, mas também fico meio inquieta.
—Abram os livros na página 56, rápido, senão vou estufar vocês.
Me pergunto de novo qual é a do "estufar", mas faço o que ele pede e começamos a fazer uns experimentos.
Temos que misturar umas coisas, e, pra ser sincera, não entendo quase nada dos nomes em inglês que o professor fala.
Fico nervosa e minhas mãos começam a tremer.
O Loiro deve notar meu desespero, porque olha de solsaio para mim, tirando uns frascos da minha mão e os pondo ele mesmo no recipiente.
Fico grata, e é basicamente isso que acontece até o fim da aula: quase explodo os tímpanos tentando entender o que o professor fala, falho miseravelmente, não anoto nada no caderno e Aaron faz o processo de misturar substâncias por nós dois.
Quando o sinal bate, eu só falto dar uma festa. Sério mesmo, nunca senti tanta alegria em uma sala de aula.
Ô vida miserável.
Esfrego a cara em frustração e noto que O Loiro me observa, impassível.
Olho para ele.
—Perdeu alguma coisa? — pergunto, me arrependendo de ter sido meio grossa um segundo depois.
—Eu não, mas pelo visto você sim — ele diz, indicando o caderno de química na minha mão. Entendo que ele está se referindo à matéria que eu perdi por não conseguir entender porcaria nenhuma que o professor fala.
Fico quieta, esperando ele continuar, mas ele não fala nada, só se abaixa, pega o caderno de química dele da mochila e me estende, como se sua intenção fosse óbvia.
Depois de ver que eu fico o olhando com cara de taxo por aproximadamente cinco segundos, ele diz simplesmente.
—Pega e anota as coisas.
Demoro um pouco para processar, porque devo estar alucinando. Mas enfim pego o caderno, agradecendo.
De repente, o celular dele toca. Colocando a mochila no ombro e franzindo a testa, ele sai da sala, já vazia.
•••
Aya está oficialmente sumida. Sério. Já é hora do almoço e ela não deu as caras.
Nada de muito interessante aconteceu de manhã. Depois daquela aula de química da desgraça, tive aula de Biologia com o Nico e foi um tédio e depois tivemos Educação Física, o que até que foi legal. Aí as duas últimas aulas da manhã foram ocupadas por uma palestra sobre profissões e blá blá blá, e parece que estamos no filme "Procurando Aya".
Nico tem uma expressão meio de desespero e começo a ficar mais preocupada.
Não que eu não estivesse antes, mas talvez a Aya tenha alguma mania peculiar de sumir periodicamente, nunca se sabe.
Pela expressão no rosto do Nico, vejo que não é esse o caso.
—Cadê aquela criatura? — Nico murmura a cada um minuto, aproximadamente.
De repente, faltando uns vinte minutos pra o fim do nosso horário de almoço, Aya entra no refeitório.
Ela aparenta estar normal, com blusa branca e calça jeans, mas ao chegar mais perto vejo que o sorriso que ela lança para as várias pessoas que a cumprimentam esconde um olhar de desespero.
Ela anda o mais rápido possível até nossa mesa, e então seu sorriso finalmente desmorona de vez.
Ela tem os olhos marejados, mas vejo que ela não quer chorar.
—Vocês podem vir comigo rapidinho, por favor? — ela pede para nós.
Nós levantamos rápido das cadeiras e, enquanto saímos por uma porta lateral do refeitório, Nico abraça Aya de lado protetoramente.
Estamos nos fundos do colégio, perto da sala meio oculta de Aya.
Ela nos leva pelos corredores que parecem infinitos até chegar à sua sala, sempre olhando preocupada ao redor.
Entramos e ela fecha a porta de mogno.
Acho que ela vai até sua cadeira atrás da mesa, mas ela simplesmente se apoia na parede do lado da porta e escorrega até o chão.
Ok, a situação tá crítica.
—O que foi? — peço preocupada. Não conheço Aya há muito tempo, mas ela e Nico já viraram meus melhores amigos aqui, e não gosto de vê-la assim.
Meus olhos então captam o quadro negro nos fundos da sala, que, agora eu me lembro, tinha um monte de rabiscos no dia que viemos aqui fazer minha matrícula.
Ele está ainda mais rabiscado hoje: há traços e coisas escritas em giz branco, cordões vermelhos ligando informações a outras.
—Eu falei que meu pai tinha voltado. — começa Aya, e me surpreendo por usa voz estar firme apesar de seus olhos marejados.
—Sim, sim, isso eu sei — diz Nico, que anda apressado pela sala. — Aya, o quê exatamente está acontecendo?
—Vocês dois já sabem que ele abandonou eu e minha mãe há vários anos. E que agora, ele voltou e está tentando entrar em contato comigo.
—Sim — eu e Nico concordamos rápido, meio assustados ainda com o estado em que Aya se encontra. Eu não a conheço há muito tempo, mas já vi que ela é dessas pessoas que não se abalam facilmente.
—Olha, sei lá, eu não cheguei a conhecê-lo, não quero ficar dando pitaco, mas talvez ele só queira uma chance — diz Nico. Percebo que eles são aqueles amigos que buscam ajudar o outro em qualquer circunstância. Pelo olhar nos rostos deles, vejo que eles nunca vão abandonar um ao outro.
—Bem que eu queria, mas não posso — diz Aya, e vejo que ela está fazendo um esforço imenso para não entrar em pânico.
Ela olha para nós, suspira, e por fim declara:
—Meu pai é um criminoso.
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