Notas iniciais
Por Laura Sidle, em torno de 2018.

Algo não fazia sentido. Estava tudo muito quieto em torno de mim.

Horas atrás naquele dia eu discutia com o meu marido, como de costume. Eu realmente me sentia mal quando isso acontecia perto dos meus filhos, principalmente da Sara, ela era só uma criança.

Antes de o meu marido me puxar pelo braço até o quarto eu vi que a Sara brincava na sala. Ela amava aquele quebra-cabeça da borboleta azul. “Olha mamãe, eu ganhei do papai. Ele forma uma borboleta azul. Ela não é linda?!”.

O meu marido era um bom homem e um ótimo pai, apesar de tudo. Mas quando ele bebia, transformava-se em outra pessoa, era tão agressivo. Assim que ele entrava em casa bêbado eu sempre o impedia de falar com as crianças, tinha medo de que ele pudesse machucá-las, por isso o alvo era sempre eu.

—Você é um inútil nessa família – disse com desgosto.

—Família? Você chama isso de família, Laura? – ele gritou próximo ao meu rosto, eu pude sentir o hálito de álcool.

Infelizmente ele tinha razão. Aquela não era nem a sombra da família que um dia eu desejei formar. Percebo que Sara foi a mais afetada por ter passado a infância em um lar como aquele.

Ahh minha filha, você não faz ideia do quanto eu me culpo por você ter perdido a sua juventude crescendo em lares com pais adotivos. A cada dia de lucidez, como hoje, eu me arrependo mais. Quando vem me visitar você diz: “Não foi culpa sua, mãe. Eu te perdoei, você sabe disso, mas já está na hora de você perdoar a si mesma, não é?”, então você me dá um beijo na testa e muda de assunto... Eu sei que no fundo foi tudo causado por essa minha doença idiota, mas acho que nunca vou conseguir me perdoar. Por isso sempre que possível eu tento achar conforto em um litro de whisky, embora eu me arrependa no dia seguinte.

—Você não passa de uma bêbada louca – ele chiou ríspido e depois cuspiu aos meus pés.

Meu marido imobilizou os meus braços com apenas uma mão, com a outra mão ele ergueu a garrafa de cerveja já vazia. Logo percebi o que ia acontecer, ele ia quebrar aquela garrafa em mim.

— Nãaao, por favor, para... eu imploro!!

Um grito desesperado saiu da minha garganta quando ele insinuou que ia atacar, apertei os olhos esperando pela pancada, mas ela não aconteceu naquele momento. Uma voz baixinha e doce chegou aos meus ouvidos.

— Papai? – Sara sussurrou assustada.

Eu abri os olhos e olhei para ela, uma lágrima escorreu involuntariamente pelo meu rosto. Maldição, eu não queria que ela me visse assim.

— Sara... – eu tentei falar para ela sair dali, mas minha voz não saiu.

Eu detestava quando a Sara me via chorar. Ela foi uma criança muito forte, quase não chorava, nem para tomar vacina ou quando ralava o joelho. Apenas três coisas são capazes de desestabilizá-la: a violência, a morte e o amor.

Lembro-me de quando ela encontrou um passarinho morto no quintal de casa, ela ficou tristinha o dia inteiro depois que o enterramos perto das flores. “Oh meu amor, não fique triste. As estrelas o levaram para morar no céu, ele está ao lado do vovô e do seu cachorrinho.”

Hoje em dia ela sabe lidar com a morte e o trabalho a ajudou a lidar com a violência. Quanto ao amor... Ela foge desse assunto. Não gosta de falar sobre o seu casamento com o meu genro, Gilbert. Ela foi apaixonada por ele durante esses 20 anos em que se conhecem, sei que ficaram separados por algum tempo, voltaram, separaram... Mas agora estão juntos novamente. Sara nunca me contou a história de seu relacionamento, eu fiquei sabendo da história inteira pelo meu genro, há menos de um ano, depois de muita insistência. “Vai ser o nosso segredo, dona Laura”, ele me disse. Gilbert é um bom homem, eles estão muito felizes juntos, ainda mais agora com a chegada do meu neto, estou louca para conhecê-lo.

“Logo iremos levá-lo aí, mãe”.

