Visceral
18 Última Luz do Vazio
O vento cortante voltou a soprar, fazendo o rosto dos dois arderem pelo frio e a neve voar em pequenas partículas em volta deles. O silêncio era palpável. Rina mantinha a faca firme presa na mão, se recusando a demonstrar o cansaço que sentia.
O youkai diante deles inclinou levemente a cabeça e piscou os olhos com interesse. Os ombros eram largos e, apesar de não ser muito alto, parecia portar uma constituição robusta por debaixo do manto.
— Estão perdidos?
— O que está fazendo com a gente? — Hiei perguntou entre os dentes, os dedos ainda tensos segurando a empunhadura da espada. Estava pronto para puxar a katana no primeiro movimento suspeito.
— Eu? — O youkai pareceu genuinamente surpreso — De modo algum. Mas compreendo a desconfiança. Permitam-me explicar.
Eles aguardaram, os olhos grudados no demônio.
— A exaustão que devem estar sentindo é resultado da influência desta elevação. Esta região possui características extenuantes, se alimenta da claridade mental e do ânimo dos seres vivos. Quanto mais elevada a altitude, maior o efeito. E vocês, meus caros, estão praticamente no topo.
Rina e Hiei trocaram olhares rápidos. Um leve zunido começava a preencher os ouvidos de Rina, como se estivesse prestes a desmaiar.
— Você não parece afetado — Rina observou, sentindo os lábios ressecados.
— É o tipo de resistência que se cria depois de um milênio habitando a montanha.
— E quem diabos é você? — Hiei perguntou, ainda sem conseguir relaxar o aperto na empunhadura da katana. Uma veia pulsava em sua têmpora. A desorientação parecia aumentar a cada segundo, e ele precisava fazer um esforço cada vez maior para não ceder totalmente.
— Atendo pelo nome de Kangetsu. Sou guardião de um santuário que oferece refúgio aos peregrinos contra os efeitos desta montanha. Não está longe daqui, posso levá-los até lá, se desejarem.
Os dois permaneceram imóveis, o cansaço dificultando até mesmo o processo de pensar com clareza. A desconfiança, porém, ainda mantinha seus sentidos alertas, focados na figura serena à sua frente.
— Por que deveríamos confiar em você? — Hiei perguntou.
O semblante de Kangetsu não se alterou. Permanecia calmo como a superfície de um lago congelado, sua expressão nem amigável nem hostil. Era como se aquela conversa fosse apenas uma formalidade para ele.
— Não há necessidade, se não quiserem. Apresentei somente uma opção, estão livres para recusá-la — Seu olhar vagou pela paisagem desolada — Em mil anos neste lugar, testemunhei andarilhos perecendo de frio e inanição ou perdendo a sanidade devido às forças místicas que operam aqui.
E ele fez um gesto amplo, indicando as planícies nevadas ao redor deles.
— Por isso disponibilizo meu templo. Mas podem prosseguir conforme julgarem mais adequado. Não é minha intenção intervir em sua jornada.
Kangetsu os examinou por mais alguns segundos, mas não recebeu resposta. Então fez uma reverência curta e respeitosa com a cabeça e se virou para deixar os dois a sós.
Hiei e Rina se entreolharam novamente, dessa vez com um toque de apreensão. A mente de Rina estava ficando nebulosa, e ela podia ver pela expressão de Hiei que ele também lutava para manter a lucidez. A cada momento que passava, a montanha parecia sugar mais de sua energia mental, como um parasita invisível.
— Está bem — Rina falou finalmente, sem aguentar mais — Nos leve até lá.
Kangetsu interrompeu os passos. Se virou parcialmente.
— Claro. Podem me acompanhar — falou. Seu tom era neutro, quase desinteressado.
E voltou a caminhar.
— Se isso for alguma armadilha… — Hiei ameaçou, deixando a frase inacabada e incapaz de largar o cabo da espada.
Mas Kangetsu continuou seguindo em frente com a mesma paciência impertubável, como se tivesse todo o tempo do mundo.
