Visco ou Azevinho?
4 O Elfo
Faltava menos para o Natal e custava para Felícia admitir que o centro realmente estava mais arrumado e próximo das imagens promocionais daquele maldito folder, com piscas-piscas enrolados no carvalho central e o restante de um sistema de luz pronto para ser aceso logo à meia-noite, na virada para o Natal. Bom, antes tarde do que nunca, não é mesmo? Os estabelecimentos pareciam impecáveis quando ela mais uma vez foi fazer uma compra rápida para a visita que receberia à tarde.
Mas bastava ouvir algumas conversas e prestar atenção que a perfeição tornava-se nada mais que um cenário de peça natalina: bonita, mas falsa e desmontável. A confeitaria próxima ao "Nariz de Rudolph", a "Botões de Açúcar", fazia uma propaganda pesada no público infantil com as decorações de bonecos de neve e quitutes coloridos, mas foi só passar um pouco mais tempo dentro do local — afinal, Felícia tinha que decidir se a torta de maçã valia o investimento — que a dona, a senhora Dulce Baker, foi ouvida aos berros com um adolescente que pagou errado o pacote de bengalas de açúcar. Mas quando Felícia passou no caixa, o sorriso da senhora Baker estava lá, treinado para turistas.
Mesmo Conchata, quando Felícia atravessou pela rua e a viu pela vitrine, sorria largamente à um casal jovem que comprava um globo de neve.
Comprar um cachecol lhe deu outra experiência natalina falsificada. A "Nó do Noel", do senhor Spindle, vendia casacos, suéteres, gorros, luvas e cachecóis com lã, anunciada como lã e mão de obra 100% locais. Quando Felícia chegou em casa, só para comer uma fatia de pão com geleia de almoço, notou uma etiqueta menor, meio rasgada, no cachecol: Made in Taiwan. Ao menos esquentava seu pescoço, independente de onde tinha sido fabricado; afinal, o termostato ainda não funcionava e ela queria economizar lenha para acender a lareira de novo à noite.
E enfim, sua visita: Miguel tinha chegado com sua caminhonete, a placa e os piscas-piscas e a bendita escada com travas de segurança. Tudo isso era esperado, mas não a caixa extra que ele trouxera e colocou na varanda da entrada.
— Papai Noel deixou pra mim, é?
Ele comprimiu os lábios, numa expressão que podia ser um sorriso contido ou um desabafo sufocado.
— Na verdade, é… É um presente mútuo. São mais alguns itens de Natal pra sua casa, então isso vai me custar mais algumas horas longe do Nariz de Rudolph.
— Hm. E deixa eu adivinhar, nada do seu irmão na loja?
— Sabe como é o espírito natalino. Sempre com outras casas para visitar por aí.
Felícia riu e passou a mostrar as tomadas externas, para ajudá-lo na instalação dos pisca-piscas. Era até estranha a facilidade de lidar com Miguel, que não parecia sujeito muito dado à conversas, nem intimidades. Pelo tamanho do bíceps dele debaixo da blusa, substituía papo furado com atividades físicas e proteína. Talvez por Felícia não parecer afetada pelo Natal, nem pelo escândalo de Conchata na loja, ele tenha cortado a distância que naturalmente poderia se instalar entre ele e uma outra pessoa que sequer pretendia passar muito tempo na cidade.
Com os flocos de neve caindo aos poucos e as horas escorrendo, eles trabalharam em um silêncio cortado por instruções objetivas. Pregue aqui, me passe a fita, cuidado com o degrau, a placa está torta, me dá outro prego. Assim que a decoração externa estava pronta, eles entraram na casa com a caixa e Felícia rumou em direção à cozinha para cortar a torta de maçã e oferecer um café quente. Ao virar-se para perguntar se ele preferia café puro ou com açúcar, ela notou a expressão incomodada no rosto dele.
— É, não tenho decorações na sala. — Ela suspirou. — Aliás, em cômodo algum. Tenho nem árvore.
— Duvido que você iria querer uma árvore natural do “Pinheiro Feliz”. Tem ano que tem mofo e é um perigo pra asma. Mas não é isso. — Felícia esperou a explicação, dando uma pausa que gerou certo pânico em Miguel. Para ele, estava óbvio: — Você não está sentindo frio aqui dentro?
— Ah. Liguei para três pessoas e, aparentemente, todos os eletricistas da cidade estão ocupados com as luzes do centro, então… Me sobrou a lareira e um cachecol made in Taiwan mesmo. Deveria ter trazido minha gata pra esquentar melhor os pés.
Ele segurou o espaço entre os olhos e murmurou um xingamento baixo. Não precisou dizer mais nada para Felícia inferir que não só o cachecol de lã era falso; os eletricistas também. Isso não mudava o fato de que ainda estava frio na casa e ela só precisava aguentar por mais dois dias. Continuou fervendo o café que tinha feito mais cedo e colocou uma fatia de torta em cada prato ainda sobre a pia, com um pequeno garfo do lado.
Miguel disse:
— Eu volto amanhã, então.
Felícia entregou um prato para ele, parado agora na cozinha. Ela, por sua vez, apoiou o quadril no balcão e deu uma garfada generosa na torta. A senhora Dulce Baker podia ser bem amarga com crianças, mas ao menos a torta ainda era boa.
— E você mexe com essas coisas?
— Não é difícil. A loja vira oficina de reparos entre um Natal e outro. Aposto que o problema é no termostato mesmo, vivem dando problema.
— Hm. — Ela mastigou mais um pouco, observando-o comer também. — Um homem de muitos talentos para Hollow Oak, hein?
Miguel não era tolo. Sabia que estava sendo sondado e hesitou apenas um pouco antes de abrir o bico. Ele se inclinou no umbral da porta com o prato e suspirou enquanto ainda mastigava.
— Eu tava pronto para sair da cidade no começo dos vinte anos. Mas daí meu pai morreu, o que… Bem, o que eu admito que não seria péssimo se ele não tivesse deixado a casa endividada para investir nesse sonho natalino. E eu gosto do meu irmão, mas ele é um irresponsável. Os boletos não pararam de chegar. Fiquei.
Felícia colocou café nas xícaras, ele quis só uma pitada de açúcar.
— E o que uma empresária como você veio fazer numa casa sem aquecimento em Hollow Oak?
— Meu pai comprou a casa num leilão. Mas já que ela faz parte do mapa turístico, o proprietário tem que estar na cidade durante o "Festival das Luzes Eternas" para não pagar uma taxa nada natalina. Bom, ainda bem que meu pai morreu antes, porque ele ia ficar decepcionado com a falta de casinhas de biscoitos de gengibre nas confeitarias daqui. Eu fiquei.
O homem à sua frente quase se engasgou com o café. Parecia errado rir da observação dela e ele riu um pouco mesmo assim; mas, ainda discreto, não comentou muito mais. Com os pratos e xícaras lavados e a pequena pausa encerrada, penduraram meias decorativas sobre a lareira e espalharam outras decorações, como um trio de guirlandas na sala, um quebra-nozes na mesa e um fatídico elfo de olhar travesso no alto de uma estante.
— Te vejo amanhã, Miguel? — Os dois já estavam na varanda externa, iluminada pelos piscas-piscas que ele trouxera. — Mesmo horário?
Dessa vez, ele sorriu de verdade; um sorriso verdadeiramente quente em contraste com a neve um pouco mais forte na rua.
— Se você não congelar até lá, sim.
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