Visceral

22 De novo


— De novo.

Rina achava que surtaria se ouvisse aquelas palavras mais uma vez. O "de novo" inflexível de Hiei era o que mais vinha escutando nos últimos dias. E, geralmente, ele significava uma coisa: ela continuava falhando.

Treinavam todos os dias. Na primeira hora da manhã, durante as pausas para o almoço, antes de jantar. Rina ansiava pelos treinos na mesma medida em que os temia. Não conseguia deixar de se sentir um pouco culpada toda vez que uma onda de entusiasmo percorria seu corpo e a iluminava por dentro, vértebra por vértebra. Como se gostar fosse errado, como se aceitar sua natureza youkai apagasse tudo que havia vivido, tudo que havia sentido até então.

E isso a fazia sentir como se estivesse descobrindo uma nova Rina, uma que ela não tinha muita certeza se queria conhecer.

Mas além disso, o jeito como Hiei a orientava em cada prática, em como segurava seu corpo para a posicionar do jeito certo, em como guiava o foco da sua energia agora carregava um peso diferente. Cada toque em suas costas, cada mão firme em seu pulso, era uma brasa que a lembrava de outros toques, de outro tipo de calor. O esforço para ignorar a memória de dias atrás era quase tão exaustivo quanto o próprio treino.

Os exercícios muitas vezes eram puramente técnicos. Mesmo Rina tendo uma boa base, estava aquém do necessário para enfrentar oponentes mais habilidosos. Portanto, ele a ensinava técnicas aprimoradas de defesa usando a adaga, como aparar golpes de armas maiores que a dela, como refletir ataques ou usar a energia do adversário contra ele. Táticas refinadas, que faziam a luta de rua que tinha aprendido com Dimitri parecer brincadeira de criança.

Mas ela também notava que os toques de Hiei pareciam mais breves que o necessário, quase clínicos. Ele se esforçava para parecer profissional, mas era como se também sentisse a eletricidade entre os dois e fizesse questão de se afastar o mais rápido possível.

Ou talvez fosse apenas a impaciência dele falando mais alto, Rina não sabia dizer.

Hiei jogou uma pedra no ar, seguida de mais uma, além de pinhas e raízes secas. Rina olhou rápido para os elementos, escolhendo um só para focar. Ergueu a mão espalmada e soltou a energia como um tiro, mas ela saiu errática. Não explosiva, como antes, apenas um jato dessa vez, mas sem controle ou direção. Um estrondo se seguiu, e uma cratera larga se abriu a alguns metros de distância dos dois.

Os objetos caíram no chão, intocados.

— Precisa se concentrar mais — Hiei falou, severo.

Os joelhos dela fraquejaram. Ela apertou a têmpora esquerda, sentindo a dor rastejando pelo crânio. Exercícios com seu youki sempre resultavam em enxaquecas pesadas.

O objetivo era acertar ao menos uma das pedras ou raízes que Hiei jogava no ar, manipulando seu youki para atingir o alvo com precisão. Mas não importava o quanto Rina mentalizava, quanto esvaziava a mente para se focar no objetivo, tudo que conseguia era abrir crateras desordenadas ao redor deles. A energia ia para todas as direções, menos para a que ela queria.

— Você está cansada — Hiei observou, em um raro momento de preocupação. Ele nunca perguntava se ela estava bem durante as sessões. Se caísse no chão no meio da prática, nunca a ajudava a se levantar. Como se tudo fizesse parte da lição. Era um mestre particularmente rígido e cruel, mas Rina nunca abria a boca para reclamar. Não daria a ele o gostinho.

Mas naquele dia a olhava como se sentindo que havia algo de errado.

— Eu estou bem — ela respondeu — Vamos tentar de novo.

Hiei estreitou os olhos, tentando ler por trás daquele semblante. Ela se incomodou com aquilo — nunca ia esquecer de quando ele entrou na sua mente e vasculhou suas memórias. O fez jurar nunca mais fazer isso, e queria acreditar que ele cumpria com o combinado.

— Anda treinando sozinha de madrugada? — perguntou.

— Está usando suas habilidades telepáticas em mim, Hiei?

— Não preciso do Jagan para ver que não está descansando. Você não é tão discreta quanto acha que é.

Rina deu um suspiro pesado e impaciente. De fato seu terceiro olho estava dormente em sua testa — o que significava que realmente ela devia aparentar estar um caco.

