Visitor
5 Bye, Motherfucker
Notas iniciais

“Merda!” O loiro passou a mão pelo cabelo, agarrou os fios com força para em seguida socar o painel na sua frente. “Merda, merda!” Katsuki girou na ponte de comando, a voz da Amanda negando os comandos soava ainda mais irritante para os ouvidos agora. Ele fechou as mãos em punho, observou as mãos trêmulas de Todoroki deslizando de uma tela para outra, chamando o namorado pelo comunicador a cada coisa nova que tentava fazer.
Bakugou definitivamente não conseguia lidar com aquilo, com a pressão de não poder fazer nada. Midoriya estava literalmente preso com o que quer que fosse, pronto para comê-lo por inteiro e tudo o que tinha no alcance das mãos era gritar por um comunicador e torcer para que ele conseguisse fazer as coisas a salvo? Sair de lá vivo? Estalou a língua.
“Eu vou lá.” Desferiu sem esperar por uma resposta, o chiado da porta pareceu lhe alertar da idiotice que estava prestes a fazer, mas ainda assim, Bakugou não dava a mínima, não quando Midoriya estava em uma situação como aquela, mas seus passos foram interrompidos pelo aperto forte, quase desesperado no seu braço.
O loiro se virou para olhar, Todoroki não chorava, mas os olhos estavam cheios d’água. O bicolor umedeceu os lábios, piscou duas vezes antes de se pronunciar.
“Já analisou o que você está falando, Katsuki?” Ele apertou seu braço um pouco mais, Bakugou sabia que a intenção de Shouto com aquilo era de longe machucá-lo, para ele, parecia mais como se o bicolor estivesse procurando por algum ponto de apoio.
“É exatamente por ter analisado que estou dizendo isso. Não posso mais deixar o Midoriya lá, sozinho com o risco de ser morto a qualquer instante e tudo o que vamos poder fazer sobre isso é escutar!” Sequer sabia o motivo de estar falando tão alto, mas se livrou do aperto de Todoroki e quando fez menção de continuar o seu trajeto fora surpreendido pelo puxão brusco em sua roupa.
“Então com certeza deveria analisar de novo!” Todoroki manteve o tom de voz no mesmo que o seu. “O que acha que vai fazer quando chegar nas portas do saguão? Quando tentar abrir as portas, o alarme soar e chamar atenção de sabe-se lá o que tiver? Quem te garante que não vai morrer antes mesmo de conseguir chegar no Izuku?”
Katsuki não queria discutir, Todoroki estava certo, o que queria fazer era burrice, mas seu orgulho era tão grande quanto isso. Travou o maxilar irritadiço e se livrou da mão que ainda o segurava com um empurrão bruto que quase derrubara o bicolor no chão.
“Não vou deixar o Deku morrer só porque você não quer fazer nada a respeito!” Quanto tempo já havia se passado? Quanto tempo Izuku estava desacordado, preso com a possibilidade de ser morto a qualquer momento? Quanto tempo estavam perdendo com aquilo?
Como um choque de realidade a pressão violenta contra a sua bochecha fizera com que cambaleasse e se desequilibrasse por um breve momento de forma que quando percebeu o que havia acontecido, a descrença se devia muito mais ao fato de ter vindo do bicolor do que pela ação em si.
Shouto também parecia desacreditado, sacudiu a mão como se finalmente sentisse a dor do soco que havia acabado de dar e alternou o seu olhar dos dedos para a bochecha avermelhada do namorado.
“Desculpe.” Ele sussurrou, se afastou alguns passos de Katsuki e ajeitou o comunicador na orelha como se ele estivesse realmente fora de posição.
“Shouto...”
“Eu amo o Izuku e sei o quanto você o ama também. Mas, se algo der errado... Não é justo que no final eu fique sozinho.” Não esperou resposta, simplesmente se dirigiu de volta para a cadeira e a voz da Amanda não demorou a soar negando outros comandos. “Eu, estou sim, tentando fazer algo a respeito aqui. Eu ‘tô tentando o meu melhor, Katsuki.”
“Eu... Eu sei, desculpe.” Ele esfregou a testa, depois alisou a bochecha dolorida. Claro que não era o único nervoso ali, Todoroki, apesar de não transparecer, queria tanto quanto ele mesmo entrar naquele maldito saguão e correr em direção ao Izuku, mas nenhum dos dois podia.
“No momento, isso é a única coisa que podemos fazer. Esperar e manter a calma. O Izuku precisa da gente mais do que nós precisamos dele agora...”
