Visceral

21 Aprendizados


— Desde quando você esconde isso? — Hiei perguntou, sem tirar os olhos dela.

Rina ficou imóvel. Ainda sentia um formigamento passeando pelo corpo, como se resistindo a deixá-la. Pequenas explosões internas, que iam de uma extremidade à outra e prolongavam a sensação que tinha acabado de experimentar.

— O que você acha? — respondeu, a voz mais trêmula do que gostaria. Torceu para que ele não tivesse percebido.

— Por quê?

A poeira entre eles havia baixado. Os sons da noite voltavam aos poucos. O vento, os insetos, as aves noturnas.

Hiei deu um passo em direção a ela. A proximidade dele começava a ser alarmante. Rina preferia que ele ficasse o mais longe possível, que nem chegasse perto — mas, apesar disso, ela continuou onde estava, incapaz de se afastar.

— Eu… — A resposta não saiu. Rina desviou o rosto — É melhor assim.

— Ficou maluca? — Hiei deu mais um passo — Poderia dizimar metade daquele centro comercial se quisesse.

— Mas eu não quero. E também não quero querer.

Hiei continuava encarando-a de um jeito intenso, arrancando dela uma gama de sentimentos contraditórios. Rina sentia asco, sentia vergonha, sentia raiva. Mas também sentia orgulho, muito. Tinha sido bom dominar Hiei daquela maneira. Comprimir sua garganta, sentir o pomo-de-adão travar debaixo dos seus dedos, o ar sendo impedido de chegar aos pulmões.

Era melhor ainda saber que poderia fazer de novo. Só de pensar, a vontade de repetir o feito subia pela espinha e eclodia em sua cabeça — mas ela forçava tudo para baixo. Aquela não era ela. Não podia ser.

— Quem está querendo enganar? — Hiei insistiu — Eu vi no seu rosto. Vi o prazer quando apertou meu pescoço.

Ela travou, sem conseguir negar. A boca secou. Sua energia pulsava nas veias como uma recordação de que ainda estava ali, de que podia explodir mais uma vez a qualquer momento. Precisava sair de perto de Hiei.

Mas, novamente, não deu nem um passo.

— Me mostre de novo — ele falou.

Rina arregalou os olhos.

— Não — respondeu, decidida — Não posso.

— É claro que pode.

— Não é seguro. Posso te machucar, mesmo sem querer.

Um sorriso torto surgiu na boca de Hiei.

— Eu aguento.

O formigamento se espalhou de novo pelo corpo de Rina. A maneira como Hiei a olhava era quase indecorosa. Ele foi a primeira pessoa a testemunhar uma demonstração do seu poder, seu poder real — não seu truque de sumir, não a energia limitada que deixava transparecer — e pedir por mais.

Rina não sabia se ele era insano, ou se insana era ela por cogitar atender o pedido. Por querer se soltar, depois de anos se reprimindo.

E quase como uma resposta, sua energia pulsou, viva, selvagem, como um animal enjaulado querendo escapar. Um espasmo de excitação piscou dentro dela. As barreiras do seu controle começaram a sumir, fugir das suas mãos.

Os olhos de Rina se perderam nos dele. E de repente, o ar estalou ao seu redor.

O fluxo que ela não conseguia mais conter surgiu pouco a pouco, até estourar de uma só vez, feito uma represa. Hiei estava mais preparado agora, e ergueu os braços na frente do rosto para aparar o impacto. Conseguiu se manter de pé, mas ainda assim foi arrastado alguns centímetros para trás, seus calcanhares esmagando o chão de pedra.

A encarou com expectativa, esperando que ela fosse até ele — o que ela fez. Deixou que Rina chegasse bem perto, apenas para sumir da sua frente, ganhando distância e forçando-a a seguir.

Ela franziu as sobrancelhas, interessada naquela proposta, e começou a correr em sua direção. Não era tão rápida quanto ele, mas se sentia revigorada. E, principalmente, motivada, com a sensação de que conseguiria fazer tudo que quisesse. Inclusive alcançá-lo.

