Visitor
2 The beginning
Notas iniciais

Midoriya tinha a sensação de que tudo tinha acontecido em menos de um segundo. Do momento em que a porta se abriu e ele pisou o pé dentro do saguão, as luzes do corredor se apagaram, substituídas pelas de emergência e de alerta que piscava avermelhada, as sirenes tocaram gritantes em seu ouvido, como se rasgassem seus tímpanos.
A mesma voz feminina de antes soou pelos microfones da Amanda por cima das sirenes.
"Alerta! Foi detectada a violação da quarentena da área leste. Alerta! Foi detectada a violação da quarentena da área leste."
Midoriyaestava aturdido, os sons embrulhavam sua mente enquanto ele tentava entender o que exatamente estava acontecendo.
Quarentena?
A voz de Tenya, Katsuki e Shouto se misturavam em seu comunicador em uma embolação de vozes e perguntas incompreensíveis.
"Reiniciando o travamento de emergência."
A porta atrás de si se fechou em um click sonoro e as sirenes pararam de tocar, permanecendo as luzes avermelhadas que piscavam a cada segundo. A iluminação de emergência também continuou ligada, luzes alaranjadas suaves que provinham dos cantos da área fazendo um jogo de sombras macabro e limitando sua visão a pouco menos de um metro em seus arredores.
"Não deveria ter feito isso, capitão." A voz soou clara agora, Midoriya ainda tentando compreender o que acontecera.
"Que porra está acontecendo?!"Katsuki gritou em seu comunicador e um zumbido agudo ecoou em seu ouvido, fazendo com que tirasse o aparelho de súbito. Ele coçou a orelha em uma tentativa falha de melhorar a dor que o pegou desprevenido.
"Izuku?" Havia uma clara preocupação na voz do bicolor.
"Eu não sei..." Foi a única resposta que viera à sua mente.
"Que porra é essa de quarentena?!"
O esverdeado retirou o aparelho novamente, dando um tempo até recolocá-lo.
"Pare de gritar, Kacchan. Eu não quero passar por outra cirurgia no ouvido por sua conta de novo." Ele fez uma pausa, tentando analisar o que estava acontecendo na cabeça que ainda estava uma zona. "Tenya—kun, por favor, me diga o que está acontecendo." Mesmo sabendo que a resposta poderia ser negativa, ele tinha que tentar.
"É contra as minhas ordens, capitão, sinto muito." Aquela frase soava ainda pior naquela voz reverberante e imparcial.
"Quais ordens? A mando de quem? Por favor, não me diga que isso é confidencial." Ele não respondeu.
Midoriya poderia esperar qualquer coisa, exceto por uma quarentena. O que aYutani estava pensando? Com o objetivo de colonização, o que quer que estivesse na área leste certamente não deveria estar ali, se fosse um vírus, aquilo poderia acabar com a civilização inteira antes mesmo que conseguissem terminar de se estabelecer, se é que conseguiriam começar.
De repente, o choque atingiu seu corpo. Se fosse realmente alguma doença, Midoriya estava exposto à ela e consequentemente, uma hora ou outra, estaria infectado. Se era uma quarentena então certamente era contagioso, não poderia jogar a missão no lixo, sequer pôr a vida de todos em risco. A sua sentença de morte fora dada assim que entrara por aquela porta.
Por algum motivo, pensou em sua mãe, seu padrasto e toda a tripulação da Ellen. No que pensaram quando perceberam que estavam fadados a continuar no espaço, se não morreram antes que se tocassem disso.
"Estamos chegando, Deku." Katsuki quebrou sua linha de pensamentos e o desespero tomou conta do seu corpo.
"Não!" Gritou, ouvindo os resmungos de ambos os namorados. Ele abaixou o tom de voz e murmurou um pedido de desculpas. "O que pensam que estão fazendo? Vão para a ponte. Agora."
"O que estamos fazendo? Vamos te tirar daí." O timbre de Bakugou indicava sem dúvidas que ele estava se controlando para não gritar.
"E contaminar vocês dois com seja lá o que estiver aqui dentro também? Muito inteligente da sua parte, Kacchan. Vão para a ponte, vão ser muito mais úteis de lá, do que presos aqui comigo."
"Deku..." O loiro rosnara, raivoso, mas sua fala fora interrompida por uma pausa, como se estivesse em uma concordância mental entre o que falara e com Shouto.
