Notas iniciais
Por Sara já adulta, em torno de 2012.

Algo não fazia sentido, porque estava tudo muito quieto em torno de mim.

Eu passei a infância inteira achando que aquilo que eu vivia era normal, pensava que era como todas as crianças viviam. Naquele dia eu descobri que não era bem assim.

Desde cedo eu adorava desafios e meu pai sabia disso, por isso me deu um quebra-cabeça com muitas peças e disse:

— Desafio você a quebrar um novo recorde a cada vez que montar – ele piscou com o olho direito e apertou o meu nariz.

Lembro-me de ter passado o dia inteiro brincando com o quebra-cabeça, olhava para o relógio toda vez que acabava de encaixar as peças. Eu amava olhar para a imagem que formava: a borboleta Morpha. Era uma borboleta de cor azul bem vivo, eu ficava hipnotizada olhando para ela, desejando encontrar uma de verdade e imaginando-a voar. Sem dúvidas tornou-se o meu bichinho favorito!!

Eu fingia não ouvir os meus pais discutindo no quarto, enquanto eu acabava de encaixar as últimas peças em cima da mesa de centro na sala, mas era inevitável, eles gritavam.

“Você é um inútil nessa família”... “Família? Você chama isso de família, Laura?... Você não passa de uma bêbada louca.”

Coloquei no rosto o maior sorriso que eu podia quando bati um novo recorde, corri animada até o quarto, a fim de contar para o meu pai.

“Nãaao, por favor, para... eu imploro.”

O sorriso evaporou pouco a pouco do meu rosto de criança quando ouvi o grito da minha mãe, parei em frente à porta e fiquei sem reação quando percebi o que estava prestes a acontecer.

Com apenas uma mão o meu pai imobilizava a minha mãe, com a outra mão ele segurava no alto uma garrafa de cerveja vazia. Ele ia espancá-la se eu não tivesse aparecido ali.

Minha mãe tentou dizer alguma coisa, mas eu não pude ouvir, estava estagnada olhando para ela. Ela chorava, por isso conclui que ela estava apenas triste.

A minha ingenuidade só me permitia associar lágrimas à tristeza. Naquela idade eu mal sabia o que era sentir raiva, ódio ou desejo de vingança, não sabia o que era sofrer por amor, não fazia ideia da imensidão de sentimentos que poderiam trazer lágrimas à tona.

Agora eu sei que a minha mãe não chorava apenas por tristeza, esse era o menor dos sentimentos ali. Ela chorava de raiva, pela sensação de impotência, por ver a própria filha vivenciar aquilo.

Quando eu era criança, meu pai dizia: “Você é uma menina muito forte, inteligente, a mais bonita do mundo”. Tenho que admitir que eu fui uma menina forte e esperta, afinal não é toda criança que resiste passar pela infância que eu tive sem ficar com algum dano psicológico grave. Quanto à beleza... é uma coisa relativa.

Será que os meus pais me considerariam uma mulher forte? Não sei. Talvez eles achassem que eu sou muito vulnerável ao amor. O meu pai talvez dissesse: “Sara, você é uma mulher muito forte profissionalmente, mas tenta agir tanto com a razão no trabalho que deixa toda a emoção guardada para a vida pessoal. Você precisa ponderar isso, minha borboletinha.”

Rum... A verdade é que eu nunca vou saber o que ele diria sobre mim como mulher.

A minha mãe ainda diz que eu sou forte quando vou visitá-la... Nossa, faz meses que não a vejo!! Ela me pede desculpas todas as vezes que nos encontramos, fica relembrando o passado e perguntando coisas da minha vida. Eu sempre tento mudar de assunto, porque não gosto de ficar conversando com ela sobre o nosso passado ou sobre o meu presente com o Grissom. No fundo eu sei que ela se preocupa por mim, ela tem medo de que eu caia em um relacionamento abusivo como ela tinha com o meu pai e como eu tanto vejo no trabalho. Enfim... Acho que a frase que eu mais digo para ela é “Eu estou bem”, mesmo que às vezes não seja verdade.

Eu percebo que ela me admira muito como mulher. Ela sempre costuma lembrar que eu quase não chorava quando era criança. Concordo, eu tentava segurar o choro ao máximo. Eu não tinha medo de injeção ou de me machucar fisicamente. O fato é que hoje vejo que eu tinha medo de me machucar emocionalmente... Ainda tenho.

Eu chorei pela morte do meu cachorro, pela morte de um passarinho, chorei pela morte do meu pai e chorei quando temi pela minha morte.

Gostaria de encontrar com a pequena Sara, depois de o pai ter trovoado “VÁ PARA O SEU QUARTO AGORA” e batido a porta. Gostaria de encontrá-la antes dela abrir a porta de seu quarto a procura da mãe, dizer a ela para não ter pena dos mortos e que de nada vale chorar por eles, ela aprenderia isso quando crescesse. Também queria dizer que não há problema em chorar de vez em quando, ela mesma veria isso... Eu vi.

