Visceral
23 Desequilíbrio
O mundo começou a ganhar cor aos poucos. Rina via sem muito entusiasmo o sol nascendo no horizonte e tingindo o rio de dourado, enquanto Hiei ainda dormia do outro lado da fogueira.
Soltou um bocejo. Ela tinha ficado de guarda na segunda metade da noite, e o sono ameaçava voltar. Por isso, quando a escuridão foi aos poucos sendo expulsa, ela se levantou, alongou as pernas e braços, se espreguiçou. Ao menos a grama fofa tinha sido uma mudança bem-vinda ao chão duro do deserto que tinha sido sua cama nos últimos dias.
Olhou para Hiei, deitado do lado oposto. Dormindo assim, nem parecia o mestre carrasco que era durante o dia. Mas antes que ele acordasse e começasse o dia com a pressa de sempre, Rina decidiu ir até o rio. Não era sempre que tinha o luxo de acordar do lado de água corrente e seria bom poder lavar o rosto de manhã para variar.
Inevitavelmente, se lembrou do que tinham feito na noite passada. Hiei podia ser austero, fechado, difícil de lidar, mas o olhar que a lançara ontem, naquela margem, era tudo, menos indiferente. Aquilo arrancou dela um sorriso vaidoso.
Rina passou um pouco de água no rosto, para terminar de acordar. Depois, tirou as botas, levantou a bainha da calça e deixou os pés descansarem no rio, que naquela manhã de inverno, estava frio como a neve.
Foi quando ela viu. Ali, pequena, perto do tornozelo: uma manchinha. Escura, mas ainda translúcida. Um pontinho preto irregular. Rina puxou o pé para mais perto para examinar.
Havia outra também, na batata da perna. Quando as pressionou, sentiu uma dor desagradável, porém conhecida. Poderiam ser hematomas. Ela os vinha colecionando desde que viera para o Makai, afinal. Mas sabia que não era o caso. Sabia que elas eram específicas demais, que a queimavam por dentro de um jeito peculiar demais. Um incômodo que parecia se infiltrar pela pele, como se alguém estivesse apertando seus ossos por dentro da carne.
Olhou para trás. Hiei ainda não acordara.
Procurou por outras manchas pelo corpo. Encontrou mais uma na outra perna, e mais algumas pelos braços. Marcas que não estavam ali antes, ou teria percebido quando se despiu ontem à noite. Hiei também teria visto, observador como era. Ou será que apenas estava escuro demais — e a atenção de ambos, distraída demais — para serem notadas?
O peito ameaçou uma arritmia, mas ela inspirou fundo, forçou a palpitação a ceder. E pensou por um tempo, tentando racionalizar a situação.
Primeiro, encarar o fato: sua doença estava voltando. Shigure tinha alertado que seria o caso, apesar de acreditar que os sintomas seriam mais brandos e a evolução, mais devagar.
Deveria contar para Hiei?
De jeito algum.
Podia quase ver o rosto dele, colérico, irritado, fazendo mil perguntas, querendo saber do que se tratava. Rina não estava com a menor disposição para falar sobre o assunto. Ou lembrar que, da última vez que elas brotaram, tinha sido tão severo que ela acabou desmaiando e acordando em uma cela na fortaleza de Mukuro. Aquilo custou o braço de Hiei, um dano irreparável à sua habilidade e mais cicatrizes do que conseguia contar — por dentro e por fora.
O melhor a fazer era não fazer nada. Talvez Haru soubesse de uma cura, e poderia conseguir isso antes de decidir o que fazer com o velho depois. Talvez as manchas nem progredissem, não virassem escaras, não se abrissem em buracos.
Rina já tinha muito com que se preocupar para ter que dar atenção a coisas tão pequenas.
E, resoluta, abaixou a manga, cobriu as manchas e fingiu não ter visto nada.
(…)
O resto da manhã seguiu absolutamente como todas as outras. Café da manhã frugal. Aquecimento. Um treino leve.
