Visitor
4 Cabin on the Lake
Notas iniciais

Midoriya piscou uma, duas, três vezes depois que abaixou o gravador da orelha e tinha o rosto fracamente iluminado pela luz do aparelho. Ele conseguia escutar a voz de Kirishima repercutindo por sua mente, como se batesse e rebatesse, o tempo inteiro dizendo a mesma coisa aterrorizante que acabara de escutar. Izuku só havia experimentado do choque uma vez, quando lhe informaram que seus pais não voltariam, que estavam perdidos e que consequentemente estava, tecnicamente, sozinho.
Naquela época, ele mal havia acabado de ser recrutado pela Yutani e toda vez que pensava nisso, agradecia imensamente por ter tido Todoroki e Bakugou do seu lado o tempo todo e esperava não poder passar por aquilo nunca de novo.
No entanto, o sentimento que se distribuía por seu corpo não era muito diferente, na verdade, conseguia ser pior, de forma que sentia seus dentes batendo e o corpo tremendo como se estivesse com um frio terrível, um medo interminável se apossando de si.
Ele não se sentia capaz de levantar dali, não sabia nem mesmo se queria, poderia passar o resto dos dias escondido embaixo de uma mesa de escrivaninha, torcer para não ser achado e então tentar lidar com isso em terra firme.
Como se pudesse realmente... Colocar a vida de todos em risco por um mero luxo de prezar pela sua própria estava fora de cogitação. Sabia, desde que aceitou o título de capitão ou mesmo quando escolheu se aventurar pelo espaço, que sua vida não valeria muito mais que uma poeira cósmica e que os riscos eram tão grandes quanto o dinheiro que recebia por eles. Além disso, cometer o erro de tentar lidar com isso quando aterrissassem, não só poderia ser a causa de morte somente dele, como de qualquer outra pessoa que acordasse quando estivessem próximo ao destino e não poderia simplesmente deixar Kirishimae Shinsou morrer por nada. Midoriya faria tudo que fosse possível para impedir que as vontades da Yutani fossem atendidas e assim, daria uma forma de se livrar daquele maldito alien o quanto antes.
Procurou respirar fundo. Quando ainda estava se formando, se lembrava das aulas que recebera sobre como agir em uma situação de emergência, em algum caso de danos em massa. O professor, um veterano experiente e com um rosto jovial demais para os anos que possuía com mais de cinquenta viagens de exploração pelo espaço e habitações em outros planetas sempre terminava as aulas com: "Mas não se esqueça, VEMF."
Midoriya se lembrava claramente que não faltava nenhuma das aulas porque temia que o significado das tais quatro letras fossem ditas nas próximas aulas, no entanto ele só veio a descobrir na última aula do curso.
"Mas não se esqueça, você está muito fodido."
Não pôde deixar de rir desgostoso por se lembrar disso naquele momento. Sabia plenamente o que uma coisa como essa significava, mas não queria dizer que simplesmente iria dar a Amanda com um aperto de mão e beijinho no rosto para aquele xenomorfo, aquela ainda era a sua nave e até onde sabia, era ele quem mandava por ali.
"Você descobriu alguma coisa?" Todoroki irrompeu por seu comunicador, notando a pequena movimentação do esverdeado depois de um tempo quieto.
"Sim." Ele se levantou com cautela, a pequena determinação de uns minutos atrás se extinguindo aos poucos. "Temos uma visita indesejada."
"O que quer dizer?" Era Bakugou.
"Que é uma boa hora pra você realmente acreditar em aliens." Ou já estava tão doido a ponto de ter alucinado com tudo aquilo. Deixou de lado o que ouviu sobre seus pais ou sobre a corporação. O pânico instalado no âmago de cada um já era mais que suficiente para fazer cada um dos três entrar em um colapso a qualquer momento. Por hora, conseguiria lidar com aquilo sozinho ou era o que ansiava.
Tentou passar algum plano em sua mente. Chegaria na sala de controles, reiniciaria o sistema e então o quê? A quarentena seria desativada, as portas seriam ativadas novamente, aquilo definitivamente não poderia acontecer e até lá, teria que arquitetar algo para se livrar da coisa.
De volta naquele corredor, as paredes pareciam prestes a envolvê-lo por completo, as portas prontas para revelar a criatura com anos de uma fome acumulada.
Não era ele uma mera presa prestes a ser destroçada por um predador?
Queria acreditar que era mais do que apenas isso.
Não pôde deixar de sentir certo alívio ao ver a porta se abrindo, relevando o lance de duas escadas até a próxima e não sabia se agradecia pela presença de tantas portas ou a abominava. Estava perto e no momento era tudo que importava, ou quase.
