Visceral
19 Catarse
Rina observava de longe Hiei praticando seus golpes com a espada no pátio do templo. Ele era ágil, tão ágil que ela mal conseguia acompanhar. Quando conseguia, notava que ele ainda parecia ligeiramente sem seu equilíbrio natural, mas era como se, a cada movimento, Hiei se corrigisse um pouco.
Quando ele parou, depois de uma sequência exaustiva, inconscientemente tentou se apoiar usando o braço que faltava. Isso o desestabilizou por um instante e ele deu um passo em falso, tropeçando em si mesmo e tombando no chão. Ele ainda sentia o membro ausente, Rina percebeu.
Hiei se levantou com rapidez e se virou para trás. Rina continuava o observando, e ela precisou se segurar para não perguntar se estava tudo bem — sabia exatamente a resposta que receberia apenas pela maneira como os olhos dele se acirraram. Só acenou para ele, que pegou a katana de volta e retomou o exercício com mais afinco do que antes.
Rina voltou para dentro do templo. Encontrou Kangetsu organizando calmamente alguns dos talismãs de cobre pendurados pelas paredes, a energia emanando deles em ondas suaves.
— Aquilo que disse sobre usar as chamas como parte do corpo… acredita mesmo que é possível?
Kangetsu não interrompeu a arrumação. Prosseguiu com a tranquilidade de sempre, meramente olhando de lado para Rina.
— Conheci o xamã pessoalmente e pude testemunhar sua técnica. Nunca havia vislumbrado nada semelhante antes. São raros os demônios que possuem fortitude para dominar as Chamas Negras, e mais raros ainda os que conseguem manipulá-las daquele modo avançado.
Ela apenas assentiu. Sabia que Hiei tinha uma natureza elemental — já o tinha visto invocar labaredas como se não fosse nada — mas se deu conta que conhecia muito pouco das suas outras habilidades que não envolviam a espada.
— Seu companheiro seria um excelente aprendiz — Kangetsu comentou.
— É, talvez… — Rina disse, mais para si mesma. Do jeito teimoso como era, Hiei talvez preferisse tentar desenvolver a habilidade sozinho do que bater na porta de um xamã e pedir ajuda, mesmo que isso comprometesse sua integridade física.
— Ele habita nas profundezas de um cânion, depois das pradarias do norte. Sua morada fica nas cercanias de uma queda d'água escondida pelas rochas. Se vossa jornada incluir a região, talvez queiram fazer uma visita.
Rina balançou a cabeça, pensativa. Guardou a informação na cabeça.
Agradeceu ao youkai e voltou para o pátio, onde acompanhou, de longe, o resto do treino de Hiei.
(…)
Rina e Hiei partiram do templo ao meio-dia, após mais uma refeição reforçada. Antes de irem, Kangetsu os presenteara com alguns suprimentos para viagem, além de roupas novas, mantas de lã e dois amuletos presos em um cordão, instruindo-os a manter junto ao corpo durante a travessia da montanha. Os orientou sobre o caminho e ofereceu as melhores sugestões de trilha para alcançarem a base.
Os amuletos eram feitos de turmalina negra e envoltos por diversos fios finos de cobre — o mesmo material do santuário. Segundo Kangetsu, o talismã os ajudaria a fortalecer a mente contra os efeitos da região, protegendo-os durante a descida. E talvez desse aos dois um pouco do conforto do templo.
Rina então ajustou a nova bolsa sobre o ombro e atravessou o pórtico de entrada. Hiei a seguiu. Kangetsu apenas os acompanhou com o olhar.
Nenhum dos dois olhou para trás — não por desinteresse, mas talvez por temer que a visão daquele abrigo temporário tornasse o que tinham pela frente ainda mais árduo. Ao menos o silêncio entre eles parecia mais leve e confortável agora, como se o breve descanso tivesse amenizado algo além da fadiga física.
A neve cobria boa parte do caminho, e seus olhos arderam com a claridade que aquele cenário branco acentuava. Não demorou para notarem a falta que a proteção do templo fazia — mesmo que estivessem agarrados aos cordões, a diferença era tudo, menos sutil.
Ali fora, o ar já era outro. Mais seco, mais cortante. Rina apertou o talismã que trazia colado ao peito, o olhar sempre em movimento. Mesmo com a turmalina negra bloqueando a influência negativa da montanha, uma coisa estava clara: o mundo tinha voltado a ser hostil.
(…)
Gastaram todas as horas de sol com a descida pelo outro lado da montanha. O gelo dificultava o trajeto, afundando suas botas a cada passo, desafiando o senso de equilíbrio dos dois, deixando o terreno escorregadio e perigoso. Ao menos agora eles usavam calças grossas e resistentes, além de blusas de linho — vestes mais adequadas para o clima glacial, que impediam o frio de congelar seus ossos. A travessia não era agradável, mas tornou-se um pouco mais suportável.
Quando o sol caiu, a temperatura caiu junto com ele. Teimaram em prosseguir mesmo no breu — o talismã era eficaz só até certo ponto, e, no fundo, os dois sabiam que não seria prudente parar antes de deixarem aquela área nevada.
