Véspera de Natal.

Felícia estava enrodilhada no cobertor no sofá, enquanto permanecia à deriva no celular durante a manhã. O calor residual da lareira era aconchegante e o cheiro de canela no ar não deixava dúvidas de que as casas vizinhas — e estabelecimentos — estavam à pleno vapor para a noite mais importante do ano.

Ela respondeu com educação e com respostas vagas, até meio engraçadas, às mensagens de amigas nas redes sociais. Jessica era a mais sensível, mas era difícil para Felícia não achar que ela sentia pena por achar a data espinhosa. A justificativa de estar numa cidade natalina por obrigação contratual foi perfeita para não evitar o tema "natal" e nem evitar piadas bobocas, tangentes ao porquê ela não era fã da comemoração. Felícia, no entanto, não comentou sobre Miguel. Sabia que tipo de comentário isso causaria, ainda mais porque calhou de ser um homem solteiro — ela notou a ausência de aliança ou menções à relacionamentos na tarde anterior — que também tinha o pai morto e certo ressentimento do Natal. Uma combinação curiosa, caso ela já não estivesse de partida no dia seguinte, para nunca mais voltar.

Ela já tinha comido mais torta e bebido uma quantidade indecorosa de eggnog caseiro, feito com bourbon, rum e conhaque. Quase tinha esquecido que estava esperando Miguel pouco depois do almoço quando ouviu-o chamar por seu nome da porta. Ao recebê-lo, notou uma sacolinha de papel decorativo na mão esquerda dele, enquanto na outra estava sua caixa de ferramentas vermelha.

— Pensei que a gente tinha acabado a decoração da casa ontem.

Miguel entrou sem responder direito, tirando o casaco e batendo os pés no tapete para deixar a neve lá fora. Tinha entregado a sacolinha como um entregador dá um pacote do DoorDash, mas Felícia suspeitava que ele próprio tinha preparado a embalagem com laçarote e tudo. E enquanto ele já conferia o termostato, ajoelhando-se no chão para escolher as ferramentas necessárias, Felícia sentou-se no braço da poltrona para abrir seu presente: um pequeno globo de neve que cabia perfeitamente em sua mão, mas sem temas muito festivos; só um gatinho preto no centro, com os floquinhos brancos caindo ao seu redor.

Ela segurava o globo diante dos olhos, mas seu coração parecia ter caído no tapete da sala.

Ou o termostato já tinha voltado a funcionar ou era o álcool agindo sobre sua circulação. Felícia encarou-o de costas, pensando o que poderia responder ou como poderia agradecer, mas Miguel — talvez desconfiado do silêncio dela — disse algo primeiro:

— Você disse que deveria ter trazido sua gata… Bom, esse gatinho precisava de algum dono lá na loja. Só não sei se é da mesma cor dela.

Ah, não.

Felícia sentiu-se estúpida, infantil e aterrorizada por ter sido tão simples conquistar sua atenção.

— Bom, ela é rajadinha e branca, na verdade. Mas eu amei, Miguel. — Admitiu. — De verdade. Agradeça o Papai Noel por mim.

Ele virou-se brevemente, acenando com o rosto, como se não fosse nada demais. Mas o corpo o traía: Felícia viu suas orelhas avermelhadas pelo constrangimento, pela doçura. O reparo durou mais tempo do que Miguel previu; vinte minutos se tornaram uma hora e as conversas entre os dois eram esparsas, travadas. Ela conseguiu ajudar pouco, só foi até o outro cômodo para checar o disjuntor de energia. Deixou o globo de neve na mesa de centro. Pouco depois, Miguel encarou o painel e soltou um suspiro:

— Pronto. Deve aquecer melhor a casa em uma hora; em 70°F, a menos que queira um pouco mais quente.

Ele junto as ferramentas, fez menção de querer buscar seu casaco. Felícia, reunindo coragem para se fazer de desentendida, questionou:

— Ah, você não vai esperar pra testar se aquece mesmo? Vai que ainda não deu certo.

Ela viu as engrenagens no cérebro dele se moverem. Pelo olhar de Miguel, era óbvia sua convicção de que o conserto estava encerrado e correto. Ponto final. Mas se ele ainda não parecia totalmente convencido pelo ardil de Felícia, bastou ela oferecer um lugar na sala e uma xícara de eggnog.

— É caseiro, não tem nada a ver com aqueles comprados no supermercado.

Ela se fingiu de tola, ele fingiu acreditar. Tudo para estender um momento de conversa fiada que não fazia jura alguma de se tornar algo mais do que isso. Ele largou a caixa de ferramentas, ajudou-a pegar uma bandeja na cozinha com biscoitos amanteigados e aceitou a xícara quando Felícia a passou, já cheia e quente.

— Agora estamos quites. Um gatinho por um eggnog que nunca faço para mais ninguém. Um gole desses nunca é demais

Miguel quase deu um pulo quando bebeu o primeiro gole.

¡Ay, conõ! É demais sim, ainda bem que não vim dirigindo. Quanto álcool tem na receita?

— O suficiente. Saúde!

E ela encostou a xícara dela na dele, brindando rápido antes de tomar outro gole. Ele sorriu contrariado e bebeu devagar, para a bebida não subir rápido. A conversa foi para a praça central, as luzes ao redor do carvalho da cidade, dos turistas que acabaram realmente vindo — embora fosse uma quantidade menor do que o ano passado. Miguel parecia mais disposto a conversar agora, alternando algum comentário com mais um gole de eggnog e um biscoito.

— Você deveria provar atole. Em geral, não tem álcool e eu fazia para meu irmão mais novo, quando a gente ainda era pirralho. Mas nada que não se resolva.

— Agora eu quero, então. Mais uma bebida quente para a estação.

Ele concordou e o papo seguiu-se.