(…)
O templo realmente ficava a uma curta caminhada dali. Uma placa de madeira desgastada pelo tempo trazia seu nome em uma caligrafia rebuscada, ao lado de um pórtico antigo. "Templo Seikon: Última Luz do Vazio", dizia a inscrição, quase apagada pelo tempo.
Atravessaram o portão e cruzaram um pequeno átrio, onde a neve se acumulava em montes perfeitos. O prédio principal era todo feito em tons escuros, um contraste com a brancura do ambiente. Ele se erguia em madeira e pedra, com detalhes em cobre esverdeado pelo tempo. Papéis amarelados com símbolos diversos tremulavam nas paredes externas, e, por dentro, mais talismãs e amuletos de cobre. Hiei reconheceu alguns selos de proteção, mas muitos daqueles símbolos eram completamente desconhecidos para ele.
À medida que entravam no templo, uma sensação de alívio começou a se espalhar pela mente dos dois. O peso invisível que comprimia seus pensamentos parecia diminuir a cada passo.
O lugar estava vazio a não ser pelos três. Depois de passarem pelo salão principal com seu altar modesto, Kangetsu os conduziu até um aposento nos fundos — um quarto simples com alguns futons dispostos sobre o chão de madeira polida.
— Podem permanecer aqui até se restabelecerem — ele informou com a voz baixa.
Hiei correu os olhos pelo espaço. Era simples e rústico, com uma única janela e um amuleto de madeira pendurado sobre a porta.
— O que ganha em nos ajudar? — ele perguntou, ainda defensivo.
O guardião pareceu pensar um pouco, como se não estivesse acostumado com aquela pergunta.
— Companhia — Kangetsu enfim respondeu, com uma simplicidade desconcertante — Faz dois séculos que não encontro viajantes nas montanhas. E até uma alma solitária como a minha, habituada com o isolamento, se beneficia de companhia às vezes.
O youkai fez uma nova reverência e os deixou a sós. Rina seguiu sua figura com o olhar até ele desaparecer pelo corredor, então se voltou para Hiei com uma sobrancelha erguida. Entrou no quarto e inspecionou os futons com cuidado, mas não achou nada fora do normal.
A franqueza de Kangetsu era tão direta que beirava o suspeito, mas ela não podia negar: desde que cruzaram a entrada do templo, a fatiga mental que pesava em seus pensamentos começara a se dissipar.
Hiei entrou logo em seguida e fechou a porta de correr, mas foi direto para a janela. A paisagem era a mesma de sempre: um tapete macio de neve reluzente que se estendia até os muros baixos do templo e, depois, por todo o horizonte.
— Acha que podemos confiar nele? — ela perguntou, massageando as têmporas. A dor de cabeça finalmente dando sinais de que iria ceder.
— Ainda não sei — Hiei murmurou, os olhos semicerrados observando o vazio branco lá fora — Este lugar parece calmo demais.
A noite caiu rapidamente. Rina acendeu a lamparina deixada sobre uma mesinha de madeira escura e se sentou em um dos futons, com as pernas cruzadas e as mãos envolvendo o próprio corpo. O chão era frio, mas não tanto quanto ela esperava. O corpo parecia se descongelar aos poucos.
— Talvez a gente precise de um pouco de calma.
Hiei não respondeu. O ar da noite que entrava pelas frestas era ainda mais gelado do que do dia, e ele finalmente abandonou seu posto na janela. Se acomodou em outro futon, deixando a espada encostada a seu lado. Apesar da construção rústica, podia sentir um certo calor emanando das paredes, como se o templo fosse um organismo vivo. A mente começava a relaxar.
Ele abriu um pouco a capa e deixou ela escorregar para o lado. Foi quando Rina notou algo estranho no braço esquerdo de Hiei. Estava chamuscado, algumas partes da pele enegrecidas como se ele o tivesse mergulhado diretamente nas chamas.
Ela arregalou os olhos.
— O que andou fazendo? — disparou — Está tentando perder o outro braço também?
Hiei não respondeu de imediato. Apenas fitou a própria palma, igualmente queimada, por um momento, como se ainda esperasse ver algo diferente ali. As sobrancelhas se franziram de leve.