Não se falaram muito. A noite exigia a total atenção dos dois, e a verdade era que se sentiam miseráveis. A noite, a montanha, a neve; nada parecia ter fim. E o ambiente parecia zombar da fragilidade de ambos.
A respiração de Rina formava pequenas nuvens de fumaça diante do seu rosto. Seus dedos estavam congelados, mesmo dentro das luvas, e ela se fixava na silhueta escura de Hiei à sua frente, deixando seu ritmo constante ser seu guia.
Até que o caminho começou a se estreitar em certo ponto. O terreno ficou irregular e quebradiço, fragmentos pontiagudos de pedra surgindo debaixo do tapete branco da neve, que agora começava a rarear. Mas mesmo assim, a geada continuava se agarrando à encosta como uma segunda pele, tornando a caminhada perigosa.
Hiei diminuiu o passo quando o chão finalmente se nivelou e a terra escura passou a se destacar mais do que o gelo — agora, apenas uma camada fina resistia em pontos esparsos. Eles haviam alcançado um trecho plano, aninhado entre paredes rochosas e protegido o suficiente do vento. Não era perfeito, mas serviria para passar o pouco de noite que ainda sobrava.
— Eu consigo continuar — Rina falou mesmo assim.
— Eu sei que consegue — Hiei respondeu, distraído — Você não é a mesma de quando veio para o Makai.
Os olhos de Rina piscaram com a declaração.
— Tem certeza? Ou será que é você que agora está prestando mais atenção?
Hiei manteve o que estava fazendo como se não tivesse ouvido a pergunta. Montaram a fogueira com os materiais secos que conseguiram encontrar — alguns poucos galhos e raízes quebradas, trazidas pelo vento.
Rina se cobriu com a manta que Kangetsu lhe dera e deixou o fogo aquecer seu rosto. Por um momento, ela fechou os olhos. Mais para descansá-los do que para dormir.
Hiei jogou mais alguns gravetos no fogo e sentou-se com as pernas cruzadas, próximo de Rina. Por muito tempo, nenhum deles disse uma palavra. Tinham caminhado por horas a fio, e o silêncio parecia necessário. Estavam cansados até para comer. Trocavam apenas olhares rápidos de tempos em tempos, geralmente pelo canto do olho, até que o sono enfim levasse a melhor.
(…)
Hiei acordou antes de Rina, que ainda dormia enrolada debaixo da manta, apenas algumas mechas de cabelo para fora da coberta. O ar da manhã era gelado, mas ele resistiu a ideia de acender o fogo novamente. Preferiu, em vez disso, espalhar os restos carbonizados da fogueira da noite anterior, eliminando qualquer indício da passagem deles por ali.
Rina se levantou logo em seguida. Racionaram as provisões cedidas por Kangetsu e comeram um pouco antes de prosseguirem. O guardião do templo tinha sido generoso. O café da manhã não se comparava ao mingau quente da manhã anterior, mas a broa macia e os bolinhos de arroz recheados com alga ainda eram uma refeição consideravelmente farta naquelas condições.
Segundo o youkai, poderiam repor o estoque de alimentos e de primeiros socorros em um entreposto comercial que se localizava não muito além da cordilheira, se seguissem a estrada principal.
A caminhada foi retomada poucos minutos depois. E, desta vez, não demorou para que a vegetação voltasse a surgir, rasteira, na trilha. Aquilo era um bom sinal. Era um alívio saber que a zona glacial tinha ficado para trás e que logo poderiam abrir mão dos casacos pesados.
O medo dos efeitos da montanha também ia sendo lentamente abandonado, e os dois ficavam claramente mais revigorados. Naquele dia, com as forças restauradas e diante de uma fauna mais abundante, conseguiram caçar um par de pequenos roedores antes que o céu escurecesse. O abate rendeu um jantar farto, com carne assada em volta da fogueira, acompanhado das frutas secas que traziam na bolsa.
— Amanhã devemos chegar ao vale — disse Hiei, observando as chamas dançarem diante deles. Sua voz soava diferente dos dias anteriores, quase relaxada.
Rina assentiu, mordiscando uma das frutas secas. Já sentia os músculos menos tensos, a respiração mais livre. Olhou para o céu estrelado. As constelações brilhavam com uma clareza que não via há dias.
— Não deveria, sei lá, reportar nosso atraso pra Yusuke ou algo assim? — ela perguntou.
— Nosso foco é chegar no destino. Me entendo com ele depois. Não é como se fosse se importar muito com o atraso, de qualquer forma, mas iria me encher de perguntas.
Ela o olhou por um instante. Nunca havia parado para pensar muito na relação entre os dois, ou se aquela era a primeira vez que fazia trabalhos assim. Na verdade, nunca pensou muito na possível relação dele com mais ninguém — Mukuro sendo a única exceção.
— Você e Yusuke… são amigos, ou é só negócios?
— Yusuke é um velho conhecido.
— Um conhecido?