Midoriya estava na Terra, na sua antiga casa da montanha. Como sentia falta daquela casa, do ar frio costumeiro sempre que ia para lá no outono, das folhas alaranjadas e secas caídas no chão e simplesmente da gravidade terráquea, a maldita gravidade terráquea. Estava na varanda, sentado na cadeira de madeira com as pernas encolhidas no assento e uma xícara de chocolate nas mãos, o ar frio balançava os seus cabelos vez ou outra e tinha certeza que conseguia ouvir outra discussão desnecessária entre Katsuki e Shouto sobre o que que comeriam no jantar.
“Tio Izuku, tio Izuku!” Conhecia aquela voz, era Eri. Ao longe, o esverdeado procurou pelos cabelos brancos da menina atrás das folhas das árvores. “Não vai acreditar no que eu achei!” Ele ainda não conseguia vê-la, mas genuinamente sorriu. Eri era uma menina curiosa por natureza, cansava-se de perdê-la por aí quando ela simplesmente sumia de seu campo de visão, explorando cada cantinho em busca de algo que nem mesmo ela saberia dizer. Eri nunca deixava de voltar com alguma coisa nas mãos para casa, com um inseto, uma moeda antiga que por acaso havia achado largada por aí. Certa vez, voltara com um passarinho machucado e cuidara ela mesma da asa quebrada até que ele se recuperasse de novo.
“O que você achou, Eri-chan?” Izuku aumentou o tom de voz para ser ouvido, seus olhos rodavam pela mata procurando pela direção de onde viera a voz da garota. Imaginava o que seria dessa vez, se seria mais um besouro para os outros três que já tinha, os que ela carinhosamente colocara o nome de Izuku, Katsuki e Shouto como uma justificativa para quando viajavam e ela poder matar a saudade de alguma forma.
“Olha!” Ela começava a surgir por entre o laranja das árvores. De repente, como se um som alto tocasse de altos falantes, o áudio de Kirishima começou a se reproduzir de uma forma ensurdecedora de algum lugar. “Eu achei um polvo!”
O corpo miúdo da garota finalmente havia aparecido, seu rosto estava sujo de terra e os cabelos úmidos como se ela estivesse nadando no rio, mas Midoriya não conseguira focar nos detalhes porque seus olhos cravaram no que ela segurava nos braços. O esverdeado travou, a voz de Kirishima não parava de gritar, alta e aguda.
“Aquela coisa ‘tava abraçada na cara dele.”
“Eri!” A xícara se estilhaçou no chão quando ele levantou de súbito, o líquido quente escorreu pelos seus pés, mas nem mesmo aquilo pareceu importar. Só que Midoriya não era rápido o suficiente, nem mesmo para fechar os olhos e ele foi obrigado a ver aquilo pulando no rosto pequeno da garotinha que soltou um gritinho agudo antes de cair imóvel no chão.
Izuku acordou de súbito, puxando o ar com força, lágrimas involuntárias escorrendo pelas bochechas.
“Ah céus!” Todoroki soou pelo comunicador completamente aliviado.
Demorou até ele conseguir se lembrar de onde estava, a luz da lanterna caída no chão fazia com que ele fechasse os olhos com força até se acostumar completamente.
“Por quanto tempo eu fiquei desacordado?”
"Quatro fodidos minutos!" Bakugou grunhiu aliviado.
"Ficamos tão preocupados." Todoroki suspirou.
"Sinto muito." Sussurrou sôfrego. Aquele pesadelo parecera tão real... Midoriya pensou na pequena Eri... Ela estava a salvo, tinha certeza disso, estava na Terra, a salvo. Além disso, tanto tempo havia se passado desde que a havia deixado, a menina já provavelmente nem era apenas uma garotinha agora. Eri tinha sua vida lá, sua família, amigos, todos estavam lá.
Como sentiria falta dela.
O esverdeado se levantou, seus olhos se desviaram do corpo deixado na maca, caminhou em direção a lanterna esquecida no chão e então escutou de novo: o metal estalando, parecia praticamente acima de sua cabeça.
Ele procurou não se desesperar, ficara quatro minutos desacordado, considerando que não havia feito nenhum som desde então, não havia como a criatura saber que ele estava ali, certo?
Se ficasse quieto, talvez o alien simplesmente continuasse para seja lá onde estava indo e Midoriya poderia continuar o seu caminho por um tempinho a mais. Certo?
Ele encarou a lanterna na própria mão, suas sobrancelhas se ergueram imediatamente com o choque da realização.
"Não, não, não..." Sussurrou desesperado. Encarou do lado para o outro completamente perdido sobre para onde correr. Via a porta com as escadas para o segundo andar, a câmara de revitalização, a saída, armários.
"Izuku?" Lá estava o seu coração disparando de novo, o pânico se instalando de novo. "Izuku, mantenha a calma, o.k? O que está acontecendo?"
E então o metal estalando parou e o som que o substituiu era bem pior. O xenomorfo havia descido, com a proximidade ele conseguia escutar os passos pesados bem por cima de si.
