Visitor

3 Palpable fear


Notas iniciais
A gente conversa nas notas finais aaaa

"E se tiver alguém escutando isso, provavelmente vai morrer também." Kirishima riu, um riso sofrido e cheio de escárnio. "Eu sempre quis dizer isso. Principalmente pros engraçadinhos que ficavam pegando meu gravador." Ele fez uma pausa, Midoriya conseguia escutar os passos apressados, abafados por um farfalhar de roupa. "Eu só não esperava estar falando sério quando eu falasse." Outra pausa e Midoriyaaproveitou do silêncio para manter os ouvidos alerta. Mais um risinho se prolongou. "Eu fodi com tudo, cara. Eu sou tão idiota. Eu sou uma vergonha como um oficial de ciências." Ouviu-se o chiado da porta deslizando e o esverdeado ficou em dúvida se havia sido no áudio ou onde estava. Por conta da parte de trás da escrivaninha, Midoriya não conseguia ver nada que não estivesse na sua frente. Ele permaneceu quieto por um tempo e quando notou que nada acontecia, continuou. "Eu sei que eu devia ter respeitado a quarentena, eu sei, vinte e quatro horas de descontaminação antes de entrar na nave com aquilo, mas... Aquela coisa ‘tava abraçada na cara dele, eu precisava ajudar. E aquele android... Ele simplesmente me deixou entrar... Eu 'tava tão desesperado, eu não conseguia pensar direito..." O ruivo deu uma longa respirada. "Se tem uma pessoa que vai escutar isso com o mínimo de chance de ser antes de atracarmos, é você, não é, capitão? Eu sei que sim, sei que vai tentar entrar, então estou gravando especialmente para você. E não é porque eu achei que seria engraçado mandar o casal de pombinhos acordar dez dias antes como eu fazia com o Bakugou, colocando o telefone dele para despertar às três da manhã, na época da academia." Ele riu baixinho. "Eu adorava as reações daquele idiota, eu pensei que seria divertido, mas agora que eu paro para pensar nisso, tudo que vem na minha cabeça é você dando um jeito de entrar no saguão, com toda aquela sua determinação. Eu espero que dê um jeito de sair daí vivo, não quero me sentir mais culpado ainda..." A gravação ficou parada por alguns segundos. "Eu sei o quanto você odeia segredos e toda essa coisa, por conta do desaparecimento dos seus pais, mas, sabe... Os meus estavam naquela nave também, assim como os do Shinsou e do Bakugou ou do Todoroki." Ele suspirou pesado e Midoriya aguardou pelo pior. "Estão todos mortos..." Mais uma pausa. O esverdeado arquejou. "Dois anos depois que eles partiram e então simplesmente perdemos a comunicação? Dois meses depois disso e a Yutani anuncia que está fechando a estação Ripley? Era para lá que eles estavam indo, então por quê? Aquela estação rendia mais da metade dos lucros, eu tenho certeza. Dez anos depois e eles não tinham voltado, na nossa formatura as suas cadeiras estavam vazias, você lembra disso, não é? Como deixamos passar tanto tempo? Mesmo depois que fomos recrutados pela Yutani, mesmo depois que tínhamos experiência o suficiente. Eles nunca nos contaram nada, sempre dizendo que a informação era confidencial, mas era a porra dos nossos pais que estavam presos no espaço, merda, não um bando de robôs idiotas, eram pessoas." Ele respirou fundo novamente. "A gente podia ter ido, um deles poderia estar vivo, talvez dormido na câmara de hibernação, eu não sei... A gente podia ter evitado isso, Midoriya. Quando você foi escalado capitão, eu pensei que talvez fosse a hora. Eu ‘tava pronto pra abrir mão de tudo e ir atrás deles, mas você não fez nada. Eu sei que era ridículo da minha parte pensar isso porque nós não tínhamos sequer ideia de onde exatamente ficava a estação, não tínhamos coordenadas, não tínhamos informações... Mas eu queria, de alguma forma eu queria acreditar que tinha um outro jeito, qualquer jeito da gente chegar lá..." Midoriya pausou a gravação, era ele quem precisava respirar fundo no momento. "Eu não estou te culpando se é isso que está pensando, eu nem sei se você vai escutar isso algum dia, se alguém vai escutar. Eu sei que você tinha que seguir ordens, que tinha que pensar maior... Mas adivinha só? Eu não. Muito menos o Shinsou. Deveríamos ter sido menos inconsequentes, mas nenhum de nós dois queria, queríamos respostas, como você queria antes e quer agora, se estiver escutando esse áudio. A pior parte de tudo isso, é que eu tenho todas elas."

