Visceral

20 Descobertas


O barulho dos pés sobre a grama molhada era o único som que os acompanhava agora. A floresta estava praticamente no fim, as árvores já rareando, espaçadas. A chuva tinha finalmente dado uma trégua, mas o sol permanecia escondido entre as nuvens cinzentas do inverno, deixando tudo ainda úmido e gelado.

Tinha sido uma hora inteira de caminhada até a clareira que indicava os limites da mata. Durante esse tempo, nenhum dos dois mencionou o que tinha acontecido entre eles, como se o sexo não tivesse passado de um parênteses.

Pelo menos até então.

— Não precisamos falar sobre isso, mas não quero fingir que nada aconteceu — Rina falou de repente, cortando o silêncio que tinha se solidificado entre eles.

— Do que está falando?

— Você sabe do que estou falando.

Sem olhar para ela, Hiei soltou um suspiro, baixo e ligeiramente impaciente. A fala veio somente alguns segundos depois — uma pausa que Rina não conseguiu exatamente decifrar.

— Não estou fingindo. Aconteceu, só isso — Outro silêncio. E depois acrescentou — Não foi nada demais.

"Insensível," pensou Rina. Mas o que ela esperava dele, de todo modo? E, mais importante, por que ela deveria se importar?

Afinal, ela estava mais do que acostumada com relações casuais. Rina sempre foi a primeira a querer deixar sentimentos de fora — eles só complicavam as coisas. Mas começava a se dar conta de que o que a incomodava não era o silêncio ou a postura de Hiei, mas o jeito como seu corpo não a deixava esquecer o que tinham feito.

Ela ainda podia sentir cada pedaço onde ele a havia tocado. A pele ardia, as marcas que Hiei havia feito em sua coxa latejavam quando andava. Era como se a mão dele ainda estivesse ali, presa nela, ainda a estivesse segurando.

"Nada demais," ela repetiu mentalmente, convencendo-se daquilo. Era um bom mantra.

— Ótimo — ela disse, seca — Só não quero que as coisas fiquem estranhas.

Dessa vez, ele não demorou a responder.

— Não vão ficar.

— Ótimo — ela reiterou, mais enfática do que o normal.

Achou que o assunto realmente teria morrido ali. Que ele nunca mais abriria a boca para falar sobre aquilo. Mas, quando percebeu, ele a olhava pelo canto do olho, e Rina de repente ficou consciente demais de todos os seus gestos, suas expressões, sua maneira de evitar chegar muito perto dele.

E Hiei soltou uma risada curta e sarcástica.

— O que foi, já está se apaixonando? Crescer com humanos te deixou tão emotiva assim?

Rina sentiu o rosto queimando com a provocação. Mas não mudou seu caminhar, nem sua postura. Apenas fez um muxoxo e riu também, igualmente sarcástica.

— E eu que achei que você não tinha como ser mais convencido… acha que eu estou esperando flores ou algo assim? Pode ficar tranquilo. Já me apaixonei uma vez e foi o bastante pra nunca mais querer fazer essa besteira de novo.

Hiei a olhou de esguelha, rápido. Não disse uma palavra, mas Rina notou.

— Qual o problema? — ela perguntou.

— Nenhum.

— Tem certeza?

— Por que eu teria interesse nas suas desilusões amorosas?

Ela riu de novo, percebendo o desconforto dele. Era interessante notar como Hiei calado podia ser tão eloquente.

Ria poderia, portanto, ter parado ali. Mas não parou.

— O nome dele era Dimitri — Rina falou, discretamente tentando captar sua reação — Foi com ele que aprendi a usar uma adaga.

E ela fez uma pausa, longa e calculada. Hiei continuou mudo. Rina continuou:

— Aprendi muitas coisas com ele, na verdade. Inclusive a nunca mais me apaixonar. E quer saber, você me lembra ele às vezes.

Hiei a relanceou mais uma vez, os olhos agora estreitos e inquisitivos.

— Como assim?

— O orgulho. A teimosia. O fato de nunca admitir que está errado…

Rina hesitou, por tempo demais, pensando na escolha de palavras. Ele permaneceu quieto ao seu lado.

— E o jeito de falar como se soubesse o que é melhor pra mim. Como se eu fosse incapaz — ela falou, o observando de lado — Ele também achava que eu não ia durar um dia sem ele.

Dessa vez ele parou.

Rina ainda deu mais um passo, mas também parou e se virou para ele.

— Não me compare com um humano idiota.

— Então não aja como um idiota.

O silêncio se estendeu entre eles. Não vazio, mas repleto de coisas não ditas. A mão dele apertou o cabo da espada por um segundo, como se estivesse segurando uma resposta que nunca veio.

— Esse assunto é uma perda de tempo… — reclamou.

E retomou a caminhada sem proferir nem mais uma sílaba, o andar agora rígido e carregado, como se as palavras de Rina ainda o perseguissem.

(…)

Quando, enfim, a linha das árvores ficou para trás, encontraram uma estrada de terra que serpenteava não muito distante dali. Seguiram com os olhos. Ao longe, algumas construções, baixas, mas numerosas, despontavam contra o céu vespertino.