Quando sua mãe lhe ensinou sobre a Lei de Murphy, Midoriya não tinha um pingo de dúvida que, ela em particular, o adorava e depois de um tempo lidando com isso, já não se surpreendia mais com o fato de que a possibilidade de tudo dar errado em sua vida era em torno de noventa e oito por cento. Fosse por quebrar um braço por motivos inimagináveis e causas tão inimagináveis quanto ou se meter em situações, embora não tão ruins, como aquela. Não a desprezava no todo, afinal, essa mesma lei e todo o azar que a acompanha, consequentemente a si mesmo, colocaram Bakugou e Todoroki em sua vida, no entanto, somente por um momento, Midoriya queria ter o gosto de saborear as coisas dando certo.
"Está emperrada." Resmungou, observando a brecha mínima, o suficiente para que somente seu braço e parte do peito passasse por ali, enquanto tentava empurrá-la de alguma forma. Quando tentou procurar um melhor apoio, sua mão voltou melecada pelo mesmo líquido da sala de alguns momentos atrás, a substância fria e gosmenta. Ele a manuseou entre os dedos, tentando descobrir qualquer coisa em sua composição que já conhecesse, mas era como tentar achar uma agulha em um palheiro. "Eu acho que essa coisa teve tempo suficiente pra se sentir em casa." Ele sacudiu a mão, vendo o líquido respingar no piso e limpando o resto como conseguia ao máximo no tecido jeans da calça.
"Eu vou procurar por uma nova rota." Seria sempre confortante ouvir as vozes dos namorados pelo comunicador porque era como uma mensagem para sua mente ou o próprio coração de que não estava totalmente sozinho, ainda que alguns calafrios que insistiam em percorrer pelo seu corpo lhe dissessem o contrário.
Midoriya suspirou, fechou os olhos com força, ouvindo o chiado da porta se fechar pela sua falta de movimento e se abrir em seguida. Ele sabia que os sensores eram sensíveis, mas tinha quase certeza que não tinha se movido e com isso, a muito custo abriu os olhos. Não foi as paredes da Amanda que observou no entanto, enquanto via a criatura negra passar reto pela porta, sem parecer tê-lo notado.
Havia muitas coisas passando na mente de Midoriya daquele momento em diante, mas apenas três conseguiram se sobressair, quando de repente tudo pareceu ficar em uma câmera excessivamente lenta.
A primeira: ele estava andando na ponta dos pés, como um felino que se aproximava de sua presa de forma cautelosa e inaudível. Foi impossível para que Midoriya não notasse que não poderia contar com o fato de que ouviria seus passos para o alertar de que estava próximo, a criatura fora inteligente o suficiente para saber, no curto período que estava ali, que produzir sons entregaria sua posição e consequentemente sua janta fugiria.
A segunda coisa foram as presas, as mãos com garras enormes, prontas para empalá-lo se cometesse o erro mínimo de encontrá-lo em alguma outra situação mais propícia.
A terceira coisa: seu próprio corpo. Ele estava imóvel, petrificado em um mix de medo e certo fascínio, observando pela brecha mínima, a estatura idêntica a de um velociraptor, sendo isso a única coisa mais próxima que conseguiu pensar para se aproximar do que realmente era aquilo. Sabia que precisava se mover e sair dali antes que tivesse o desprazer de ter que dar as boas-vindas ao visitante, mas parecia que seu corpo e sua mente de repente estavam separados e enquanto um insistia para que fizesse o certo, o outro estava amedrontado demais para fazê-lo.
Por um momento as palavras de Kirishima soaram novamente em sua mente.
"Se você o ver, torça para que ele não te veja também.”
E quase vermelho pela respiração que prendeu pelo que pareceu uma eternidade, não foi capaz de soltá-la de alívio quando avistou o último resquício do rabo também preto se arrastar para fora do campo mínimo de sua visão. Ele levou a mão no peito, conseguia ouvir a voz de Todoroki e Bakugou em seu comunicador, mas pareciam deveras distantes com o coração batendo tão forte e sendo a única coisa realmente que conseguia sentir e escutar.
Mas faria uma nota mental quando estivesse pensando com clareza, sobre não cantar vitória antes de tê-la de fato.