"Estamos indo para lá." Ouviu a voz do meio-a-meio que provava total relutância, embora soubesse que o esverdeado estava correto.
Suspirou aliviado. Com Todoroki e Bakugou longe de um risco maior, tudo que precisava era descobrir o que estava acontecendo por conta própria.
O saguão era uma das áreas mais espaçosas da nave, envolvendo e ligando quase que mais da metade dela. Dispunha de janelas que ostentavam a imensidão extravagante e escura do espaço e portas nas paredes paralelas que guiavam para as outras instalações. Midoriya lembrava bem quando vira os planos da estrutura da nave, a mesma fora planejada para ser uma nave cargueira e posteriormente, para que se adequasse a viagem, levar dois mil passageiros a bordo. Era como um cruzeiro no espaço, mas apesar de tudo, toda a aparência da Amanda era simples, elaborada para uma viagem em que as pessoas deveriam passar a maior parte do tempo dormindo ou fora dela.
O capitão de cabelos verdes deu uma última encarada no metal atrás de si antes de começar a caminhar em direção ao estofado, sentando-se e deixando o corpo escorregar pelo assento. Ele por inteiro estava à mil, com um turbilhão de coisas repercutindo em sua mente ao mesmo tempo, o impedindo realmente de conseguir pensar em qualquer coisa conexa, como se uma alegoria de percussão decidisse tocar em sua cabeça.
Suspirou, tentando manter a própria calma, entrar em pânico em uma situação daquelas não seria de nada benéfico para si, por isso, se permitiu fechar os olhos e procurou normalizar a respiração.
O que diabos está acontecendo? Foi a única coisa clara que conseguia se perguntar e como se recebesse uma resposta, ele escutou. Não saberia dizer exatamente o quê, poderia facilmente ser os motores da nave, mas uma parte de si lhe dizia o contrário.
Os olhos se abriram alerta e Midoriya vagueou-os rapidamente pelo saguão sem saber exatamente o que procurar ou esperar. Era um som contínuo, exatamente como um caminhar, mas era pesado e às vezes, trôpego, quase como se tivesse adormecido sob as pernas por um longo tempo e tentasse se acostumar com o movimento ou o sangue voltando para a região, não muito diferente de quando dormia na câmara. Mas aquilo certamente não vinha de um humano e a certeza não era devido ao fato de que até onde sabia, ele,Todoroki e Bakugoueram os únicos acordados, se aquilo não fosse os motores e o medo já não estivesse brincando com sua mente, o que quer que fosse, poderia ser o motivo da quarentena.
De repente, um lado seu, o esperançoso em acreditar que sairia dali de alguma forma e vivo, iluminou-se por inteiro, pensar na chance de que, ao invés de uma doença, ser algo, fez uma vaga chama de esperança começar a queimar em seu peito com a ideia, que não tardou a ser abafada pela volta dos sons entrando em seus ouvidos.
Midoriya já assistira filmes de ficção científica o suficiente para saber que se continuasse sentado ali, poderia não gostar do resultado e muito menos do que vinha ao seu encontro para lhe dar as boas-vindas, se fosse amigável talvez não estivesse preso em uma parte da nave, e quando se levantou com o coração batendo tão forte a ponto de lhe dar a sensação de que quebraria as costelas, quase soltou um gritinho assustado ao ouvir a voz de Todoroki novamente por seu comunicador.
"Izuku, seu pulso." O discernimento do esverdeado só fora notável quando o mesmo abaixou o olhar para o próprio pulso tentando entender o comentário, percebendo a pequena pulseira de metal que o envolvia, o monitor de frequência cardíaca que não tirara quando acordou. "O que aconteceu? O que você viu? Acabamos de chegar." O timbre indicava o que Midoriya já sabia, a preocupação iminente entregava um Todoroki pronto para correr paras as portas do saguão se fosse necessário.
"Eu..." Ele fez uma pausa, enquanto se apressava para a primeira porta, a que considerou mais distante dos sons que ouvia e que diferente do que esperava se abriu, era da sala de convivência. "Eu escutei alguma coisa." Continuou.
A sala de convivência era um tanto quanto apertada em comparação aos outros cômodos da Amanda, não era muito diferente do bar que se encontrava um pouco mais adentro na cozinha, e era usada, grande parte das vezes, somente pela tripulação. Midoriya estava acostumado em vê-la naquele estado de baixa iluminação e não pôde deixar de se sentir mais tranquilo e confortado. Não havia muito mais que uma mesa de sinuca, um pequeno sofá e um bar que se vangloriava com garrafas de bebidas alcoólicas enfileiradas perfeitamente em uma estante atrás.