— O que acha que é? — ela perguntou.

— O entreposto comercial — Hiei respondeu, lembrando das orientações de Kangetsu.

Seguiram pela estrada, os olhares atentos e curiosos. A zona comercial se erguia como um oásis no meio de uma região isolada, com mais nada em volta por quilômetros a fio.

Eles estavam numa divisa de terras, a estrada servindo como importante rota de mercadoria e viajantes, conectando áreas críticas do Makai. Entrepostos não eram parte de domínio algum, eram territórios livres de passagem e comércio, geralmente com uma infraestrutura decente para quem precisasse pernoitar ou se abastecer antes de seguir viagem.

Mas, mais importante, eram lugares movimentados. A entrada e saída eram constantes, e, fora os comerciantes fixos, a estadia de ninguém durava mais do que uma ou duas noites. Isso era ideal: ali, eles seriam apenas mais dois forasteiros na multidão. Praticamente invisíveis.

O entreposto não tinha muralhas nem portões, muito menos guardas ou vigias. Pequenas construções se aglomeravam de cada lado da rua, demônios de todos os tipos circulando, falando, negociando. Banquinhas de mercadorias se espremiam entre os prédios, carrinhos de comida soltavam uma fumaça gordurosa enquanto o cheiro se espalhava pelo ar. As vozes se misturavam ao barulho de animais de carga, de metal tilintando, de fritura sendo feita na hora.

Rina segurou a bolsa mais perto do corpo, olhando com desconfiança para os outros youkais a sua volta.

— Não somos os alvos aqui — ele falou, notando pelo canto do olho a tensão nos passos de Rina.

— Esqueceu que acabamos de ser atacados?

Hiei ponderou por um instante.

— Estávamos perto de uma rota de comerciantes — concluiu — É comum o assalto em regiões assim. Devem ter nos confundido com mercadores. Como está o machucado?

— Está melhor — ela respondeu. Hiei assentiu em silêncio.

O ferimento da flecha era agora apenas uma dor leve. A chuva de antes tinha lavado quase todo o sangue, e quando Rina levantou as bandagens para espiar, encontrou apenas um risco no abdômen que pouco a pouco se fechava.

A bolsa, no entanto, continuou colada debaixo do braço, a cabeça ligeiramente baixa. Era difícil esquecer dos ogros a reconhecendo ainda no primeiro dia da fuga da fortaleza, ou a apreensão que sentiu ao ver os soldados de Mukuro mais cedo naquele dia.

Mas tinha que dar o braço a torcer: ao menos aqui ninguém virava o pescoço para os avaliarem, nem lançava olhares intimidadores como se fossem duas presas. Ninguém parecia nem mesmo se dar conta dos dois andando pelas vias do entreposto, tão cheias eram as ruas.

— E os soldados de Mukuro? O que estariam fazendo aqui perto?

Hiei pensou por mais um pouco.

— Coincidência — disse, sucinto.

Rina não contestou, mesmo sem conseguir acreditar muito — e ele também não detalhou mais. Mas ela reparou como os transeuntes ali formavam um grupo multifacetado. Demônios altos e baixos, humanoides ou não, com toda espécie de traje. Rina e Hiei se misturavam sem esforço.

À medida que se entranhavam pelo lugar, foi percebendo que, talvez em uma coisa ele tivesse razão: não eram o alvo ali. Ou, pelo menos, era nisso que ela queria acreditar. Que podiam ter paz, ao menos por uma noite.

Então, aos poucos, relaxou. Não por completo, mas o suficiente para começar a prestar atenção na paisagem. Nos estabelecimentos, nas opções que se abriam para eles. Em como iriam finalmente gastar as moedas de ouro que havia roubado dias atrás. Talvez pudesse até sonhar com uma cama e uma ducha quente na hospedaria local.

Até que divisou a fachada de uma taverna na outra ponta da rua. A garganta ficou seca na mesma hora, pedindo por uma bebida. Virou-se para Hiei com um convite nos olhos.

— Acho que precisamos de um drinque.

— Não viemos aqui pra isso — ele respondeu.

— Não. Mas acho que precisamos mesmo assim.

Ela andou na frente, como se não precisasse de autorização. Rina sentiu o olhar de Hiei caindo sobre ela, provavelmente com o início de uma leve irritação, mas ele não disse nada. Apenas a seguiu até a taverna.

O lugar já estava lotado. O ambiente tinha a iluminação quente das lamparinas e um cheiro forte e rançoso no ar, de bebida derramada, suor e comida queimada. As janelas, fechadas, só deixavam o lugar — e o cheiro — ainda mais abafado.

Rina lançou um olhar rápido ao redor. O receio a invadiu de novo, mas seguiu em frente. Não chamariam a atenção de ninguém. Iriam apenas entrar, descansar por alguns minutos com uma bebida na mão, talvez fazer uma refeição rápida e sair.

— Arrume um lugar. Eu pego alguma coisa pra gente — disse, sem esperar resposta. Sem ver o rosto dele e sem deixar que ele a dissuadisse. Ela precisava disso, dessa sensação de normalidade, ou iria enlouquecer.