Hiei parou de supetão e olhou para ela. Sem pensar, Rina saltou. Mirou um soco — que quase o atingiu. Ele desviou, na hora exata e sem fazer esforço. Rina não desistiu e tentou novamente, mas dessa vez Hiei agarrou seu punho no ar. Ela ainda forçou, sentindo seu youki queimar por todo seu corpo enquanto colocava tudo que tinha naquele golpe, e chegou a ver a mão de Hiei fraquejar — mas ele não a soltou.

— Como eu imaginei — Hiei falou — Todo esse poder, mas não sabe o que fazer com ele.

Rina mostrou os dentes, irritada consigo mesmo — e com ele, pelo comentário. O empurrou com força. Ele largou seu punho, saltou para trás dela, e a acertou com um golpe na lombar. Rina sentiu a dor reverberando até a bacia e girou na direção de Hiei, ainda mais nervosa do que antes.

— Está deixando todas suas defesas abertas. Quem te ensinou a lutar assim?

Ela se impulsionou mais uma vez até ele, fechando os olhos e se concentrando para expelir sua energia como um jato, massivo o suficiente para esmagá-lo. Hiei notou, e se protegeu do choque como antes. Dessa vez, quase caiu, a blusa rasgou mais um pouco, mas quando Rina voltou a olhar, ele a encarava com os olhos acirrados.

— Se continuar fazendo isso, tudo que vai conseguir é exaustão — ele a reprimiu.

— O que você quer de mim? — Rina perguntou, exasperada.

— Me convença que não é um caso perdido — Hiei falou, com um brilho estranho no olhar — Se conseguir me derrubar, admito que esse seu poder não é só espetáculo.

Rina fez um novo avanço contra ele. Tentou uma sucessão de socos, as duas mãos se alternando. Rápidas. Tortas. Incisivas. Hiei desviou de cada um, como se prevendo cada gesto dela.

— Mais rápido, Rina — ele disse, sem nem parecer cansado.

Ela já suava. Os braços doíam, a respiração vinha curta. Mas o que mais incomodava era o tom calmo dele, irritantemente calmo.

Investiu novamente: um ataque alto, depois baixo, uma tentativa de chute. Hiei continuava evitando tudo sem dificuldade. Ela estava mais rápida, os movimentos mais potentes, o fôlego aumentado — mas ainda assim, estava longe de se igualar a ele. A frustração não demorou para alcançá-la. Sabia que não ia conseguir aguentar por muito mais tempo assim. Seus joelhos já tremiam de cansaço, o peito estava em brasas, o pulmão queria sair pela boca.

— O que está tentando provar? Sabe que é mais rápido do que eu! — ela falou, irritada com a maneira que ele escapava dos seus golpes.

— Se sabe que não vai me ganhar na velocidade, porque continua tentando desse jeito?

Rina então parou. A energia que ela por tantos anos coibiu agora dançava livre, realçando todos os seus sentidos. O instinto de sempre começou a aflorar e seus olhos prateados o espreitavam como se ele fosse uma caça. Um troféu.

Ela inspirou fundo. O rosto parecia pegar fogo, mas ela não desistiria. Iria usar até a última gota do que tinha dentro de si, nem que isso acabasse com ela depois.

E então sorriu para ele, de um jeito felino e desafiador.

— Por que você não tenta me derrubar? — provocou.

Hiei riu.

— Acha que eu não consigo?

Rina recuou um passo, abaixou o corpo, posicionou os braços em posição de defesa. Hiei achou graça e se adiantou, investindo contra ela. Na mesma hora, Rina chutou o chão com força. Pequenas pedrinhas se esfarelaram e levantaram em uma nuvem de poeira fina que chegou até o rosto dele.

Hiei parou, mas mal se deu ao trabalho de proteger a face.

— É sério? Acha que esse truque barato iria me distrair?

Ela nem respondeu. Quando ele avançou de novo até ela, Rina repetiu o gesto. Mais partículas se espalharam pelo ar.

O braço dele se ergueu dessa vez, a fisionomia se fechou, irritado com aquela artimanha que ela usava pela segunda vez. Ótimo. A atenção dele estava exatamente onde ela queria.

Pois dessa vez a perna de Rina não voltou para a posição inicial; em vez disso, aproveitou o microssegundo de distração dele para girar o quadril, descer o pé em um arco, e acertar em cheio o tornozelo de Hiei. O movimento, finalmente, o pegou desprevenido.