Sem pensar duas vezes, o esverdeado se escondeu atrás do balcão, sentindo as costas tocarem o material frio mesmo com a jaqueta.
"Você tem certeza?" Era a voz de Bakugou demonstrando toda a sua inquietação. "Pode ser os-"
"Eu sei, eu pensei nisso também." Ele interrompeu o loiro. Embora não quisesse descartar a possibilidade, a ideia de que poderia ser alguma coisa, fazia com que se sentisse um pouco melhor, significava que ainda tinha uma forma de sair vivo dali. "Mas não acredito que os motores soem tão próximos." Ele permaneceu em silêncio por um tempo, tentando captar mais alguma coisa com ambos os ouvidos em alerta, mas talvez, por conta das portas, não escutou mais nada. "Shoucchan, você consegue acessar as câmeras de segurança?" Sussurrou a pergunta, sem saber exatamente o porquê.
"Estou trabalhando nisso." Ouviu o meio-a-meio falar, o som familiar dos dedos hábeis contra a tela do painel.
Midoriya estava terminando de se acalmar quando ouviu a porta da sala de convivência deslizar, se abrindo. Ou será que estava louco? E se alucinações fossem um efeito colateral? Havia tantos e se naquela situação.
Os passos pesados voltaram a ser audíveis em conjunto com um som de algo sendo arrastado e um sibilo baixinho. A curiosidade insistia para que pusesse a cabeça para fora para espiar, mas o medo o prendia no lugar, desregulando sua respiração, atiçando o coração no peito. O andar era perto, perto demais,Midoriyanão se surpreenderia se já não estivesse na sala em vez de só estar passando próximo da porta e se aproximava ainda mais.
Sabia que Todoroki ainda tentava acessar às câmeras porque agora escutava o toque insistente e aborrecido do dedo na tela, uns grunhidos de irritação e a voz feminina da Amanda dizendo um sonoro: "Acesso negado."
Atrás de si, a porta deslizou novamente em um chiado reconfortante a audição.
"Não consigo." O bicolor desferiu em aborrecimento notável. "Eu não sei o que está acontecendo, mas não consigo acessar nenhum comando da área leste, nem mesmo as portas ou o sistema de refrigeração."
"Isso é muito animador..." Sussurrou trêmulo, o pânico tomando conta do corpo.
"Eu sinto muito,Izuku, mas estou cego. Você vai ter que reiniciar o sistema da nave, na sala de controles." Ele fez uma pausa, como se tentasse captar alguma reação sua. "Acho que tem algo a ver com essa quarentena, eu não sei... Eu nunca vi nada parecido."
Midoriya estava à beira de um ataque de pânico, sentia-se sufocado, como se estivesse preso, o que não era muito diferente da sua situação. O esverdeado levou a mão ao peito em uma tentativa falha de se acalmar, não saberia nem mesmo dizer porque estava tão nervoso. Talvez pelo fato de que tudo estava acontecendo de uma vez, o impossibilitando de pensar com calma e analisar a situação ou simplesmente porque tinha o risco de estar exposto a algum tipo de vírus mortal, a alguma espécie não identificada ou os dois ao mesmo tempo.
"Ei, Deku!" Katsukigritou, fazendo com que retirasse o comunicador pela terceira vez naquele curto período, no entanto, agradeceu mentalmente pelo chamar de atenção, antes que entrasse em total combustão. O loiro abaixou o tom de voz. "Me diga por que você foi escalado para capitão."
O esverdeado franziu o cenho com a pergunta fora de hora, mas optou por responder mesmo assim.
"Porque sou muito bom analítico?" Perguntou, confuso.
"Não. Isso também, mas não essa parte. Você sabe de qual estou falando."
O esverdeado fechou os olhos e respirou fundo, entendendo onde o outro queria chegar.
"Porque sei lidar com situações de pânico?"
"Isso foi uma pergunta?"
"Porque sei lidar com situações de pânico." Afirmou, a voz saindo trêmula entre a respiração agitada.
"Então me explica por que caralhos você está fazendo totalmente o contrário?"
"É só que-"
"Não tem essa. Não tem nada que você não consiga lidar, você consegue lidar comigo todo dia, idiota."
O capitão deixou um risinho arrastado sair de sua garganta.