"Está aqui..." Seus lábios tremeram. "Está aqui, acima de mim, no segundo andar da ala médica."
O que faria agora? As opções de Midoriya estava acabando. Com a porta emperrada e o alien na ala médica, não restava nada se não dar a volta por quase toda a nave, mas e se o alien conseguisse chegar antes de si? E se estivesse emperrada como a outra estava? Não poderia fugir para sempre e já estava começando a concluir que não teria muito tempo para isso.
Pense, Izuku, pense...
Precisava de uma distração, um lugar para se esconder, um jeito de passar para o segundo andar.
Vagueou os olhos pelo cômodo, cada passo da criatura acima de si fazia com que um calafrio percorresse por sua espinha.
O esverdeado olhou para a própria lanterna e uma ideia brilhou pela sua mente, só esperava que conseguisse ser rápido o suficiente para executá-la.
O chiado pareceu barulhento demais quando se aproximou da porta. Midoriya escutou a movimentação imediata da criatura e sabia que não teria muito tempo, ele estava descendo. Pressionou a lanterna com força e a lançou o mais longe que pôde pelo corredor, o som do objeto encontrando o chão fora distante, mas ele não conseguia dizer se seria ao menos suficiente.
Izuku se virou, correu o mais silencioso que conseguiu para um dos armários e só se permitiu respirar quando finalmente se escondeu. Ele escutou as portas, uma se fechando, a outra se abrindo, o sibilo rouco, os passos pesados da correria do alien para chegar o mais rápido possível na fonte do som, o arrastar do rabo. Midoriya estava tremendo, se esforçando para se manter imóvel no cubículo onde não se importaria de passar o resto da vida trancafiado. Não fazia nada se não escutar.
Ouviu a porta se abrir de novo. Esperou. Esperou. E mesmo quando sentia que deveria sair, não conseguia se mover. Era a única chance que tinha, mas seu corpo se recusava a abrir a maldita porta. E se o alien retornasse? E se escutasse algum tipo de som e voltasse ou fosse esperto o suficiente para estar lhe esperando?
"Respire, Izuku." A voz rouca do loiro invadiu seus pensamentos. Todoroki e Bakugou ainda estavam ali, analisando o que podiam, vendo o quanto seu coração não parava de disparar e tentando o máximo para mantê-lo na linha.
Procurou seguir o conselho do namorado e contou até três. Fechou os olhos. Abriu a porta. Esperou. Abriu os olhos e sem pensar duas vezes correu até as escadas subindo os degraus aos tropeços.
Estava ali, havia conseguido. De novo, tentou padronizar a respiração agitada pelo medo e pela correria das escadas.
"Estou no segundo andar, Shoucc—" Mas se interrompeu imediatamente. Uma porta havia sido aberta. Midoriya virou o rosto tão rápido que teve a sensação de que quebraria o pescoço. Não era ali, mas se havia sido próximo o suficiente para que escutasse...
"O quê?" Bakugou perguntou curioso, desesperado.
"O que aconteceu?"
"Está aqui..." Izuku tentou analisar suas opções, estava praticamente no escuro e o máximo que conseguia ver com as luzes fracas eram estantes enfileiradas de remédios.
Deveria se esconder e esperar? Correr dali? Estava nas escadas agora, seu tempo havia se esgotado.
A porta se abriu no exato momento em que correra para entre as estantes. Os estalidos preencheram o cômodo, os passos arrastados davam a sensação de que o chão tremia ou talvez, Midoriya já tremesse tanto que não conseguisse discernir. O capitão engoliu em seco, se não achasse um lugar para se esconder logo, sem dúvidas morreria ali.
Começou a caminhar devagar, tentando ritmar os seus passos com o do xenomorfo. Pelos sons que ele produzia, ele provavelmente estava a sua esquerda então tudo o que precisava fazer era seguir para a direção contrária, longe de qualquer coisa que produzisse ruído, era o que esperava.
Mal conseguia andar, suas pernas cambaleavam e ele se sentia tonto, como se fosse desmaiar de novo, parou quando sentiu que iria cair se continuasse e porque o alien havia parado também. Izuku franziu o cenho, o que a criatura estava pensando? Por que havia parado? Estava tentando escutar? Esperando que o esverdeado cometesse algum erro? Que talvez ele ficasse com medo demais e acabasse fazendo algum ruído? Se questionou por um momento se a criatura sabia que ele realmente estava ali. Os estalidos eram contínuos, rosnados vez ou outra alternavam entre acompanhá-los no barulho terrível que tal combinação formava, mas Midoriya ficaria parado enquanto o alien estivesse, não importasse o quanto o seu corpo implorasse para que ele corresse.
Esperou.
Esperou. Fechou os olhos.
Puxou o ar.
Esperou.
