Faltavam três dias para o Natal e, não por apreço natalino, Felícia tirou fotografias da praça, da casa e das suas tentativas de decorar a fachada, apenas para comprovar que tinha estado no local e passado por tortura suficiente para manter evitar a taxa da quebra contratual. Naquela mesma manhã, enquanto testava piscas-piscas velhos que estavam encaixotados nos armários da cozinha, ela conversou pelo celular com a funcionária da prefeitura:

— Desculpe, senhorita Hardy, mas o regulamento H.O.H.O.H.O. exige presença física nos três dias. É para garantir o “espírito comunitário”. Vamos coletar relatos e imagens depois, para alimentar o site da prefeitura e comprovar o comparecimento de todos os participantes do mapa turístico. Por ser seu primeiro ano, você está isenta dos eventos comunitários, como o coral.

Ela não sabia o que era pior: ouvir a pobre funcionária realmente dizer “H.O.H.O.H.O.”; que se ficasse com a propriedade, teria que participar de eventos; ou entender que a equipe responsável pelas edições de fotos tinha muito mais investimentos. Ela até acharia apenas amargura à la Grinch sua se a cidade fosse mais bonita quanto nas fotos promocionais.

— E se eu disser que meu espírito está muito comunitário aqui, mas meu corpo precisa estar em Chicago logo? Digo, não sou uma pessoa muito fotogênica. — Ela se apressou em mentir. — Se eu não aparecer nas fotografias oficiais e vocês me aplicarem a taxa, vou ter que acionar minha equipe jurídica.

Ela ouviu um breve suspiro do outro lado da linha.

— Algum outro residente ou dono de estabelecimento do mapa turístico pode atestar que você realmente viveu o Natal de Hollow Oak?

— Bom, a caixa do mercado “Trenó Cheio” quase perguntou a cor da minha calcinha.

O novo silêncio era ambíguo; Felícia não soube dizer se era uma tentativa de evitar uma risada ou o entendimento de que aquela mulher do mercado fazia isso com todo mundo.

— Senhorita Hardy, acredito que isso não servirá para a cláusula do contrato.

Portanto, depois de uma breve faxina e a tentativa mais esdrúxula possível de pendurar piscas-piscas na fachada da casa, com direito a fotos — já que mesmo sua altura de um metro e setenta e quatro, somada à uma cadeira, não permitia decorar de um jeito mais elaborado e ainda lhe trazia riscos de acidente — Felícia se preparou para conversar um pouco mais com os moradores de Hollow Oak. Quem sabe, ela conseguisse mais ornamentos para a casa e pudesse ter algum camarada para atestar que realmente tinha estado ali. Se a neve fosse mais forte e não apenas aqueles flocos tímidos, ela não hesitaria em montar um boneco de neve feio e tirar uma selfie com ele para mandar para a prefeitura de Hollow Oak.

Quer cidadão mais natalino que este?

O passeio pela praça, no entanto, lhe trouxe surpresas… Curiosas. Primeiro, era que ao menos os estabelecimentos perto do carvalho central realmente eram mais bonitinhos, com luzes amareladas ou coloridas e uma decoração que não parecia um teatro de peça natalina fora de época. E, sentando em um banco sem nada para fazer, Felícia observou alguns adolescentes vadiando por ali também. Poucos turistas, mas todos os adultos à serviço do Natal. Pensou sobre as vitrines da infância, com casas de biscoitos de gengibre; pensou sobre seu pai e pensou também na sua gata no apartamento. Seus pensamentos foram cortados por gritaria.

Um velho ralhava com os moleques, que saíram correndo.

Na lateral de uma das lojas, ainda escorria a tinta da frase escrita com spray vermelho:

Feliz

HO.HO.HO

Honestly Oppressive Holiday Obligations

Ao menos eles tinham algum senso de humor.

Felícia se levantou e rumou para uma loja de enfeites especializada em globos de neve, mas que prometia vender outros adereços e piscas-piscas, segundo o mapa turístico. “Nariz de Rudolph”, com a logo do nariz vermelho da tal rena de Noel. A loja era pequena, com uma vitrine modesta e cheia de globos de neve cintilantes com cenas natalinas clichês: renas voando, trenós, casinhas cobertas de neve. Nenhum dos globos retratava a cidade com seu grande carvalho sem folhas ao meio da praça.

O sino da porta tilintou, trazendo Felícia para dentro de um ambiente aquecido, lotado de bugigangas natalinas e cheirando à cera e desinfetante. Tocava, talvez pela décima vez naquele dia, Mariah Carey. Será que os funcionários já odiavam ou se tornava um barulho ambiente igual o som de um aquecedor velho? Com seu casaco elegante e sua pasta com as exigências mínimas da prefeitura para decoração, ela esperava conversar um pouco mais com alguém ali.

Se a pessoa quisesse tirar uma selfie, já seria ótimo também, para a funcionária da prefeitura. Só seria meio estranho. Mas o que mais não seria estranho naquela semana? Ela já tinha tido natais piores, sendo honesta.