— Não é nada — respondeu, evitando relevar a verdade: que seus treinos noturnos com as Chamas Negras não estavam saindo como o esperado.
Até que um som suave de passos atravessou o corredor. Momentos depois, ouviram batidas delicadas na porta. Rina trocou um olhar rápido com Hiei, que assentiu quase imperceptivelmente, a mão já à postos, recolhendo a katana como precaução. Ela se levantou e deslizou a porta com cuidado.
Kangetsu estava ali, segurando uma bandeja com tigelas de sopa fumegante, um bule de chá e dois copos curtos de cerâmica.
— Pensei que poderiam ter fome — explicou.
Rina estudou seu rosto por um segundo antes de se afastar e permitir sua entrada. Kangetsu entrou e colocou a bandeja no centro do quarto, se movendo com graciosidade apesar da forma robusta.
— O que é esse lugar? — ela perguntou.
Ele se voltou para encará-la. De perto, seus olhos amarelos refletiam a luz da lamparina de um jeito sereno. As mãos, duas patas caninas com garras curtas e bem cuidadas, emergiam das mangas largas. Seu cabelo era volumoso, lembrando a juba de um leão — mas meticulosamente arrumado.
— Como expliquei, este templo é um santuário voltado a resguardar os viajantes desnorteados que se perdem pelas Montanhas do Vazio — Sua voz tinha o ritmo cadenciado de quem já havia contado a mesma história centenas de vezes — Aqui dentro, as propriedades nocivas da região são neutralizadas, em parte pelos selos de proteção — E ele gesticulou para o talismã sobre a porta — mas também pela turmalina negra e os fios de cobre que revestem as paredes por dentro. Muitos relatam se sentir bem só de passar pelo pórtico da entrada.
Fez uma pausa contemplativa e deu um suspiro. Colocou uma pata sobre o próprio peito num gesto solene.
—Eu sou um guardião, destinado a proteger esse lugar, e me dedico em guiar os andarilhos menos afortunados. Compreendo suas suspeitas, mas não tenho qualquer intenção de prejudicá-los. Permaneçam o quanto necessitarem. Há um lavatório do outro lado do corredor, igualmente à disposição. E também possuo algumas mudas de vestes limpas, caso desejem se trocar — Kangetsu indicou o armário embutido no canto do quarto.
Rina olhou para o guarda-roupas. Cruzou os braços. Tudo parecia bom demais para ser verdade.
— E como vamos conseguir atravessar o resto da montanha desse jeito? Ainda temos que chegar do outro lado e não podemos ficar aqui pra sempre — Rina falou.
Kangetsu juntou as patas, as escondendo debaixo do grosso manto branco que usava.
— Posso auxiliá-los quando for a hora de partirem, além de providenciar alguns mantimentos para a jornada. Mas para esta noite, sugiro que repousem. Tenho certeza que encontraram paz entre essas muradas. Ficarei feliz em responder mais perguntas pela manhã, caso as tenha. Agora com licença…
Como de costume, Kangetsu fez uma breve reverência antes de se retirar, deslizando a porta com cuidado atrás de si e deixando os dois sozinhos no silêncio.
O aroma quente da sopa e do chá já preenchia todo o quarto. Rina e Hiei trocaram olhares desconfiados, hesitaram por alguns segundos, antes de, por fim, cederem e se aproximarem da bandeja.
— Se quisesse nos matar, teria feito antes de nos trazer pra cá — Hiei disse, encerrando a questão.
(…)
Era o meio da madrugada. Não havia um ruído sequer, tudo calmo e silencioso.
Uma neve fina caía no pátio dos fundos do templo, se amontoando pelas cercas que marcavam o perímetro. E, no chão macio, algumas pegadas surgiram no escuro. Eram leves, deixando marcas sutis na neve fofa. Poucas, a princípio, mas alternando entre movimento e momentos de pausa.
Não pertenciam a ninguém. Surgiam espontaneamente, como se alguma entidade invisível as tivesse criando em tempo real, passeando em uma coreografia sem direção.
Três minutos se passaram. Depois cinco, dez.