— É a única hora que eu tenho pra treinar as minhas coisas.

— Sua camuflagem? — ele perguntou.

Rina confirmou. Não havia desistido de retomar o controle da técnica que Mukuro tinha danificado. Ela se recusava a acreditar que o estrago tinha sido permanente, logo a única coisa que a distinguia dos demais. Seu maior trunfo.

— Como tem se saído?

— Bem, obrigada — Rina mentiu.

Hiei a encarou um pouco mais. O progresso noturno de Rina era pífio. Não tinha conseguido se livrar das dores quando ativava sua habilidade, no máximo conseguia pressentir quando elas atacariam — e mesmo assim, nem sempre com precisão.

Mas ele não precisava saber disso. Já bastavam as falhas nos treinos diurnos com Hiei. As falhas da madrugada podiam continuar sendo só dela.

Não que tivesse que provar algo a ele, mas no dia em que se abriu daquela forma tão crua sobre seus pais, seus medos, suas inseguranças, Rina se sentiu tão… pequena. Tão vulnerável. Era como se daquele dia em diante ela precisasse compensar, ser três vezes mais forte, mais resiliente. Não, não podia deixar que ele a visse como fraca. Não Hiei, que era sólido como uma rocha.

— Eu estou pronta, vamos tentar de novo. Vai — Rina insistiu, sem querer continuar no assunto.

Ele não falou nada. Pegou os alvos do chão e os arremessou de novo, um de cada vez.

Levaria ainda mais cinco tentativas para que Rina acertasse alguma coisa. E ainda assim, não em cheio — o pulso de energia que saiu da sua mão era torto, a trajetória, irregular. Mas acertou de raspão em um dos seixos. A pedra não explodiu, mas foi arremessada para longe com um zunido agudo, quebrando-se em duas ao atingir o tronco de uma árvore.

Rina desabou no chão de exaustão, caindo de joelhos sobre a terra áspera. Mas em seus olhos, a euforia era clara. Era a primeira vez que havia minimamente comandado sua energia, em vez de apenas liberar seu poder. Ela sorriu em meio ao suor que pingava pelo rosto.

Olhou para Hiei. Ele estava com a expressão neutra de sempre, mas havia algo em seu olhar. Orgulho, talvez?

— Eu consegui — ela falou, ofegante.

Fitou as próprias mãos. Estavam vermelhas e arranhadas, mas eram as mãos de alguém que sabia como usar seu poder. De quem podia agir com propósito e intenção. Rina achava que nunca tinha sentido nada igual.

— Muito bem — Hiei foi até ela. Havia um minúsculo sorriso no canto de sua boca, quase imperceptível. Mas ela notou — Agora de novo.

Rina se levantou na mesma hora, a confiança de volta. A vontade de repetir o feito já se sobrepunha ao cansaço. O sucesso tinha sido pequeno, mas aos olhos de Rina, era um sucesso mesmo assim.

(…)

— Como você acha que ele é? — Rina perguntou uma vez, enquanto marchavam pela paisagem monótona daquela tarde. As horas e os cenários eram todos iguais naquele deserto rochoso — Haru, eu digo.

Sua bolsa estava recheada de pedras, adicionando quilos e quilos extras à bagagem que era obrigada a carregar. O intuito era treinar seu condicionamento físico, segundo Hiei. Precisava fortalecer o corpo se queria aguentar a pressão do seu próprio youki.

O ombro de Rina doía com a pressão, mas ela não reclamava. Não em voz alta pelo menos. No entanto, frequentemente ficava para trás, sem conseguir manter o ritmo.

— Não sei, não o conheço — Hiei respondeu.

— Você deve ter alguma ideia. Conhece mais youkais do que eu. E Yusuke deve ter falado alguma coisa.

Ele pensou por algum tempo.

— Deve ser um covarde. Ou estar fraco — Hiei opinou — Senão, teria ele mesmo vindo te encontrar.

Rina parou de andar, um pouco surpresa com a resposta. Hiei mandou que continuasse.

— Talvez ele só não queira se expor. Talvez esteja sendo perseguido também.

— Ele é um Yuuma. Se não consegue dar conta dos próprios inimigos, é o mesmo que estar morto — E, depois de uma pausa, acrescentou — Yusuke mencionou que parecia velho.