A rasteira teve o efeito esperado. A perna foi jogada para o lado e ele perdeu o equilíbrio momentaneamente — o bastante para ela o chutar novamente. E as costas de Hiei se estatelaram no chão.

Rina sorriu com a cena. Aproveitou o momento e, antes que Hiei conseguisse se erguer, subiu em cima dele, travando seu corpo com o dela, prendendo os dois braços firmes contra o solo e o empurrando para baixo.

Hiei a olhou perplexo por um segundo. Depois, indignado.

— Que trapaça idiota foi essa?

— A culpa é minha se você caiu no truque mais manjado do mundo? — ela falou, arfando de exaustão.

Ele apenas mostrou os dentes em resposta.

— Qual é, a única regra era te derrubar, não era?

Ele ainda manteve os olhos semicerrados um instante, mas por fim o semblante sisudo se transformou em uma certa satisfação. Contida.

— Ok, nada mau — ele concedeu. Contrariado, mas nem tanto.

Rina o olhou de cima. E sorriu de volta, igualmente satisfeita.

— Ainda precisa de polimento. Mas com tempo, pode mesmo vir a ser como os Yuuma das lendas.

O sorriso sumiu. Virou espanto no rosto de Rina.

— O quê…?

Ela afrouxou a pressão e ele ameaçou soltar os braços, mas ela o pregou de volta onde estava.

— Eu disse 'pode' — Hiei falou, com uma risada breve.

Rina continuou o encarando de cima, a cabeça dando voltas sem saber em qual pensamento parar. Aquilo era errado. Sempre se convenceu disso. Mas ao mesmo tempo, parecia tão certo. Tão natural.

— Meu poder é uma maldição — murmurou, como se admitir isso fosse uma derrota.

— Então use-o a seu favor.

A respiração acelerou. E ela sentia o peito de Hiei subindo e descendo também, o sangue correndo pelas veias do pulso que ela segurava contra o chão, os músculos do seu braço cortado se retesando, rígidos e molhados de suor.

— Ou vai dizer que não gosta disso? —Hiei continuou.

— Não vou negar que é bom calar sua boca um pouquinho.

— Não seja pretensiosa. Eu peguei leve com você. A situação seria outra se eu estivesse lutando pra valer.

A sobrancelha de Rina se ergueu. Ela fez ainda mais força sobre ele, deixou o riso tocar seus lábios de novo.

— Você está petulante demais pra quem está sendo dominado…

— Acha mesmo que está me dominando?

Ele testou a força dela, tensionando os músculos dos braços. Rina sentiu a resistência e apertou mais, as coxas pressionando contra os quadris dele para manter a posição. O contato a causou uma sensação indesejável, mas que ela não afastou.

— Está tentando se soltar? — ela provocou, a respiração mais pesada agora.

— Estou vendo até onde você consegue me segurar.

Os olhos deles se encontraram. A tensão no ar mudou. Ficou densa. Elétrica.

— Consigo até onde eu quiser — Rina respondeu.

A pressão que vinha dele encontrava com a dela e era imediatamente sufocada. Rina usava toda sua força para o manter pregado ali, apenas para que ele engolisse o jeito arrogante.

Estava exausta. Não queria que ele visse isso, mas estava ficando difícil de esconder. Mal conseguia manter os olhos abertos. Nunca tinha usado tanto seu youki, e ele queimava como a gasolina de um motor sendo consumido. Logo ela estaria esgotada.

— Eu sempre soube que você era uma predadora…

O coração dela deu um pulo.

Hiei a essa altura tinha parado de lutar. Rina o contemplou por um instante. Segurá-lo no chão não era só uma demonstração de força — era um lembrete de que Hiei estava ali, sob ela, porque ela queria, ela o tinha deixado assim. E ele não desviava os olhos. Nem tentava mais virar o jogo. Estava gostando de ficar preso?

Então sentiu Hiei se ajeitando debaixo dela. Um movimento sutil, mas que fez Rina sentir um arrepio. O volume da virilha dele ficou evidente, impossível de ignorar — assim como o súbito calor subindo pelo corpo de Rina, vindo da parte interna das coxas de um jeito perigoso.