E tossindo com força, o corpo de Rina apareceu sobre as pegadas, surgindo como se sempre estivesse ali. Ela caiu de joelhos, as mãos agora afundando na neve também. A tosse aumentou, resultando em um borrão vermelho tingindo o piso branco. Ela limpou a boca, sentindo o gosto na garganta. "Merda," murmurou, vendo o sangue na neve.
— Está fazendo um bom trabalho se o objetivo é se matar.
Rina levantou o rosto, procurando pela voz. Hiei estava não muito longe, vindo de dentro do templo até o começo do pátio. Usava um dos casacos de pele que tinham encontrado no armário.
— Você não devia estar aqui — ela falou.
— Nem você.
Ela limpou as mãos uma na outra e se levantou, tirando também a neve grudada nos joelhos.
— Eu não vou desistir da melhor vantagem que eu tenho aqui só porque Mukuro decidiu me usar como rato de laboratório. Não sei quando vou precisar de novo.
— Essa não é nem de longe sua melhor vantagem.
— Veio me provocar de novo? — perguntou, lançando um olhar irritado para ele.
— O que você precisa é aprender a lutar.
— Eu já sei lutar.
— Não de verdade — Hiei retrucou, a voz neutra como se estivesse meramente constatando um fato.
— E quem vai me ensinar? Você? — ela rebateu, impaciente.
Ele ficou em silêncio por um tempo. Rina prendeu o cabelo em um coque e respirou fundo. Fechou os olhos. Como num passe de mágicas, desapareceu.
Hiei estreitou os olhos, tentando a sentir. O youki dela estava presente — ainda que de maneira quase imperceptível — canalizado como uma fina camada que envolvia cada pedaço do corpo. Se ele fizesse muito esforço, podia ver seu movimento turvando ligeiramente o ar ao redor.
Bastaram apenas alguns minutos para ela soltar um ganido e reaparecer novamente, o rosto tão pálido quanto a lua. Precisou se apoiar em uma lanterna de pedra para não cair completamente.
Ofegante, se sentou no degrau da varanda e apoiou a cabeça em uma coluna de sustentação. Olhou de relance para Hiei, mas ele permaneceu em silêncio. E foi até ela.
— Como aprendeu a fazer isso vivendo no Ningenkai? — perguntou.
— Não sei. Só aprendi. Sozinha. Nunca achei explicação pra maioria das coisas que eu fazia, elas simplesmente aconteciam.
Ela abriu as mãos na sua frente, as virou de um lado para o outro. Lembrou da explicação técnica do cientista de Mukuro.
— Eu nunca tinha visto antes — ele disse.
— Vai finalmente admitir que isso tem utilidade?
Hiei deu um riso breve, quase inaudível, e sentou do lado dela.
— Ainda prefiro minha espada.
Ela riu, fechando os olhos mais uma vez e voltando a recostar na pilastra. O corpo começava a desaquecer, as dores evaporando junto com o calor. Logo estaria congelando novamente.
— Como foi crescer no Makai? — Rina perguntou sem abrir os olhos.
Ele esperou um tempo. Apenas a respiração dos dois preencheu o espaço.
— Não sou a melhor pessoa pra responder isso — respondeu.
Rina não insistiu. Corpo e mente estavas cansados e ela inspirava fundo, deixando o ar gelado resfriar seus pulmões, e sentia a neve, rala como pó, cair displicente sobre as pernas esticadas.
Sentaram em um silêncio compartilhado por vários minutos, mas nem os sentiram passar. Kangetsu estava certo. Aquele lugar realmente era feito de paz. Toda aquela tranquilidade era reconfortante. Quase podia sentir o templo a abraçando.
— Também já fui considerado uma maldição — Hiei falou em voz baixa, quase como se não quisesse ser ouvido. Mas tão de repente que fez Rina tomar um susto.
Ela abriu os olhos. Hiei olhava para frente, mas sem se fixar em ponto algum. Tinha os joelhos dobrados e os braços apoiados em cima.
— Como assim?
— Nasci de algo proibido. Por isso, decidiram que eu tinha que morrer.