"O que quer que seja." Ele continuou. "Você vai sair daí e vai sair vivo!"
"Acho que seria bom sair escutando também, então." Respondeu, se sentindo um pouco melhor, embora o coração ainda batesse rápido no peito. Katsukilhe retrucou com um sussurro de desculpas quase inaudível, orgulhoso como o dono. "Ok..." Ele respirou fundo mais uma vez, a mente conseguindo pensar com mais clareza, ainda que no mínimo. "Certo..." Ele se afastou do balcão e se levantou devagar. Não havia nada ali. Por um longo momento o esverdeado somente encarou as bolas de bilhar em cima da mesa. "Você consegue fazer isso, Izuku... Você consegue fazer isso." Repetia a si próprio como um mantra. "A sala de controles, onde fica?"
"Corredor C, pegando as escadas. O elevador deve estar fora de serviço. Tenho acesso ao mapa, posso te guiar."
"Ao menos uma boa notícia..." Ele se aproximou da porta e ela se abriu. Midoriya fechou os olhos e esperou. Nada aconteceu.
"As portas estão todas abertas, não deve ser um problema chegar lá." Todoroki continuou.
"Por que as portas estão abertas?" Questionou o loiro. Midoriya quase conseguia vê-lo rodando de um lado para o outro na ponte.
"Eu não sei." Era certo que o orgulho de Shouto estava abalado em falar aquilo tantas vezes, uma vez que ele mesmo ajudara na construção da nave. "Pode ser algum protocolo por conta da quarentena."
Ou talvez para que ele possa andar e estirar as pernas de vez em quando. Pensou, mas logo em seguida se esforçou ao máximo para afastar aquele pensamento da cabeça. Odiava se sentir perdido como estava.
O esverdeado ouviu a nave negar o acesso mais uma vez. O bicolor grunhiu.
"Está tudo bem, Shoucchan. Espero ajeitar isso o quanto antes." Ele deu uma última e longa inspirada, antes de pisar o pé novamente no saguão.
Também não havia nada ali.
Os tons alaranjados das luzes de emergência continuavam iluminando pobremente a área, a luz de alerta ainda piscava, ora substituindo o laranja pelo vermelho.
"O corredor fica na penúltima porta à direita." Falou Todoroki.
Midoriya se pôs a caminhar apressado em direção a porta e quando ela se abriu, novamente, ele repetiu o mesmo ritual de fechar os olhos e aguardar pelo inesperado, mas de novo, nada aconteceu.
O suspiro aliviado que soltou foi completamente inevitável e antes que notasse estava andando com cautela excessiva pelo corredor visando seu fim e a porta que o aguardava com as escadas. A mão vez ou outra permanecendo no peito enquanto procurava se manter calmo.
Havia um certo desespero que o preenchia cada vez que alguma porta se abria no corredor C. Os breves chiados do deslizar nunca pareceram tão sonoros e barulhentos e as sombras projetadas por conta da fraca iluminação de nada ajudavam em impedi-lo de evitar um ataque cardíaco por conta do susto.
O mar de perguntas não respondidas fazia com que se sentisse tonto e Midoriya se perguntava realmente se queria saber o que estava acontecendo no momento. Talvez se não fosse tão curioso tivesse evitado isso, mas então, o que aconteceria quando chegassem ao planeta? Se não tivesse acordado antes, com tempo o suficiente para pelo menos tentar impedir que um desastre mortal aconteça, o que teria acontecido? É certo que ainda teria acordado dois dias antes, mas com Bakugou e Todoroki dormindo teria conseguido alguma coisa? Tenyateria o ajudado de alguma maneira? Duvidava disso.
E a ideia de não saber por onde começar só aumentavam sua tontura nos corredores que antes considerava tão confortantes e agora eram sufocantes e claustrofóbicos. Afinal, a Amanda era enorme o suficiente para que o que quer que estivesse procurando pudesse estar do outro lado da nave, em outro corredor. Em uma situação pior, talvez não tivesse resposta nenhuma e fosse só mais uma pergunta como todas as outras que martelavam em sua cabeça.
Como uma coincidência infeliz, assim que passou perto da porta da estufa, Midoriya sentiu que teria suas respostas da pior forma possível. O cheiro não mentia, embora nunca tivesse passado perto de um corpo morto antes, sabia o suficiente para dizer que o que vinha dali não era por conta de alguma planta.