Kirishima odiava a sensação de enjoo que aquelas câmaras causavam embora adorasse as cócegas que percorriam todo o seu corpo, acompanhadas pelos arrepios. Era quase que satisfatório, como uma mensagem lhe dizendo que finalmente haviam chegado ao seu destino, o que ele veio descobrir segundos depois que não era.

"Você aceita um saquinho, oficial Kirishima?" O android lhe erguia um pequeno plástico branco, mas o ruivo o negou, não estava enjoado o suficiente para vomitar, sequer tinha comida para tal.

"Não, obrigado." Ele se levantou com as pernas bambas e demorou um tempo até notar que todas as outras cápsulas da tripulação estavam fechadas. "Hã... Iida?" Encarou o sintético com uma sobrancelha erguida. "Por que todo mundo ainda 'tá dormindo?"

"Ainda falta anos para chegarmos, Kirishima. Mais precisamente, sete anos."

Kirishima engasgou com a própria saliva, de repente cogitando aceitar o saquinho.

"O quê?!" Exclamou surpreso, olhando pra Tenya e esperando que ele tivesse feito outra tentativa falha de fazer uma piada.

"Sim. Ao que parece você teve um pequeno equívoco na programação de sua câmara. Mas posso programá-la novamente, corretamente dessa vez."

"Óbvio que sim! Faça isso." Estava pronto para se deitar novamente quando o rosto inteiro se iluminou com uma ideia. "Espera só um pouquinho." Sorriu travesso, caçando a câmara dos três rapazes que surgiram na sua mente.

Bakugou dormia tão tranquilo que quase duvidara que era o mesmo engenheiro auxiliar explosivo que o xingava sempre aos quatro cantos do espaço.

"Eu não vejo onde isso possa ser efetivo." A voz do robô quase o fizera dar um gritinho assustado, esquecendo-se completamente da presença do outro ali.

"Claro que isso vai ser efetivo." O oficial de ciências gargalhou. "Grave as explosões de Bakugoupara mim, ok? Eu vou adorar rir disso."

Iida assentiu, embora discordasse, com todos dormindo era Eijirou o de maior patente ali, logo, poderia mandar na nave inteira se quisesse.

Decidira de última hora acordar ambos, Midoriya e Todoroki, somente para não deixar o loiro sozinho ou porque simplesmente pareceu melhor em sua cabeça acordar o casal inteiro de uma vez.

E estava pronto para voltar a dormir quando uma segunda câmara se abriu. Kirishima conseguiu sentir o ar frio se espalhando fracamente pela sala, antes de observar Shinsou virar para o lado e vomitar no chão, sem dar tempo para que sequer tivesse um saquinho oferecido. O arroxeado tossiu descompassadamente e limpou o resto do vômito com as costas da mão, piscando e olhando ao redor, a única diferença, porém, era que ele parecia saber exatamente porque estava acordando.

Do seu lado Iida se afastou para limpar a sujeira que Shinsou havia feito.

"Que bom que já está acordado." Ele se levantou e automaticamente desabou do lado limpo da câmara. De todos os tripulantes, Shinsou era definitivamente o mais fraco do estômago, tanto que possuía um ódio mortal por qualquer câmara de hibernação e era sempre o último a dormir entre todos. Era o que mais possuía poder naquela nave depois de Midoriya, por ser escalado como o oficial executivo, o que não surpreendia a ninguém, Shinsou era extremamente inteligente.

"Era pra eu supostamente estar acordado?" Questionou, curioso, se aproximando do outro rapaz e o ajudando a se levantar.

“Sim.” Cambaleou, bufando. “Céus, como eu odeio essas coisas.” Ele se inclinou como se fosse vomitar de novo, mas somente fechou os olhos com força antes de se erguer e voltar a tremular para fora da sala.

“Então?” Perguntou, Kirishima o acompanhando, vez ou outra se prontificando para assisti-lo caso aparentasse que fosse cair de novo. “Vai me dizer por que eu deveria estar acordado?”

“Preciso da sua ajuda.” Respondeu simplista, Kirishima odiava aquele seu temperamento.

“Para?” Shinsou não respondeu até que chegassem na ponte, ele mexeu em alguns comandos e arrastou uma tela para o painel principal, era a trajetória da nave. Kirishima ergueu uma sobrancelha. “E?” O arroxeado estalou a língua, aproximou as mãos da tela e deu um leve zoom com os dedos, foi só então que ele ligou os pontos.

