Visco ou Azevinho?
7 Natal
Quando Felícia e Miguel saíram do celeiro de decorações, se depararam com uma praça entrecortada por luzes frias de celulares erguidos e correria: A rede de energia não deu conta de acender as luzes até o carvalho central. O apagão derrubou a energia da praça inteira e o barulho de eletricidade ia e vinha como uma ondulação de som grave. Mesmo sem grande luminosidade, os dois se encararam.
O curto circuito podia incendiar alguma coisa.
Quem sabe até o carvalho.
Miguel apertou a mão de Felícia em um gesto breve, para então seguir adiante do caos e se certificar qual era o estado das coisas e por que diabos ninguém tinha resolvido aquilo logo.
A praça era um formigueiro de figuras desorientadas. O Papai Noel tentava acalmar crianças que choravam com a escuridão abrupta, sua barba postiça torta revelando um queixo tenso. Dulce Baker gritava com um adolescente de colete laranja, acusando-o de ter ligado "aquele maldito aquecedor portátil" na mesma tomada que a barraca dela. Duas senhoras, Conchata e a outra cujo nome Felícia não lembrava, discutiam aos berros sobre quem deveria ter verificado a fiação do carvalho — uma apontando o dedo para a outra com a fúria de quem guardava aquele bate-boca há anos. Em meio à gritaria, alguém acionou um gerador precário que fazia mais barulho do que luz, iluminando apenas um círculo sujo de neve artificial derretida.
Miguel atravessou o tumulto com a tranquilidade de quem já ouviu gritarias do tipo repetidas vezes. Ajoelhou-se junto à base do carvalho, onde os fios expostos formavam um novelo perigoso, e começou a desligar manualmente os disjuntores improvisados, um a um.
— Sem grito. — Felícia escutou-o, a voz dele mais forte que o eletricista que tentava explicar algo aos berros. — Primeiro a gente isola a fonte, depois a gente descobre quem fez isso.
Seus dedos, acostumados a desmontar globos de neve minúsculos, navegavam com precisão pelos cabos grossos. Sem se exaltar; apenas resolvendo.
Foi quando Felícia viu a fumaça. Fina, quase invisível, subindo da lateral de uma barraca onde os fios se acumulavam como cipós mortos. Antes que pudesse pensar, já estava em movimento, lembrando-se das exigências da prefeitura que havia memorizado por pura burocracia.
— Miguel! — Ela gritou, apontando. — O transformador auxiliar! A planta que a comissão me entregou mostrava um transformador isolado ali. Se ele pegou fogo, desliga o disjuntor mestre primeiro ou a sobrecarga derruba a cidade inteira!
Ele olhou para ela por um segundo, processando a informação, e então acenou, correndo na direção oposta para executar o procedimento. Enquanto isso, Felícia já organizava as pessoas ao redor, afastando crianças curiosas e orientando os barraqueiros a desligarem seus equipamentos individuais — não com grande autoridade, é claro. Era só uma novata ali. Mas seu tom de voz, somado ao fato de que Miguel a escutou, trazia uma certa aura de eficiência; o que era verdade: ela já tinha organizado equipes em crises no próprio emprego. Conchata resmungou algo sobre "intrometida", mas obedeceu. A fumaça cessou antes que virasse chama.
Entre o vozerio, algum bebê chorando e gente tentando checar onde exatamente buscar mais luz, estava a sensação cristalina de Felícia de que ela não conseguiria ter um Natal normal na vida. Mas ainda não havia sido a pior parte. Com a situação mais controlada e o som ondulante de eletricidade já encerrado por Miguel, as luzes coloridas falhavam, sem acender totalmente. Em contraste à escuridão na praça durante a madrugada de Natal, uma coisa estava clara: o Festival das Luzes daquele ano tinha sido um total fracasso.
Ela se aproximou de Miguel que, ajoelhado de novo sobre as fiações ao pé do Carvalho, trocou um olhar confidente com ela. Não dava jeito. O risco de algum acidente era menor, mas era provável que alguma coisa tivesse queimado no meio do caminho e não descobririam tão cedo onde ou como arrumar depressa.
— Melhor ir falando pro pessoal ir pra casa, Felícia. Já tem eletricista rondando outros disjuntores, mas sem previsão de nada. Acho que é umidade que infiltrou e expandiu quando virou gelo.