Antes que pudesse notar o que estava acontecendo, o preto entrou em sua visão novamente, o som do corpo pesado encontrando o metal da porta, uma das mãos se arrastando pela brecha, chegando tão próximo de si que ainda estava parado pelo choque, tentando assimilar o que antes estava acontecendo tão devagar. Estalidos, o som dos dentes se encontrando enquanto a criatura grunhia e rosnava, abrindo e fechando a boca de forma bruta e agressiva, as garras se arrastando pela porta produzindo um som horrível aos ouvidos e que com certeza o acompanharia em seus pesadelos após.
A sensação que o apossava era como se estivesse sendo visitado pela morte, um sentimento iminente e inegável de que com certeza ele iria morrer e quase parecia capaz de sentir isso, fosse os dentes envolvendo e destruindo o seu crânio como aconteceu com Kirishima ou uma visão terrível daquelas garras atravessando sua barriga. Simplesmente parecia impossível que existisse quaisquer outras alternativas, se não essas.
Quando seu corpo finalmente se sentiu capaz de fazer algo, recuando desesperado para o mais longe que conseguisse, Midoriya gritou, sentindo-se afundar para trás enquanto caía e rolava escada abaixo. Puxou o ar quando chegou ao fim do primeiro lance, o corpo inteiro reclamando, o zumbido tomando conta dos ouvidos e Izuku não saberia dizer se por ter batido a cabeça ou pelos gritos incompreensíveis de Katsuki pelo aparelho. Levantou-se rapidamente, sentido o corpo cambalear enquanto a visão lhe traía se escurecendo e voltando ao normal o tempo inteiro.
"Eu preciso..." Piscou os olhos com força, uma dor horrível se projetando da lateral de seu corpo, tocou a nuca sentindo o líquido quente nos dedos. Um único som se sobressaía entre tudo aquilo, o som de um metal carregando algo pesado demais, se expandindo e voltando ao normal à medida que esse mesmo peso se movia. Com a mente nublada ou não, Midoriya sabia bem o que significava aqueles sons. O alienconseguia andar pelo sistema de refrigeração, estava nas tubulações. Quando finalmente assimilou isso com clareza, seus olhos se esbugalharam como se fossem sair das órbitas. Primero veio o pânico, depois, o rapaz olhou para o teto, vagueando os olhos, desesperado, esperando pela criatura caindo sobre si e dilacerando sua face. O segundo em questão não aconteceu e enquanto o resto do sentimento terminava de dominá-lo por inteiro, desceu o resto das escadas aos tropeços. "Eu preciso de um lugar pra me esconder! Agora!" Ele mesmo tentava pensar em algum, qualquer um que ao menos lhe garantisse, ainda que, somente alguns segundos a mais de vida.
Midoriya conseguia ouvir a respiração acelerada de Todoroki, os grunhidos de Katsuki, os dedos insistentes nos painéis e a voz da Amanda negando tantas vezes quando ele conseguia contar na situação caótica que estava a sua mente, mas mais do que isso ele conseguia escutar as portas se abrindo enquanto corria, o metal estalando e os sons dos seus passos desesperados pelos corredores.
“Izuku, os dormitórios!” Todoroki avisou esbaforido e parte de si pareceu agradecer por saber para onde correr. Seu corpo respondia no automático, seu coração batia tão rápido que ele conseguia senti-lo nas orelhas. O esverdeado não se atrevia a olhar para trás, menos ainda para cima, se pudesse fechar os olhos fecharia sem pensar duas vezes.
A diferença das portas dos dormitórios para as outras era que estas somente se abriam através das placas de pressão ativadas por digital para manter a privacidade de todos da tripulação. Midoriya tropeçou pouco antes de chegar na porta com o seu nome e praticamente estapeou a placa para que ela se abrisse, a voz feminina o recebeu de forma gentil, mas o esverdeado só se permitiu respirar quando ouviu o click do metal se fechando.
Por um momento ele não conseguia escutar nada além de um zumbido agudo, fechou os olhos e apertou as roupas com tanta força que conseguia sentir as próprias unhas sobre o tecido, suas pernas bambearam e de repente pareciam dormentes e tudo que ele se sentiu capaz de fazer foi deslizar da porta até o chão tentando se impedir de sucumbir ao medo.
Sabia que ainda não estava a salvo, estava tudo menos a salvo, mas Midoriya se permitiu levar pelos míseros segundos enquanto tentava padronizar a respiração e os batimentos cardíacos.
Afinal o que estava fazendo? Claro, nunca havia lidado com algo do tipo, mas já conseguira manter a calma em tantas situações onde sua vida esteve em jogo. Por que a simples ideia de ter algo lhe caçando lhe fazia perder a compostura e entrar em desespero? Ele procurou se lembrar do que Bakugou havia feito antes. Havia sido escalado capitão porque além de tudo, deveria conseguir lidar com situações como essa pensando de forma clara e analítica.