A estação...” A Amanda passaria perto da órbita do planeta da estação. “Como você sabe disso?”

“Isso não importa.” Respondeu. “Preciso da sua ajuda, pra chegar até lá.”

“Como assim ‘não importa’? Nos privaram dessa informação praticamente nossas vidas inteiras e você quer que eu simplesmente aceite que de repente...” Ele fez um sinal de aspas com as mãos, entoando. “Você sabe?”

“Você quer saber o que aconteceu, não quer? Bom, as respostas estão lá.”

“Eu quero saber tudo, completamente! Não pela metade. A Yutani simplesmente liberando informações assim? Conta outra!”

“Eu não disse que eles me deram as informações.”

“Você hackeou o sistema da Weyland-Yutani?!” Bradou, desesperado. “Você está louco? Se descobrirem você pode ser demitido ou até preso!”

Shinsou riu, irônico.

“Eu também não disse que burlei o sistema. Seja mais inteligente, a empresa é praticamente visada por todo mundo. Acha mesmo que é fácil assim? Simplesmente hackear? A Yutani é esperta demais pra isso.”

“Então o quê? Como você descobriu?”

“Me deram as informações.”

Kirishima riu, desacreditado.

“Não acabou de dizer que eles não tinham lhe dado?”

“Eu disse que não havia dito isso e não que não era verdade.” Shinsou o encarou, incapaz de segurar o riso da cara de confusão do ruivo.

“Impossível. Por que eles simplesmente dariam as informações assim? Depois de anos?”

“Eu não ligo.” Ele deu de ombros. “É a única chance que vamos ter de descobrir o que aconteceu, podemos ir lá, talvez um deles possa estar vivo!”

“E como você espera chegar lá? A estação está fechada tem décadas, o controle de tráfego nem deve funcionar mais, se é que tem alguém que ainda realize essa função, não ia dar pra acoplar a dropship.” Ele fez uma pausa, tinha apenas uma possibilidade: forçar a atracação, mas era complicado demais. “Além disso, a Amanda foi programada para não interromper a rota, a possibilidade de ficamos presos na estação ou na dropship sem combustível é imensa!”

“Eu posso parar a Amanda.” Simplista, novamente.

“E como diabos você vai fazer isso? Só o capitão tem esse direito.”

“Não exatamente.” E novamente, Kirishima ligou os pontos.

“O alarme de emergência...” Shinsou era realmente um gênio.

“Uma programação da nave libera o acesso até a comandos restritos para o capitão se estivermos em uma situação de emergência. Simples, rápido e fácil. Eu ativo o alarme, paro a nave e pronto.”

“E se o Iida retomar a rota? Você sabe o quanto tudo isso pode dar errado? Ele pode nos dedurar pra Yutani.”

“Ele é um android, Kirishima, não um adolescente dedo-duro de doze anos. É programado para obedecer às ordens. E nesse caso, eu mando aqui.”

“Ainda assim, podemos não conseguir acoplar na estação.”

“É por isso que eu preciso de você.” Ele se virou para encará-lo. Kirishima franziu o cenho. “Você é o melhor piloto que temos, nem Uraraka consegue te superar, por que você acha que eu te acordei?” Havia uma grande chance de Hitoshi só estar falando aquilo para encher seu ego, mas era impossível que não cedesse aos elogios, afinal, sabia plenamente que dentre todos da tribulação, ele realmente era o melhor, toda a sua família era, por que com ele seria diferente? E queria tanto quanto Shinsou descobrir o que havia acontecido. “Eu sei que você consegue forçar uma atracação, perto o suficiente para que a gente possa entrar. Além disso, era o único que eu tinha quase certeza que toparia.”

“Eu não sei, Shinsou. Tem tantos riscos, se o Midoriya descobrir, somos dois cadáveres.”

“Sorte a nossa que ele está dormindo então.” Um silêncio agonizante se seguiu enquanto Kirishimatravava uma luta interna entre a razão e a emoção. Ele sabia que não devia ser tão inconsequente, que aquilo poderia resultar em coisas mais graves, mas não conseguia evitar. Seus pais estavam tão perto de si, bem debaixo do seu nariz, bastava apenas que estendesse a mão.

“Certo, eu topo.” O arroxeado lhe dirigiu um risinho vitorioso. “Mande as coordenadas pra dropship. Eu vou preparar tudo.”

As dropships eram naves feitas para viagens de curta distância de uma nave a um planeta ou estação e vice-versa. Kirishima sempre ficava um pouco decepcionado pelo fato de que elas eram pouco usadas e quase não pôde esconder o contentamento de pilotar uma novamente.