Felícia notou uma leve investigação da parte dele, questionando se não tinha ninguém para cuidar da gata dela lá em Chicago ou se ninguém mais achou ruim dela estar longe naquele dia. O sorriso dela ficou mais largo ao falar que não, mas sem entregar justamente o que ele queria saber: se ela estava num namoro firme ou não.

Felícia imaginava que ficaram só nesse tom de conversa com um flertes não tão bem escondidos quando Miguel, sem rodeios, lançou a pergunta:

— Por que não gosta do Natal, Felícia? Além de receber essa casa de um leilão.

Ela engoliu seco.

— Bom, você não gosta. Consegue imaginar o porquê.

— Imaginar, eu imagino. Mas queria ouvir da sua boca. Acho que tem a ver com seu pai, só que não pelo o que estou pensando.

Felícia baixou os olhos, levando mais um tempo para responder.

— E o que você está pensando?

— Pensei em algo diferente do que aconteceu comigo. Meu pai era um babaca e minha mãe…. — Miguel expirou longamente. — Você conheceu minha mãe. As economias foram para manter a loja, não para algo melhor. Fiquei por responsabilidade.

Hm. Você me acha irresponsável?

— Te acho muito evasiva para sequer me dar uma resposta direta. Então o Natal ainda deve doer em você.

Felicia se achava muito velha para esse tipo de dor. Sorriu de nervoso, cogitando o que poderia falar enquanto avançava na bandeja com biscoitos. Mordiscou, mastigou, ajeitou o cobertor que estava ao seu lado no sofá.

— Gosta das minúcias, hein?

— Não sei dizer se gosto por causa do meu trabalho ou se é um hábito formado antes de trabalhar com peças pequenas. Você não vai responder?

Era inútil sustentar sua irritação ou tentar se esquivar. Quem diria que um homem honesto iria querer honestidade? Mas Felícia não se sentia exatamente acuada com a pergunta ou com Miguel. Sentia-se constrangida por ser algo simples, comum e antigo para uma mulher de trinta e dois anos ainda carregar no peito. Era um sofrimento ordinário e, talvez por isso, patético demais.

— Me passa aqui, por favor. — Ele passou a garrafa térmica e ela se serviu de novo. Tinha perdido as contas de quanto tinha tomado naquela tarde. Torcia para não ter enxaqueca no dia seguinte. — Antes… eu gostava do Natal, da neve, das vilas de casinhas feitas de biscoito de gengibre e glacê. Meu pai e minha mãe me paparicavam, mais o meu pai. Era como se, todo ano, ele tivesse roubado algo especial do Pólo Norte e trazido só para mim. Como se… Ele fosse também alguma figura mágica do Natal, sabe? Daí eu fiz dezessete anos. Foi numa festa grande, mesmo a minha família sendo pequena. Tinha amigos do meu pai, da minha mãe e, depois da meia noite… E eu vi minha mãe beijando um cara. Tipo a música, mas sem ser o Papai Noel. Ou meu pai.

O olhar de Miguel reluziu. Ele assentiu com seriedade, depois serviu a si mesmo outra dose do eggnog em silêncio.

— Eu não sabia o que fazer. Meu pai percebeu que tinha algo de muito errado comigo, mas eu não queria falar. Quando sobrou só nós três na casa, quem falou algo foi minha mãe. Ela deve ter entendido que eu vi. Só que o que ela disse na madrugada do Natal foi que sabia sobre alguma secretária e meu pai.

— Uma troca de presentes inesquecível.

— Eles assinaram o divórcio antes do Ano Novo. Depois disso… Ah, eu fiquei muito tempo com a minha avó. Trabalhei em todos os natais possíveis, porque ou eu ficava com minha mãe, ou com meu pai na data. Os anos passaram. Preferia trabalhar. Também já levei fora e deixei de ganhar bônus no Natal, então acho que explica bem eu ter desistido dessa historinha toda.

— Ao menos você é sincera quanto a isso. Todo mundo odeia alguma coisa no Natal. As compras. A correria. Trabalhar no dia. Deixar de receber no dia. A família. Receber uma casa adquirida num leilão…

Felícia riu sem achar tão engraçado pela referência final dele. Houve uma pausa.

— Eu odeio a promessa. A promessa de que, por um dia, tudo é perfeito, todo mundo é bom, e as famílias estão unidas. É uma mentira tão cara... e tão convincente. E o pior é saber que, para algumas pessoas, é uma verdade.

Ele abriu a boca brevemente para responder algo, mas se deteve. Talvez fosse difícil escolher as palavras certas ou talvez elas nem existissem. Não eram raras as situações em que nem as amigas de Felícia conseguiam dizer algo adequado para amparar sua melancolia pelo Natal. O fato é que logo veio uma notificação no celular do Miguel e ele levantou-se.

Passara-se mais de uma hora e a temperatura, de fato, estava agradável e morna.

Ele ordenou as xícaras na bandeja, depois andou até sua caixa de ferramentas. Se antes parecia hesitante em ficar, agora soava incerto ao partir. Felícia acompanhou-o até a varanda externa, assim como no dia anterior, e estava resoluta com o desfecho nada parecido com a fantasia que tinha em mente.

— Não posso prometer que esse Natal vai ser ótimo, Felícia. Mas pelo menos você vai ficar aquecida até lá. E se for na praça durante a noite, vai me ver trabalhando com uma garrafa de atole.

— É bom sobrar algum gole então para mim, Rudolph.

Miguel fez uma careta pela menção ao nome da loja. Mas antes de lhe dar as costas e sair andando, Felícia pôde jurar que viu uma faísca quente no olhar dele, como a brasa da lareira pela manhã. Ou era só a visão embaçada pelo eggnog misturado às confissões sentimentais na véspera de Natal.