“Izuku...” Todoroki lhe chamou, havia nervosismo em sua voz.
“Estou aqui.” Puxou o ar mais uma vez, a superfície gélida da porta ainda fazia questão de lhe lembrar onde estava, de que ainda teria que se livrar de algo extremamente faminto preso em sua nave e de que ainda precisava arquitetar um plano para isso. A cena da criatura vinha e ia embora, a cabeça destroçada de Kirishima vinha e ia embora. “Estou bem.” Todos ali sabiam que não estava realmente, mas nenhum dos dois decidiu questionar isso. “Preciso de uma nova rota, Shoucchan e rápido.”
“Não pode continuar aí, Izuku.” Bakugou interviu e Midoriya franziu o cenho, não é como se ele quisesse continuar ali, se pudesse teria corrido para a primeira saída que pudesse existir, teria deixado que Todoroki e Bakugou abrissem as portas do saguão de novo, mas não podia, sequer queria ser egoísta de tal forma. “Izuku...”
“Kacchan.” Soltou o ar. “Me lembre novamente quem é o capitão dessa nave.” O loiro não respondeu, o esverdeado ainda conseguia escutar Todoroki trabalhando na ponte de comando. “Ainda não ouvi.”
“Você.” Katsuki respondeu em sussurro, o tom de sua voz era insuportavelmente doloroso.
“Então me deixe fazer o que eu tenho que fazer, está bem?”
“Não vou suportar se você morrer, Izuku.”
“Não foi você mesmo que disse que eu não iria morrer? Acredite nisso.” Respondeu devagar, mas nem mesmo ele conseguia acreditar plenamente.
Midoriya sabia que ele estava tentando, que Katsuki estava tentando manter a calma, ajudar e não intervir e conseguia imaginar o que eles estavam passando. Certa vez, quando Todoroki e Bakugou ficaram presos em um desabamento em uma mina de trimonita, Midoriya mal conseguira conter a si mesmo. Agradecia internamente pela calma de Todoroki naquele momento, não queria tentar imaginar como seria se ele não estivesse ali.
“Você pode ir pela ala médica.” O bicolor finalmente se pronunciou, a voz da Amanda ainda lhe negava alguns comandos e o estalar da língua ficava tão frequente quanto. “É o ponto mais rápido considerando de onde você está.”
O capitão estremeceu. De todos os lugares...
Lembrou-se do áudio de Kirishima, do que ele havia dito sobre Shinsou. Seu corpo ainda estaria lá? Repousado e desfigurado em uma maca?
“Não tem... Nenhum outro caminho?” Engoliu em seco, Shouto não pareceu estranhar sua hesitação, ele apenas pressionou uma ou duas vezes na tela.
“Você poderia tentar dar a volta pelo corredor B e então outra volta para subir e continuar no caminho certo.” Ele fez uma pausa. “Mas você levaria o dobro de tempo e ficaria exposto por tempo demais...”
“Certo.” Concordou ainda trêmulo. “Você está certo. Não posso correr esse risco.” Puxou o ar com força uma última vez e repousou rapidamente a cabeça na porta.
Tinha que continuar, precisava, mas e se quando abrisse a porta de novo tivesse um alien ansioso e faminto para destroçá-lo vivo? Soltou o ar, se ergueu novamente e repousou dedo a dedo, a mão na placa de pressão. Fechou os olhos, não queria ver. Esperava que fosse rápido, se houvesse algo lhe esperando, esperava que o máximo que sentiria antes de morrer seria uma picada na barriga, talvez um sibilo alto próximo a orelha e só. Ouviu o deslizar da porta. Ouviu o click depois de aberta. Esperou. Nada aconteceu.
Midoriya abriu os olhos e encarou o espaço circular com as portas fechadas de cada dormitório dos integrantes da tripulação. Estava quente, com o sistema de refrigeração desligado devido a energia, ele suava. Retirou o casaco e o amarrou na cintura, tirou os sapatos e os deixou em seu dormitório, precisava ser um pouco mais silencioso e ansiava para que aquilo lhe ajudasse.
A lanterna lhe prometeu uma iluminação melhor do que somente o que as luzes de emergência lhe davam.
Sem a menor coragem para seguir em frente, ele se obrigou a continuar seguindo.