Programou as coordenadas, desativou o controle automático e esperou. As sirenes de alerta tocaram pela nave, assim como os microfones da dropship que foi tomada por uma luz vermelha. A Amanda parou com um leve solavanco, de forma gradual enquanto entrava em um estado de baixa energia.

“Certo...” Shinsou apareceu depois, jogando o comunicador em seu rosto. “Não pode sair sem ele, tonto.” Ele se aproximou, se sentando ao seu lado. “Ela vai ficar parada enquanto o alarme estiver ativado.”

“E se o alarme desativar?” Kirishima soltou o braço de atracação, a dropship tremeu.

“Então ficamos no espaço pra sempre, exatamente como nossos pais.”

“Confortante.” Ele estremeceu, mas decidiu confiar em Shinsou de que aquilo não iria acontecer. “O que você acha que a gente vai achar lá?” Ele perguntou depois de um tempo, conseguia perceber o nervosismo do arroxeado. Ele roía as unhas sem parar e vez ou outra perguntava por qualquer luz diferente que aparecia no painel de bordo, mas achava que estava super confiante no ponto de vista do outro.

“Eu não sei.” Ele fez uma pausa, trocou o dedo. “Tem uma grande chance de eles não estarem mais lá.”

“Hã?” Ele procurou não se desatentar do que estava fazendo, mas virou levemente o rosto para encará-lo.

“Eu sei que eles não retornaram, mas e se de alguma forma eles conseguiram resgatar os da nave Ash ou tentar ir para outro lugar? Pode ser que tivesse alguma outra coisa por perto. Não sabemos o que aconteceu, Kirishima, até onde a gente sabe eles podem estar mortos na Ellen, em uma nave sem combustível, em algum lugar do espaço.”

“E então por que não mandar um pedido de socorro? Qualquer coisa?”

“E se eles mandaram?” Shinsou o encarou de volta. “Sem comunicação, a Ripley fora de funcionamento... Qualquer coisa pode ter acontecido.” Kirishima mordeu o lábio, nervoso. A estação entrando em seu ponto de visão. “Temos que esperar pelo pior, eles podem ou não podem estar aí.”

“E se foram pro planeta? E se fosse mais seguro?” Ele entrou no pensamento de Shinsou, cogitando em que lugares eles poderiam estar agora, além da Ripley.

“Como uma mina de trimonita ia ser mais seguro que uma estação? Pessoas morrem todo dia nesses lugares. Você se lembra do desabamento que matou praticamente uma tripulação inteira? É isso que acontece com os trabalhadores, mas precisamos de dinheiro, então, o que nos sobra?”

“Mas e se...” Kirishima diminuiu a velocidade à medida que se aproximavam, as mãos apertando forte o manche. “E se estivessem fugindo de algo?”

“O que quer dizer?”

“Eu sou um oficial de ciências, cara. Eu não posso desprezar a possibilidade de uma outra espécie de vida inteligente. E se a Yutani os mandou pra resgatá-los sem saber exatamente do que se tratava? Nunca vimos o que era o pedido de socorro da Ash e se eles não mencionaram sobre isso porque temiam que talvez não viesse ajuda?” Um arrepio percorreu sua espinha. “E se eles sabiam?” Shinsou arqueou uma sobrancelha. “E se eles sabiam que tinha algo a mais e ainda assim mandaram nossos pais pra lá? Uma descoberta como essas iria enriquecer a Yutani em um nível gritante! E se eles mandaram nossos pais sabendo do risco justamente por causa disso?” Sua mente parecia prestes a explodir, nunca na vida cogitara tal ideia e de repente se sentia o mestre das conspirações, ele não conseguia negar para si mesmo o quanto aquilo parecia extremamente correto. Ele respirou fundo, esperando que Shinsoucomentasse alguma coisa, mas ele ainda parecia pensar sobre o que dissera. “Eles podem ter mandado nossos pais direto pra morte, na esperança de que eles retornassem com seja lá o que for para fazer pesquisas.”

“Você passa sua vida inteira pesquisando sobre outras vidas e automaticamente associa que seriam criaturas hostis?” Ele suspirou, Kirishima sabia que também estava ponderando aquela ideia, ainda que fosse difícil de acreditar que uma empresa seria cruel a ponto. Os gastos com indenização foram gritantes, por que isso valeria o risco?

“É... Talvez vo-“ Ele se interrompeu, a resposta vindo na forma da Ellen atracada na baia quando a viu, ainda distante. Ele apontou e a expressão de Shinsou pareceu se iluminar minimamente. Havia apenas um ponto positivo naquilo, eles estavam mais perto das respostas do que nunca.