Cada minuto parado ficava mais difícil permanecer de pé, mais difícil manter a cabeça no lugar. Ele apertava as mãos na própria roupa tentando impedi-las de tremerem, estava suando frio, a tensão era tanta que seu corpo inteiro parecia prestes a desmoronar, mas respirava, embora com esforço. Estava preso ali até que o alien desistisse de achá-lo, não poderia sair dali até que o maldito fosse embora. E, no entanto, fazer justamente isso era só o que conseguia pensar, precisava sair dali, mas se passasse pela porta mostraria sua posição exata e, além disso, conseguiria correr pelos corredores sem um lugar exato para se esconder?
Não tinha dúvidas de que definitivamente o alien era mais rápido e forte, mas se conseguisse de alguma forma se equiparar nisso usando inteligência.
Continuou esperando pacientemente, com as pernas dormentes e a tremedeira já incontrolável pelo medo. Mas era só isso que vinha fazendo desde as últimas horas, era apenas o que poderia fazer. Esperar e torcer para que aquilo o ajudasse a continuar vivo.
Quando o alien finalmente voltara a andar, o esverdeado parecia atordoado demais para se mover, tentou apenas sentir a pressão dos passos, observar a movimentação dos remédios em algum caso de aproximação. Estava se distanciando? Voltando? Havia desistido? Pela primeira vez na vida, Izuku teria o prazer de ter um pouco de sorte?
O som horrivelmente familiar do corpo de encontro com o metal preencheu o cômodo e foi quando o capitão se tocou de que não havia olhado uma única vez para cima. Tentou abanar esse fato e do quanto havia sido descuidado, ficara tão preocupado com as portas, em chegar logo na sala de controles que, talvez, por pouco não perdera sua vida nisso.
"Izuku?" Todoroki o chamara de volta para a realidade, a quietude da sua voz ainda era trêmula, Midoriya não conseguia deixar de imaginar o quão angustiante deveria ser para os dois na ponte simplesmente aguardando, esperando por notícias suas cada vez que seu coração batia mais rápido que o normal.
"Ainda aqui." Sussurrou fraco, retornando à realidade depois do que havia parecido uma eternidade imerso na atmosfera aterrorizante de poucos minutos atrás. "Eu... Acho que foi embora, eu ‘tô indo pra sala de controles agora."
Observou os frascos de remédios na estante, as cápsulas tremularam de leve na embalagem ao ser manuseada em suas mãos e fizeram um barulho abafado. Midoriya enfiou o frasco no bolso sem saber exatamente o porquê, esperava que não fosse necessário, mas pelo menos teria alguma espécie de distração caso precisasse e de fato, por algum motivo sentia que precisaria.
Depois de ter se acostumado com a luz da lanterna, andar naquela penumbra fazia com que calafrios percorressem por todo o seu corpo. Izuku olhava para cima a cada dois segundos e mesmo que não conseguisse ver mais do que brevemente alguma saída de ar aqui e ali devido a iluminação de emergência, duvidava de que houvesse algo que pudesse fazer caso fosse surpreendido por um alien faminto saltando de uma dessas saídas. Todo esse estresse emocional estava começando a ser extremamente desgastante.
Respirou fundo, estava tudo bem e daria tudo certo.
"Shoucchan." Chamou baixinho, a tensão ainda fazia todos os seus músculos retesarem para cada porta que se abria devido a sua aproximação, ainda assim, Izuku estava tentando ao máximo se manter calmo. "Kacchan."
"Aqui." Falaram em conjunto.
"Tudo bem?" Todoroki perguntou. Não era exatamente o tipo de pergunta que ele queria fazer nessa situação, mas, infelizmente, não conseguira pensar em nada melhor.
"Na medida do possível." O esverdeado soltou o ar, finalmente chegara na sala de controles. "Preciso que me escutem, eu tenho um plano."
"Que tipo de plano?" Katsuki questionou, atento.
"Um para se livrar disso antes de chegarmos ao 918."
"O que tem em mente?" Midoriya ainda conseguia escutar vez ou outra, Todoroki tentando algo nos painéis da ponte.
Izuku havia ponderado muito sobre isso, primeiro porque as chances de isso dar errado eram bem maiores que as de darem certo e segundo porque a probabilidade de ele morrer ao tentar isso era tão pior quanto.
"Shoucchan, assim que reiniciar o sistema, quero que feche todas as portas." Ele fez uma pausa, não por esperar objeções, mas para tentar organizar os pensamentos no lugar. "Vou me usar como isca daqui até o laboratório."