Ela não respondeu. Na sua cabeça, Haru seria alguém imponente e maquiavélico, poderoso como Mukuro ou até mais. Provavelmente mais, a julgar pelo jeito como todos no Makai odiavam aquela linhagem. A ideia de encontrar algum ser de idade avançada ou debilitado a causou mais indignação do que alívio. Era como se ela precisasse que ele fosse uma figura nefasta para justificar todo seu ódio.

— Isso não quer dizer que ele não seria um desafio. Principalmente pra alguém do seu nível — Hiei falou, olhando para trás e vendo o conflito no rosto de Rina — Está começando a questionar seu objetivo?

— Não, é claro que não — ela respondeu. Mas a incerteza na voz era aparente.

E Rina mergulhou no silêncio novamente, tentando focar apenas nos próprios pés que a arrastavam, no que comeriam àquele dia, na textura da alça da bolsa marcando seu ombro — qualquer coisa que tirasse seu pensamento daquele assunto.

— Às vezes a vingança que imaginamos não existe mais quando se chega mais perto — Hiei falou abruptamente.

Ela levantou os olhos para ele, surpresa com aquele tipo de declaração. Hiei não costumava fazer discursos motivacionais. Mas logo se lembrou da conversa que tinham tido no templo, a breve história sobre seu passado, a que ela ainda tinha tantas dúvidas a respeito.

— Está falando das pessoas que te condenaram à morte quando nasceu? — Rina arriscou — Que jurou matar?

Hiei assentiu.

— Implantei meu Jagan para encontrá-las. Isso custou quase todo meu poder. Mas na época, era tudo que importava. Só queria que morressem.

— E encontrou? O que você fez?

Ele esperou, parado e em silêncio, até que ela o alcançasse. Quando se aproximou, voltou a desviar o rosto para a trilha à frente.

— Não fiz nada. Fui embora.

— Por quê?

Hiei deu de ombros.

— Não valia a pena. Estavam mortas por dentro. Tirar o que restava da vida delas já não ia fazer mais diferença.

Rina mudou a bolsa de lado, jogando o peso para o outro ombro.

— Isso não te incomodou? — ela perguntou — Não foi uma decepção ver que sua vingança tinha perdido o sentido?

Hiei hesitou. Já estava alguns passos à frente novamente, e ela podia ver apenas um recorte do seu rosto, dos olhos que por um instante pareciam distantes, da boca apertada demais.

— Não — ele enfim respondeu, ainda que com alguma relutância — As coisas tinham mudado. E acabei encontrando outra prioridade.

— Qual?

— Encontrar outra pessoa, uma que não merecia morrer. Alguém que eu preferia proteger, em vez de destruir.

Rina quase tropeçou ao ouvir aquilo. De repente, o fitou com interesse renovado, e comandou as pernas para que andassem mais rápido.

— Então você tem alguém! Quem é? — ela perguntou.

— Agora você está fazendo perguntas demais.

— Pelo menos agora eu sei que você tem alguém pra quem voltar quando tudo isso acabar — Rina disse — Eu sempre me perguntei o que você faria, pra onde iria.

— Não é nada disso — respondeu irritado — Pare de fazer suposições sobre a minha vida.

— Eu não faria suposições se você me contasse as coisas direito!

Ele parou por um instante. O corpo estava duro como se ele estivesse se segurando para não revidar àquela acusação usando a katana. Mas voltou a andar logo em seguida.

— Não tenho nada pra contar — falou, por fim, o tom frio e cortante — E nem vou voltar pra ninguém quando isso acabar. Tire isso da cabeça.

Uma resposta chegou a tocar a ponta da língua de Rina, mas ela parou de supetão. Ele parou também. A postura de Hiei já estava diferente: atenta, ofensiva. Ela igualmente tinha sentido, e se virou para ele, que retribuiu o olhar.

Tinham outros demônios por perto.

Os dois se agacharam perto de uma elevação. Os olhares se guiaram para um ponto distante, onde alguma coisa surgia no horizonte.

Eles esperaram. O lugar era tão desolado que mesmo uma presença sutil foi suficiente para alertá-los. Aos poucos a imagem ganhou forma. Era uma caravana, um grupo com três espécies de carroças puxadas por bestas que Rina nunca tinha visto antes. Alguns demônios estavam montados, outros, escondidos pela lona da carroceria.