“Pelo menos eles não estavam fugindo de algo.”

“Ou não conseguiram fugir...” Ele sussurrou, deslizou e apertou os dedos por algumas teclas do painel. “Aqui é Kirishima Eijirou, código de identificação: sete, dois...” Ele tocou na testa, se esforçando para lembrar.

“Não lembra o seu próprio código de identificação?”

“Cala a boca.”

Sete, dois, quatro, quatro! Da nave Amanda, no total de dois tripulantes, requisito liberação da baia para atracação.”

Tudo que recebeu foi pura estática.

Kirishima Eijirou. Tem alguém na escuta?” Nada. Ele encarou Shinsou.

“Não é como se já não esperássemos isso, não é?”

“Acho melhor segurar o estômago porque vamos passar por um pouquinho de turbulência.”

Forçar uma acoplagem era particularmente difícil, sem os braços de atracação para ajustar o posicionamento da nave, Kirishima era obrigado a fazer isso manualmente e ainda assim, as portas não ficariam sedadas, eles seriam obrigados a vestir o traje e conseguir acesso pela entrada de emergência. A nave tremeu, à medida que ele era obrigado a virá-la a força e deu um solavanco violento antes de parar. Shinsou gemeu, a mão na boca enquanto revirava os olhos.

“Não vai vomitar aqui.” Ele deu um leve tapinha em suas costas, quando finalmente se estabilizaram. “Ainda vamos voltar nessa mesma dropship e vai ser bem desagradável se cheirar a vômito.” Shinsou lhe respondeu apenas com um grunhido incompreensível, se recuperando como podia.

Vestiram os trajes, Kirishima manteve a nave em baixa energia caso precisasse de uma fuga rápida. Seu corpo inteiro se arrepiou e uma sensação ruim se apossou de seu coração. Ele sabia que não viria coisa boa e ainda assim, não conseguia negar a curiosidade de descobrir o que almejou praticamente a vida inteira.

“Vamos logo.” Murmurou, Shinsou, agora que as mãos estavam cobertas pelo traje, ele mordia a parte interior da bochecha sem parar.

“Você não é muito motivador com esse nervosismo.” Riu, mas ele mesmo estava uma pilha de nervos. “Onde está o Shinsou confiante de um tempinho atrás?”

“Despressurizando...” Escutou a voz feminina da Ripley falar, assim que as portas se fecharam após entrarem.

Shinsou lhe dirigiu um olhar enfarruscado.

“Pelo menos a energia ainda funciona.” Kirishima comentou, tentando aliviar a situação.

“Se eles tivessem realmente a desativado, não estaria.”

“Talvez eles soubessem que estávamos vindo?” Brincou. “Por que outro motivo eles lhe contariam sobre isso, afinal, se não quisesse que viesse?” Por um momento, uma engrenagem pareceu ficar presa na sua cabeça e a sua própria pergunta ficou repercutindo na mente.

Se falaram aquilo realmente para que fossem até a estação, então, por qual motivo? Por que a Yutanide repente estava dando tudo que eles sempre quiseram descobrir de mão beijada? Por que de repente as informações deixaram de ser confidenciais para eles dois?

Kirishima estava começando a pensar que talvez não fosse uma boa ideia eles terem ido e continuou com esse pensamento quando as portas da câmara de ar se abriram.

Merda...” Não era nem metade e ele sabia que a estação inteira estava um completo caos. O saguão principal estava uma zona, o sistema de refrigeração não funcionava e por decidirem manter o traje, a sensação era que estavam começando a serem assados vivos ali dentro.

“Você acha que foram Wookiees?” Ele perguntou, tentando descontrair, estava se esforçando ao máximo para não começar a tremer com a atmosfera macabra.

Ah, não.” Hitoshi revirou os olhos. “Você realmente vai vir com esse papo de novo de que o Chewbacca existe? Você não cansa de falar desse filme idiota? Os efeitos especiais são ridículos.”

“O espaço é enorme, tem uma grande chance de existir uma espécie de planeta Kashyyyk por aí!” Ele riu, embora realmente estivesse levando aquilo a sério.

“Sério, Kirishima?” Shinsou o encarou, os olhos estreitos em uma mistura de ironia e nervosismo. “Você passou anos estudando pra acreditar na existência do Chewbacca?”

“Não ele exatamente, mas sua espécie pode totalmente existir! Por que diabos alguém criaria um ser peludo sem qualquer sentido nisso?”