E os dois abandonaram o acampamento improvisado.
Dessa vez, não mencionaram os eventos da última noite. Não por constrangimento ou esquiva, mas porque não precisavam. Diferente da primeira vez, que tinha parecido um erro, um ato impensado, agora lidavam com o fato como um acontecimento natural — que não precisava ser dito para ser lembrado, nem ignorado para ser esquecido.
Seguiram margeando o rio, a paisagem verdejante sendo o novo normal. E logo as árvores ficaram ainda mais abundantes. Os sons, mais diversos. Havia mais animais, mais cheiros, mais variedade de ruídos. Rina estreitou os olhos, captando a mudança que vinha em sua direção.
Começou a perceber. Não era mais apenas o barulho do rio, da grama sendo esmagada pelo caminhar dos dois. O cheiro não era mais apenas o do orvalho ou da terra molhada.
Começou a ouvir vozes distantes. Um chiado metálico, e também de algo raspando a terra. O ar ganhou um aroma adocicado, de lenha queimada e frutas assando.
Então ela se deu conta. E estancou assim que entendeu do que se tratava aqueles pontos mais à frente.
Havia casas ali.
Simples, de materiais baratos, com fumaça saindo por chaminés. Começavam a se multiplicar à medida que se aproximavam, com demônios entrando e saindo, carregando materiais, ferramentas, caixas com comida.
Uma tensão automática atravessou Rina quando viu tantos youkais por perto. Todos os seus sentidos entraram em alerta, a mão procurou pela adaga. Os olhos começaram a escanear tudo ao redor, sua energia fluiu, defensiva e ameaçadora ao mesmo tempo.
— O que está fazendo? — Hiei perguntou, notando a mudança de postura dela — Pare de chamar atenção.
— Você não está vendo? Estamos cercados!
Rina não tirava os olhos da frente, pronta para revidar ao primeiro que olhasse diferente para ela. Sentia todos os nervos à flor da pele, já esperando por alguém que a reconhecesse, que levantasse uma arma em sua direção.
— Não vão nos causar problemas se você ficar quieta.
A resposta curta de Hiei não a tranquilizou. Manteve a mão na adaga, sua atenção em cada youkai que entrava no seu campo de visão. A seus olhos, eram todos inimigos em potencial. Não conseguiu entender a calma dele.
Mas foi assim que começou a notar um padrão que não tinha visto até aquele dia: não pareciam guerreiros. Não carregavam armas, nem usavam armaduras. As ferramentas eram simples instrumentos de trabalho: aravam a terra, martelavam um pedaço de madeira, consertavam alguma cerca. Mulheres conversavam, carregavam bandejas de comida.
O cheiro não era de sangue. Os olhares não eram ameaçadores. Não havia presas ou garras à mostra.
Aquilo era novidade.
— Isso é estranho…
— O que é estranho?
Ela prolongou o silêncio, ainda observando a sociedade ao redor enquanto contornavam a margem do rio. Viu plantações, pescadores, crianças correndo. Verdadeiros núcleos familiares. Uma comunidade.
Era quase como uma cidade do interior, onde os problemas do mundo não alcançavam. Onde não havia cartazes de "Procura-se", onde saqueadores não estavam à espreita. Nunca pensou que veria esse tipo de coisa no Makai, o lugar mais hostil que já havia pisado.
— Não sei. Não parecem demônios.
— Nem todos youkais são bandidos ou soldados de alguém.
Rina afrouxou — relutantemente — a mão que segurava o cabo da adaga. Seus ombros, antes tensos e prontos para o ataque, relaxaram um milímetro. A aura ameaçadora que a envolvia pareceu recuar, se dissolvendo no ar da manhã. A maneira com que encarava tudo mudou: a desconfiança deu lugar a uma perplexidade de quem acaba de pisar em um mundo novo.