— Um companheiro de batalhas. Já lutamos juntos em algumas ocasiões, aqui e no Ningenkai — E Hiei se permitiu um sorriso discreto — Um oponente à altura também.
— Lutaram juntos? Contra quem, outros youkais?
— Sim. Humanos também, às vezes — ele fez uma pausa — As coisas eram diferentes naquela época, as relações não eram tão pacíficas entre os dois mundos.
Rina endireitou as costas, admirada com a transparência das respostas. E com o que achou ser uma certa nostalgia na maneira como ele falava. Cada fagulha que Hiei soltava sobre sua vida pintava em sua cabeça alguém muito diferente daquela pessoa que guiara seus primeiros passos no Makai.
Ela tentou pensar em como devia ser aquela dinâmica com Yusuke, mas acabou soltando um riso, baixo e leve.
— Quer dizer que você já teve outra dupla antes de mim? E eu achando que tinha sido sua primeira… — ela brincou, apenas porque sentia falta de tirá-lo do sério um pouquinho.
Funcionou. Hiei lançou um olhar impaciente e, ela percebeu, ligeiramente sem graça.
— Não éramos uma dupla! — ele retrucou, seu jeito irritadiço vindo à tona — Tinham outros. E eu apenas me juntei por obrigação, por um acordo com o Reikai.
— Reikai?
— Isso não importa. Eles têm nos deixado em paz por enquanto.
— Você parece ter saudades desse tempo…
Hiei franziu a sobrancelha, como se o conceito lhe fosse completamente estrangeiro.
— O passado é o passado, não tenho saudades do que já acabou. Isso não serve pra nada.
— Nem tudo precisa servir pra alguma coisa.
Ele deixou escapar um grunhido.
—Emoções só atrapalham. São apenas mais uma fraqueza para os inimigos explorarem — sentenciou, com a voz baixa, mas dura.
A fogueira estalou, marcando o silêncio que se seguiu. Rina baixou o rosto, vendo as sombras criadas pelo fogo e repassando a frase dele mentalmente. Aquilo explicava bastante coisa.
— É disso que tem medo? Que o que sente pelos seus amigos seja sua fraqueza?
— Está tirando conclusões precipitadas — reclamou, toda a suavidade de antes tendo evaporado da voz — E não se faz amigos no Makai, no máximo aliados.
Ele a encarou apenas por um breve instante, e logo desviou o rosto.
— E essa é uma lição que você devia aprender rápido se quiser sobreviver aqui — continuou.
Rina ouviu calada àquelas afirmações. Ele não falou mais nada e, por um tempo, nem ela. Apenas mastigavam, mudos, as últimas porções do jantar.
Mas na cabeça de Rina, aquilo ainda ecoava. E de um jeito inconveniente, quase embaraçoso.
— Aliados. É isso que somos? — ela então perguntou, com a voz baixa.
O olhar de Hiei pareceu perdido por um segundo, como se não esperasse a pergunta.
— Eu suponho que sim — respondeu, em um tom igualmente quieto.
Rina assentiu, preferindo não dar voz ao sentimento intruso que ameaçava brotar. O deixou em paz, ruminando o que quer que fosse, enquanto ela fazia o mesmo.
Pois a breve história de Hiei sobre seu passado tinha invadido seus pensamentos mais vezes do que gostaria durante os momentos quietos da descida. Ainda tinha muitas perguntas, mas duvidava que ele responderia.
Mas a verdade era que, desde que ouvira aquelas poucas palavras, não conseguia deixar de se ver um pouco nele.
Talvez ele estivesse se vendo um pouco nela também.
(…)
Hiei não havia baixado a guarda — ele quase nunca o fazia — mas não conseguia negar que, de certa forma, estava mais confortável. A descida da montanha enfim estava próxima de acabar, e o sopé agora se situava a apenas algumas horas de distância.
Era questão de tempo para que alcançassem a esplanada e para que Hiei conseguisse se orientar de novo — ainda que aquele novo trajeto fosse completamente estranho para ele. Seu senso de direção apurado, somado ao conhecimento dos terrenos e perigos do Makai, era suficiente.
A área que começavam a cruzar continha a mesma vegetação espessa que haviam encontrado do outro lado, com samambaias gigantes e um clima úmido, quase tropical. Hiei ia na frente, cortando as plantas grandes demais que bloqueavam a passagem e abrindo o caminho para Rina, logo atrás.
Já tinha passado metade do dia quando ele ouviu vozes ao longe. Parou na mesma hora, ficando absolutamente imóvel. Com um gesto, pediu que Rina fizesse o mesmo.
As vozes estavam distantes, mas ficavam próximas a cada minuto que passavam ali parados. Eram mais de uma. Hiei identificou ao menos três diferentes, e os passos pesados sobre as folhas frescas também pareciam corroborar essa versão.
Os dois se agacharam. Hiei andou com cuidado, evitando perturbar demais a mata. Olhou para Rina, um pouco atrás, indicando que o seguisse com a mesma cautela.
As vozes agora estavam mais perto. De onde estava, ele conseguiu vislumbrar um trio de soldados andando pela floresta, os três abrindo caminho entre a paisagem, todos armados. Reconheceu todos.
