Visco ou Azevinho?
2 Carvão
O carro de Felícia foi observado com atenção assim que entrou nos arredores daquela pequena cidade, o que a fez sentir como uma espécie de Papai Noel no trenó temendo por sua vida. E ela já tinha passado pela desconcertante placa:
Bem-vindo a Hollow Oak!
H.O.H.O.H.O.
Home Of Holiday Happiness Only
Ela não acreditava que Hollow Oak seria como ela esperava, já que nem sabia muito bem do que pensar do site municipal dedicado quase exclusivamente ao Natal. Mas não achava que fosse diferente das imagens promocionais ou do folder que veio junto com o contrato. Já nevava, mas a sensação era de atravessar corredores do Walmart depois do Natal. Quase sem decorações e tudo na promoção.
Felícia quase pôde sentir uma frustração sobre seus ombros quando seu carro estacionou na frente da casinha. Os olhares de vizinhos diminuíram, mas não com alívio. Não era turista, era moradora. Uma pena. E que estranha proprietária, não? Sem suéter ou gorro de lã escandaloso, nem mesmo vestia vermelho ou verde. Ela fingiu não perceber uma mulher encarando-a enquanto passeava com o cachorro com tiarinha de chifres de rena e entrou logo na casa, mais parecida com um chalé.
No entanto, ela ainda não estava salva ali dentro.
O ambiente da sala tinha um tamanho médio, já com alguns ganchos para pendurar casacos e foi o que ela fez. A casa era mobiliada e, por estar fechada há quase dez meses sem hóspedes, tinha uma certa camada de pó, algumas teias abandonadas e aquele cheiro distinto de ornamentos de Natal de plástico — sem nenhuma decoração à vista, fosse bola, laçarote, anjo ou pinheiro magro de folhas artificiais. A conclusão quase a fez querer adotar o suposto elfo: além de limpar, teria que decorar o local. Ótimo.
E para piorar, o arrepio em seus ombros não era puro terror psicológico; o frio ainda conseguia se esgueirar para dentro do chalé. Talvez não houvesse isolamento perfeito. O painel do sistema de aquecimento interno parecia não funcionar direito. Restava-lhe uma lareira central, ainda com fuligens da última vez que foi acesa.
Talvez Felícia realmente estivesse na lista das crianças malcriadas. Não bastava ganhar carvão, ela ainda teria que comprá-lo na cidade.
Depois de checar que o fogão e a geladeira estavam funcionando e que as torneiras estavam em boas condições, Felícia deu uma última olhada nos banheiros e no quarto principal. Decente. Tinha uma lareira também. Tomadas funcionando. Ela sentiria-se mais à vontade comprando lençóis, fronhas, toalhas e cobertores novos.
Juntando o máximo de dignidade possível, vestiu o seu casaco e saiu à pé em Hollow Oak. Nada era muito longe, muito menos o mercado. E assim, ela pôde aproveitar um pouco mais da promessa de cidade pacata e amorosa do interior. Por exemplo, Felícia nunca se sentiu da mesma forma em Chicago, onde era possível comprar comida e itens de higiene sem ouvir perguntas sobre ter filhos ou não, um marido ou não; se estaria preparada para o Ano Novo e para o Natal seguinte.
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