Rina estreitou os olhos. Podia entrever o grupo passando calmamente, como se fosse parte da rotina. Nômades? Ou seriam assaltantes? Não importava. Eram claramente uma ameaça e para Rina, deviam ser eliminados. Ela talvez os conseguisse apanhar de surpresa. Nem dar chance para que eles a vissem, arrancar o problema pela raiz.

— No que está pensando? — Hiei falou.

Rina demorou um segundo para responder, como se não tivesse certeza do que devia falar. Ele observou a caravana por mais um tempo. O grupo não vinha na direção dos dois, apenas seguiam em linha reta para o oeste, em posição paralela a eles.

— Eu posso matá-los — Rina falou, em uma voz baixa.

Hiei a encarou.

— Quantos demônios tem ali? — a perguntou.

— Não sei, não consigo ver todos.

— Use sua percepção. Cada um tem uma assinatura energética diferente. Quantos consegue identificar?

Rina fitou o grupo. Contou cinco dos que estavam à vista. De resto, conseguiu sentir mais uns três ou quatro diferentes. Tentou enxergar algum armamento, mas daquela distância tudo que via era algum metal que reluzia sob o sol — que podia ser qualquer coisa.

— Nove?

— Tem treze youkais nessa caravana — Hiei a corrigiu — Você quer enfrentar todos eles? Sozinha?

Ela arregalou os olhos, se sentindo burra pelo erro na contagem. Mas não deixou que isso a abalasse. Era um mero detalhe, não apagava a certeza que sentia.

— Eu posso dar conta — Rina insistiu, confiante — Já estou melhor nos treinos, preciso pôr em prática o que aprendi. Você mesmo já disse que eu consigo dizimar o que quiser.

— Não desse jeito. Você está sendo impulsiva. E arrogante.

Hiei a advertiu com o tom firme de quem não falaria de novo. Para Rina, soou como um desafio.

— Quem é você pra me dar lição de moral sobre impulsividade ou arrogância? — questionou.

— Alguém que não quer ter que ir atrás limpar sua bagunça depois.

O rosto de Rina queimou com a reprimenda.

— Por que está me subestimando?

— Aquele seu pequeno sucesso não te deixa invencível. Tudo que vai conseguir é chamar atenção desnecessária pra você.

— Eu falei que dou conta — Rina repetiu.

Ele a encarava de um jeito curioso. Não com raiva, apesar das palavras duras, mas como quem enxerga além do que está na sua frente.

— Ficaria saciada matando aqueles youkais?

A pergunta pegou Rina desprevenida. Ela juntou as sobrancelhas, abriu a boca, fechou em seguida.

— Como assim? — ela respondeu — Não é nada disso! Eles podem ser hostis.

— Podem? Eles nem nos viram.

— Não é você que tem uma recompensa sobre sua cabeça, não é? Por que arriscar? É uma precaução.

— Essa é sua solução? Matar todos os demônios do Makai por precaução? — Hiei retrucou — Guarde sua energia para ameaças de verdade.

Rina se irritou com a conversa. Desde quando Hiei se preocupava tanto com quem morria ou deixava de morrer?

E seria tão simples! Não sobraria nada em pé daquelas carroças mambembes. Seria tão fácil, seria tão-

Rina se pegou no ato. Travou, alarmada. Assustada.

Era isso que ela estava pensando? Que seria... bom?

Ela engoliu em seco, com medo de perseguir a ideia. Intimamente, tentou se convencer que era apenas instinto de sobrevivência, que queria se precaver antes que fosse tarde. Afinal, aquela não era ela.

"Aquela é exatamente quem você é," uma voz maldosa falou em sua cabeça.

Legítima defesa? Ou seria seu sangue Yuuma gritando por um massacre?

Rina ficou sem resposta. A caravana, enquanto isso, passava completamente alheia, seguindo seu destino como se não houvesse nada em seu caminho.

Hiei também não falou mais nada, já nem a encarando mais, apenas observando o cenário, atento. Ficaram assim por mais alguns minutos, Rina ocupada demais escondendo os próprios sentimentos para prestar atenção no resto.

O olhar dele então varreu a vastidão ao redor deles, sem cor e sem vida. A caravana agora era apenas um ponto distante no horizonte. Estavam sozinhos novamente.

— Vamos — Dessa vez, foi ela quem falou.

