Visco ou Azevinho?
6 Visco ou Azevinho?
Já estava escuro quando Felícia acordou.
Nem ficou tranquila com a tarde tirando uma soneca em uma temperatura agradável ou pelo fato de não ter dor de cabeça, pois precisava ligar os piscas-piscas logo: era uma norma para as casas que faziam parte do mapa turístico do “Festival das Luzes”. Ela saltou do sofá e logo acendeu tudo o que podia, para só então checar o horário: restavam poucas horas para a meia noite e show de luzes na praça central. Saco.
Parte de si não queria ir. A outra parte lhe cobrava pela cláusula e uma foto que comprovasse que tinha ficado ali todos aqueles dias. E é claro, talvez fosse uma última oportunidade para encher um pouco Miguel por algo desimportante.
Ela tomou um banho quente, preparou seu cartão para comer besteiras nas barraquinhas da praça e colocou uma roupa quente. Nada muito natalino, exceto seu cachecol taiwanês. Também aproveitou a oportunidade para fazer as malas, lavar a louça e deixar tudo absolutamente organizado para partir cedo no dia seguinte, aproveitando o trânsito fácil pelo feriado. Era chegar, dormir, partir. Com o celular no bolso, ela encarou o globo de natal na mesa de centro da sala antes de sair em direção à praça.
Havia subestimado o quanto a conversa com Miguel tinha lhe afetado. Ela caminhou com as mãos nos bolsos do sobretudo preto, entre a pequena quantidade de turistas e uma dúzia de crianças correndo. Era impossível dizer se seu peito estava oco ou o contrário, se seu coração tinha amadurecido demais para ver beleza mesmo no improviso das barracas ao redor do carvalho, com itens fora de estoque cedo e decoração piscando. Faltava apenas a decoração central, com pisca-piscas pendurados de forma radial, para ser acesa; o restante já estava iluminado de um jeito colorido, quixotesco e com pequenas lâmpadas queimadas. A escuridão da noite, somada ao cheiro quente e doce, fazia Felícia imaginar que sim, o Natal era uma mentira óbvia; ora cara, ora barata; mas que parte de si queria acreditar — apenas não conseguia mais.
Ela pensava no seu pai enquanto comia uma panqueca de batata com molho no caminho, para aliviar a fome de algo salgado antes de parar na barraquinha reservada à confeitaria Botões de Açúcar. Dulce Baker parecia genuinamente feliz por atender casais e seus filhos, oferecendo pacotes extras de balas e caramelos; até lhe deu uma fatia generosa do bolo de “tronco”, com muito chocolate. Havia mais gente comprando luvas e toucas feitas em Taiwan, vendidas diretamente pelo sr. Spindle, que mais parecia o próprio sr. Scrooge e não deixou de ralhar com adolescentes que não pagariam por nada. Pensou em sua mãe, que morava há muitos anos em Nova York e sempre lhe envia cartões nessa data — mesmo sem uma resposta muito esforçada da filha. Até Conchata, na barraquinha “Nariz de Rudolph”, sorria e pegava cada globo de neve como se fosse o item mais precioso do mundo, ao lado de um homem que deveria ser o filho mais novo, Gabriel.
Existia uma melancolia específica em observar uma praça que não passava de um cenário periodicamente erguido, cuja neve escondia amarguras, e notar ao fim que as outras pessoas não ignoravam suas imperfeições, apenas conseguiam ser mais do que pessoas infelizes na data. Felícia se sentia à parte disso, como uma menina assistindo uma festa colorida escadarias abaixo da sua antiga casa. Ela não sabia dizer se era uma observadora que enxergava a verdade ou alguém que nunca enxergaria de verdade.
A música estourava nos alto-falantes em loop e não demorou para que alguém anunciasse pelo microfone a chegada do Papai Noel, que na verdade era um dos bombeiros aposentados de Hollow Oak. Fotos com ele seriam permitidas com crianças até treze anos durante a próxima hora, à vinte dólares por foto.
Ao fim, depois de ser atravessada por crianças brincando de jogar neve umas nas outras e quase cair numa decoração mal-instalada, Felícia desviou de mais lembranças e projeções sobre o futuro. Foi quando encontrou Miguel com o olhar, carregando uma caixa até uma construção de madeira ligeiramente afastada das outras barracas — era uma espécie de celeiro. Ele a reconheceu de longe e fez um aceno para ela segui-lo.
Ao atravessar o umbral da porta, entendeu que aquilo era mais um galpão com dúzias de estantes de metal com caixas e mais caixas, todas com as decorações de natais passados. O barulho externo tornou-se distante, abafado. Ela quase fez alguma piada com a possibilidade do lugar ser assombrado pelos fantasmas do , mas achou mais sensato não brincar com a própria sorte. Já tivera natais ruins demais pra isso.
Com um clanc! seguido dos xingamentos de Miguel sobre o peso da caixa, ele se virou com um suspiro. Seus olhos, no entanto, não pareciam verdadeiramente irritados quando se virou para Felícia e ela se perguntava se iria descobrir logo o porquê ele a chamou até ali. Torcia para que sim.