Arriscar o laboratório era uma das piores coisas que ele poderia fazer, porque perderiam uma série de instrumentos de alta ponta para futuras pesquisas e que demorariam ainda mais tempo até que as reposições chegassem. Mas era a única área ejetável da nave, uma vez que os riscos de acidentes que poderiam prejudicá-la eram extremamente altos e porque, supostamente ele deveria ser realocado em algum outro ponto estratégico quando aterrissassem. Midoriya havia considerado a cápsula de emergência, mas a sua ativação era através de painel manual e duvidava de que o alien fosse deixar isso acontecer de bom grado.
“Isca?” Katsuki questionou exaltado.
“Laboratório?” Todoroki soava apreensivo.
“O que está pensando, Deku?” Para lhe chamar de Deku naquele momento, o esverdeado tinha certeza do quanto o loiro estava nervoso com aquela notícia.
“Precisamos nos livrar disso.” Tentou parecer confiante. Se colocasse na cabeça de que realmente iria dar certo, talvez desse de fato. “O laboratório é a única parte onde posso fazer isso e ainda sair vivo.
“Como planeja fazer isso?” Agora o bicolor parecia quase desesperado, como se quisesse fazê-lo urgentemente mudar de ideia.
“Vamos guiá-lo. Apesar de tudo ele ainda é um predador atrás da presa, então eu só preciso atraí-lo.” Era o que esperava. “Fechamos as portas para garantir que ele não pegue desvios. Você tem que iniciar a ejeção do laboratório assim que o sistema estiver reiniciado, vai levar um tempo, vai ser suficiente.”
“Izuku... É loucura... As chances de algo dar errado são imensas.”
“Tenho que tentar. É uma probabilidade de cinquenta por cento.” Apertou as mãos nas roupas, nervoso. “Eu morro ou eu saio vivo, não me parece tão ruim.” Na verdade, parecia sim. “É o meu trabalho.”
“Você incluiu a gente nessas probabilidades?” O loiro questionou enfarruscado, a irritação na sua voz foi quase tão assustadora quanto a ideia de ser comido vivo.
“Cadê toda a sua confiança em mim, Kacchan?” Desviou da pergunta, porque apesar de tê-los incluído, apenas incluíra os dois como parte de toda a tripulação.
OLÁ CAPITÃO MIDORIYA IZUKU, COMO ESTÁ A SUA VIAGEM?
Requisito reinicio de sistema da Amanda.
CHAVE DE IDENTIFICAÇÃO: #0492
REINÍCIO DE SISTEMA: 2% CONCLUÍDO.
“Eu preciso que vocês sejam rápidos, o.k? Vai...” Fraquejou, não queria fazer aquilo. “Vai dar tudo certo.”
“Uma vez que eu iniciar a ejeção do laboratório, não vou poder cancelar. Consegue entender isso? Se não der certo, se por acaso você se atrasar, se alguma porta travar por algum motivo...” O esverdeado conseguia ver tanto o bicolor quanto o loiro franzindo o cenho, conseguia ver a linha fina de tensão em seus lábios, mesmo que não estivesse lá. “Izuku, se ficar preso com ele no laboratório...”
“Vai funcionar.” Suprimiu o gritinho de susto quando as luzes se apagaram e as portas se abriram. “Vai dar certo.”
Midoriya colocou a mão no peito, respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Se ficasse preso com aquilo no laboratório... Ao menos todo o resto estaria a salvo, Katsuki estaria a salvo, Todoroki também e teria pelo menos feito algo quanto a morte de Kirishima e Shinsou, pelo menos não teria sido em vão...
“Sabe o que tem que fazer, certo?” Repetiu, tentando abanar os pensamentos.
REINÍCIO DE SISTEMA: 98% CONCLUÍDO.
Quando as luzes se acenderam de novo, Izuku não pôde deixar de suspirar de alívio apesar de tudo. Seus olhos piscaram algumas vezes até se acostumar com a luz forte da Amanda e imediatamente as portas se fecharam, incluindo as saídas de ar.
“Puta merda...!” Os gritos de Katsuki sequer incomodavam mais os seus ouvidos agora acostumados com o som alto. Por um momento, Midoriya havia se esquecido de que eles tomariam de volta o acesso às câmeras, que veriam o que ele viu.
“Mas... O que é isso?”
“Vocês... Estão vendo também?” Não sabia por que queria confirmar algo do tipo, mas pelo menos significava que não estava louco.
“É horrível...”
“Não vejam isso.” Se recompôs ao falar. “Vamos focar no que é importante...” Engoliu em seco, imaginava como estaria o estado dos dois namorados agora. “Shoucchan, onde ele está?”
“Perto. Está preso no corredor depois da ala médica.” Tremulou. Diferente de Midoriya, Todoroki não era um oficial de ciências, sempre foi um engenheiro, não existia nenhuma possibilidade de sentir nada além de medo daquilo que via nas telas na sua frente. Era disso que o esverdeado estava correndo o tempo inteiro? Os motivos do desmaio e do coração à mil? Shouto odiava aquela sensação, a de se sentir incapacitado, de não poder fazer nada quanto ao que via.