Os olhos de Hiei agora a encaravam como se a quisessem e Rina esqueceu de tudo que estava pensando naquele momento. Apenas devolveu o olhar, já inebriada — pelo próprio poder, por aquele raro e efêmero momento de submissão dele.

Ela se inclinou. Só um pouco, para testá-lo. Depois um pouco mais. Quando viu, já estava perto o bastante para ouvir sua respiração, notar os pequenos arranhões que ele tinha pelo rosto, sentir o cheiro da sua pele.

A boca dele pairava debaixo da sua de um jeito convidativo, tão próxima que o menor dos movimentos seria suficiente para juntá-las. Ela cogitou por um segundo, mas não fez nada, apenas se manteve ali, quase o tocando, deixando que ele quase a sentisse — apenas para tentá-lo um pouquinho mais.

Afinal, a primeira vez não tinha significado nada, ele mesmo tinha dito. Essa também não precisava significar. Poderia ser apenas o desejo tomando forma.

Certo?

Mas mesmo enquanto pensava isso, uma tontura súbita a atingiu. A visão começou a escurecer nas bordas. O youki que a incendiava como fogo nas veias agora parecia sugar toda sua energia vital, a esvaziando.

Merda.

— O que foi? — Hiei perguntou de repente, o tom inegavelmente preocupado.

Rina piscou os olhos devagar.

— Eu… — As palavras se perderam. As mãos que o prendiam já não tinham mais força.

Rina tentou levantar o tronco, mas era como se o corpo estivesse mil vezes mais pesado. Hiei segurou seu ombro, mas não adiantou muito — ela apenas fechou os olhos e se deixou desabar sobre o peito dele, cansada demais para qualquer outra coisa.

(…)

Rina acordou com a cabeça latejando. Quando abriu os olhos, a claridade do dia fez a dor pulsar ainda mais forte e queimar suas retinas, vários pontos brancos de luz aparecendo no canto da visão. Ela precisou esfregar os olhos e esperar alguns segundos antes de tentar se mexer.

Estava com a manta que tinha ganhado de Kangetsu cobrindo parte do corpo, enquanto Hiei a observava sentado em uma pedra perto dali.

— Achei que não ia acordar nunca — ele falou.

Rina soltou um grunhido, apoiando o cotovelo no chão.

— Bom dia pra você também.

Ela se sentou com dificuldade. O corpo inteiro reagiu com o movimento, como se as articulações fossem feitas de plástico, prestes a quebrar. As lembranças do dia anterior começaram a voltar uma a uma, uma catarata de cenas desordenadas. Um enjoo bateu em seu estômago.

— Como se sente?

— Péssima, se quer mesmo saber. Pior do que qualquer ressaca que já tive.

— Coma algo — Hiei falou, apontando para a bolsa com mantimentos perto dela.

— Não estou com fome.

— Seu corpo não está acostumado a suportar todo seu youki daquele jeito, então entrou em colapso. Precisa aprender a lidar com isso.

Ela continuou sentada no chão, o estômago embrulhado e as têmporas quase estourando. Rina queria poder voltar a dormir para esquecer a dor, mas sabia que aquela não era uma opção. Então apenas dobrou os joelhos para cima e escondeu o rosto entre eles, torcendo para a vertigem passar.

— Quando foi a última vez que usou sua energia daquele jeito?

— Quando explodi o laboratório de Mukuro. Você disse que viu nas minhas memórias — respondeu sem olhar para ele, as mãos ficando frias e a voz, abafada.

— E antes disso?

Rina levantou a cabeça. Pegou o cantil para tomar um pouco de água, mas até isso a fez enjoar. Fechou os olhos por um instante, esperando que a indisposição fosse embora — o que não aconteceu.

Hiei, enquanto isso, ainda a encarava, esperando uma resposta.

— Foi há muito tempo — ela respondeu mal-humorada — Que diferença isso faz?

— Aos nove anos?

O corpo inteiro de Rina congelou no lugar. A cólica a contorceu por dentro, suas tripas parecendo trapos de pano sendo torcidos por alguém. Ela não respondeu. Não conseguiu nem abrir a boca.