— E com a sobrecarga de aquecedores…
— Isso aí. As luzes da praça foram o golpe final.
Ela suspirou e se dirigiu para o primeiro grupo que viu adiante, formado por Conchata, sr. Spindler e mais outros adultos. Parecia promissor falar com eles, já que eram donos de lojas e poderiam orientar outras pessoas — moradores ou os poucos turistas.
Felícia mal abriu a boca para falar que seria mais seguro e confortável encerrar a noite quando sentiu o peso do olhar de Conchata. Seus olhos olhos, escuros e cansados, tão diferentes do calor de Miguel, examinaram-na com uma intensidade que dispensava palavras — era o olhar de quem já tinha escolhido um culpado antes mesmo de formular a acusação. Quando abriu a boca, sua voz saiu num tom baixo e cortante, projetado apenas para os ouvidos de Felícia, como se as duas estivessem sozinhas no meio da multidão que ainda se agitava inutilmente ao redor.
— Típico. Acha que basta chegar, dar ordens e apontar o que está errado. Mas cuidar de algo que não seja seu? Isso exige alguém que acredite em mais do que um contrato.
— Eu não faço ideia do que você tá falando.
Gabriel, ao lado dela, tentou puxar o braço da mãe.
— Deixa ela, deixa.
Mas ela só o encarou com raiva antes de puxar o braço de volta e dar um passo adiante de Felícia:
— Qualquer um da cidade sabe que você só ficou com aquela casa por um leilão. Que nem se deu o trabalho de decorar direito e ficava reclamando de tudo. Vocês querem explorar quem deve hipoteca para comprar tudo daqui.
— Vocês, quem? Você não sabe nada sobre mim. E eu também não preciso explicar.
— Você só vai ver o desastre e ir embora.
Felícia comprimiu os lábios, mas não deixou nenhum xingamento escapar. E talvez fizesse exatamente o que Conchata tinha sugerido: partir.
— Não há nada que já não estivesse aos pedaços antes mesmo de eu chegar. Feliz Natal, senhora O’Hara.
E ela se foi, sem virar-se para olhar o rosto parvo de Conchata ou a expressão alarmada de Gabriel; muito menos conseguiu se virar para ver Miguel. A cada passo por vez na camada fina de neve suja, ela encontrou o caminho para sua própria casa. Sua cabeça girava tanto em direções diferentes que o trajeto encurtou-se: de repente, já estava batendo a sola dos sapatos no tapete da frente e pegando a mala.
A consciência voltou quando estava com as mãos sobre o volante, ainda parada no estacionamento da casa. A realidade atingiu-a feito uma colisão frontal com o carro: Felícia soltou um resmungo, quis gritar e derrubou lágrimas de frustração.
A casa à sua frente parecia uma daquelas vilas de casas de gengibre. Marrom, branca e doce.
Tudo de mentira.
Ela apoiou a testa na parte superior do volante, cansada. Ela sentia falta do seu pai, doía admitir que sentia falta da mãe, e não suportava a sensação de que havia sido escolhida a dedo para ter, ano após ano, um desastre na data que todos mais amavam na vida. Felícia não era feita para isso. Felícia, quem sabe, fosse feita para resolver questões burocráticas e alimentar planilhas ao fim do ano, nada mais.
Talvez Felícia fosse feita para o azar.
Um toque no vidro interrompeu seu choro. Ela levantou o queixo, esperando que o rosto não estivesse tão ruim quanto como se sentia por dentro, e teve que inclinar mais um pouco para enxergar a face do sujeito do lado de fora, por mais que já tivesse entendido quem era: Miguel.
A voz dele veio suave pelo vidro fechado:
— Abre. Vai para o passageiro.
Ela não conseguiu nem discutir. Só abriu a porta e se esgueirou para ir para o assento do lado, irritada e triste demais para se incomodar com a estranheza do pedido ou com a dificuldade de ter que desviar do câmbio do carro. Em menos de cinco minutos, Miguel estava ao seu lado e a porta do carro tinha se fechado de novo.
Demorou mais um pouco para ele dizer qualquer coisa.
— Já tá tudo aqui dentro?
— Já.
— São três horas para Chicago, certo?
— O quê…? Eu tô sendo sequestrada de volta para minha casa?
Ele franziu os cenhos, ofendido.
— Eu não diria isso. Mas manda sua localização para suas amigas. Você não tá em condições de dirigir.