“É. Se você achar um deles, pede pra mandarem lembranças pro Han Solo pra mim e pro som que eles magicamente produzem no vácuo.”

“Pra sua informação o Han Solo morreu no episódio sete e você saberia disso se tivesse terminado.” Ele estremeceu quando uma porta ao seu lado se abriu de súbito.

“Eu tenho mais o que fazer do que assistir filmes antigos e com péssimos efeitos.” Concluiu, mas sua voz parecia levemente decepcionada pelo spoiler que recebera. No entanto, no fundo, Shinsou agradeceu mentalmente pela breve conversa, porque já conseguia sentir o gosto metálico do sangue vindo do lábio inferior que não parava de morder. “Devíamos nos separar.”

“Hã?” O ruivo o encarou, desacreditado.

“Devemos checar as pontes de comando da Ellen e da Ripley. Pode ter informações diferentes lá e quanto mais rápido fizermos isso, mais rápido saímos daqui.” O ruivo abriu a boca como se fosse dizer algo, mas concluiu que Shinsou tinha razão, mesmo que não quisesse de forma alguma ficar sozinho nos corredores da Ripley. “Eu vou pra ponte da estação, você checa a Ellen.” Continuou.

“Certo.” Pelo menos já estavam nas alas das baias, tudo que precisava fazer era achar a nave e não encontrar nenhum Wookiee no processo. “Mantenha esse comunicador ligado e que a força esteja com você.” Ele deu uma última olhadela no arroxeado que começou a ir para a direção contrária, abanando a mão com descaso do último comentário.

A Ellen estava na baia quatro e a mesma voz lhe indicando a despressurização da câmara lhe causou um arrepio enquanto esperava as portas abrirem para entrar na nave.

Ele respirou fundo esperando que aquilo diminuísse o recém sentimento de sufoco que aqueles corredores lhe causavam enquanto se dirigia até a ponte de comando. Ainda que fosse um modelo antigo, as naves da Yutani não tinham muita diferença na estrutura, por isso, foi até fácil encontrar a sala principal da nave.

Shinsou, você está aí? Eu já cheguei.” Ele sussurrou, sem saber exatamente o porquê, se dirigindo para o computador de bordo e no fundo, agradecendo por não ter tido nenhum imprevisto no processo. “Você viu algum sinal de alguém?”

“Eu... Achei um sintético dividido ao meio no caminho. Era um modelo antigo então foi bem menos horrendo do que se fosse algum do tipo do Iida.” Ele suspirou, Kirishima conseguiu ouvir o chiado de uma porta abrindo pelo comunicador.

“Ao meio?!”

“Eu não sei onde estão seus restos, tudo que vi foi as pernas. Estava destroçado.” O ruivo engoliu em seco. “Poderia ter sido com um maçarico, mas eu duvido muito.”

“Então, realmente tem alguma coisa aqui?”

“Pode ser qualquer coisa, Kirishima. Era normal nessa época androids perderem o controle, não era? Pode ter sido eles mesmos quem quebraram.”

“É... Claro...”

“Não vai amarelar agora.”

“Quem você pensa que eu sou?” Ele se aproximou do computador. Era antigo e funcionava com um teclado normal em vez do digital, se sentou na cadeira do piloto e digitou o seu código de acesso.

Havia uma coisa que não mudava fosse de uma nave de anos atrás para as mais recentes: a programação era sempre a mesma, por isso, o seu código funcionaria em qualquer nave contanto que ainda estivesse trabalhando para a Yutani. Além disso, a interface era projetada para que o usuário tivesse a sensação de que estivesse trocando mensagens com um amigo, o que na opinião de Eijirou era completamente estranho.

BOM DIA, OFICIAL DE CIÊNCIAS KIRISHIMA EIJIROU.

Solicito o diário de bordo da Ellen.

ESSA INFORMAÇÃO É CONFIDENCIAL.

Solicito últimos relatórios enviados pela Ellen.

ESSA INFORMAÇÃO É CONFIDENCIAL.

Solicito registros de sinais recebidos nos últimos cem anos.

ESSA INFORMAÇÃO É CONFIDENCIAL.

Kirishima estalou a língua, a perna chacoalhando agitada, totalmente impaciente.

Solicito sinal de socorro emitido pela Nave Orbital de Mineração do Espaço Profundo Ash.

ESSA INFORMAÇÃO É CONFIDENCIAL.

Ótimo, claro que a Yutani não daria tudo de mão beijada.

Por que as informações estão restritas?

ESSAS INFORMAÇÕES FORAM CLASSIFICADAS COMO PARTE DA ORDEM ESPECIAL 937 E, PORTANTO, ESTÃO CONFIDENCIADAS.