Ele parou de falar por um instante. Rina se manteve calada, curiosa, mas sem nem se mexer. Temia que o menor distúrbio poderia arruinar aquele momento e fazer ele desistir de continuar.
— Tentaram. Mas sobrevivi. E também jurei matar as responsáveis.
Uma pausa. Breve, em que Rina ficou no mais absoluto silêncio, um pouco perplexa com que ele tinha acabado de compartilhar.
— Conseguiu? — perguntou baixinho.
— Não precisei.
Rina aquiesceu, querendo perguntar mais, descobrir mais detalhes, mas também sabendo que aquilo era tudo que conseguiria — o que já era bastante, levando em consideração todas as respostas cortantes que havia recebido no passado. Contemplou então, imóvel, o que tinha acabado de ouvir. Hiei parecia agora sob uma nova luz. Ainda um demônio, mas muito mais… humano.
Pela primeira vez, ele falava de si mesmo, contava sobre seu passado. Toda a calmaria do santuário parecia estar tendo algum efeito nele. Abaixando sua guarda, talvez — ainda que milimetricamente.
Tinha sido conciso, claro. Uma existência resumida em meia dúzia de frases. Nenhuma emoção aparente a não ser uma centelha de raiva contida. Mas não esperava que fosse de outra forma.
E ainda assim, ao mesmo tempo, tinha sido estranhamente suficiente.
— Você tinha razão — ela se pronunciou.
Hiei a olhou de soslaio, inquisitivo.
— Não contei toda a verdade pra Shigure. Falei que não conheci meus pais, por exemplo, mas não é verdade. Eu tive uma família. E, na realidade, eles até que gostavam bastante de mim. Mesmo eu sendo… diferente.
Ela riu, sem jeito.
— Uma história simples, né? Mas acho que isso não convenceria ninguém.
— Do que deveria me convencer? — Hiei perguntou.
Rina inspirou fundo.
Olhou de novo para as próprias mãos. Estavam frias, assim como o resto do seu corpo. O casaco de lã que tinha trazido do quarto estava jogado no chão da varanda atrás dela, e ela o pegou. O enrolou no corpo e se escondeu dentro dele.
— Eles morreram quando eu tinha nove anos. Acabei indo mesmo pra adoção, essa parte é verdade.
Não conseguiu continuar. Ficou calada, batalhando a sensação inevitável de estar sendo uma completa tola com tudo aquilo. Como se tivesse nove anos novamente. Mas lembrar doía, e aquilo era mais forte do que ela.
— Sua mãe era enfermeira — Hiei falou — Foi o que disse quando tratou do machucado no meu ombro.
Rina subitamente sentiu seu estômago afundar. Ficou alarmada de surpresa. Não imaginava que ele tivesse prestado atenção naquele detalhe. Ou que ainda lembrasse.
— Foi por isso que percebeu a mentira?
— Não só.
Ela aguardou, o mirando com curiosidade agora.
— Você revida quando somos atacados. Fica puta se eu salvo a sua vida. Mesmo podendo, sua primeira reação nunca é se esconder. Não é assim que alguém que cresceu com medo dos outros reage — Hiei fez uma pausa — Acho que você nunca foi a vítima que disse que foi. O que quer que esteja escondendo, não chega nem perto da história pra boi dormir que contou pra Shigure.
— Então acha que eu não sofri por ser diferente?
— Talvez. Mas não da maneira que contou. Seus instintos não são de alguém que passou parte da vida fugindo assustada. São os instintos de quem caça.
Rina desviou o olhar, sentindo-se inesperadamente exposta. Não estava acostumada a ser lida com tanta precisão.
— Eu precisei aprender a revidar. Eu disse isso.
— Aprendeu? Ou sempre soube?
Nenhuma resposta. Rina apenas olhava pensativa para a neve acumulada, sentindo o vento frio no rosto, mas incapaz de se mover.
O assunto morreu. E, por vários minutos, ninguém falou mais nada. Era quase como se o tempo naquela montanha também pudesse ser congelado. Até que ele se levantou.
— Vamos dormir — falou.