Ahh minha pequena Sara, você vai chorar por tantos motivos ao longo da vida, vai ver como são tantas as injustiças no mundo, sinto em dizer que você vai sofrer ao abrir essa porta, vai passar por coisas que nenhum ser humano merece, mas você vai aprender com cada circunstância. As circunstâncias moldarão o seu futuro e farão de você a mulher que eu sou hoje. Você verá que o mesmo quem irá te fazer chorar, será o grande responsável pela maioria de seus sorrisos. Você vai ver pessoas boas fazendo coisas ruins e pessoas ruins fazendo coisas boas, vai se decepcionar até mesmo com quem você ama e vai aprender a perdoar. Acima de tudo, acredite: nada será em vão. Você será feliz.

— Mamãe? – sussurrei ao abrir a porta do quarto.

Uma amostra de felicidade apareceu na janela do corredor: uma borboleta Morpha. Fui até lá com cuidado, boquiaberta e deslumbrada. Ela pousou no meu dedo por um instante, como se soubesse que eu não ia machucá-la, mas logo voou. Eu ainda não sabia, mas ao voar, aquela borboleta levava consigo o restante da minha infância, dentro de pouco tempo eu teria que amadurecer precocemente.

Isso foi revelado no ar pesado que chegava até minhas narinas, tinha cheiro de ferro e vinha do quarto dos meus pais no final do corredor.

A porta estava entreaberta, eu abri devagar e odor de ferro ficou mais forte. Era a primeira vez que eu via uma quantidade de sangue tão grande, era a primeira vez que eu me deparava com uma cena de crime. Essa cena e o contexto ficariam entrenhados em mim durante tanto tempo, para ser sensata essa cena só deixou de me atormentar há alguns anos, quando eu finalmente desabafei com o Gil.

Ainda me lembro dos detalhes: meu pai estava deitado imóvel sobre um lençol branco, coberto de sangue. No chão havia cacos de vidro e uma poça de sangue perto da cama.

Minha mãe estava de costas para mim e de frente para o meu pai, com a mão direita ela segurava firme uma faca.

Gotas gravitacionais de sangue pingavam da faca e alimentavam a poça. Eu contei três pingos.

Lembro-me de estar com taquicardia e soando frio, minhas pernas mal conseguiam sustentar o meu corpo... “Eu era uma menina esperta”... esperta o suficiente para saber que meu pai estava morto em cima daquela cama, que ele havia sido morto, morto a facadas pela minha própria mãe.

Eu mal podia enxergar direito, pensei que fosse desmaiar, até que a porta rangeu e fez minha mãe virar para trás em um susto. Os olhos dela fitaram os meus e um calafrio percorreu todo o meu corpo.

Ahh mãe... Seus olhos estavam inchados e vermelhos, uma lágrima escorria pelo canto do seu nariz, tinha um corte em sua testa e o sangue fazia um rastro até o seu queixo, hoje eu concluo que a garrafa de cerveja foi a responsável pelo corte. Havia também um hematoma roxo perto da sua bochecha... Eu realmente não consigo entender o porquê de a minha cor favorita ser roxo, eu vi tantos "roxos" pelo seu corpo e quando eu perguntava o que havia acontecido você mentia “Eu caí na escada, não foi nada”. Você me poupava de ter certeza que o papai batia em você. Havia tanto arrependimento em seus olhos, mágoa e dor. Mas minha pouca idade me privava de perceber isso.

O pavor e o medo tomaram conta de mim, eu estava com medo da minha própria mãe e, naquele momento, eu conseguia enxergar apenas um monstro. Devagar eu dei dois passos para trás e ela tentou se aproximar, a minha única reação foi correr o mais rápido que eu podia.

“Sara, por favor...”— ela suplicou enquanto vinha atrás de mim.

O corredor parecia infinito e cada vez mais estreito, as luzes começaram a piscar e, toda vez que eu olhava para trás, a faca reluzia na mão da minha mãe, ela não tinha percebido que esquecera de largar o objeto pontiagudo. Quando voltei a olhar para frente vi a borboleta, ela voava tão rápido quanto eu corria, naquele momento eu desejei poder voar.

Minha visão voltou a embaçar, eu definitivamente iria desmaiar. Gastei todas as últimas energias em um grito estridente quando senti os braços da minha mãe me imobilizarem. Ela me acolheu em um abraço forte, era um abraço suplicando por perdão.

Pequena Sara, “pessoas boas as vezes fazem coisas ruins”, isso não significa que elas sejam um “monstro”;

Mãe, você soluçava, eu pude sentir suas lágrimas quentes pingando no meu ombro. Uma pessoa que eu amo havia acabado de me decepcionar, mas naquele momento eu te perdoei.

Você estava arrependida, muito arrependida.