“Ótimo. Eu só preciso que seja rápido, Shoucchan, Consegue fechar as portas rápido o suficiente para deixá-lo sempre atrás de mim?” Por algum motivo, estava sussurrando. Sabia o peso da responsabilidade que estava colocando nas costas dos dois, se por acaso Shouto não conseguisse ser ágil o suficiente com os comandos, Midoriya morreria antes mesmo de conseguir fazer alguma coisa.
“Sim.” O ouviu concordar e era tudo o que precisava.
A voz feminina da Amanda de repente soou pelos altos falantes.
Ejeção do laboratório: 12% concluído.
“Esse é o seu timer.” Bakugou se pronunciou, ficou silente por um momento. “Deku.” Chamou, inseguro.
“Aqui.” Respirou fundo.
“Volta pra gente.” Suplicou, mas o esverdeado não respondeu.
Ejeção do laboratório: 24% concluído.
“Abra a porta, Shoucchan.” Midoriya repassou as direções na sua cabeça. Esquerda, direita, direita, esquerda, esquerda. E então se livraria dele, diria adeus àquela maldita criatura na sua nave, diria adeus às vontades da Yutani. Aquilo era uma corrida onde só poderia existir um vencedor, caso contrário não seria somente ele que sairia perdendo.
Ejeção do laboratório: 30% concluído.
Daria certo, tinha que dar, puxando o ar mais uma vez, Midoriya encarou a porta, olhou pelos ombros, não era distância tão ruim de uma para a outra. Vai dar certo, repetiu novamente como um mantra.
Ejeção do laboratório: 42% concluído.
“Pode abrir.” Se referiu a que prendia o alien no lugar e assim que o corpo escuro apareceu no seu campo de visão, Midoriya travou, como se de repente estivesse colado no chão. O grito da criatura reverberou pelos seus ossos e suor escorreu pelas suas têmporas.
“Deku!” Bakugou gritou o alertando, sabia que estavam o assistindo pelas câmeras.
Tirando uma força que não fazia ideia de onde vinha, Midoriya se pôs a correr, trôpego. O chão parecia tremer sob seus pés com os passos ágeis e pesados da criatura e quando o esverdeado achou que não conseguiria, que talvez ela fosse rápida demais do que previu anteriormente, a porta se fechou atrás de si, o estrondo do encontro bruto contra o metal ecoando pela nave.
Esquerda.
Ejeção do laboratório: 50% concluído.
Tentou não se abalar quando ouviu o guincho trovejante e ensurdecedor do alien, se fosse no seu lugar também teria ficado irritado ao chegar tão perto da janta que tanto almejava e segundos depois tão longe. Apesar disso não tinha tempo para suspirar aliviado enquanto continuava correndo, os pulmões já reclamando do esforço depois de tanto tempo mal funcionando corretamente.
Direita.
Ejeção do laboratório: 56% concluído.
Midoriya conseguia sentir a irritação do alien crescendo cada vez que tinha seu caminho bloqueado, ouvia o som estridente das garras no metal, o baque alto de cada contato violento, mas se tornava quase confortante ouvi-los depois de tudo porque significava que estava dando certo, que estava tudo indo de acordo com o plano.
Direita.
Ejeção do laboratório: 62% concluído.
Estava quase lá, quase lá.
Esquerda.
Ejeção do laboratório: 70% concluído.
Esquerda.
Ejeção do laboratório: 74% concluído.
Tudo no seu corpo reclamava e Midoriya sabia que assim que toda aquela adrenalina passasse, ele teria que lidar com a dor que deveria estar sentindo, mas abanou aquilo da mente assim que seu corpo se chocou com um dos aparelhos, incapaz de parar de correr a tempo, lhe dando uma pontada que pareceu percorrer por todo o seu corpo.
Resmungou baixo e a porta atrás de si se fechou antes que o visitante tivesse o prazer de entrar consigo no espaço largo. O laboratório era uma área circular onde no centro era o local separado para pesquisas com artifícios químicos, era extremamente vantajoso para Midoriya porque poderia correr em círculos, se esconder eternamente ali até que cometesse algum erro.
Ejeção do laboratório: 80% concluído.
Tentou não se preocupar com o fato de que seu tempo estava acabando, teria calculado errado? Não.Com certeza daria tempo.
“E agora?” Questionou Katsuki.
“Eu me escondo e vocês deixam ele entrar.” E quando percebeu que os dois iriam falar algo, se pronunciou em interrompê-los enquanto se escondia. “Está tudo bem.” Embora o nervosismo não colaborasse para passar a confiança que queria. Já lidara com aquela situação antes, conseguiria passar por aquilo de novo. “Só abram logo a porta, estamos perdendo tempo.”