Soldados de Mukuro.
Hiei sentiu o corpo enrijecer, a mão apertando com força a empunhadura da katana. Instintivamente, colocou o braço na frente de Rina, formando uma barreira — como proteção, mas também para que não se mexesse. Rina não disse nada, e sequer moveu um músculo.
Ele considerou suas opções. Os três passavam a poucos metros de onde estavam, mas não davam sinais de ter notado a presença deles escondidos ali.
Estavam bem longe da fortaleza, mas ele sabia que era comum enviar soldados para missões de reconhecimento ou para cobrir áreas entre territórios. Seriam eles meros patrulheiros cumprindo a ronda habitual? Ou estariam ali especificamente a mando de Mukuro? Em busca de Rina?
A postura relaxada do trio parecia indicar a primeira opção, mas ele não tinha como ter certeza. Não depois de tudo que tinha acontecido naquela fortaleza. Mukuro teria reorganizado seu exército tão rápido assim?
Pensou por mais um pouco, olhos fixos nas figuras entre as árvores. Ele conseguiria dar conta do grupo inteiro, se quisesse. Não eram soldados rasos, mas também não eram de alto escalão. Se pegos desprevenidos, seria um trabalho fácil e rápido. Três mortes limpas.
Era uma opção tentadora.
Mas se fosse um simples patrulhamento em busca de humanos caídos ou de reconhecimento de terreno, as mortes levantariam mais suspeitas do que Hiei gostaria. Atrairia perguntas. Talvez colocasse mais um alvo nas suas costas e revelasse suas posições, principalmente se houvesse outras equipes no local. Aquele era um risco desnecessário.
Apurou o ouvido, mas a conversa que conseguia capturar não dava nenhuma pista sobre o real motivo da passagem deles por ali. Falavam futilidades apenas, sem nenhuma informação que pudesse ser útil.
Então achou melhor esperar. Prendeu a respiração e suprimiu seu youki quando os três pararam por um instante não muito longe dos dois. Rina nem precisava que lhe disessem o que fazer — mascarar sua energia era sua segunda natureza, e era como se nem mesmo estivesse ali.
Os soldados se viraram, escaneando a área, a conversa interrompida. Hiei estava pronto para pular para o ataque se necessário, cada sentido em alerta. O maxilar estava tão travado que sentia os dentes doerem.
Até que as vozes retornaram, o mesmo tom despreocupado de antes. Os três prosseguiram, marchando pela grama, afastando os galhos do rosto.
Hiei os acompanhou com os olhos escondidos entre as plantas. Decidiu deixar que eles se afastassem e esperou que os passos sumissem por completo antes de se levantar. Ainda assim, o fez com cuidado. Em silêncio.
Rina levantou junto, o semblante apreensivo e questionador.
— Mukuro? — ela perguntou baixinho. Ainda não achava seguro levantar a voz.
Hiei apenas confirmou com um gesto de cabeça. Olhou novamente na direção para onde os soldados tinham seguido.
— Provavelmente só uma patrulha de rotina — falou.
— Ou não.
Ele não respondeu, ainda incerto. Mas não havia mais o que fazer. Então voltou sua atenção para a trilha de mata fechada que tinham pela frente.
— Melhor irmos — disse, continuando a andar, mas agora tomando mais cuidado em seus movimentos. E notando que Rina fazia o mesmo.
(…)
Não ousaram falar em voz alta por ainda algum tempo, consciente demais até dos menores sons que faziam. Rina se movia silenciosa como um gato, acostumada em esconder sua presença; ainda assim, cada vez que o braço resvalava em algum galho ou a bota pisava forte demais na grama amassada, ela tinha a sensação de que estava chamando atenção da floresta inteira.
Hiei já não cortava mais a folhagem, evitando deixar marcas por onde passavam, e agora eram obrigados a se desviar com cuidado da vegetação volumosa encharcada de orvalho. Não disse nada sobre isso, mas Rina sabia que ele devia estar se recriminando por ter deixado um rastro inconveniente em seu encalço. E ela não conseguia deixar de pensar no que os soldados fariam se vissem a mata em talhos tão retos. Iriam investigar? Os perseguir?
Por via das dúvidas, acharam melhor mudarem a rota. E tentarem despistá-los.
Fizeram uma pausa quando já estavam longe o suficiente e o silêncio ao redor não indicava a presença de mais ninguém. De todo modo, se mantiveram discretos e vigilantes.
— Acha que nos viram? — ela perguntou.
— Não. Não nos deixariam ir embora se tivessem.
Rina pensou um pouco, revivendo a cena. Os soldados escaneando a área, poucos metros de distância. Mas Hiei estava certo, eles teriam dado algum sinal se os tivesse avistado. Tinham sorte de estar em uma área com vegetação tão densa, tão fácil de se ocultar.
— E se vierem outros?
— Se vierem, vamos lidar com isso.
Acabaram se embrenhando mais na mata do que preferiam, apenas para evitar áreas descobertas. Por um tempo, tudo que ouviram foi o ruído leve dos insetos ou o bater de asas de alguma ave qualquer.