— Mas eu não quero passar mais um minuto aqui.
— Eu sei. — Ele suspirou, depois procurou a mão dela com a sua. — Acho que eu também não quero.
Ele mexeu no casaco grande dele, azul e vermelho; pegou algo de um bolso interno fundo e ofereceu para Felícia: a garrafa térmica de atole. Ela riu e chorou ao mesmo tempo, numa fungada não muito elegante, mas adorável na percepção de Miguel. Nos olhos quentes dele, Felícia enxergava sua própria gratidão.
— Tenta descansar um pouco.
Anuiu; abriu e bebeu um gole direto, sem usar a tampa de copo. O gesto de Miguel poderia ser mais doce que o sabor da bebida, mas outra sombra atravessou o rosto de Felícia — algo que ele prontamente percebeu.
— O que foi?
— Eu esqueci o globo na mesa. O gatinho.
Miguel só ofereceu a mão e ela lhe deu a chave da casa. Ele foi e voltou com o globo pequeno, que logo foi para o colo de Felícia — assim como a sua própria gata rajada faria. Em seguida, veio o som da partida do carro e Miguel manobrando para sair logo da garagem.
O carro ficou em silêncio por muito tempo. Hollow Oak diminuía gradativamente pelo retrovisor, com luzes que pareciam uma lembrança indistinta de um Natal ruim ou dúzias deles condensados em uma só imagem.
Você saiu de Hollow Oak!
H.O.H.O.H.O.
Home Of Holiday Happiness Only
Volte no próximo Natal!
Felícia havia colocado a garrafa térmica no suporte de bebidas e depois se enrodilhado no assento do carro feito uma adolescente encolhendo as pernas, com o globo abraçado em seu colo feito uma pelúcia. Ela tinha dezessete anos de novo e ouvia a discussão dos pais naquela festa que acabou com a magia.
— Felícia, eu… Eu lamento muito que o seu Natal tenha sido péssimo.
— Bom, eu imaginei que ia ser ruim. Só não tanto.
O suspiro dele foi fundo.
— Também não queria que… Que minha mãe tivesse te tratado daquela forma. Não foi certo.
— Sendo honesta, ela tem um apetite por encontrar culpados quando algo dá errado. Talvez eu só estivesse mais perto do que você pra receber a culpa dessa vez.
— Já estou farto desse tal apetite dela. E acho mais que ela só ficou mordida por ter alguém resolvendo mais do que ela.
— Mas ela estava certa quando disse que eu só ia assistir o desastre e ir embora.
Ele tirou o olhar da estrada por um instante.
— Tolice ficar quando o desastre não quer ser resolvido.
Felícia assentiu, refletindo que a última frase de Miguel não era somente para si, mas para ele próprio também. Uma decisão adiada até aquele ano, até aquele desastre que poderia ter sido um episódio besta para o folclore local. O Festival das Luzes de Celular. Podia ser bonito em um folder futuro, com a história certa. E ela podia rir, se não estivesse tão cansada.
Com um pouco mais da metade do trajeto percorrido, Miguel pegou um retorno para adentrar numa cidade pequena, de beira de estrada, a fim de abastecer mais um pouco e comprar alguma coisa na loja de conveniência 24h.
Foi uma boa hora para Felícia esticar as pernas e usar o banheiro. Ela esperou-o num banco no estacionamento, sem ligar muito para a brisa gelada.
Quando Miguel voltou da loja, primeiro ele lhe deu algo que ela não sabia que precisava: um beijo terno, embora breve, na testa. E depois, uma caixa de sanduíche de frango especial, com temperos natalinos. Ele sentou-se também e, entre os dois, havia mais uma caixa com batatinhas e dois copos médios de suco. Felícia considerava tudo aquilo um banquete.
Comeram em silêncio, ao som distante de um rádio com estática na madrugada.
— Feliz Natal, Miguel.
— Feliz Natal, Felícia.
Antes de entrarem no carro de novo, ele lhe deu um pacotinho menor e transparente: um biscoito de gengibre, na forma de um dois bonequinhos de mãos dadas. O glacê era feio, de má qualidade. Um tesouro. Ela sorriu e foi a vez dela inclinar-se para um beijo breve, mas Felícia escolheu os lábios dele — e apreciou ver o rosto de Miguel docemente desconcertado. A cada quilômetro mais perto de Chicago, Felícia sentia-se mais descansada.
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