Começou a se dirigir para o interior do templo. Mas parou e se virou. Rina entendeu a deixa. Se levantou também e o acompanhou até o quarto.
(…)
Os dois acordaram com o cheiro quente de um mingau de arroz. Kangetsu serviu uma tigela para cada, acompanhado de uma porção de vegetais fermentados. Era uma comida simples, que para Rina e Hiei, parecia um banquete. Estavam ficando mal-acostumados com aquela hospitalidade.
— E se simplesmente ficássemos aqui? — Rina perguntou, em um devaneio durante o café da manhã. Não se lembrava da última vez que havia se sentido tão bem assim.
A única coisa que ainda a incomodava eram algumas dores nas costelas, remanescentes do treino fracassado da noite passada. Talvez tivesse realmente se forçado demais. Mas até elas estavam melhorando.
— Não invente — ele cortou.
Concordaram então em permanecer apenas mais aquela manhã, e partir no começo da tarde, quando o sol ainda estava alto. Apesar de estarem em uma região isolada, ainda preferiam não passar muito tempo em um mesmo local se não fosse necessário.
O braço esquerdo de Hiei ainda exibia as marcas da queimadura que ela notara no dia anterior, embora estivessem visivelmente mais amenas agora — cortesia das propriedade terapêuticas daquele templo. Uma mancha irregular cobria parte do antebraço, a cor já não tão escura, como se a pele estivesse enfim se recuperando. Apenas alguns trechos ainda apresentavam descamação.
Rina não foi a única a perceber. Kangetsu lançou um olhar discreto para a nódoa, mas seguiu com seus afazeres sem demonstrar qualquer reação. No entanto, ao recolher os recipientes vazios e servir mais chá, decidiu tocar no assunto.
— Vejo que é adepto das Chamas Negras — comentou, despejando o líquido quente nas taças de cerâmica com a mesma delicadeza de sempre. — É arriscado tentar dominá-las quando se está sem um dos membros.
— Eu já domino a técnica — Hiei respondeu, a voz oscilando entre impaciência e constrangimento.
E ainda conseguia invocá-las sem dificuldade. E até as mantinha sob controle como antes — seu problema estava na manipulação de formas mais elaboradas, onde Hiei se mostrava ser mais inábil do que esperava quando usando seu lado não dominante.
A técnica era tão complexa e refinada que até o menor dos deslizes podia ser suficiente para provocar consequências desagradáveis — e como resultado de algumas tentativas, a pele tinha eventualmente sofrido queimaduras e ficado sensível, como se lhe faltasse coordenação. Ou como se estivesse fazendo algo errado.
E isso, Hiei admitia para si mesmo, era um tanto frustrante para alguém tão experiente como ele. Mais do que isso, inadmissível.
— Entendo — Kangetsu respondeu, com sua discrição habitual.
Kangetsu tomou um gole do próprio chá antes de falar novamente, com a mesma serenidade de antes.
— Certa vez conheci um xamã que igualmente dominava a técnica. Tinha um controle estupendo sobre as chamas — Ele fez uma pausa — Especulava-se que, com os ritos certos, os mestres dessa técnica conseguiriam moldar o fogo a ponto de usar como parte do corpo.
Hiei ergueu os olhos.
— Parte do corpo?
— Algo como uma manifestação física maleável. Uma prótese energética e elemental, por assim dizer. Esse xamã é possivelmente um dos únicos em todo Makai com esse tipo de conhecimento.
Hiei não respondeu de imediato. O silêncio entre os três se tornou denso por um instante.
Rina olhou de soslaio para ele, tentando adivinhar sua reação. Mas o rosto de Hiei permanecia inexpressivo, duro como uma pedra. Só os dedos da mão esquerda se contraíram levemente.
— Está falando bobagens — murmurou, em um resmungo seco.
— Apenas pensei que gostaria de saber — disse Kangetsu.
Depois disso, ele se levantou, recolheu as últimas louças e se afastou sem dizer mais nada.
Hiei desviou o rosto. E se manteve pensativo por um bom tempo antes de decidir se levantar, procurar a katana e ir até o pátio dos fundos, onde treinou sozinho pelo resto da manhã.
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