— Foi assim que seus pais morreram, não é? — Hiei perguntou, incisivo e com precisão cirúrgica — É por isso que passou a suprimir sua energia?

Uma nova pontada. E mais uma, e mais uma. Tudo doía. As palavras de Hiei soaram como sal jogado em uma ferida recém aberta, piorando o que já estava ruim.

— Eu não quero falar sobre isso.

Mas Hiei continuou a fitando, os olhos analíticos pregados em cima dela.

— A culpa deveria ter sido motivo pra aprender a controlar seu poder, e não restringir.

Culpa? — Uma risada amarga saiu da boca de Rina sem que ela conseguisse controlar. Ela balançou a cabeça, incrédula — É, bem que eu queria que fosse isso mesmo. Seria mais fácil de justificar. Mais bonito também.

Hiei franziu a testa, estudando com atenção cada pequena expressão no rosto dela.

— A única culpa que eu tenho é por não ter sentido culpa o suficiente. Na hora, eu só queria mais — Rina completou.

— O que está querendo dizer?

Ela suspirou, menos de cansaço do que de nervoso. As lembranças borbulharam dentro dela, quase a afogando: a casa desmoronada, os pais soterrados debaixo dos escombros, a euforia que ela não sabia explicar.

— Que inferno… Me deixa em paz, Hiei.

O rosto de Rina sumiu entre os joelhos novamente. Ela tremia tanto que precisava segurar as próprias mãos para que ele não visse.

— Do que tem medo realmente? De perder o controle? — Hiei a escrutinava — Ou é medo de não querer o controle de volta?

A cabeça de Rina se ergueu de súbito, como se a pergunta a tivesse puxado para cima feito um anzol. Mas os lábios estavam crispados de raiva.

— Qual parte de "me deixa em paz" você não entendeu? — ela falou, a voz alterada, ríspida.

E olhou para o alto, soltou o ar com força, tomando coragem para encarar o inevitável.

— Você tem razão, eles morreram por minha causa. Eu mandei a casa pelos ares. Parabéns, Hiei, era isso que queria ouvir? Tá feliz agora?

Um silêncio pesado caiu sobre os dois, denso como chumbo. Mas o coração de Rina parecia um tambor, a adrenalina já corria solta pela veia e tudo que ela sempre reprimiu parecia querer vir à tona como uma avalanche que ela não conseguia mais segurar. As palavras escaparam antes que desse conta ou que conseguisse interrompê-las, atropelando os pensamentos.

— Só que, quando eu vi tudo destruído, a primeira coisa que eu pensei não foi "nossa, o que foi que eu fiz?", foi "será que eu consigo fazer de novo?". Era como se a morte deles tivesse sido só, só… — Os ombros dela se apertaram — sei lá, só um detalhe! Uma porra de um detalhe. Que na hora não importava. Que eu só entendi quando já era tarde demais. Entendeu? Entendeu por que eu preciso me controlar? Por que eu não quero essa merda de poder?

— Isso não é controle, é fuga.

Ela não conseguiu respondê-lo. Era inacreditável que essa fosse a única coisa que ele tinha a dizer.

A conversa deixava um gosto ruim na boca e ela achava que iria vomitar a qualquer momento. Hiei a fitava com aquela intensidade que a deixava nua. Exposta. Ele não precisou nem fazer a pergunta seguinte — ela viu nos olhos dele exatamente o que estava pensando. Pois ela tinha chegado a pensar a mesma coisa.

— E antes que pense alguma coisa, não, eu nunca quis matar meus pais! Nunca! Não era minha intenção, nunca foi. Quando eu me dei conta... — Rina engoliu em seco. A saliva arranhava o céu da boca, feito areia. O desespero da lembrança assumiu o controle — eu quis morrer junto. E jurei nunca mais permitir aquilo. Não podia arriscar.

Uma sensação gelada começou a se espalhar pelo peito de Rina. Ao contrário da noite anterior, quando o calor dominava, agora era como se ela tivesse sido lançada nas profundezas de um mar gelado, onde não conseguia respirar.

— E o que quer evitar? Encarar sua natureza, quem realmente é?

Por um tempo, nenhuma resposta. Apenas a respiração pesada de Rina. O olhar de Hiei era cada vez mais difícil de suportar. E, quando falou, nunca soou tão cansada.