Entendo o porquê dela nunca falar sobre “relacionamentos” comigo, ela tem medo de que eu fique relembrando o meu casamento, com um marido abusivo e agressivo. Tem medo que eu relembre as dores, as pancadas, os hematomas... Quando era pequena ela sempre me perguntava o que havia acontecido. “Caí na escada, não precisa se preocupar, o machucado logo vai sumir”, mas no fundo eu sabia que ela percebia que eu estava mentindo, Sara era uma menina tão esperta e inteligente.

Na verdade, alguns dos machucados físicos nunca sumiram. Ainda tenho uma pequena cicatriz na testa.

— SARA VÁ PARA O SEU QUARTO AGORA! – meu marido ordenou antes de me soltar e bater a porta.

Ele olhou para mim com os olhos inflamados de raiva, aquele não era o meu marido, era um monstro. Ele me atingiu perto da bochecha com um soco, depois quebrou a garrafa de cerveja na minha testa, eu pude sentir o sangue quente escorrer até o meu queixo, então caí por cima dos cacos de vidro e desmaiei.

Os fatos que sucederam depois disso são apenas borrões em minha memória. Lembro-me de acordar no chão do quarto, levantar com dificuldade e ver meu reflexo no espelho da penteadeira. Vi ali uma mulher que eu não reconhecia, com um corte na testa, a têmpora roxa, os olhos inchados e vermelhos. Olhei para cama e vi o meu marido, ele dormia, roncava... Como? Como um homem podia cair no sono ao lado da esposa desmaiada no chão?

Incrédula, levei as mãos à cabeça, naquele momento o ódio e a raiva tomaram conta de mim. Eu não podia pensar em mais nada, nem no amor pelos meus filhos, o ódio me consumia feito fogo em brasa queimando a madeira.

— Preciso acabar logo com isso – pensei alto enquanto dava passos firmes em direção à cozinha.

A maior faca reluziu diante de meus olhos, segurei firme com a mão direita e voltei ao quarto, parei diante da cama, de frente para o meu marido e de costas para a porta.

Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete.

Sete facadas, ele não tivera tempo de reagir.

O sangue tingia de vermelho o lençol branco da cama e formava uma poça no chão, logo um cheiro de ferro tomou conta do ar.

“Você nunca mais vai me machucar, nunca mais vai chegar perto dos meus filhos. Acabou.”

Lágrimas rolaram pelo meu rosto, lágrimas de raiva, dor, rancor, mágoa... alívio, como se um peso fosse tirado dos meus ombros, mas em seguida outro peso caiu sobre mim: o arrependimento.

“O que foi que eu fiz?”

Aos poucos eu fui recobrando os sentidos, a percepção do que eu havia feito e o juízo. Eu estava ali parada diante do meu marido morto.

“Meus filhos, Sara... o que será de nós agora? Vão tomar a Sara de mim. Ela vai crescer com uma mãe esquizofrênica que matou o pai a facadas... nunca vai me perdoar... O que foi que eu fiz?...”— A porta rangeu e me fez olhar para trás em um susto.

Um calafrio percorreu meu corpo quando os meus olhos encontraram os de Sara, ela estava ali observando tudo. Há quanto tempo?

O que foi que eu havia feito? Sara tinha pavor nos olhos, ela estava com medo de mim. Deu dois passos vagarosos para trás e, quando eu tentei me aproximar, ela correu.

— Sara, por favor... – supliquei enquanto tentava alcançá-la.

As luzes do corredor falhavam. A cada vez que ela olhava para trás eu podia ver mais pânico em seu rosto. Claro, eu ainda segurava a faca em minhas mãos. Larguei o objeto pontiagudo e ao alcançar a minha filha ela gritou, então apertei-a em um abraço. Eu soluçava e chorava sem parar.

Minha Sara, tenho tanto orgulho da mulher que você é hoje. É uma mulher tão forte e corajosa, você conseguiu encontrar a felicidade mesmo depois de tudo que passou, eu te admiro tanto, sou tão orgulhosa de ti. Tenho certeza que você será uma mãe maravilhosa, sei que eu não sou um exemplo perfeito de mãe, mas também sei que você aprendeu com os meus erros. Seu pai também ficaria orgulhoso!!

Naquele dia eu te abracei tão forte. Dentro daquele abraço eu implorei pelo seu perdão.

Eu estava arrependida, muito arrependida.

Notas finais
Obrigada por ler!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!