O que é a Ordem Especial 937?

INVESTIGAR FORMA DE VIDA. COLETAR ESPÉCIE. PRIORIDADE UM: ASSEGURAR O RETORNO DO ORGANISMO. TRIPULAÇÃO DESCARTÁVEL.

Ele havia lido corretamente? Não conseguia acreditar. Kirishima batucou os dedos no balcão fitando as teclas enquanto tentava assimilar o que acabara de ler, pela primeira vez na vida nunca torceu para estar tão errado.

A Yutani sabia e ainda assim mandou seus pais direto para a morte. Ele travou o maxilar.

Shinsou, nós temos que ir. Agora.

“Estou ocupado.” Foi só o que respondeu.

“Não! Shinsou, eu estava certo! Nós temos que ir! Agora! Tem alguma coisa totalmente fora da nossa compreensão nessa nave.” Ele não recebeu uma resposta. “Shinsou!” Nada. “Droga, não me silencie, seu idiota!” Kirishima esfregou as mãos no traje nervoso. O medo subiu pela espinha e se distribuiu por todo o corpo, fazendo com que sentisse calafrios, os pelos da nuca se eriçando. “Merda, merda, merda. Temos que sair daqui.”

Não pensou duas vezes antes de sair da Ellen, estava tremendo, o coração batia tão rápido que conseguia senti-lo na ponta de suas orelhas.

Shinsou!” Ele chamou de novo, sem o comunicador, Kirishima não só se sentia sozinho como preocupado por não saber o que poderia acontecer.

Seu estômago se embrulhou completamente quando a energia da estação caiu, a luz do traje sendo a única coisa iluminando os corredores.

“Um minuto.” Ouviu o arroxeado falar, finalmente. “Já vai voltar.”

“O que você está fazendo?! Nós temos que sair daqui!”

“Estou hackeando o sistema da estação, todas as informações estão restritas, eu não vim aqui para nada. O que você descobriu?”

“Tem algo na nave! Eu não sei o que é, mas a Yutani estava disposta a sacrificar a tripulação pra levá-los pra Terra. Nós temos que sair!” As luzes se acenderam novamente.

“Merda...”

“É! 'Merda'! Venha para a baia!”

“Não... Merda... Eu consegui acesso às câmeras de segurança.” Kirishima hesitou.

“E?”

“Merda, Kirishima, merda. Eles... Porra...”

Shinsou, nós temos que ir!” Ele não queria saber, sequer queria ter o prazer de imaginar o que Hitoshi estaria vendo.

“Espera, eu ainda preciso-“

“Se você não vir agora, eu vou embora sem você!” Aquilo de longe era verdade, mas Kirishima só queria urgentemente o conforto da Amanda. Hitoshi não falou nada por alguns segundos.

“Estou indo.” Eijirou não conseguiu esconder o suspiro aliviado.