— Meio difícil de acreditar nisso… — ela comentou, ainda espantada com toda aquela serenidade.
— Youkais não costumam ser muito pacíficos. Mas existem exceções — Fez uma pausa antes de continuar — Alguns nunca machucaram ninguém.
Ela ficou calada enquanto ouvia aquela informação nova. Para ela, qualquer ser dotado de energia demoníaca era do tipo que matava sem pudores — era o que ela mais temia se transformar. Nunca lhe ocorreu a existência de youkais dispostos a conviver em paz uns com os outros.
— Como Kangetsu? — ela perguntou, se lembrando do guardião do templo.
— Como Kangetsu — Hiei concordou, com o olhar um pouco distante.
Rina assentiu. Ainda não se sentia à vontade no meio de tanta gente — se lembrava de quando tentou relaxar na taverna do entreposto comercial e tudo que conseguiu foi ficar ainda mais estressada — mas podia sentir a falta de energia combativa por ali.
Seguiram reto, cruzando o vale, sentindo o cheiro de pão fresco sumir pelo vento, ouvindo o riso das crianças ficando para trás. Rina quase quis parar. Provavelmente teria feito isso em outras circunstâncias, se achasse que poderia confiar naquelas pessoas. Se não achasse que, humildes ou não, pacíficos ou não, poderiam denunciá-la a qualquer momento.
E por um momento aterrador, Rina se perguntou se aquela tensão era realmente medo, ou se parte dela estava esperando, quase desejando, que alguém fizesse o primeiro movimento. Só para ela ter um motivo para fazer o mesmo.
(…)
Seguiram margeando o rio por horas, até que a comunidade ribeirinha ficou tão distante que nem a fumaça das chaminés era mais visível. O vale se estreitava, os paredões de um cânion começavam a despontar, criando barreiras de dezenas de metros de altura.
Era o isolamento que procuravam. Os dois queriam ter certeza de que haviam colocado espaço e tempo suficiente entre eles e qualquer outro ser vivente antes de interromperem a caminhada.
Pararam onde a grama dava espaço para uma pequena praia de pedras, onde a água do rio lambia o chão de maneira preguiçosa, a correnteza quase inexistente. Mas Hiei ainda assim verificou o perímetro com sua atenção costumeira.
— Nenhum rastro recente — informou.
Depois, caminhou até a beira do rio e começou a organizar algumas pedras perto uma da outra, grandes e pequenas. Fez um gesto para que ela se aproximasse. Rina sabia: era mais algum treino.
— Suba — ele ordenou, apontando para a maior.
— O que é isso? — Rina perguntou, fazendo o que ele pediu.
— Agora se equilibre.
— Eu já estou equili- ei!
Rina balançou o corpo para frente quando de repente, Hiei tirou uma das pedras onde ela estava apoiada. Ela pulou para outra, igualmente grande.
— O que diabos foi isso?
Em vez de responder, Hiei apenas empurrou com o pé a nova pedra em que ela havia subido, forçando Rina a procurar outro lugar para subir. Agora dividia seu peso em vários apoios menores, que estavam dispostos sobre o rio.
— Escolha um pé, erga o outro. E concentre seu youki no apoio.
— Espera aí!
Mas Hiei ignorou. Chutou para longe todos os pedregulhos até restar somente um, pequeno demais para as botas de Rina. Ela quase caiu. Instintivamente, levantou um dos pés, apoiou-o na outra perna e cravou uma mão no ombro dele.
— Como eu faço isso? — ela perguntou, exasperada — Não tem espaço!
— Com pressão constante e na medida certa. Muito forte, a pedra racha. Se for insuficiente, você cai.
— Sem me segurar em nada?! Impossível.
Ele a olhou com um ar de desafio. Sem hesitar, deu um passo para trás, fazendo com que a mão dela perdesse o apoio. O movimento foi tão rápido que Rina perdeu o equilíbrio. E caiu sentada no rio.