Foi até o balcão em passos comedidos. O nervosismo tinha diminuído, mas não a abandonado. O corpo tensionou quando sentiu alguns empurrões, mas eram apenas bêbados discutindo alguma coisa qualquer. Como precaução, procurou sentir o cabo da faca na cintura.

Pediu duas bebidas, duas porções do prato do dia e esperou. Casualmente, lançava olhares para as garrafas enfileiradas no fundo do balcão, para os copos esperando secar e para qualquer outra superfície que pudesse refletir o que se passava ao seu redor. Era o típico ambiente de bar, nada suspeito. Se obrigou a relaxar mais, se convencendo novamente que Hiei estava realmente certo: não eram o alvo ali. Mas não conseguiu muito. Talvez depois de alguns goles conseguisse.

Foi assim que ela notou. Um youkai, encostado em uma pilastra na outra ponta do balcão, os olhos pregados nela. Demorado e fixo demais para ser por acaso. Um desconforto tomou conta.

Ela disfarçou, o mantendo visível pelo canto do olho. Não parecia embriagado como os demais. Estava imóvel, perfeitamente equilibrado, o olhar lúcido e insistente. Como se soubesse exatamente para quem estava olhando. Ele era alto, mas não muito maior do que um humano. Não fosse a pele ligeiramente avermelhada, até poderia se passar por um. Usava uma capa de couro sob os ombros largos e a mão, na cintura, deixava entrever algo rígido preso ali. Uma arma?

A garçonete voltou com dois canecos com um líquido morno, de um amarelo escuro, quase âmbar. Disse que levaria a refeição em seguida. Rina agradeceu, pagou por tudo e levou as bebidas até a mesa que Hiei havia arranjado nos fundos, rente à parede. Colocou um caneco na frente dele e se sentou, os gestos contidos.

— Era tudo que tinham — ela explicou, tomando um gole. Cerveja. Muito mais amarga que a dos humanos. Horrível, mas bem-vinda.

Hiei não respondeu. Tinha os olhos estreitos e voltados para outro lado.

— Alguém estava te observando no bar — falou, em uma voz baixa e séria.

— Eu sei.

Rina lançou mais um olhar para a pilastra, mas o youkai já não estava mais lá. O procurou com os olhos. O encontrou em outra mesa, conversando com alguém que ela já não conseguia ver.

— Pode ter sido só interesse. Tem poucas mulheres aqui — Rina disse.

Ele mais uma vez não falou nada, mas não parecia muito certo disso. Tinha voltado a ficar tenso, o corpo em alerta. Rina percebeu. Instintivamente encolheu o corpo, chegando mais perto da mesa.

— Você disse que não éramos o alvo aqui — falou, num sussurro nervoso.

— Eu sei o que eu disse — respondeu entre os dentes.

— O que fazemos então?

Hiei apenas relanceou na direção da outra mesa. Por enquanto, nenhuma ameaça.

— Ele não vai tentar nada enquanto estivermos aqui. O lugar está cheio demais.

Rina concordou. Pegou o caneco de cerveja e tomou mais um pouco, o gosto amargo e morno descendo como um peso pela garganta. Começava a se arrepender de ter entrado ali, mas guardou o pensamento para ela própria.

A garçonete apareceu logo em seguida, trazendo duas pequenas tigelas com um ensopado fumegante. Rina agradeceu, com uma voz quieta.

Tentou comer, mas não conseguia deixar de olhar ao redor. O salão estava cheio, as conversas se sobrepunham em ruídos e risadas. Às vezes, o estalo de alguma garrafa caindo ou uma cadeira sendo derrubada.

E, de repente, no meio daquele turbilhão de vozes, jurou ter ouvido uma palavra distinta, que soava muito com um nome que ela conhecia muito bem.

Yuuma.

O coração acelerou. Virou-se na direção de onde achava que o nome viera. Mas nas mesas, só gargalhadas e as bravatas típicas dos bêbados. Nada demais. Nenhum olhar na direção deles, nenhum tom conspiratório, nenhuma ameaça em parte alguma.

Talvez estivesse apenas ouvindo coisas.

Ainda assim, sentia-se exposta. Por pouco não puxou a capa que trazia na bolsa e a jogou sobre o rosto. Mas sabia que chamaria mais atenção desse jeito e ficou como estava.

— Não quero beber sozinha — ela falou, vendo que ele estava quase terminando o jantar, mas mal havia tocado na bebida.

Hiei desceu os olhos para a cerveja. Demorou um tempo, mas enfim puxou para perto e tomou um gole demorado.

Estava claro que nenhum dos dois conseguia relaxar por completo. Rina ainda se virava de tempos em tempos, disfarçando os movimentos, os olhos rápidos passando sempre pelo mesmo lugar. Não ouviu mais o nome do clã sendo chamado, nem notou mais nenhum olhar duvidoso. O youkai da pilastra seguia em uma conversa animada, como se nem mais lembrasse de Rina. Se Hiei não tivesse reparado também, teria achado que tinha imaginado aquilo.

Mas o estrago já tinha sido feito. Rina achava que, a qualquer momento, alguém apontaria o dedo para ela, levantaria uma espada, subiria em cima da mesa.