Ejeção do laboratório: 86% concluído.
As portas se abriram e os sons espocados dominaram o ambiente no mesmo instante, Midoriyaconseguia ouvir os passos apressados, conseguia ouvir seu rabo se arrastando pelo chão, os dentes se encontrando. Como odiava aqueles sons.
Ejeção do laboratório: 90% concluído.
O esverdeado pôs somente parte da cabeça de fora para ver a posição do alien, estava tentando não se desesperar com o seu tempo se esvaindo rápido demais, mas ele continuava rondando a porta fechada, mal saindo do lugar.
Droga, praguejou interiormente e mesmo que não estivesse na ponte de controle com Todoroki e Bakugou sabia que os dois estavam tão nervosos e desesperados quanto ele.
Ejeção do laboratório: 96% concluído.
Estava tudo bem, ainda tinha tempo. Respirou fundo e quando fizera menção de tentar conseguir algum melhor posicionamento de onde estava, sua mão roçou no frasco de remédio no bolso.
Por que não pensara naquilo antes? Tinha esquecido completamente do objetivo daquilo e do quanto era somente isso que precisava agora.
Devagar tirou a sua mais nova distração, as cápsulas chacoalharam de leve com o movimento, mas não o suficiente para fazer qualquer barulho alarmante. Izuku pressionou o frasco com força entre os dedos e exatamente como antes o lançou para o outro lado do laboratório. Imediatamente o alien rosnou e correu e Midoriya com medo de perder a oportunidade fez o mesmo indo em direção a porta. Quanto tempo ainda tinha ou melhor: quanto tempo havia perdido até fazer aquilo? Procurou focar no metal tão perto de si, sabia que Todoroki estava vendo o que estava acontecendo, sabia que ele abriria as portas e quando estas finalmente se abriram fora somente para que se fechassem em seguida.
Ejeção do laboratório: 100% concluído.
“Nem foden-“ A comunicação fora cortada de forma instantânea, assim como as luzes que se apagaram restando somente as de emergência, Izuku estava de novo no escuro, mas pior do que isso estava preso com a maldita criatura.
Não, não, não... As janelas do laboratório mostravam como tudo estava girando, seu corpo começara a flutuar pela falta de gravidade e a velocidade o puxava para qualquer lugar. Midoriya se agarrou à porta com força, mordeu a língua para evitar soltar todos os gemidos que teimavam em sair por sua boca e como se as coisas não pudessem piorar, a pressão começou a dominar o seu corpo. Os ouvidos zuniam, o ar já não entrava mais por seus pulmões e seu corpo começava a se contorcer.
Despressurizando.... A voz soou pelos altos falantes e em seguida seu corpo caiu, seu rosto encontrando o chão com violência enquanto o laboratório se estabilizava. Puxou o ar com força e não se importou com a dor, a adrenalina tomaria conta de tudo. Rapidamente voltou para onde estava, avistando o alien procurando pela causa do som de antes, tentou segurar as lágrimas e respirar fundo outra vez.
Não estava morto, não ainda, pelo menos não para o xenomorfo. Se ao menos conseguisse chegar até a câmara de pressão... Um traje especial pode ter oxigênio para três dias, viveria por mais três dias e então sufocaria à deriva no espaço. Era somente isso que estava na sua cabeça no momento, não queria morrer, não queria morrer ainda, não queria morrer daquela forma.
Bakugou e Todoroki não estavam mais ali, não havia mais as suas vozes para ajudá-lo a manter a calma, tinha que evitar o próprio pânico sozinho. Notou o líquido rubro que lhe escorria do nariz e por não sentir nada, somente esfregou com o antebraço.
Sem tirar ao máximo os olhos do alien, obrigou o corpo a se mover, se esgueirando entre os aparelhos e as bancadas enquanto se dirigia para o outro lado do círculo. A área de experimentos conseguia ser quase uma benção e uma maldição naquele momento ao dificultar a visão tanto do alienquanto a sua.
Devagar e sem fazer barulho, estava perto da porta, ouvia os passos do alien de um lado para o outro porque ele sabia que Midoriya ainda estava ali e agora que sua procura se resumia a um círculo não tão espaçoso assim, andava desesperado, sibilando, rosnando, rangendo os dentes e tais sons somente pareciam cada vez mais capazes de deteriorar o seu juízo.
Midoriya esperou, escondido tão perto da câmara de pressão, só precisava apertar um botão, esperar que pressurizasse, vestir um traje e então estaria tecnicamente livre, mas cada passo do alien parecia perto demais e toda vez que pensava em ir, hesitava e mantinha-se preso no mesmo lugar.