Pegou a bolsa do chão e voltou a andar. O peso das rochas dentro da sacola ao menos deu a ela uma nova preocupação e ela seguiu pela trilha focada em seu próprio esforço, deixando Hiei ir na frente, sem fazer questão de alcançá-lo.

(…)

Já anoitecia quando eles sentiram o ar começar a mudar. A brisa ficou mais fresca, a paisagem, antes feia e sem graça, já não era tão cinza — agora tímidos tons de verde surgiam pelas frestas das rochas e ameaçavam se espalhar pelo chão.

Logo, arbustos inteiros começaram a popular o cenário. Algumas árvores, ainda pequenas e magrelas, se multiplicavam. O ar seco ganhou umidade, e não demorou para que entendessem: estavam chegando no vale fluvial.

Aquilo era um alívio. As poucas fontes de água que acharam pelo caminho — pequenos córregos, poças criadas por degelos, bolsões de plantas suculentas — quase não tinham sido suficientes para se manterem hidratados, então poder reabastecer os cantis seria providencial.

O ruído suave de uma correnteza soou como música aos ouvidos de Rina. Se aproximaram. Um rio de água cristalina corria ali, deixando a terra ao redor fértil o bastante para todo tipo de planta garantir a sobrevivência. A folhagem era a mais verde que Rina já tinha visto, e a grama do chão fazia parecer que estavam em plena primavera.

Rina largou a bolsa na mesma hora. Não importava o que Hiei diria, iriam acampar ali.

Ele nem argumentou. Hiei montou a fogueira, Rina capturou uma ave. Fizeram um breve treino de luta corporal ("sem arma, sem youki, só eu e você," tinha dito Hiei antes de surpreendê-la com um soco. Rina aparou na mesma hora, arrancando dele um sorriso de aprovação tão genuíno e espontâneo que ela nem soube o que sentir), mas o cheiro do assado logo perfumou o ar e os dois se sentaram para comer.

— Sabe do que eu sinto falta? — Rina falou, mordendo um pedaço da carne — De uma cama de verdade. Banho de verdade. Comida de verdade.

— Isso é comida de verdade.

— Não. É só sobrevivência. Estou falando de comida temperada. De café da manhã que não seja ração seca.

Hiei a olhou como se fosse uma alienígena.

— Um dia vou te levar ao Ningenkai pra provar essas coisas. Aí você vai parar de me olhar assim.

— Você ficou maluca… — ele respondeu.

Rina deu uma risada, que se transformou em um suspiro nostálgico. Ela terminou de comer e jogou o osso na fogueira. As chamas se agitaram.

— O Mundo dos Humanos não é tão ruim assim.

— Está pensando em voltar? — Hiei perguntou, à meia-voz.

— Eu não sei o que estou pensando.

— Seu lar é aqui. Entre os seus.

Ela abraçou os joelhos, pensativa, sentindo que Hiei ainda a observava. Os olhos encararam o fogo alto. Por alguns segundos, era apenas o crepitar da fogueira e o correr do rio preenchendo o vazio da noite.

— Eu não sei se eu tenho um lar. Não é como se eu fosse muito bem-vinda no Makai. Todo mundo que eu encontro tenta me matar.

— Nem todo mundo — ele disse.

— Qual é, até você já quis me matar — ela falou, tentando rir um pouco. Mas soltou um novo suspiro em sequência — Não quero uma vida onde tudo que eu tenho que fazer é me esconder.

— Um dia vai ser forte o bastante para não precisar se esconder.

Ela riu de novo, devagar e sem muito humor.

— Como os Yuumas das lendas? — perguntou. Havia um certo desalento na maneira como olhava para a fogueira, os olhos, na verdade, fixos em nada.

— Por que não?

— Um clã que foi extinto pela própria arrogância. Parece promissor.

Rina apertou mais os joelhos contra o corpo, deitou a cabeça sobre eles. Se lembrou do incidente com a caravana mais cedo. Será que, no fim, ela estava destinada a repetir o mesmo erro de todos os seus antepassados? Que faria inimigos por toda parte?

Ela entendia perfeitamente por que aquela era uma linhagem maldita.

— Você faz sua própria história. Não precisa trilhar a dos outros — Hiei disse.

— E quando eu não sei qual é a minha história?

— Você descobre. Mas não desiste.

Rina levantou a cabeça para olhar para ele. Hiei falava de um jeito tão introspectivo que ela se perguntou o que havia por trás daquele conselho. Mais alguma história de vida? Alguma experiência própria?