— Eu quero evitar uma nova tragédia. Só isso, Hiei.

— Por que não abre mão da sua adaga então? Não vi você tendo problema em fincar essa lâmina em ninguém até agora.

— Não seja idiota. Essa faca não causa um quinto do estrago. Não me dá um quinto de-

Ela parou de falar. Comprimiu os lábios, quebrou o contato visual.

— De satisfação, não é? — ele completou, acirrando a expressão — Você não tem raiva de Haru por ter nascido youkai. Tem raiva de si mesma por gostar de ser uma.

— Eu odeio ser uma youkai — ela falou, em um tom grave.

— Odeia? Não era horror que eu vi no seu rosto ontem à noite.

Rina desviou o olhar. Ele deu um passo na direção dela.

— Pare de se esconder atrás de uma máscara. Só covardes fazem isso — Hiei a repreendeu — Você nunca foi a vítima indefesa da sociedade que contou pra Shigure.

— Eu fui!

— Você fingiu ser. Porque era mais cômodo.

— É tão grave assim não querer ser um monstro?

— Você não é um monstro.

Voltou a encará-lo. Os olhos dela eram vacilantes, os dele, implacáveis. Precisou segurar firme a própria mão, o medo mortal de admitir o que tinha tanto tentado enterrar praticamente a envelopando de dentro para fora.

— Você não entende… Quando meus pais morreram e eu senti mais prazer que remorso… O pior não foi a morte deles. Foi o impulso. A vontade de querer fazer de novo. É isso que me assusta! É o medo de ceder a essa vontade, de não conseguir evitar, de matar quem eu não quero, e pior… gostar de fazer isso — disse — É isso que eu sempre tentei esconder de todo mundo. E não só dos outros… de mim também.

— E por acaso funcionou?

Rina inspirou fundo. Já nem sentia mais as dores na cabeça ou no corpo, apenas o nó na barriga, o coração querendo disparar e sair para fora do peito.

— Tinha funcionado — respondeu.

— Até agora.

— Sim, até agora. Até vir pra esse lugar maldito. Até te conhecer — A voz de Rina saiu acusatória, tingida de ressentimento.

Hiei apenas a encarou de volta, inflexível como sempre.

— E até quando achou que podia correr disso?

Silêncio.

As palavras de Hiei doíam. Não que ela esperasse acolhimento da parte dele, que ele passasse a mão na sua cabeça, tivesse alguma empatia. Na verdade nunca esperava isso de ninguém — até por não achar que merecia acolhimento algum.

Não, as palavras de Hiei doíam não por serem duras. Doíam por serem verdade.

— Aceite quem você é — ele falou de novo, a voz ainda ríspida como uma reprimenda — E aprenda a controlar seus impulsos, você não é mais uma criança. Ou tem medo até de tentar?

Ele foi para perto dela. Rina o acompanhou com o olhar.

— A Rina de ontem à noite ao menos era honesta. Sabia o que queria e do que era capaz — ele falou.

— A Rina de ontem à noite quase me destruiu.

— E vai continuar te destruindo se não aprender a usar seu poder da maneira certa. A controlar de verdade.

Hiei pegou a bolsa do chão e passou por ela.

Rina ficou catatônica, parada no lugar enquanto a mente rodopiava. Maneira certa? Não havia maneira certa.

Ela virou o pescoço para segui-lo à distância. Levantou-se desajeitada, as pernas ainda trêmulas. A geleira que havia se formado em suas entranhas lentamente derretia, mas o corpo ainda estava frio — ao mesmo tempo em que as mãos suavam.

Hiei estava se afastando. Não iria embora sem ela, claro, mas vê-lo se distanciando depois daquela conversa carregada a encheu de pânico.

— Espera — ela chamou por puro reflexo, a voz saindo fraca, mas alta o suficiente para que ele ouvisse.

Ele parou, mas não se virou. Somente aguardou.

Rina inspirou fundo, sem ter certeza do que estava fazendo. Sem saber se iria se arrepender depois. Não era melhor deixar tudo aquilo enterrado, como sempre deixou? E o seu orgulho, como ficava?