— Jamais deveria ter dado ouvidos a Urameshi… — ela falou, encarando a comida apenas para manter a vista ocupada com outra coisa — Jamais devia ter concordado em vir pra cá.

Hiei, que até então também estava com os ouvidos presos às conversas ao redor, voltou-se para ela.

— Não achei que fosse do tipo que desiste.

— Não se trata de desistir.

Ela bebeu o resto da cerveja, contrariada. O sabor era péssimo, mas queria outra. Tentou também algumas colheradas da comida, que desceram com dificuldade — não pelo gosto, mas pelo bolo no estômago que agora se formava.

— Está arrependida? — Hiei perguntou.

— Sinceramente, não esperava ter que lidar com esse tipo de perseguição por aqui. Isso está me deixando paranoica.

— Se não tivesse vindo, estaria insatisfeita do mesmo modo.

— Talvez. Mas estaria segura. Em casa. Em um mundo que eu já conhecia. Onde eu já sabia me virar. Sem ter que ficar olhando por cima do meu ombro a cada segundo.

— E isso seria suficiente pra você?

Ela levantou o rosto. A expressão de Hiei era a mesma de sempre: séria, dura, sem tempo para bobagens.

A resposta de Rina foi um suspiro impaciente, frustrado, cansado.

— Vamos embora — ela falou — Esse lugar abafado está me fazendo passar mal.

Hiei terminou a cerveja em um único gole e se levantou, o olhar furtivo ainda escaneando a taverna uma última vez, como se querendo gravar cada um daqueles rostos na memória.

Na rua, o ar da noite parecia outro, mais leve e gelado. Deixaram o bar para trás, o andar agora um pouco mais rápido do que quando chegaram. O falatório do ambiente logo sumiu dos seus ouvidos.

As ruas continuavam cheias, mesmo de noite. Rina contou as moedas: ainda havia o suficiente para alguns suprimentos básicos. Ela adoraria também um banho quente e uma cama, mas já não tinha mais certeza que valia o risco.

Encontraram um armazém um pouco mais adiante, bem abastecido, com tudo que um viajante poderia precisar. Decidiram aproveitar para comprar comida, um rolo extra de gaze, alguns outros itens básicos. Rina também decidiu trocar a faca de combate que tinha ganho de Shigure por uma adaga — era menor, mais fácil de esconder, mais leve.

Em uma das paredes laterais, entre uma dúzia de outros cartazes, notaram um mapa afixado, já gasto, as bordas rasgadas, que mostrava toda a região. Um X vermelho indicava a localização do entreposto, com a cadeia de montanhas ao sul, o território de Mukuro ainda mais para baixo.

— Onde estamos indo? — Rina perguntou, tentando entender o mapa.

Hiei o estudou por um tempo. O mapa era elaborado, com marcações de terrenos e legendas visíveis. O entreposto comercial ficava bem no centro.

— Por aqui — ele apontou, indicando uma região ao norte, não muito longe dali.

— Parece perto.

Rina inspirou fundo. Uma certa inquietação nasceu no seu peito. Ansiedade talvez. Ou medo. De encontrar Haru ou do que viria depois?

Olhou de relance para Hiei. Ele retribuiu por um segundo, mas voltou a encarar o mapa sem dizer uma palavra. Ela pensou em perguntar de novo quais seriam seus planos depois que chegassem ao destino, mas, ao mesmo tempo, não queria ouvir a resposta.

Voltou, então, ao balcão para pagar pelas compras. Pediu também uma cópia do mapa, apenas para tê-lo consigo. Hiei manteve-se atrás dela, olhos ainda fixos em algum lugar da parede.

Estava contando as moedas quando ouviu um movimento brusco vindo dele. Um farfalhar de papéis. Se virou, curiosa, mas Hiei já estava ao seu lado, a cara fechada.

— Termine de pagar e vamos embora — falou, lacônico, de um jeito tão duro que ela nem ousou perguntar o que era.

A comerciante que terminava de separar os itens pareceu não notar. Ou, ao menos, não se importar. Talvez estivesse acostumada com todo tipo de gente e atitude passando por ali.

Rina jogou tudo dentro da bolsa e saíram juntos.

— O que houve? — perguntou assim que pisaram na rua.

Os passos dele eram firmes, mas não afobados. O rosto imperturbado, mas atento. Hiei apenas deu a ela um papel amassado, do tamanho de um pequeno pôster, que provavelmente havia arrancado da parede do armazém.

Rina pegou o papel. Desamassou. E o corpo inteiro gelou.

Era um cartaz de "Procura-se". Logo abaixo, um desenho rudimentar que lembrava Rina, seguido de uma descrição detalhada que não deixava dúvidas. Um possível acompanhante era mencionado, com as características óbvias de Hiei. Em palavras garrafais, o nome "Yuuma". E, por fim, uma cifra com mais zeros do que Rina conseguia contar.

Ela parou de andar. Os dedos prendiam o papel com tanta força que ele já se amassava de novo, quase rasgando debaixo das unhas.