"O que foi, Izuku?" Shouto perguntou em seu comunicador e tão cansado quanto ele de repetir que também não sabia, optou por se calar.
"Espera um pouco." Sussurrou, somente para evitar matar o namorado de susto pela falta de resposta. Midoriya hesitou uns dois segundos antes de decidir entrar.
O clima da estufa era completamente diferente do resto da nave, uma vez que para manter as plantas vivas precisavam adequar a um ao menos parecido com o da Terra, por isso, ele era mais úmido e quente. Nos primeiros dias, antes que dormisse, Midoriya ia ali com Kirishima, o atual oficial de ciências, para cuidar das plantas ou passar o tempo. Gostavam de chamar aquele lugar de Paraíso, um pedacinho da Terra que estavam levando com eles.
Mas o Paraíso agora assemelhava-se muito a ideia de um inferno. Algumas plantas, que antes ficavam apoiadas nas estantes que formavam um zigue-zague pelo cômodo, estavam caídas e esmagadas e não era por um pé humano. Não bastasse isso, havia sangue na pequena claraboia do teto baixo.
Midoriya queria voltar, queria fingir que nada tinha acontecido e voltar para o seu caminho rumo a sala de controles, mas sabia que não podia deixar as coisas assim.
Pé ante pé, o esverdeado adentrou mais a estufa sem conseguir desviar os olhos do sangue que parecia brilhar ainda mais vermelho quando a luz de alerta piscava, seguindo o labirinto angustiante das estantes de alumínio e plantas amassadas e foi quando pôde ver o responsável pelo cheiro terrível.
Era horrível e Izukusabia que quando todo o choque passasse ele teria pesadelos com aquela cena.
"Deku..." A voz de Bakugou era distante, o alertando do que já sabia, o coração que batia descontrolado no peito.
Não tinha cabeça. Não uma cabeça inteira pelo menos. O crânio estava esmagado como se fosse uma simples noz, ele conseguia ver marcas de dentes em alguns restos de pele. O que sobrou do rosto também não era muito, completamente deformado pela quebra do crânio e destroçado, talvez, por uma segunda boca? Entranhas saltavam de sua barriga exatamente igual como as que via naquele seriado ridículo e antigo de zumbis que Katsuki assistia e que nunca soou tão real ao seu ver agora.
Era irreconhecível. Aquela pessoa deitada no chão poderia ser alguém que ele conhecia e agora... Não passava de um corpo podre e morto.
Procurando respirar fundo, Midoriya puxou o ar que nem notou que estava segurando, rasgando suas narinas e fazendo com que seus olhos lacrimejassem. A sensação de que estava apodrecendo por dentro, apoderando-se de seu corpo.
Isso é real?Pela primeira vez na vida,Midoriya torcia para que estivesse alucinando.
"Tenya—kun..." Ele sussurrou, queria tentar de novo, queria arrancar respostas, precisava delas.
"Trancamos ele."
"Hã?" A resposta veio aérea, ele não conseguia parar de olhar, sua mente repetia o tempo inteiro que poderia ser alguém que conhecia e ele tentava, buscava nos mínimos detalhes que pudessem ter, algo que mostrasse quem aquela pessoa foi e porque estava ali naquele estado.
"Eu nunca confiei naquele idiota. Então trancamos ele no armário." Concluiu Bakugou. "O que foi? O que aconteceu,Deku?"
"Kacchan..." Suas pernas falharam e o esverdeado se sentou, escorando-se na parede paralela ao corpo e abraçando os joelhos. Ele não conseguia lidar com aquilo, não com a morte. Esperava, torcia e principalmente, não queria ter que lidar com esse tipo de situação nunca em sua vida, especialmente depois do desaparecimento de sua família. "Está morto..." Foi a única coisa que saiu entre os soluços contidos.
"O quê? Do que está falando, Deku?" O tom de voz de Bakugou soava alto o suficiente para considerar que estivesse quase gritando.
"Você consegue ver se mais alguém acordou?" Perguntou Midoriya, fechando os olhos e se obrigando a respirar outra vez.
"Um minuto." Respondeu Todoroki e Izuku abriu os olhos novamente, olhando para o corpo. Não podia ficar ali para sempre, ainda precisava ir até os controles e ao menos retomar a energia da área, tentar entender o que estava acontecendo e principalmente, precisava garantir que não estava realmente alucinando, que Shouto e Katsuki também veriam o que estava vendo.