Os segundos pareceram horas. Ele não ia continuar esperando muito tempo, o timing dando adeus. A vontade surgiu apenas como um ímpeto, embaralhada e sem clareza. Mas um ímpeto que, se não fizesse agora, não ia fazer jamais.

E a voz saiu antes que desistisse.

— Então me ensine.

(…)

Hiei observava Rina seguindo com cuidado pelo caminho de pedras. Ele seguia atrás, carregando a bolsa no ombro e, nas memórias, o que tinha acontecido na noite anterior.

Podia sentir ainda o youki de Rina o pressionando. Os olhos felinos o encarando de cima como se estivessem com sede de sangue. Sempre soube que havia mais por trás do que ela se permitia mostrar.

Quando pararam para o almoço, ele quis dar início à primeira lição. Rina o olhava com expectativa e receio ao mesmo tempo, como se não soubesse o que esperar — mas também como se não visse a hora de começar. A aura de caçadora escapava por entre as frestas, por mais que ela tentasse esconder.

Hiei sabia que ela tinha um bom nível de energia, muito mais forte que a média. Mas era um youki selvagem e arredio, como uma tromba d'água que destruía tudo pela frente. Explodia por todas as direções, o que era um desperdício. Rina parecia uma criança brincando com fogo: podia incendiar o mundo, se quisesse. Mas podia também apenas se queimar.

Ele entendia perfeitamente. Tinha sido assim também nas primeiras tentativas de domar as Chamas Negras. Havia queimado seu braço inúmeras vezes, exaurido seu youki, desmaiado sem forças.

Por isso mesmo, sabia que era possível se aprimorar.

E agora Rina suava em bicas, uma pedra em cada mão, o rosto todo contraído.

— Concentre-se — ele falou, a voz dura e fria como um bloco de gelo.

Era seu primeiro exercício. Rina deveria conseguir destruir apenas uma das pedras que segurava, mantendo a outra intacta. O objetivo era ver se ela conseguia manipular sua energia de forma mais precisa e controlada, concentrando-a apenas nos pontos necessários. E a direcionando de acordo com a sua intenção, em vez de deixar tudo vazar por toda parte.

Mas o youki de Rina era tão rebelde quanto ela.

— Podemos parar um pouco? — ela pediu.

— Quando você conseguir, fazemos uma pausa.

O treino já durava 40 minutos. Já haviam perdido a conta de qual tentativa era aquela — Rina havia falhado em todas, explodindo não só as duas pedras, como tudo ao redor.

Ela inspirou fundo, um quê de frustração e impaciência saindo junto do ar que soltou pela boca. A testa se enrugou de novo. Os ombros estavam curvados e excessivamente tensos. Olhava compenetrada para os objetos que segurava, mas de repente, os dois se fragmentaram em mil pedaços, voando por todas as direções.

Rina soltou um palavrão.

— De novo — Hiei falou, sem mexer um músculo.

Ela olhou para ele. Tinha prendido o cabelo no alto da cabeça, mas alguns fios se soltavam e grudavam na testa e nas bochechas vermelhas pelo calor do corpo.

— Eu preciso de uma pausa — declarou, indo até a bolsa no chão. Se sentou de qualquer jeito, quase tropeçando.

Hiei a lançou um olhar severo, mas não falou nada. Apenas se aproximou, ficando na sua frente enquanto ela tomava um gole demorado do cantil de água, talvez querendo prolongar o intervalo não planejado.

— Precisa controlar a ansiedade — ele falou.

— É, falar é fácil… — Rina resmungou, olhando para outra direção.

Hiei sabia que ela estava mais irritada com o fracasso do treino do que com ele. Sabia que as falhas deviam doer.

Ótimo. Era a dor que a deixaria melhor.

— O que vamos fazer sobre o que Gintaro contou? — Rina perguntou — A nova rota.

Hiei se controlou para não revirar os olhos ao ouvir o nome, mas não conseguiu impedir uma sensação desagradável ao lembrar daquele mercenário folgado. E ele se perguntou se o desgraçado ainda os estaria espiando, ainda os estaria seguindo.

— Você confia nele? — ele perguntou.

— Confiar é um pouco forte. Mas acho que está falando a verdade.