— Já se encheu de chocolate quente com hortelã ou cidra de maçã com especiarias?
— Tomei só um gole.
— Que bom. — Ele tirou as luvas de trabalho, colocando no bolso da calça jeans de forma meio desajeitada; depois, puxou um pouco mais a gola da blusa e passou as mãos pelo cabelo. Isso fez Felícia estreitar os olhos. Miguel estava se arrumando rapidinho? Talvez. E o desgraçado realmente ficava bem naqueles tons de azul e vermelho. — Tem atole com rum branco ali na garrafa térmica.
— Hmmm…
Felícia pensava em tudo e nada quando se dirigiu até a bancada do celeiro, com ferramentas organizadas sobre a mesa e a tal garrafa térmica amarela ali. Era um modelo bonitinho e com uma tampa “dupla”, que se destacava em dois copos para servir duas pessoas. Um sorriso mal-intencionado surgiu em seu rosto, mas ela não disse nada: só serviu os dois copos baixos e levou até mais perto de Miguel, que ainda conferia as estantes.
Ele pegou o copo; Felícia fez um gesto rápido de tim-tim e tomou um gole tímido do atole, ligeiramente preocupada se ia queimar a língua ou não. Depois, um gole mais corajoso. O que verdadeiramente ardeu foram suas bochechas quando levantou os olhos e notou que Miguel estudava seu rosto, ainda bebendo do próprio copo.
Houve um instante de silêncio; ele limpou a garganta brevemente antes de indagar:
— Aprovado?
— Aprovadíssimo.
E mais uma pausa, um tanto proposital da parte dela. Metade porque realmente estava concentrada no sabor da bebida espessa, com aquele fundo um tanto terroso de açúcar mascavo e canela, mas com o sabor quentinho de milho com um toque do rum. A outra metade, era porque se entretinha esperando os próximos passos daquele homem quieto. Para sua nada contida satisfação, ele preencheu o silêncio entre os dois.
— Veio só para ver as detestáveis luzes de Natal?
— Você é um homem inteligente, sabe que não foi só por isso. — Ela piscou e logo completou como uma confissão: — Foi pelo atole.
O sorriso dele ficou entre a frustração nervosa e um deleite de ser envolvido em um jogo tolo que ele há muito tempo não arriscava colocar o coração. Miguel expirou e colocou o copo num espaço livre de uma prateleira próxima, sacudindo levemente o rosto.
— Você não facilita mesmo.
— É mais divertido.
Ela bebeu o restante. O rum branco era só uma pincelada na receita, pelo o que Felícia podia notar; nada parecido com o eggnog com bourbon, rum e conhaque. E mesmo sem doses perigosas de álcool, seu corpo estava mais leve e inflamável.
Seguindo exatamente como ele fez, Felícia terminou seu copo e colocou-o numa prateleira de estante próxima de si, agora muito ciente da proximidade dos dois entre estantes altas e dúzias e dúzias de enfeites de Natal encaixotados — uns melhores do que os outros. Ela encarou as decorações acima e viu pedaços de um festão aramado saindo da caixa, com coisas penduradas e folhas artificiais diferentes enroladas.
Miguel seguiu seu olhar.
— A maior parte das pessoas não sabe diferenciar viscos de azevinhos, sabia?
Ela sorriu, ainda encarando as decorações.
— Eu acho que as pessoas estão mais preocupadas com outra coisa quando veem esse tipo de decoração. E isso aí em cima é visco ou azevinho, afinal?
— Bom, eu também estou preocupado com outra coisa.
Ele se inclinou, Felícia fez o mesmo. Aquele tico de álcool entrou em combustão dentro dela enquanto sua boca experimentava a de Miguel, enfim provando aquele calor que os olhos de brasa dele tanto prometiam. Um arrepio em sua coluna só a motivou suas mãos alcançarem a linha do seu queixo, depois sua nuca, às vezes seus ombros. Ela apenas não derretia porque sentia os braços de Miguel ao redor da sua cintura, mas teve dúvidas sobre o quanto sua pele seria diferente ou não de um boneco de neve quando ele também segurou seu rosto com uma das mãos.
A falta de fôlego chegou incômoda, intrusa. Não queria essa interrupção, embora até um gemido rouco de Miguel tenha denunciado a necessidade de uma pausa para mais ar. E quando se separaram um pouco, Felícia se sentiu até zonza, encarando os lábios mornos e entreabertos de Miguel. Ele ia dizer algo. Hesitava. E quando puxou ar para falar qualquer coisa, todo o resto se apagou.
Felícia ainda sentia as mãos de Miguel sobre si, a respiração dele mais intensa por perto. Não tinha bebido demais a ponto de sua pressão cair por conta de um beijo mais intenso.
O mundo lá fora também parecia mais escuro e barulhento.
— Mas o que…?
A voz de Miguel veio antes da luz do celular dele, que tinha tirado do outro bolso. O relógio passava um pouco da meia-noite. Era Natal.
— Foi um curto circuito.
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