Quando Midoriya era pequeno ele sonhava com monstros, de diversas formas, tamanhos. Boa parte da sua vontade de se tornar um oficial de ciências eram os monstros. Sua mãe, a oficial de ciências da sua tripulação, era parte da influência nisso, lhe enchia de histórias, inventava diversas e diversas aventuras sobre tantas outras criaturas em tantos outros planetas e sistemas quanto Midoriya poderia sequer imaginar e era tão sonhadora quanto o pequeno esverdeado em achar algo parecido. Ele imaginava o que sua mãe teria sentido quando toda essa fantasia havia sido destruída de forma tão rápida, se ela sequer havia tido tempo para pensar nisso. Tinha certeza de que não sonharia mais com monstros e que estes seriam substituídos pelos corredores sufocantes da Amanda em pesadelos que lhe tirariam o sono por muito tempo.
O medo era tão palpável quanto a superfície gélida sobre os seus pés descalços, um arrepio percorreu a sua espinha quando um deles encontrou algo que o alien havia deixado para trás. O áudio de Kirishima voltou no mesmo momento em que ele havia se abaixado para analisar, no susto, no que havia pisado e que havia passado despercebido pela luz fraca da sua lanterna.
“Eles trocam de pele.”
Como a ecdise das cobras, pensou imediatamente, o fascínio se arrastou no olhar antes de ser novamente afogado pelo medo ao analisar a camada amarelada abandonada no chão. Em outra situação a teria recolhido, pesquisado, observado cada célula daquele tecido, mas não havia nada que pudesse fazer ali fora se deixar levar pela realidade onde aqueles dentes prateados cobririam sua cabeça e só então o impediriam de ter pesadelos futuramente.
O sangue seco lhe guiou por parte do resto do caminho, Midoriya já conseguia sentir as lágrimas nos olhos, apertando a lanterna com força e quanto mais perto da ala médica ele chegava, mais difícil elas pareciam de serem contidas e por um momento o esverdeado simplesmente já não conseguia diferenciar se os solavancos de seu próprio corpo eram pelos tremores ou os soluços que esforçava ao máximo para serem silenciosos.
Ele precisou morder a língua com força para conter o grito de desespero que queria sair de sua garganta quando a porta do ambulatório se abriu e tudo estava girando tão rápido que Izuku se sentiu extremamente tonto. Sua lanterna caiu no chão com um baque surdo e o cheiro era tão terrível que parecia impossível respirar. Era mil vezes pior do que a cena de Kirishima porque Midoriya conseguia ver o seu rosto, o cabelo roxo respingado de sangue, o buraco no meio do peito com as costelas expostas e os órgãos e a pele pendendo da maca, caídos no chão. Sua pele inchada e pútrida, sua boca aberta como se estivesse gritando por ajuda.
O capitão cambaleou, Todoroki lhe chamou, mas sua língua parecia seca demais para falar algo, Katsuki lhe chamou, mas ele estava vidrado demais em observar o corpo do melhor amigo largado desfigurado na maca. Ele se aproximou, trôpego, suas narinas queimavam com o cheiro, mas Midoriyaencarou de perto os olhos revirados, a pele arroxeada e desabou no chão porque de repente ele estava completamente sem ar.
Debaixo da maca estava o que Kirishima havia chamado de facehugger, com as pernas para cima, tão morto quando o amigo que estava deitado em cima, mas fora o suficiente para que Izuku se assustasse de início e então abraçasse o próprio corpo.
“Izuku, tem que me escutar.” Todoroki soou preocupado, ele mal conseguia ouvir, parecia que estava se afogando, se esforçava ao máximo para puxar o ar, mas a sensação era de que nada entrava nos pulmões. Suas pálpebras estavam tão pesadas.
“Não... Eu não... Não consigo manter os olhos abertos.” Sua cabeça tombou, sua visão escureceu por um momento e ele percebeu que involuntariamente estava fechando os olhos.
“O estresse faz a adrenalina e o cortisol dispararem.” O bicolor justificou, ele parecia extremamente nervoso e preocupado agora, como se toda a sua calma estivesse se esvaindo.
“Estou desmaiando...” Izuku constatou o óbvio, abrindo e fechando os olhos. Tudo o que mais precisava no momento, pensou irônico, mas parte de si agradeceu ao fato de que, talvez, se morresse enquanto estivesse inconsciente, nada mais fosse importar, talvez não fosse tão ruim.
“Izuku se você desmaiar agora não podemos saber o que vai acontecer com você!” Shouto continuou, sua compostura parecia prestes a acabar, Bakugou já não soava nada mais do que grunhidos incompreensíveis e desesperados. “Preciso que continue com a gente, consegue fazer isso? Mantenha seus olhos abertos. Izuku!”
Mas naquele momento, aquilo definitivamente era pedir demais e o esverdeado simplesmente se rendeu.
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