Hiei ponderou em silêncio. Lembrou da ameaça que ele fizera em levar Rina por conta própria. Poderia ter tentado naquele momento — estaria morto se tivesse, mas poderia ter tentado ainda assim.

— Se seguirmos para o leste como Gintaro indicou, vamos passar na região daquele xamã. Que Kangetsu mencionou, que poderia te ajudar com o braço — Rina falou, levantando os olhos para ele.

— Como sabe disso?

— Perguntei a ele antes de irmos embora do templo. Porque sabia que você seria orgulhoso demais pra perguntar.

Rina pegou o mapa na bolsa. Procurou por alguns segundos e apontou para uma região ao leste.

— Fica por aqui, nesse cânion — apontou.

Hiei olhou para o papel por alguns segundos. Longos e demorados.

— Deve ser um charlatão.

— Você não tem como ter certeza. Não tem nem um pouco de curiosidade?

Ele tinha, óbvio que tinha. Hiei pensou nas dores fantasmas, que ainda o visitavam. Em todas as vezes em que teve o impulso de usar o braço direito, e na necessidade humilhante de precisar disfarçar o lapso no último minuto.

Mas isso não era o pior.

O pior eram as chamas que não o obedeciam tão bem como antes. O dragão que respondia ao seu chamado, mas com esforço. E cada erro que ainda cometia, que deixava uma queimadura ou uma cicatriz nova para lembrá-lo do seu fracasso.

A ausência do braço o afetara mais do que havia imaginado — e muito mais do que gostaria. Era degradante.

E a ideia de que alguém tinha um controle ainda mais refinado do que ele sobre as Chamas era intrigante — para não dizer fantasioso.

— Se existisse essa técnica, eu já teria ouvido falar.

Rina comprimiu os olhos. Entortou os lábios, insatisfeita com a resposta.

— Claro, porque você é um ser supremo que sabe de tudo — disse.

— Te levar ao destino é prioridade. E já fizemos desvios demais — ele cortou, como quem fecha uma porta.

Rina apenas suspirou, sem insistir mais. Guardou o mapa na bolsa e ficou em silêncio. Hiei também se calou, olhando para lugar nenhum e fingindo ignorar tanto o comichão que subia pelo braço decepado quanto a expressão aborrecida de Rina.

Poderia verificar por conta própria o xamã. Não com Rina a tiracolo, isso seria bobagem. Mas depois que suas obrigações com ela tivessem terminado, esse poderia ser seu novo objetivo. Nem que fosse para confirmar uma de suas hipóteses: que ou tal técnica não existia; ou que, se existisse, ele a dominaria com excelência.

— Vamos. Já descansou demais — ele falou depois de um tempo — Tente de novo.

Ela fez uma careta. Soprou para o lado uma das mechas que caía no rosto e fingiu que o simples ato de levantar-se era um esforço tremendo, mas logo estava de pé, as rochas nas mãos e testa e nariz franzidos em concentração. Como se dizendo que dessa vez seria diferente.

Não foi. Nem essa, nem as seguintes, mas isso Hiei já esperava. Não por duvidar da capacidade dela, mas porque em quase uma hora de exercícios, já tinha aprendido a notar os sinais de sua ansiedade. O canto do olho que tremia de leve. Os dedos que apertavam demais a rocha na mão. O jeito como mordia o lábio logo antes de deixar a energia explodir.

Ela soltou o ar de novo, enraivecida com o resultado. A mecha desobediente do cabelo voltou a cair sobre o rosto e ela a ajeitou atrás da orelha distraidamente, antes de colocar as mãos na cintura e olhar para o chão, ainda irritada.

Mas por acaso relanceou para Hiei, e o pegou a observando, em silêncio e com atenção. Fez uma expressão divertida de surpresa e, inesperadamente, piscou o olho para ele.

Hiei fechou a cara. E desviou o olhar, incomodado.

Chega de treino por hoje.

Notas finais
Ai, espero ter feito justiça à Rina neste capítulo! Eu acho as emoções dela bem difíceis de destrinchar, principalmente essa questão entre medo de machucar os outros x medo de gostar disso, o conflito interno entre poder e vergonha etc. Enfim, obrigada pela leitura, como sempre!