Passaram-se algumas horas, mas tão de repente que nem puderam prever, uma flecha passou zunindo entre eles, quase atingindo Rina de raspão.
Os dois arregalaram os olhos. Hiei foi rápido, se virando na direção da flecha. Outra veio no mesmo instante, fazendo com que ele precisasse pular para sair do seu caminho. Rina agachou, rente ao chão.
— Estamos sendo atacados?! — ela exclamou, alarmada.
Hiei estava acocorado no galho de uma árvore, escondido pelas folhas. Espremia os olhos, tentando enxergar ou ouvir alguma coisa.
— Está vendo algo? — Rina perguntou.
— Não. Estão escondidos.
E ele arrancou a faixa na testa. O terceiro olho, antes dormente, se abriu.
— Fique aí — ordenou. E sumiu na mesma hora, deixando Rina sozinha.
Ela murmurou um palavrão e se arrastou até a árvore mais próxima. Sentou atrás do tronco e arriscou olhar para trás. Não encontrou nada. Seriam os soldados de Mukuro que tinham visto antes?
Rina tentou lembrar se algum deles portava alguma arma de longo alcance. Achava que não, mas isso não significava muita coisa. Talvez tivesse visto errado. Talvez tivessem chamado outros. Talvez fosse um segundo grupo. As possibilidades eram infinitas.
Rina xingou de novo. Jamais deviam ter deixado eles irem embora vivos.
Ouviu um barulho de luta vindo de longe e tentou descobrir a direção. Hiei que a desculpasse, mas ela não iria ficar ali parada enquanto ele resolvia as coisas sozinho.
Então começou a rastejar para o lado de onde tinha vindo a flecha. Levantou um pouco, mas ainda se manteve agachada. Foi até outra árvore. Mais uma vez ouviu o barulho típico da espada de Hiei cortando o ar.
Tentou se guiar pelo som, correndo encolhida, se escondendo pela folhagem e parando para avaliar o cenário sempre que podia. Ao menos os tons terrosos da roupa a davam uma vantagem, ajudando a se misturar com as árvores ao redor. E a camisa de manga comprida protegia seus braços dos arranhões dos galhos.
Logo viu Hiei. Estava parado, de costas para ela, a katana na mão abaixada, mas ainda firme. Sua postura era tensa, os músculos rígidos e marcados. Ele olhava de lado, talvez ciente de que ainda havia outros. A energia dele era poderosa.
Mas de repente contraiu o braço direito, o corpo tendo um breve espasmo que Rina sabia terem sido as malditas dores fantasmas escolhendo uma péssima hora para atacarem.
Sem pensar, ele recuou instintivamente — e pisou em algo que cedeu sob seu peso. O clique metálico foi quase inaudível, mas suficiente. Uma corda oculta entre as folhas caídas se esticou com violência, e Hiei foi arrastado pelo pé, puxado para cima até ficar de ponta-cabeça.
No susto, a mão soltou a espada. Hiei rosnou, enfurecido, uns bons dois metros acima do chão, o tornozelo direito amarrado por um laço grosso.
Uma armadilha.
A reação de Rina foi imediata. Agindo no instinto, puxou a faca que estava presa na calça e correu até ele.
Hiei estava com o corpo dobrado para cima, tentando alcançar o nó que o mantinha preso quando a viu se aproximando. Ficou surpreso, primeiro, mas depois rosnou mais ainda.
— O que está fazendo aqui? —perguntou, ríspido.
Isso não a impediu. Jogou a bolsa para o lado de qualquer jeito e começou a escalar a árvore, a faca ainda na mão, os pés procurando os apoios certos para se impulsionar.
— Vou te tirar daí.
— Vai embora!
Mas Rina já estava na altura do galho, a lâmina serrilhada cortando a corda — quando a flecha veio. Certeira dessa vez.
O tiro a atingiu na lateral do abdômen, próximo das costelas. Ela arfou com a dor inesperada e o choque a fez soltar da árvore e perder o equilíbrio. Rina despencou, o sangue já manchando a blusa onde a flecha continuava cravada.
Hiei gritou seu nome. No segundo seguinte estava no chão, um puxão bastando para arrebentar o cabo já desgastado pela faca.
Ele pegou a espada que tinha derrubado e a encarou.
— Eu estou bem — Rina disse, se apoiando na árvore, puxando de volta a faca que tinha caído das mãos.
Hiei ainda demorou um instante, decidindo se acreditava nela, os olhos acirrados sendo atraídos diretamente para o ferimento.
Depois, foi embora, buscando a localização do arqueiro.
A respiração de Rina era rápida. O ardor da perfuração não se limitava à área afetada, em vez disso se espalhando até o quadril, as costas, o tórax. Rina tentou ver onde a flecha estava alojada. Ela tinha entrado pelo seu lado esquerdo, a ponta passando pela blusa e perfurando sua barriga, com sorte parando antes de atingir algum órgão. Mas precisaria ser arrancada. Logo.