Mas ele sequer a olhou de volta.

— Essa conversa está me deixando melancólica — Rina falou. E, decidida, se levantou — Vou dar um mergulho. Não quer ir também?

— Estou bem aqui — ele respondeu, quase como um resmungo.

Ela caminhou até a beira do rio. Se agachou, mergulhando a mão, testando a água, sentindo ela correr entre os dedos. O fluxo era fraco, relaxante quase. No breu da noite, tendo apenas a lua como lanterna, as águas pareciam escuras e misteriosas. Mas não estavam frias.

Então se despiu. Entrou no rio, seguindo pelas pedras. E quando achou uma boa profundidade, mergulhou. Deixou toda a correnteza passar por ela, levando embora a poeira do deserto acumulada por dias. Levando embora seus medos também, ou ao menos parte deles — esses eram bem mais difíceis de se livrar.

Então emergiu. De onde estava, podia ver a margem iluminada pela fogueira e, mais ao fundo, a silhueta de Hiei. Sentiu um calor estranho no peito ao notar que ele ainda a observava, mesmo de longe.

— Tem certeza que não quer vir? — falou — A gente não sabe quando vai ter outra chance.

Ele não respondeu, mas Rina viu uma certa hesitação passar por ele, os quase indistinguíveis movimentos do seu corpo entregando o desconforto. Ela foi até a beirada, apoiou os braços na margem.

— Você não está com vergonha de mim… está?

O tom dela tinha sido provocativo, e os olhos dele se inflamaram tanto que ela sabia que o tinha atingido.

— Não seja ridícula.

— Então para de fazer doce e vem logo.

A fogueira nas pupilas de Hiei aumentou ainda mais. Rina notou a mão dele se fechar em um punho sobre a terra ao seu lado, os nós dos dedos salientes. Uma batalha silenciosa travada e perdida em um único segundo. Mas ele por fim se levantou. Foi até o rio.

Hiei não disse nada enquanto tirava as botas e a roupa, mas seus olhos nunca deixaram os dela. E seu olhar era quase como uma presença física, como se estivesse ali na água com ela. A brisa soprava gentil naquela noite calma, mas Rina suspeitava que o arrepio que sentiu na nuca nada tinha a ver com isso.

Ele desceu da borda. Andou até a água o cobrir na altura da cintura.

— Estava quase achando que o todo-poderoso Hiei não sabia nadar… — Rina zombou.

— Não me faça buscar minha espada pra cortar sua língua fora — Hiei respondeu entre os dentes.

Ela riu de novo. Hiei começou a se afastar, o luar clareando apenas um pouco da paisagem noturna, fazendo ele virar um recorte escuro em pouco tempo. Então, mergulhou. Hiei sumiu debaixo da correnteza, a água se agitando antes de se acalmar de novo.

Rina sentiu o vento bater de novo e agarrou os próprios braços. Se deixou afundar, apenas o rosto do lado de fora. A água circulava pelas pernas, mordendo as cicatrizes, mas também aliviando todas as dores do dia, dos meses, de uma vida inteira. Se havia alguma coisa no mundo que limpava tudo, era água. Até mesmo no Makai.

Quando ele surgiu de volta, ela tentou não olhar. Tentou fingir que não se importava com a presença dele ali. Como se fosse fácil. Como se a imagem dele não fosse um ímã, puxando a atenção dela a todo instante e a fazendo se sentir estupidamente fraca por não conseguir resistir.

Ele mergulhou mais uma vez, nadando contra a correnteza. Parecia que tudo virava um treino para Hiei. Que ele não sabia relaxar.

Rina inspirou fundo e foi mais uma vez para a margem. Apoiou as costas ali, corpo ainda submerso, sentindo o cheiro da grama molhada, ouvindo os insetos, a água fluindo e batendo nas pedras do caminho. O acompanhou de longe, até ele se cansar da atividade e parar, no meio do rio. Hiei passou a mão pelo rosto, tirou o excesso de água dos olhos. Se virou na direção dela. E começou a voltar.

A respiração de Rina ficava mais funda e devagar a cada passo que ele dava. Hiei chegou bem perto. Ela se ergueu um pouco, emergindo parte do torso da água. Um novo arrepio rasgou sua pele.

— Já vai sair? — ela perguntou — Fica mais um pouco.

— Alguém precisa cuidar da fogueira.