Não tinha mais distração alguma com a qual pudesse contar agora. Se não tivesse demorado tanto... Se tivesse lembrado antes.... Apertou a mão em punhos e propositalmente se deixou cravar as unhas nas palmas, se martirizar não o ajudaria agora. Em uma olhadela rápida procurou saber a posição da criatura e quando garantiu de que se conseguisse ser rápido o suficiente apenas para apertar o botão e voltar, abraçou o último resquício de coragem que existia dentro de si, correu e pressionou o botão, voltando em seguida.
Seu coração batia sem parar no peito e Izuku sabia que aquilo ainda era a única prova que os namorados tinham que ainda estava vivo, era a única coisa que não pararia de funcionar e por algum motivo, aquele mero círculo de metal era a única coisa que parecia o impedir de desistir de tudo ali, como um lembrete de por quem ele queria ficar vivo.
A voz lhe diria quando a câmara estaria pronta e tremendo, Midoriya esperava com a mão pressionada contra os lábios ao tentar normalizar a respiração descontrolada, deixou as costas se apoiarem onde estava escondido e embora não quisesse, se concentrava ao máximo nas passadas do alien ora perto e ora distantes de si.
Pressurização concluída.
Lá estava sua saída, as portas se abriram e agora que estava tão perto não deixaria que nada o parasse. Tropeçou nos próprios pés devido ao nervosismo uma vez na câmara de ar e seu nariz de novo encontrou o chão, a adrenalina continuava sendo sua velha amiga e a dor não fora nada comparado ao terror de ouvir os passos e o grito estridente do alien tão, tão próximo. Levantou de imediato, sem dar tempo para o corpo cambalear ou a tontura bater e virou-se tão rápido que quase tropeçara de novo, viu o corpo escuro correr sedento na sua direção, rápido e astuto e mal sendo capaz de respirar, Midoriya se jogou contra os botões da câmara, as portas se fechando a tempo.
Tudo que escutou foi o estrondo familiar do corpo pesado contra o metal e o alerta para que se enfiasse logo em um traje antes que fosse despejado no espaço, se apressou desesperado e somente quando garantiu que o capacete estava bem posicionado, se permitiu respirar direito outra vez. As lágrimas escorriam por suas bochechas e ele sabia que sangue havia escorrido por seu nariz pois sentia o fraco gosto metálico nos lábios. Quando as portas se abriram e Midoriya fora sugado para o vácuo e o vazio do espaço, ele deixou o corpo relaxar no traje.
“Tchau.” Umedeceu os lábios uma última vez, pensou em Katsuki, pensou em Todoroki, em Shinsou, em Kirishima. “Seu fodido. “
E não pensou duas vezes em se render à escuridão das suas pálpebras se fechando.
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Quando acordou, fez menção de levantar, mas automaticamente sua cabeça foi de encontro a uma superfície. A princípio pensou ser o vidro do capacete, mas assim que seus olhos se abriram e se acostumaram com a luz forte, foi que notou os rostos de Katsuki, Iida e Todoroki lhe observando.
Estava sonhando? Havia morrido?
De repente, gotas d’água pingaram no vidro e Midoriya se tocou de que aquilo era real demais para ser um sonho, estava mesmo dentro da câmara de revitalização na Amanda, Todoroki e Bakugou e até Iida estavam mesmo ali. Franzindo o cenho, o esverdeado encarou as pequenas gotículas que ainda pingavam no vidro até ouvir tanto Katsuki quanto Shouto fungarem, seus narizes estavam vermelhos e os olhos inchados e era inegável os dedos tremendo sob a superfície.
“Kacchan, Shoucchan...” Midoriya tremulou, se juntando aos outros dois no choro. Agora que a adrenalina havia ido embora seu corpo inteiro reclamava em dor, ainda que soubesse que estaria pior se não estivesse dentro da câmara.
“Pensamos que...” Shouto começou, mas não conseguia continuar.
“Pensamos que tínhamos te perdido...” Katsuki completou com o rosto próximo ao vidro. “Seu idiota.” Soluçou.
Izuku não se sentia capaz de falar nada, apenas concordar com tudo o que diziam com a cabeça, fungando sôfrego e deixando os soluços dominarem o seu corpo por todas as vezes que os suprimira.
Estava vivo, estava na Amanda e principalmente, estava tudo bem agora.
O esverdeado observou os outros dois e vagarosamente ergueu a mão até que esta tocasse no seu lado do vidro, simulando um toque na de Katsuki. O loiro o encarou com as sobrancelhas demonstrando o seu alívio acima de tudo e com um sorrisinho fraco, Midoriya deixou suas expressões se aliviarem também.
“Eu disse pra confiar em mim.” Abaixou a mão, encarando as feições dos namorados e quando os dois lhe devolveram o sorriso, Midoriya simplesmente sabia que no momento nada mais importava.
Agora estava tudo bem.
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