Foi somente quando se levantou que viu o gravador na mão dele, pressionado com força em torno dos dedos pálidos. Midoriya tremeu: conhecia aquele gravador, só tinha uma pessoa que ainda tinha aquele hábito um tanto cômico. Ele se aproximou com receio e tocou os dedos sem vida, os afastando com certo pesar, o tirando da mão com esforço, havia sangue na tela e ele o limpou com a manga do casaco o máximo que podia, a arrastando na calça depois.
Ele pressionou o botão de bloqueio e agradeceu mentalmente quando a luz do aparelho de bolso se projetou mais forte no cômodo, mostrando não estar descarregado e mais ainda quando pôde ver a lanterna caída ao lado do corpo, que não hesitou em pegar, o sangue seco lhe causando arrepios somente pela ideia de estar em contato com a pele.
O esverdeado deslizou o dedão pela tela simples do gravador procurando por qualquer gravação de voz recente, qualquer coisa que lhe respondesse o que estava acontecendo, mesmo que fosse o mínimo do todo. Havia gravações de quarenta anos atrás ali e uma delas, a mais recente, fora de quando já estavam na viagem.
Midoriya não pensou duas vezes antes de pressionar o botão para escutar.
"Aqui é-" Ele pausou a gravação, estava certo. Suas pernas tremeram bruscamente e ele quase perdeu o equilíbrio. Procurou abaixar o volume antes de continuar, o suficiente para que pudesse escutar somente com ele próximo, quase colado, ao ouvido. "KirishimaEijirou, código de identificação... Hã... hum... Eu nunca consigo me lembrar dessa coisa." Ele fez uma pausa. "Que seja, eu já estou praticamente morto mesmo." Midoriya pausou a gravação de novo e ainda que tivesse tentado evitar, a visão do corpo destroçado o consumiu pelo canto do olho. Ele se levantou, apoiando o corpo tonto na bancada e se arrastou até o corredor novamente, não conseguiria ficar ali nem por um segundo a mais.
Entrou na primeira porta que se abriu para si e a boca formou um perfeito O.
Aquele corredor certamente não estava sendo muito agradável, mas apesar de tudo Midoriya não conseguiu reprimir o fascínio que brilhou em seus olhos. Todo o cômodo: teto, chão e paredes estavam cobertos com uma substância negra, aparentava completamente maleável à primeira vista, mas o pé que havia pisado para entrar provava o contrário, a mesma era grossa e totalmente firme. Um líquido de mesma cor, quase como piche pingava de alguns lugares do teto e em outros pontos havia espirais perfeitamente bem trabalhadas. Midoriya não precisava conhecer a espécie para saber o que era aquilo, a criatura achara um jeito de se acomodar até sua próxima refeição e embora não quisesse pensar nisso, era ele mesmo. Ela estava seguindo os instintos. Não era um hábito muito diferente dos humanos, em suas primeiras viagens fazia questão de que sua cabine tivesse pelo menos dois itens de seu quarto para suprir a saudade de casa. Era incrível, ele não conseguia negar, não quando passara tanto tempo pesquisando, se dedicando e acreditando na existência de vida inteligente além da que existia na Terra, só não esperava que elas fossem tão hostis.
Ele fechou a boca e engoliu em seco, não podia ficar ali, não com o risco iminente da coisa voltar para lá.
"Izuku." Todoroki chamou baixinho, tentando evitar que se assustasse. "Shinsou e Kirishima foram tirados da identificação da Amanda. OKatsuki checou, eles também não estão mais nas câmaras."
"O Hitoshi também?" Ele encarou o gravador. Será que havia alguma coisa ali? Ele precisava urgentemente escutar aquilo. Midoriya se afastou da porta e começou a caminhar em direção a qualquer sala em que ele pudesse se esconder e escutar ao áudio com calma.
"Também?" Perguntou o bicolor sem entender.
"O..." Ele estremeceu só por lembrar. "O corpo que eu achei na estufa... Era o Eijirou, encontrei seu gravador."
"O quê?!" Gritou Katsuki, completamente em choque. O zumbido já não incomodava mais quanto antes. Ele conseguia sentir as lágrimas insistindo em voltar para os olhos.
"Eu não sei..." Soluçou, a porta deslizou e o esverdeado não pensou duas vezes antes de se encostar embaixo da mesa de escrivaninha. "Eu espero conseguir algo agora."
Ele voltou à gravação.
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