Mas Rina se aproximou mais. Segurou seu braço. E cada fibra dele enrijeceu na mesma hora.

— É isso, ou você que não aguenta ficar perto de mim?

Hiei parou. Comprimiu os lábios, acirrou o olhar. A respiração parecia densa. Os olhos Hiei caíram sobre a mão dela em seu braço, demorando-se um pouco, até desviar o rosto bruscamente. Talvez estivesse querendo afastá-la, mandar que parasse de o encher, arrancar a mão de cima dele. Mas não fez nenhuma dessas coisas.

— Está pensando naquele dia da chuva, não é?— ela falou, como se percebendo o motivo da sua hesitação — Quando a gente ainda estava na floresta.

— É claro que não.

A negação veio ríspida, veio rápido, mas ele estava tão tenso que Rina podia ver cada nó nos músculos se formando — e aquilo, ela sabia, contava outra história.

— Está mentindo — disse, em um tom baixo.

Seus dedos não se moveram. Em vez disso, cravaram-se um pouco mais no braço dele. Rina queria que ele se virasse e a encarasse de frente. Se pretendia mentir, então que o fizesse olhando em seus olhos.

— Pare de me provocar — mandou, com um rosnado contido, algo próximo de raiva por baixo. Mas não era exatamente isso. Rina sabia que não.

— Tem certeza que quer que eu pare? Eu lembro como me olhou na noite que mostrei meu poder. Lembro como reagiu — Rina continuou — Por que não admite?

Hiei inspirou fundo, mas controlado. Como se as cenas também estivessem frescas em sua memória, como se também não as conseguisse afastar. Como se as estivesse revivendo naquele exato instante.

Mas não respondeu nada. Apenas travou ainda mais a mandíbula.

E Rina suspirou também, levemente irritada. Soltou seu braço.

— Quer saber? Que seja — ela falou. Começou a se virar para deixá-lo ir — Você prefere fingir-

Rina não conseguiu terminar a frase. Hiei subitamente a puxou pela cintur calou com um beijo, de um jeito tão inesperado que ela ficou sem fôlego.

E o beijo era tão exigente quanto ele. Um pouco feroz, mas não tinha raiva, como o primeiro teve. Porém tampouco tinha carinho. Tinha apenas vontade.

Ela se entregou no primeiro contato de seus lábios. O prendeu pela nuca, colou seu peito no dele, querendo que ele nunca mais saísse dali.

— Céus, como você é irritante… — ele falou quando o beijo se desfez. Continuavam se encarando, os corpos grudados, bocas ainda próximas. O olho dele ardia com o vermelho mais vivo que Rina já tinha visto.

— Cala a boca e me beija, imbecil.

As mãos de Rina trouxeram seu rosto para junto do dela novamente. Ele a empurrou contra a parede de terra do rio, soltando sua cintura para sentir seus seios. Rina também deixou que seus dedos passeassem pelo corpo dele, deslizando pela lateral das costas, parando no quadril, descendo mais um pouco.

O jeito como ele a pressionava dizia que queria mais. Que Rina estivera certa sobre todas as vezes que sentia o olhar dele sobre ela, que os toques elétricos nos treinos queimavam em ambos.

Ela interrompeu o beijo. As testas se colaram, o ar da boca dele entrava na dela, semiaberta. Ele voltou a puxá-la, como se mesmo os segundos de distância fossem tempo demais. Hiei mordeu os lábios de Rina, a boca trilhou pelo queixo, pelo pescoço.

A mão também percorria todos os caminhos do corpo dela, refazendo trajetos que ele já conhecia. Quando encontrou seu quadril, e fez Rina arfar com o contato já esperado, ela o afastou de leve.

Hiei a encarou sem entender. Sem tirar os olhos dele, Rina, ainda de costas, apoiou as mãos na margem e se puxou para cima. Sentou-se ali, na grama da borda, pés ainda na água.

Não precisou explicar. Apenas separou os joelhos na sua frente. Agarrou os cabelos molhados de Hiei, o guiou até o espaço entre suas pernas. Ele prendeu a respiração.

— Vem…— ela falou, um pouco de ansiedade na voz — Ou vai ficar só olhando?

A resposta de Hiei veio na forma de um olhar indecente para ela. De um enlace em sua cintura. Ele a puxou um pouco mais para perto.