O atendente por trás do balcão levou um segundo a mais para atendê-la. Não o jeito frustrado ou forçado que Felícia tinha testemunhado antes de outros residentes de Hollow Oak; muito menos com o jeitão incisivo do “Trenó Cheio”. De um jeito… genuinamente cansado. Era um homem alto, com as mangas da camisa xadrez vermelha e preta arregaçadas até os cotovelos devido ao líquido espesso e prateado que derramou sobre o balcão. Parecia mercúrio, mas era nada mais do que o fluido de algum globo de neve quebrado. Ele desviou o olhar da pequena bagunça que tentava limpar, e o sorriso profissional pronto para turistas não se formou por inteiro.

— Bem-vinda. Posso te ajudar com algum item específico ou só está passeando em Hollow Oak?

— A prefeitura me obrigou a decorar com alguns itens especiais, na verdade.

— Ah, você é a proprietária nova.

— E você é…o Rudolph?

Os olhos castanhos do homem reluziram como a brasa na lareira do chalé. Morno, se divertindo meio a contragosto.

No, gracias a Dios. Miguel.

— Felícia. — Ela sorriu e encarou o fluido derramado no balcão; água destilada, glicerina e microplásticos para imitar a neve. — Parece que o espírito natalino... vazou.

— Sempre vaza.

Ele pegou um pano e limpou as mãos, deixando uma mancha prateada na flanela. Em seguida, estendeu a mão direita para pegar a pasta de Felícia. Depois de ler as exigências mínimas que ela tinha riscado com uma caneta vermelha porquê faltavam, Miguel soltou um suspiro.

— Ainda tenho alguns piscas-piscas na metragem certa nos fundos, mas a placa nova pra indicar que a casa faz parte do mapa turístico tinha que ter sido encomendada em Novembro.

Talvez Miguel tenha notado que Felícia cogitava se enforcar com os piscas-piscas se não tivesse tudo para atender as exigências da prefeitura e não levar a taxa, tanto que logo emendou:

— Dá para eu fazer uma versão menos detalhada para você, daí te entrego amanhã. Inclusive, há previsão de neve em breve. Você tem equipamento para pendurar tudo ou…?

— Eu tenho uma cadeira e um bom seguro de vida, caso caia ou a neve do telhado decida me soterrar.

De repente, um estrondo seguido de uma voz gritando pelo nome de Miguel. Não era um pedido de ajuda, porém. Era uma gritaria pior que o jeito que Felícia brigou com a gata quando ela decidira arruinar eletrônicos e a cortina do apartamento numa única tarde. E dos fundos, uma mulher de casa dos seus cinquenta anos, de cabelos escuros e cacheados, apareceu com as mãos sujas do fluido de globo de neve.

Mi hijo! O estoque dos fluidos especiais da edição comemorativa, o lote todo! O lacre da caixa estava frouxo, tudo vazou!

A raiva não era só pelo desperdício. Era porque aquele lote, caríssimo e importado, era seu trunfo para o leilão das vagas premium. Sem ele, os globos "exclusivos" do ano não existiriam. O prejuízo era financeiro e estratégico. Houve um breve instante de hesitação no olhar da mulher ao ver Felícia; no entanto, ela deve ter reconhecido-a não como uma turista, mas sim a proprietária nova que não tinha enfeitado a casa. Ela não tentou mais tomar as rédeas da impaciência e seguiu a conversa com o filho, como se Felícia sequer estivesse ali.

— Quantas vezes eu já disse para mexer com cuidado? Quantas, pendejo?

— Acho que errou o nome dos filhos de novo. É o Gabriel que mexe no estoque. Eu fico com o que ele separa aqui no balcão para fazer os reparos. E agora, — O tom dele era de uma calma evidentemente controlada. — Estou atendendo uma cliente.

Mas a mãe dele não parou.

— E você está vendo ele aqui? Você tem que ser responsável quando ele não está.

Felícia notou a mandíbula dele travando a contestação malcriada.

— Se eu tiver que ser responsável por tudo, então acho melhor tirar Gabriel da folha de pagamento, já que ele nunca está aqui mesmo. Depois eu resolvo isso.

Ela saiu e levou um tempo quase interminável para o clima se arrefecer dentro da pequena loja. Se fosse apenas pela nítida raiva dele, ainda que justa e domada, o restante dos globos de neve explodiriam borbulhando de ódio. Mas ele só inspirou fundo e levantou um olhar cansado para Felícia. Não pedia desculpas. Só exibia a honestidade de um clima terrível. E aquilo, ao contrário da conversa absurda ou a tentativa de lhe empurrarem inutilidades natalinas no mercado, provocou um sentimento genuíno em Felícia.

— Bom… Se você me ajudar a colocar esses piscas-piscas na fachada amanhã, quando me trouxer a placa, eu te pago uma gorjeta generosa.

— Nem precisava da gorjeta. Sair daqui só por cinco minutos já me vale o dia.

— Não precisa ser só cinco minutos também.

Ele quase sorriu de novo, quase.

— Amanhã, depois do almoço.

— Combinado.

Felícia e Miguel apertaram as mãos. Era melhor do que tirar uma selfie com um boneco de neve, mas Felícia não tinha como falar para a funcionária da prefeitura que estava tão envolvida com a comunidade local que presenciara uma briga familiar.