— Não pare no meio da rua — Hiei ordenou — Vamos embora.

Rina concordou, um pouco zonza. Se lembrou do sujeito na taverna, da conversa que ouviu mencionando o clã. Não eram coisas da sua imaginação. As pessoas dali sabiam. Com certeza haviam visto a oferta sobre sua cabeça.

Talvez os arqueiros soubessem também. Talvez o ataque da floresta não tenha sido acidente. Talvez os soldados de Mukuro não estivessem somente em uma patrulha de rotina. Nada daquilo foi coincidência ou azar.

Hiei havia arrancado o cartaz, mas o que isso resolvia? Outros estabelecimentos podiam ter um igual, e não apenas naquele entreposto comercial, mas em todas as cidades e vilas da região. Vai saber até onde aquela recompensa estava sendo divulgada?

— E agora?

— Agora nós saímos daqui e montamos acampamento. Nada mudou — Hiei respondeu, mas o tom estava ainda mais duro do que antes, a mão perto da espada, o passo apressado.

"Tudo mudou", pensou Rina. Cartazes com seu rosto estavam espalhados, uma soma de dinheiro considerável como incentivo. Qualquer um se sentiria tentado a atacá-los, literalmente qualquer um. Mesmo tendo cruzado uma cordilheira, mesmo tendo passado dias desde seu escape da fortaleza. Aquele papel na sua mão era só a confirmação do que vinha sentido o dia inteiro: que eventualmente, todos os olhos recaíam sobre ela.

No entanto, cruzaram todo o entreposto sem serem incomodados. Por via das dúvidas, Rina tocou na adaga para se certificar que ela continuava facilmente acessível. Seu coração batia forte, e ela só queria sair dali o mais rápido possível.

As lojas foram ficando para trás. A zona de comércio ia chegando ao fim, e eles continuaram se afastando sem ninguém os interromper. Só quando já estavam a uma boa distância, saíram da estrada. Olharam, furtivos, para trás. Ninguém por perto. Mas a sensação estranha de estarem sendo seguidos apareceu mesmo assim.

O terreno era plano naqueles arredores, plano demais, e precisaram andar por um bom tempo até encontrarem uma área com formações rochosas irregulares e pedregulhos altos o bastante para ocultá-los.

Ainda assim, o pressentimento de ter alguém nas suas costas não os deixou. Hiei notava também. Ele costumava ser bom em captar esse tipo de coisa, mas todas as vezes que olhava ao redor, a frustração crescia em seu rosto.

Talvez tenha sido por isso que não se contentou em parar em uma parte simples do terreno. Hiei preferiu escalar as pedras, subindo de uma em uma, urgindo Rina a fazer o mesmo.

Se embrenharam em uma parte que parecia ainda mais isolada, onde a vegetação rasteira era seca e marrom, e o chão, duro e macio ao mesmo tempo. As formações rochosas eram massivas. Escondiam raízes mortas em suas curvas bruscas, que, à medida que a noite caía, obrigavam Rina a andar com cada vez mais cuidado.

De repente, sentiu a terra se agitar debaixo dos seus pés. Ela olhou para o chão e viu que as raízes, que julgou estarem mortas, agora ganhavam vida e serpenteavam pelas pedras, como cobras em um deserto.

Rina não esperou para ter certeza do que via. Sacou a adaga como precaução e desviou da raiz, andando acelerada para alcançar Hiei.

As raízes, no entanto, continuaram a percorrer o solo, como se guiadas pelas vibrações que os passos dos dois faziam no terreno seco. Hiei notou a inquietação debaixo dos pés e se virou na direção de Rina. Se armou com a katana assim que viu que Rina também empunhava a adaga.

— As raízes — Rina apontou, em um sussurro nervoso.

O olhar dele se guiou até o chão. E uma das plantas rastejou até os dois, indo na direção dos pés de Rina. Ela pulou para trás como reflexo, e Hiei desceu a espada com força, cortando as fibras grossas. Se entreolharam, e Rina apenas acenou para indicar que estava bem.

Antes que Hiei pudesse guardar a espada, no entanto, novas raízes surgiram dos vãos entre as pedras, deslizando mais rápidas agora. Ele decepou mais uma, mas outras começaram a se enrolar em suas pernas com força, apertando seus músculos.

Hiei agia rápido, mas era como se as raízes se adaptassem à sua velocidade e respondessem na mesma altura, enroscando-se em dobro cada vez que uma delas era serrada.

Rina olhava atônita. Tentou se aproximar e usar a adaga para cortar algumas partes, mas quando fez isso, foi golpeada com força pela planta, e ela caiu sentindo o baque no peito. Levantou-se com pressa, um pouco em choque com a cena. Hiei a lançou um olhar apreensivo, mas continuava focado em se livrar das amarras.

Até que uma das raízes mais grossas subiu pelo seu tronco, serpenteando até encontrar seu braço e imobilizá-lo. Hiei praguejou. Ainda fez força para se soltar, mas ele era agora derrubado, os tentáculos comprimindo todo seu corpo, como se a planta o quisesse engolir e o levar para debaixo da terra.

— Hiei! — ela gritou.