Estendeu o braço para trazer a bolsa para perto, que estava ligeiramente fora do alcance. Precisou se esticar mais, mas a fisgada no ventre a lembrava de que movimentos bruscos só iriam piorar sua situação.
Um trovão eclodiu com um estrondo perto dali. "Merda," Rina pensou. Estavam na mesma zona tropical de quando tinham sido açoitados pela enxurrada na subida da montanha. Quando olhou para o céu, ele estava escuro, tomado por nuvens carregadas. Teriam outra tempestade pela frente.
E quase como se tivessem sido invocadas pela lembrança, as primeiras gotas começaram a cair. Finas e esparsas.
Quando Rina finalmente conseguiu trazer a bolsa para perto, Hiei reapareceu na sua frente, tão de repente quanto tinha saído.
Se encararam, mas novamente a ferida guiou seu olhar. Ele se agachou ao seu lado. A blusa estava colada na pele, grudada pelo sangue, mas também presa pela flecha, que havia atravessado o tecido. Sem cerimônias ou perguntas, Hiei abriu alguns botões da camisa de Rina e rasgou a parte de baixo, ao redor da perfuração.
— Me dê a faca — ele pediu.
Rina tremia ao estender a mão com a arma para ele. Hiei não falou nada. Tinha o semblante sério, fechado. Apanhou a faca de Rina, enquanto ela se virava de lado para que ele pudesse alcançar a área melhor.
— Eram os soldados de Mukuro? — Rina quis saber. Não conseguiu ver nenhum dos atacantes.
— Não. Mercenários.
Rina franziu a testa. Mas a lâmina entrando em seus músculos não a deixou que pensasse nisso por muito tempo. Ela rangeu os dentes, prendendo a mandíbula para impedir que urrasse de dor.
Ele largou a faca e mais sangue escorreu da nova abertura, se misturando à água da chuva, agora uma garoa leve.
Sem esperar, Hiei quebrou a haste e a empurrou até o final, puxando por trás para que saísse por completo. Dessa vez, Rina não conteve o berro na garganta, nem o xingamento que veio em seguida.
— Pegue o curativo — ele disse, enquanto pressionava os trapos rasgados da camisa de Rina para estancar o sangramento.
Ela revirou a bolsa procurando o estojo de primeiros socorros que havia ganhado no templo. Encontrou e deu direto para ele.
— O que quis dizer com mercenários? Estavam a mando de alguém?
— Não sei — Hiei respondeu, rasgando o esparadrapo com os dentes. Depois completou — Não falaram.
— E por acaso você ao menos tentou perguntar antes de degolar um a um?
Hiei soltou o ar, impaciente. A pergunta de Rina seguiu sem resposta.
O fluxo de sangue já tinha diminuído quando ele terminou de prender as bandagens em seu tronco, coisa que ele fez com facilidade. Devia ter prática.
Depois se levantou.
— Consegue andar?
Rina achava que sim. Prendeu a faca de volta na calça e arriscou levantar. Uma nova onda de dor a percorreu e ela trincou os dentes, mas não disse nada. Nem fraquejou.
— Vamos — Hiei ordenou, em um tom frio, recolhendo a bolsa.
Rina percebeu uma nuance diferente no jeito severo com que se dirigiu a ela. Uma frustração escondida. Alguma coisa que ele não queria dizer, mas que, ao mesmo tempo, não conseguia esconder.
— O que há com você? — ela perguntou.
Ele já estava alguns passos na frente, mas parou com a pergunta.
— Mandei que ficasse onde estava — Hiei respondeu, seco, ainda de costas para ela. Depois, se virou parcialmente — Sua teimosia podia ter te custado a vida.
Rina ergueu as sobrancelhas, estarrecida. Teimosia?
— Eu fui pra te ajudar.
— Eu não precisava de ajuda.
— Estaria até agora de cabeça pra baixo se não fosse por mim.
Hiei a ignorou. Voltou a andar, se recusando a continuar o assunto, a irritação radiando de todos os seus poros.
Rina o seguiu. A garoa apertava, caindo constante sobre os dois e deixando as roupas pesadas. Um ódio desproporcional pareceu tomar conta dela ao vê-lo marchar daquele jeito, como se o machucado dela fosse um aborrecimento.
Como se ela fosse um aborrecimento.
— Você é bem mal-agradecido, sabia disso?
Mas ele continuou dando as costas para Rina, o rosto apenas ligeiramente inclinado em sua direção.
— Quer que eu seja grato por ter agido de maneira idiota?
— Eu levei a porra de uma flechada tentando ajudar você!
— O que teria sido evitado se me deixasse cuidar de tudo sozinho.
As palavras dele eram controladas, mas pingavam de animosidade. Uma raiva velada em cada sílaba.
— Sozinho? Se ainda não percebeu, você não consegue resolver tudo sozinho! E eu não sou uma mocinha indefesa que precisa ser protegida de tudo o tempo todo.
— Tem certeza? — ele falou, dessa vez interrompendo os passos e se virando rápido para ela. Com a cabeça, indicou as ataduras de Rina. O tom acusatório encheu sua boca, curvada com algo próximo do descaso — Você não iria aguentar um dia no Makai sem mim.