E, quando Rina sentiu a língua dele em sua pele, puxou o ar com força. As costas arquearam.

Ele começou a explorá-la de um jeito certeiro. Os lábios pareciam saber exatamente o que fazer, onde encostar, onde insistir e onde apenas provocar. Só isso já fazia Rina arquejar, tentando, sem sucesso, prender os suspiros contidos que ameaçavam fugir de sua boca.

Mas de repente a mão dele soltou a cintura. Deslizou pelo corpo, descendo pela parte interna da coxa, procurando sua intimidade também. E quando seus dedos encontraram o ponto certo, ela não conseguiu se conter e deixou o gemido rasgar a garganta.

Rina comprimiu os lábios. Se deleitou com a visão que tinha dele entre as pernas. Depois, fechou os olhos. A língua ainda a invadia, o polegar ainda a massageava.

O nome de Hiei escapou da sua boca, a voz falhando. E Rina desistiu de se segurar. Deixou o orgasmo a preencher, o corpo inteiro reagindo, as costas a trazendo para o chão, a cabeça jogada para trás.

Ela arfava, o pulmão não dando conta. Nem percebeu quando Hiei subiu para a margem também, trouxe as pernas dela junto para a relva, a encarou de cima.

A respiração dela era cortada, o olhar dele, hipnotizante. Rina levantou o braço para o tocar, sentir seu rosto, sua boca. Gotas deslizavam pelo maxilar e pingavam sobre ela, nem o vento gelado sendo suficiente para esfriar os dois.

Ele se inclinou. E antes mesmo que Rina se recuperasse da sensação que tinha acabado de a consumir, o sentiu dentro dela.

Os movimentos dele eram tão intensos quanto ela se lembrava. Quanto tinha gostado. Rina secretamente esperava que Hiei a apertasse da mesma maneira que fizera da outra vez, que fincasse seus dedos, que deixasse uma nova marca. E quando sua mão enfim afundou na carne macia — ele provavelmente já conhecia todos seus pontos fracos — ela explodiu em um palavrão, forte e sincero.

Por isso, não se surpreendeu quando, pela segunda vez, se desmanchou sob ele. Rina não se preocupou em abafar nenhum dos sons que deixavam sua boca, sentindo que ele se liberava dentro dela também, quase em sincronia.

Hiei caiu sobre ela, ofegante. Ela não queria o soltar. Não queria o deixar ir. Mas quando ele rolou para o lado, não se levantou de imediato. Ficou deitado por mais um tempo, os dois olhando o céu noturno, esperando a respiração normalizar, quietos.

Não era intimidade. Ele não a tocou, não chegou perto. Mas, por algum motivo que ela não entendeu — e não perguntou — ele também não se afastou.

Por um instante, Rina acreditou que conseguiria apagar tudo que a atormentava. Por um instante, foi verdade. E ela se forçou a não pensar em nada. Em deixar o incêndio dentro do seu corpo a consumir mais um pouco, antes que se extinguisse totalmente.

Até que ele se sentou.

— Vamos voltar pra fogueira — ele murmurou, sem olhar para ela.

Rina concordou. Catou as roupas que havia deixado na grama. Se vestiram sem pressa, mas sem demorar mais do que o necessário. E retornaram para seus lugares em volta do fogo, que continuava crepitando alto, soltando fagulhas pelo ar.

Havia um novo silêncio entre eles. Não era forçado, como tinha sido da primeira vez. Agora era um silêncio que apenas existia, sem se impor.

— Durma — Hiei falou — Eu faço o primeiro turno da vigília.

Rina o olhou de lado, intrigada. Deveria ser a vez dela — ele já tinha sido o primeiro na noite passada — mas ela não o corrigiu. Duvidava que ele não estivesse lembrando.

— Você tem certeza? — Foi o máximo que se permitiu perguntar.

Ele grunhiu um "sim" definitivo em resposta, sem desviar o rosto da fogueira. Rina sabia que era tudo que arrancaria dele naquela noite. O que era mais do que suficiente.

Afinal o que tinham não era um romance. Estava longe de ser. Nem havia espaço para romance na complicada teia de problemas que aquela jornada tinha se tornado. Não, era só sexo.

Uma necessidade física entre dois adultos, moldada pelo estresse e pela solidão. Que não precisava significar nada, como ele mesmo havia dito uma vez.

Só sexo, Rina repetiu mentalmente. Nada além disso.