E voltou a se aproximar, a tentar serrar os pedaços que o prendiam, mas a cada tentativa, era novamente chicoteada. A adaga não era tão eficaz, e, mesmo quando conseguia romper com uma das raízes, notava que elas se multiplicavam, se enrolando de tal força sobre ele que agora apenas parte do seu rosto estava visível.

Por um breve momento, tudo pareceu inevitável. Rina começou a olhar em volta, procurando algo que a ajudasse, algo que indicasse como arrancar aquela planta maldita dali, quando, sem que estivesse esperando, alguém surgiu do seu lado.

Alguém bem mais alto e forte. Uma espada em cada mão, o metal reluzindo no escuro.

Ela quase caiu para trás com o susto. Mas se recompôs no mesmo segundo, puxou a adaga e apontou a lâmina para o pescoço do estranho.

Rina o reconheceu na mesma hora. A pele avermelhada, a capa de couro: era o mesmo demônio que a observava na taverna. Provavelmente o mesmo que também os estava seguindo.

— O que pensa que está fazendo aqui? — ela perguntou.

— Vim ajudar seu amigo. Vocês parecem um pouco encrencados.

Rina manteve a arma em riste, não conseguindo pensar com clareza. Era apenas seu instinto de defesa falando. Chegou mais perto.

— Se tentar alguma gracinha, você morre antes mesmo que consiga gritar.

O youkai riu.

— Combinado — falou para ela.

E depois, olhou para Hiei, quase sendo sufocado pela planta.

Rina acompanhou de perto, sem mover a lâmina. E o demônio, em um golpe rápido, desceu as duas espadas na base da raiz. Outras surgiram, mas ele desmembrou cada uma com destreza e rapidez, até que a maioria estivesse morta — e, as que restaram, serpentearam de volta para as frestas das rochas, liberando Hiei.

Hiei arfava, mas se ergueu de um salto assim que se viu livre. Porém, no instante em que se pôs de pé, sacou a katana e mirou a espada no peito do desconhecido. Rina foi para o seu lado, a adaga ainda em riste.

O demônio nem pareceu se abalar.

— Quem é você? — Hiei perguntou.

— Alguém que acabou de salvar sua vida.

— A troco de nada?

— É claro que não, o que acha que eu sou, algum bom samaritano? Estou sendo pago para garantir que cheguem ao destino de vocês. Muito bem pago, devo acrescentar.

Rina acirrou a expressão. Apertou a adaga com ainda mais força, esticou mais o braço.

— Do que está falando? Quem está te pagando?

— Alguém que quer você viva — falou, olhando para ela — Acho que sabe de quem estou falando. Estão indo se encontrar com ele.

O tempo parou. Rina abriu a boca involuntariamente, o cérebro dando um nó.

— Não precisamos de guarda-costas — Hiei falou — Pegue o dinheiro que recebeu e nos deixe em paz.

— Haru mandou você? — Rina perguntou consternada, a ficha caindo — Mandou você pra nos ajudar?

— Como falei, é do interesse dele que você chegue viva ao destino. A ajuda ao seu colega aqui foi cortesia. Mas meu contratante também mandou um recado. Novas coordenadas. A localização original foi comprometida e ele precisou se refugiar em outro lugar.

Rina e Hiei se olharam, nenhum dos dois muito confiantes. E se fosse uma armadilha? E se não fosse?

Rina abriu a bolsa e puxou o mapa que tinham comprado. Desdobrou o papel e o segurou na frente dele com uma das mãos, a outra ainda agarrada na adaga.

— Onde? Aponte aqui.

Ele correu rapidamente os olhos pelo papel, tentando se localizar. Quando encontrou o que queria, indicou com o dedo.

Era para outra direção. Bem mais ao leste. Bem mais longe.

— Como sabemos que não está mentindo? — Hiei perguntou.

O youkai apenas se virou para ele. Tinha o semblante calmo, mas também marcado pela experiência. Havia recolocado as duas espadas curtas na cintura, e em nenhum momento fez menção de pegá-las de novo — mas já tinha demonstrado que saberia as manejar com excelência se fosse preciso. A própria maneira como conseguiu os seguir sem ser visto já indicava uma vivência acima da média.

— Fui pago para repassar a informação. O que decidem fazer com ela não é problema meu. Mas seria interessante que me ouvissem — Gintaro fez uma pausa. Se voltou para Rina novamente — Parte do meu pagamento só será feito quando você chegar, então me é conveniente que isso aconteça logo. Se oferecerem resistência, posso eu mesmo fazer o trabalho.

— Encoste nela e você morre — rosnou Hiei, a espada voltando para a posição de ataque.

Gintaro o olhou com uma expressão divertida no rosto.

— Relaxe, espadachim. Prefiro parceiros cooperativos. Mas meu compromisso é claro: ela chega viva, com ou sem você.

Hiei ficou em silêncio, analisando o demônio à sua frente. Aos poucos afastou a espada — mas não totalmente.

— Me dê um motivo pra te deixar vivo.

— Acabei de salvar sua vida. Dos dois, na verdade, já que ela seria a próxima. Poderia facilmente ter deixado que morressem por essas plantas e jamais seriam encontrados.