Rina se sentiu arder em chamas com a afronta. O ar saiu pesado de seu nariz, os olhos congelaram em cima dele. Aquela frase a fez sentir um turbilhão de emoções, nenhuma delas agradável.
Havia algo de errado na maneira como ele disse isso, porém. Não era apenas um comentário insensível, como tantos que ele tinha feito antigamente. Ele não estava apenas bravo.
Mas ela estava longe de se preocupar com as motivações por trás da crueldade. As palavras tinham saído da boca dele, e isso era o que importava.
— Como você pode ser tão arrogante?
— Cale a boca e vamos.
Hiei se virou para continuar, mas Rina estava longe de querer encerrar o assunto. A adrenalina injetada na corrente sanguínea pelo ataque recente ainda comandava todas suas ações, deixando a dor pela perfuração em segundo plano.
— Não me mande calar a boca!
Num impulso, foi até ele para o puxar pelo ombro. Ou só tentar, pois Hiei virou na mesma hora, como se antecipando o gesto, e agarrou seu punho antes que ela o tocasse.
Ele a encarou incrédulo, mas também enfurecido. Como se estivesse prestes a matá-la pela ousadia.
Rina devolveu o ódio na mesma medida. Tentou puxar a mão para baixo, mas Hiei não deixou. A segurou ainda mais forte, quase espremendo seus ossos, e se aproximou ainda mais para bloquear qualquer movimento. Tão perto que Rina podia ver cada detalhe da sua fisionomia agora. O cabelo molhado colado na testa, as pupilas vermelhas como lava, o maxilar extremamente rígido, as gotas escorrendo pelo queixo.
Uma trovoada explodiu, trazendo os ventos do temporal. A água caía em um ritmo carregado agora, deixando os dois ensopados. Mas eles nem percebiam.
— Podia ter morrido! Por que nunca faz o que eu digo, Rina?
— Você nunca vai mandar em mim!
— E você acha que eu não sei disso?
Rina parou de lutar, e mesmo assim ele não cedeu. Não se afastou. Ela o fitou indignada. Por um momento, ficaram presos naquele impasse. O rosto dela queimava, a respiração entrecortada, seu peito subindo e descendo fora de compasso.
As palavras dele ainda reverberavam na mente dela, fazendo a raiva voltar em ondas. O calor se espalhava, subindo pela pele, aumentando na mesma medida em que o coração acelerava. Como Hiei podia ser tão detestável? Tão prepotente?
E como era possível que, ainda assim, ela não conseguisse deixar de pensar em como seria sentir a boca dele na sua?
Quando os lábios de Hiei ameaçaram se partir — mais alguma ofensa? — Rina se adiantou. Incerta e, ao mesmo tempo, mais segura do que nunca.
Inclinou a cabeça para frente, eliminando o espaço entre os dois. E o beijou. Não pensou, apenas o fez. Com força e com raiva. O gosto dele se misturava com a água da chuva em sua boca.
Hiei não demorou nem meio segundo para reagir. Retribuiu o gesto com ainda mais força e raiva do que ela, como se a quisesse devorar. Ainda a manteve presa um instante, mas finalmente soltou seu pulso, descendo a mão para seu rosto primeiro, em seguida para a cintura. A segurou ainda mais firme dessa vez, colando seu corpo no dele, a trazendo para perto.
Mas o impulso durou pouco. Os dois se interromperam, afastando os lábios devagar como se estivessem se dando conta do que estavam fazendo. Por um instante, ainda ficaram próximos, sentindo o hálito um do outro.
Ele foi o primeiro a abrir a distância. Chegou para trás, não ousando falar nada. Rina também não conseguiu emitir som algum. Sentia apenas o coração palpitando, a boca ardendo pelo contato furioso, o corpo ainda em choque.
Estava esperando que ele se virasse como nada tivesse acontecido, que pegasse a bolsa que tinha jogado no chão e retomasse a caminhada. Era o mais racional a fazer.
Mas a razão passava longe da cabeça dela. De repente a prioridade não era mais se esconder ou procurar abrigo. Não era mais cuidar da ferida nem calcular os próximos passos. Aquilo podia ficar para depois.
Hiei arfava. Os olhos fixos nela. Talvez pensando a mesma coisa.
E quando ele enfim se moveu novamente, foi para mais perto dela. A puxou. O beijo explodiu de novo, brusco, incontrolável — e inevitável.
Ele a empurrou contra uma árvore, apertando seu corpo contra o dela. Rina o segurava cada vez mais forte, como se suas mãos não fossem suficientes, como se ele fosse escapar caso ela não o prendesse entre os braços. Querendo se afogar naquele beijo.
Se deixaram cair na terra molhada, entre as folhas altas da floresta. Rina soltou um gemido quando bateu as costas no chão, de dor talvez, mas também de outra coisa. E, pela maneira como Hiei a pressionou mais um pouco, parecia que tinha gostado do que ouviu. E conseguiu dela um novo espasmo, abafado pela boca dele ainda sobre a sua.