“Eu queria dizer que tudo deu certo enquanto Shinsou voltava para a baia. Mas adivinha? Seria sorte demais e a força definitivamente não estava com a gente nesse dia. Eu não sei o que aconteceu, uma hora eu escutava sua respiração e na outra, gritos e então mais nada. Quando eu o achei aquela coisa ‘tava abraçada na cabeça dele. Eu chamei de facehugger. Tinha derretido a porra do capacete. Eu tive que arrastá-lo até a dropship e foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na vida.” Ele soluçou, estava chorando. “Eu acionei a quarentena do saguão inteiro porque eu não podia correr riscos. E se aquela coisa soltasse esporos? Provocasse alguma doença? Eu levei o Shinsou pra área médica e fiz o possível pra tentar tirar aquilo da cara dele. O sangue deles é ácido. Eu tentei cortar e aquela porra quase fez um buraco na Amanda. Quando tentei puxar, a coisa se afundou mais ainda no seu rosto, aquele maldito rabo envolvendo seu pescoço, eu não tinha o que fazer, Shinsou ainda respirava, tudo que eu podia fazer era esperar por um maldito milagre. Demorou horas pra ele acordar. E eu tive somente essas algumas horas pra poder pensar no que havia acontecido e a minha conclusão sempre foi a mesma. Androids deveriam ser programados para seguir a quarentena da divisão de ciências, mas assim que eu pisei o pé na câmara de ar, o maldito do Iida simplesmente abriu as portas. Esse era o objetivo da Yutani desde o início. Eles não nos deram as coordenadas porque queriam que a gente descobrisse o que aconteceu, eles nos deram porque sabiam que talvez isso acontecesse, porque queriam que acontecesse. E aconteceu exatamente como eles planejaram.” Kirishima bufou, raivoso. “Isso é tão frustrante...” Ele fez uma pausa. Midoriyaescutou novamente o chiado da porta. “Quando o Shinsou acordou, aquela coisa tinha sumido. Ele não se lembrava de nada do que havia acontecido na Ripley, do que achou nos computadores ou o que viu nas câmeras de segurança. Tudo que ele disse foi que tinha o sentimento de que estava se afogando. Eu não ligava pra isso. Eu descobri tudo que eu precisava saber da pior forma possível, eu só estava tão aliviado por ele estar vivo, ou era o que ele aparentava estar.” Ele suspirou. “Eles nascem por meio de hospedeiros. Aquele facehugger se prendeu na cara dele e nesse meio tempo implantou um embrião no Shinsou. Ele literalmente o comeu por dentro, cada um de seus órgãos, quebrou suas costelas de uma forma que nem mesmo eu sabia que era possível. Eu fui obrigado a ver aquele idiota agonizando enquanto eu não podia fazer nada, os gritos dele ainda estão se reproduzindo sem parar pelos meus ouvidos.” Kirishima respirou fundo, de forma lenta e sôfrega. “Outra coisa, rompeu, rasgou o peito dele e correu antes que eu pudesse ter noção do que diabos havia acontecido. Algum tipo de alien, um xenomorfo. Eu estava certo de novo e de novo eu me odiei por isso. Pelo menos as portas do saguão estavam trancadas... Demorou dois dias até que eu tivesse algum tipo de notícia de novo. Eles trocam de pele.” Riu irônico. “Deixa eu te contar uma coisa: se por algum motivo você o ver, torça para que ele não te veja também, está bem? Ele não tem olhos, não segue muito mais do que a audição e os instintos, então, é uma boa hora pra você virar um ninja e fazer o menor barulho possível, eu tenho quase certeza de que ele consegue sentir o medo. Você consegue acreditar? Eles mentiram pra gente esse tempo todo!” Ele aumentou o tom de voz. “Sobre o tempo da viagem, sobre tudo!” Outra vez a gravação ficou quieta. “Merda...” O ruivo sussurrou. “Merda, merda...” A pausa que se prosseguiu foi tão longa que Midoriya teve que afastar o gravador da orelha e checar a duração para garantir que não havia acabado. “Seja lá quem estiver escutando essa mensagem, só falem logo pro Bakugou que fui eu que comi aquele pudim. Eu não acho que vou poder mais rir da cara dele enquanto culpava a Uraraka mesmo.”

Fim da gravação.

Notas finais
Bom, primeiramente se você está se perguntando porque eu demorei tanto, eis o culpado: https://fanfiction.com.br/historia/748004/Bloody_Voices/ Uma tododeku inspirada em mitologia nórdica e que literalmente prendeu minha mente esses dias. Agora eu só queria dizer que o Kirishima é literalmente o amigo viciado em filmes antigos e que usa referências nerds o tempo todo depois do Midoriya sinceramente. E devo dizer que esses dois passaram horas criando teorias sobre a existência de alguma espécie alienigena semelhante a alguma de Star Wars. Eu tenho tenho hc desses dois juntos nesse universo que nossa fico triste que não tenha como eu encaixar todos eles, de alguma forma na fic. E bom chegamos ao anti-penúltimo capitulo meus amigos, yasssm temos mais um e um epílogo e então chegamos ao fim definitivo de Visitor. O que vocês acham que vão acontecer? Só tenho a dizer, e não é spoiler pra ninguém, que nosso amiguinho finalmente vai mostrar as faces. Para aqueles que nunca viram alien e portanto não sabem mais ou menos como é um facehugger: https://vignette.wikia.nocookie.net/avp/images/3/39/FacehuggerA11080.png/revision/latest?cb=20161110195801 https://img00.deviantart.net/c4f5/i/2015/034/8/3/alien_facehugger_by_fuvl-d8gjz8j.jpg Como meu amigo alanzoka gosta de falar, eles são basicamente uma vagina ambulante. Literalmente nessas palavras dskjd E se quiserem entender mais a fundo como funciona: https://img0.etsystatic.com/062/0/9114549/il_570xN.763418194_azn9.jpg Deixo vocês com mais esse capitulo, aguardo ansiosamente por seus comentários e teorias e até a próxima meus amores ♥ Lembrando que essa fanfic também é postada no Spirit: https://www.spiritfanfiction.com/historia/visitor-10635814