— Não se estiver atrás da recompensa.

Ele riu.

— Se eu quisesse recompensa, já teria levado a moça para longe daqui enquanto você se afogava debaixo da terra. Mas esse dinheiro não me interessa. O que vou receber pelo trabalho é três vezes o valor do cartaz.

Mas Hiei ainda parecia cético. Pelo canto do olho, procurou por Rina. Ela estava estática, muda, o mapa ainda numa mão, a adaga na outra.

— Vocês não conhecem muito a região, não é? — o demônio continuou — Essas plantas costumam atacar depois que o sol cai, guiadas pelo som. Não devem voltar a incomodar esta noite, mas seria bom tomar cuidado daqui pra frente. Não queremos que nada aconteça com a senhorita aqui, não é?

E ele se virou para Rina, com um sorriso galanteador.

— Qual é o seu nome? — ela perguntou.

— Gintaro, mercenário a seu dispor — respondeu, com uma reverência.

— Foi realmente enviado por Haru? Era por isso que estava me observando na taverna?

— Não só por isso, se é que me entende. Devo dizer que, pelo cartaz, não imaginava que fosse tão… — Gintaro falou, a olhando de cima a baixo.

Rina piscou, sem reação. Ele estava flertando com ela?

Deu um passo para trás, um pouco desconcertada. Mas um pouco lisonjeada também.

Hiei apenas observou a conversa em silêncio, mas os dentes estavam trincando de tão apertados. Os dedos seguraram com mais força a empunhadura da espada.

— Ok, seu recado está dado. Você não tem mais o que fazer aqui — Rina falou — E diga àquele cretino que não precisamos de ajuda.

— Fique tranquila, boneca, não vim bancar a babá. Apesar que não me importaria nem um pouco em passar uma noite ou duas ao seu lado… Mas apenas se mantenham na rota e não teremos problemas — E, ao se virar para Hiei, completou — Agora vou pedir com educação que abaixe essa espada, antes que eu seja obrigado a me defender. Sou um aliado, mas não tenho sangue de barata. E, sendo sincero, meu compromisso é apenas com a moça; você é descartável.

Hiei pensou mais um pouco, no rosto a expressão de quem queria decapitar o sujeito, visivelmente incomodado. Mas baixou a espada.

— É melhor que esteja falando a verdade. Ou não vai viver o bastante pra mentir de novo.

— Não é comigo que precisam se preocupar — Se voltou para Rina novamente, fazendo um cumprimento educado — Cuide-se, senhorita. Sua vida vale ouro por aqui. E não demorem. Nem me obriguem a interferir de novo.

Rina não respondeu. Baixou a adaga também, os olhos fixos sobre o homem, que, com um aceno, sumiu da vista dos dois.

Hiei guardou a katana. Olhou demoradamente para a direção que o youkai tinha seguido, e depois se virou para Rina, ainda no mesmo lugar.

— Quem Haru pensa que é? — ela falou, a voz baixa, mas, ainda assim, pesada.

Hiei apenas inclinou a cabeça, atento àquela reação tardia.

— Contratar alguém pra nos vigiar? Pra nos seguir? — Rina soltou o ar pelo nariz, uma cólera repentina começando a surgir — Ele acha que precisamos da ajuda dele, por acaso? O que o filho da puta quer? Nos controlar? Me controlar?

Ela apertava a adaga tão forte que parecia querer fundir os dedos com o metal da empunhadura. A ira parecia uma represa prestes a romper uma barragem.

Até que Hiei a interrompeu.

— Me ataque — ele falou.

Rina o fitou sem entender. Ainda estava possessa com o que tinha acabado de acontecer, a raiva querendo transbordar, a cabeça somente em Haru e Gintaro.

— O quê?

Hiei ergueu a katana contra ela.

— Eu disse, me ataque.

— Por quê? O que está falan-

Mas Hiei não a deixou terminar de falar. Avançou contra ela, forçando Rina a se desviar no último segundo e levantar a adaga.

— O que diabos está fazendo?!

— Um treino. Você precisa estar preparada. Me mostre do que é capaz.

Ele investiu contra Rina mais uma vez, e ela mal teve tempo de reagir. Apenas deu alguns passos para trás, brandindo a adaga em uma mistura de defesa e ataque. Procurou avançar, achar uma abertura, mas Hiei bloqueava cada tentativa, exigindo dela uma perícia que simplesmente não tinha. Até que Rina perdeu o equilíbrio e caiu sentada. O viu se aproximar com a espada empunhada, os olhos focados nela.

Não achou que ele levaria à cabo o ataque. Que ele iria parar antes de chegar até ela, pausar a ofensiva no ar. Mas cada passo de Hiei vinha carregado de determinação, e ela levantou o braço em um gesto defensivo, a energia expandindo abrupta e a envolvendo, empurrando o ar para frente.

Hiei estancou, sentindo o youki de Rina como um golpe. Sorriu satisfeito.

— Agora a controle — ele falou — Considere isso sua primeira lição.

— Estou controlando!

— Não. Suspender ou explodir não é controle. Precisa aprender a manipular, usar com intenção. Ou não serve pra nada.