— Podia ao menos ter me avisado! — reclamou.
— Tente de novo.
Rina fechou a cara. Resmungou baixinho. Mas se levantou, subiu na única pedra restante, se apoiando mais uma vez nele, dessa vez com as duas mãos, uma em cada ombro. Olhou primeiro para os próprios pés, que vacilavam tentando encontrar a firmeza necessária. O espaço era tão pequeno que teria que ficar na ponta dos pés.
Novamente, levantou a perna esquerda devagar. Dobrou o joelho para o lado, apoiando a bota na coxa direita. Depois, olhou para ele, a sua frente.
— Agora solte meu ombro — Hiei falou.
Ela inspirou fundo, sentindo a respiração desacelerar. Abriu uma das mãos e tirou do ombro dele. A perna esticada tremeu de leve. Concentrou sua energia na ponta que encostava na pedra. Tentou soltar a outra mão, mas em vez disso, o agarrou ainda mais forte.
Hiei então segurou o punho dela. O ergueu, desfazendo o contato com seu ombro.
— Eu vou cair se me soltar — ela falou baixinho, já sentindo a contração no abdômen, a perna ardendo.
— Então se concentre mais.
Rina travou seu olhar no dele, procurando um ponto fixo para não se distrair. Hiie a encarou de volta, sem desviar. Sentia a mão dele firme em seu pulso, até, de repente, não sentir mais.
Ela puxou o ar com força. Abriu os braços, oscilou o corpo. Sentia a pedra pequena demais sob sua bota, os músculos da panturrilha já tensionando pelo esforço. Mas, dessa vez, não caiu.
— Quanto tempo eu vou ficar aqui?
— O tempo que precisar — Hiei falou, dando mais um passo para trás para ficar longe do alcance dela.
— Que raio de resposta é essa?
— A única que você vai ter.
Rina apertou os dentes. Olhou para baixo, vendo a água escura do rio esperando por ela. Sua energia pulsava irregularmente, ora demais, ora de menos, seguindo o ritmo da sua frustração. O joelho vacilou, mas ela não deixou que cedesse. Tentou se concentrar ainda mais, mas a ansiedade não permitia ir além. Já era difícil o bastante quando não precisava também se preocupar em não cair.
Ela gritou um palavrão. A perna queimava.
Mas de repente, Hiei se empertigou. Se virou para trás, puxando a katana ao mesmo tempo. Escaneou a vegetação ao redor, como se pressentindo algo que ela ainda não tinha visto.
Rina sentiu a coluna se arrepiar de alarme, mas toda sua atenção estava no pé, e não conseguiu processar a mudança na vibração do ambiente. E antes que sequer conseguisse formular alguma pergunta, uma picada no ombro. Imediatamente, todo o equilíbrio se foi, e ela tombou para trás, despencando de novo sobre as águas geladas.
Levou a mão até onde tinha sentido a ferroada, e os dedos encontraram um metal frio e cortante. Uma shuriken, pequena mas afiada, fincada no ombro.
— Você está bem? — Hiei perguntou.
Ela arrancou a estrela de metal. Um fio de sangue escorreu de onde havia sido atingida.
— De onde veio isso? — ela perguntou.
A resposta já estava diante deles.
Um grupo de sete demônios se aproximava, deixando o ar mais pesado ao redor. Usavam coletes de couro bem cortado, tinham marcas desenhadas pelos rostos, as armas pulsavam com energia como se estivessem vivas.
Carregavam lâminas finas e alongadas, bastões compactos, dardos e outras shurikens presas nos cintos de maneira organizada, mostrando um nível de sofisticação que Rina não via com frequência. Um deles, com um tecido enrolado nos braços, trazia uma corrente em volta do corpo, com pequenos selos presos aos grilhões. Parecia o líder do grupo.
Estavam preparados demais para serem simples bandidos ou saqueadores comuns, da estrada. Não, aqueles eram caçadores de recompensas profissionais.