Sua mão procurou com rapidez a cintura de Rina. A camisa rasgada estava grudada no corpo, encharcada, mas ele a arrancou com pressa pela cabeça, como se aquilo fosse um empecilho. E ela deixou, sabendo que aquela era a hora e local menos apropriado possível para aquilo, mas ao mesmo tempo querendo que tudo fosse para o inferno. Então fez o mesmo com a blusa de Hiei, os dois mal se desgrudando, famintos pelo contato pele a pele.
O corpo dele era quente em contraste com o dela. Parecia entrar em ebulição com aquele atrito. O calor a envolveu, e suas unhas escorregaram pelas costas molhadas de Hiei, sentindo cada músculo, traçando cada cicatriz, querendo fazer novas.
Rina arqueou sua coluna quando ele agarrou seu seio e afundou seu rosto na curva do pescoço, os dentes a roçando e ameaçando mordê-la. Ela estremeceu, ansiando por aquilo. A mão dele era calejada, o toque grosseiro. Sem sutilezas, mas carregado de desejo. Comprimia seus mamilos com vontade, de um jeito que nenhum outro homem havia feito antes.
E ela agora sentia a urgência comandar seus gestos. A fazer deslizar os dedos até o quadril de Hiei, procurar pelo cinto, empurrar tudo para baixo. Ele cuidou do resto, tomado da mesma necessidade. Se livrou das roupas pesadas pela chuva, dele e dela, nenhum dos dois querendo perder muito tempo.
Todo o corpo de Rina se arrepiou em resposta. Ela sabia que, se pensasse demais, desistiria de tudo. E por isso, apenas agia.
Ela afastou as pernas mais um pouco, o suficiente para recebê-lo. Olhou para ele, ofegante. Seus olhos se cruzaram por um momento, os dele selvagens e intensos.
Ele a puxou. E quando a penetrou, foi com a mesma intensidade. A invadiu com um ímpeto quase brutal, deixando Rina sem ar. O movimento era feroz. Beirava a violência. A forçava contra o chão da floresta, as pedras e raízes altas esfolando seu corpo por trás, a lama grudando na pele — como ela sempre soube que seria com ele.
Mas era bom assim. Rina nunca tivera paciência com os muito delicados.
Enroscou sua perna na dele e sentiu a mão de Hiei apertando sua coxa. Fundo. De um jeito que ela sabia que deixaria marcas. Mas não se importou. Fez o mesmo com ele — uma mão em sua nuca, a outra fincada na parte baixa das costas. Hiei grunhiu, um som rústico e primitivo. Acelerou com vontade, se enterrando ainda mais fundo dentro dela, quase sem controle.
E quanto mais ele a apertava, quanto mais a puxava para perto, mais ela queria. Mesmo sabendo que era exatamente o oposto que deveria querer. Mas não conseguia esconder.
Assim, quando seus corpos se chocaram mais uma vez, Rina estremeceu. Um novo gemido involuntário escapou da sua garganta.
O orgasmo veio para ela antes de vir para ele. As costas se curvaram mais uma vez. Rina agarrou os cabelos negros de Hiei, o prendendo entre os dedos, fazendo a sensação durar. Deixando que ele soubesse — e ouvisse — o que estava causando nela.
Rina sentiu que ele estava perto de terminar também. E quando isso aconteceu, nem mesmo o barulho pesado da tempestade foi suficiente para abafar os sons que ele fez ainda em cima dela.
Ficaram ali, imóveis, arfando, enquanto a chuva forte seguia desabando sobre os dois. Os lembrando de onde estavam.
Rina soltou os dedos devagar. Hiei rolou para o lado e se levantou logo em seguida.
Ela ficou alguns segundos a mais no chão, tentando normalizar a respiração. Se recompondo. Sentou-se com cuidado, sentindo as dores se espalhando pelo corpo. Cada terminação nervosa ainda vibrava pelo que tinha acontecido entre eles, a mente aos poucos voltando a entrar em foco.
Hiei recolheu as roupas molhadas e se arrumou rapidamente, prático como sempre. Quando acabou, ofereceu a mão a ela. Um gesto pequeno, quase imperceptível. Mas Rina notou.
Aceitou a ajuda, deixando que ele a puxasse para cima. Por um momento, ficaram próximos demais. Então ele soltou sua mão e se afastou.
— Vista-se — murmurou.
Rina apenas assentiu.
Hiei não disse mais nada. Virou-se para dar-lhe privacidade, a mão já de volta na katana presa na cintura. Um peso desconfortável preencheu o silêncio, marcando a linha que tinham cruzado.
Ela limpou a terra e as folhas grudadas na pele e checou o machucado. As ataduras continuavam mais ou menos no lugar, ensopadas pelo temporal e manchadas de sangue. Mas daria para aguentar por enquanto.
Quando estava pronta, tomou a bolsa do chão e foi até ele para que seguissem. O mundo real chamava de novo.
— Isso não significa nada — ele falou, focado na trilha.
— É claro que não — ela respondeu.
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