— Como assim?

— E ainda assim, não está dando tudo que tem, não é? O que está te segurando? — Hiei questionou, mantendo a espada erguida — Não quer que eu acredite que a herdeira de uma linhagem como a sua não consegue mais do que isso.

— Isso é o suficiente.

— Não é — E ele avançou mais um pouco, furando o bloqueio dela.

Rina começou a se arrastar para trás, tentando se afastar. Tentou levantar, mas uma protuberância no chão a fez cair novamente.

— Por que está fazendo isso?

— Você tem potencial, e sabe disso. Sabe que não é uma youkai ordinária. Não disse que não quer ser protegida o tempo inteiro? Então me mostre.

Mais um passo. O fio da lâmina quase chegava em seu rosto.

— Eu não quero, não assim! — Rina esbravejou, mostrando os dentes. Ainda assim, deixou mais um pouco da energia fluir, um lapso momentâneo. A segurou antes que escapasse demais — Nem tudo tem que ser do seu jeito, Hiei!

— Por que não?

Rina sentiu todo o corpo formigar. Uma queimação surgiu de alguns pontos, a dor pulsando de maneira instável. Era como se todo seu organismo estivesse rachando. No peito, no entanto, a sensação era outra. Uma alteração no seu ritmo cardíaco já indicava a iminência de algo muito mais forte querendo se rebelar. Muito mais indomável.

Algo bom.

Que ela lutou para manter escondido.

— Você não ia entender. E acredite em mim, também não ia gostar.

— Está com medo — ele falou.

Rina não negou nem confirmou. Apenas se manteve inerte, olhando para ele com faíscas em suas pupilas, o braço ainda protegendo o rosto, a energia bruxuleante entre eles.

Ele estreitou os olhos, começando a se irritar com a falta de reação.

— Merda, Rina! Pare com esse teatro! — Hiei exclamou.

Levantou a espada de maneira ofensiva e se preparou para descer no braço dela, certo de que o choque a comandaria a agir.

A katana cortou o ar e a barreira de energia de Rina. Mesmo com alguma resistência, o metal chegou a tocar em seu braço — mas antes que pudesse se afundar na pele, Rina soltou o grito que estava preso na garganta. As pálpebras fecharam. O youki, antes contido, explodiu.

E Hiei foi arremessado para trás, a pressão o afundando na pedra maciça e o arrastando por metros. A espada voou para longe da sua mão, e um filete de sangue escorreu do nariz.

Rina abriu os olhos. Se levantou. Estava tremendo, como se algo tivesse se rompido dentro dela. Mas não assustada, sequer arrependida. A aura dela agora emanava como a lava quente de um vulcão que acabara de acordar.

As rochas ao redor estavam rachadas, o próprio chão quebrado por onde Hiei tinha sido arrastado. A vegetação escassa tinha sido carbonizada. Todo o ar parecia carregado de estática.

Caminhou até ele, caído no chão a alguns metros dali. Várias pedrinhas estalaram ao mesmo tempo.

Hiei apoiou-se com o cotovelo. Além do sangue do nariz, o rosto estava coberto de poeira. A blusa estava com rasgos.

Rina tinha os olhos brilhando quando se agachou diante dele. Hiei tossiu, e estava prestes a fazer algum comentário, mas Rina não deixou. Antes que ele esboçasse a menor reação, agarrou seu pescoço, comprimindo a traqueia. Ele arfou, surpreso com o gesto. Segurou o pulso de Rina. O ar começou a faltar.

— Nunca mais ouse encostar essa maldita espada em mim — ela falou, em um tom que nem ela reconheceu.

Ela pressionou um pouco mais, deixando que ele visse o prazer aflorando em seu rosto à medida que ela o sufocava, o olhar ferino e afiado. Que gosto teria o sangue de Hiei?

Ele, em contrapartida, a encarava com a intensidade de quem tenta assimilar uma nova circunstância. Como se a estivesse vendo pela primeira vez.

— E pare de me testar — Rina completou, antes de o apertar mais um pouco.

Soltou sua garganta bem devagar, como se não quisesse deixá-lo ir. Como se quisesse que as marcas que seus dedos estavam deixando ficassem permanentes.

Hiei puxou o ar com força quando teve a garganta liberada, levando a mão ao pescoço. Incrédulo.

Rina se levantou e continuou olhando para ele, saboreando a sensação de tê-lo a seus pés, não querendo deixar a energia morrer.

Mas então sorriso desvaneceu. O prazer virou asco — não dele, mas de si mesma. Uma vergonha por como tinha se sentido — por como tinha se permitido sentir, se permitido gostar — a acometeu. E ela desviou a cara, fugindo do peso do julgamento dele. Era exatamente aquele tipo de sentimento que tentou esconder a vida toda.

Começou a se afastar. O coração de Rina parecia descontrolado, o peito ardendo de tão quente enquanto a sensação ia lentamente sendo dissolvida. Era como se tivesse acabado de correr uma maratona.

Mas a voz de Hiei veio sem que ela esperasse.

— Onde pensa que vai? Estamos apenas começando.