E olhavam para a dupla com um interesse predatório, quase obsceno. Mas não eram impulsivos. Não precisavam ser.
— É ela? — um deles perguntou.
Hiei já estava virado na direção deles, a katana em posição de defesa e ataque. Rina ainda estava sentada na água, e ela se apressou em levantar e puxar sua adaga também — que, perto do bando, parecia de brinquedo.
Outro youkai puxou um papel dobrado do bolso. O abriu. Olhou dele para Rina algumas vezes, a comparando à descrição do cartaz que carregava.
— Ela mesma — respondeu.
O youkai que fez a pergunta abriu um sorriso largo.
— Achamos nosso pote de ouro, rapazes.
Hiei deu um passo para frente, os dentes à mostra. Nenhum dos demônios pareceu intimidado, confiantes demais em sua vantagem numérica e em seu poderio bélico.
— Vou dar uma chance de desistirem e irem embora — Hiei respondeu.
O youkai com a corrente envolta no corpo riu da ousadia. Ele era alto, mas não brutamontes. Ainda assim, conseguia intimidar muito mais do que os ogros que tinham enfrentado naquele vilarejo no pé da montanha tantos dias atrás.
— Saia da frente, nanico. A Yuuma é nossa.
— Se precisam de sete demônios e todo esse arsenal para capturar uma youkai, isso vai ser mais fácil do que pensei — Hiei respondeu, com a mordacidade de sempre.
O sorriso se dissipou do rosto do demônio.
— Capturem a Yuuma com vida. Mas matem o baixinho primeiro — ordenou.
Rina estreitou os olhos de ódio. Antes que Hiei tivesse tempo de fazer qualquer coisa, ela foi até a orla do rio e se colocou na frente dele, apertando a adaga.
— Estão me procurando?
— O que está fazendo? — Hiei sibilou para ela.
— Confie em mim — murmurou.
Ergueu a adaga, deixou a energia solta. Não era medo que a movia agora, era a certeza fria de que, se conseguisse levar metade deles com ela, Hiei liquidaria o resto. E Rina teria prazer em finalmente usar o que aprendera.
Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos do grupo. Viu que eles começaram a se mexer também, vindo em sua direção. Então inspirou fundo, piscou os olhos por um instante, e a fina camada de energia que a cobria fez seu papel, a escondendo das vistas dos outros. Logo, estava invisível. E começou a correr, tentando ganhar distância — não para fugir, mas para os surpreender na hora certa.
Ouviu Hiei zunindo também, na direção oposta, atraindo a atenção de parte do grupo. Dois tentavam perseguir Rina, seguindo na mesma direção que a viram desaparecer, mas parando no meio do caminho, olhando ao redor, para todos os lados, os rostos confusos e irritados.
O líder do bando, no entanto, apenas cruzava os braços, acompanhando tudo com o sorriso sagaz de quem sabe que a disputa estava garantida a seu favor.
Rina já tinha ganho uma certa distância, e quando se virou para atacá-los desprevenidos, as dores ameaçaram a atacar também. Ela praguejou com a inconveniência que ainda não tinha superado, mas acabou desativando sua camuflagem, antes que perdesse toda a vantagem que tinha conseguido.
Aqueles poucos segundos foram cruciais. E quando eles a viram, avançaram imediatamente, os dois com suas espadas na mão. Ela deu mais um passo para trás. Concentrou seu youki para um jato controlado, mas não ia dar tempo, eles já estavam muito perto. Rina tinha perdido o fator surpresa e a ansiedade virou sua inimiga.
Mas quando um deles se adiantou e levantou a lâmina na sua direção, Rina instintivamente posicionou a adaga do jeito que Hiei ensinara.
Quando a espada desceu, a arma de Rina a encontrou no meio do caminho. Mas não com um baque surdo, e sim com um chiado metálico ao deslizar sua lâmina na dele. O peso quase lhe quebrou o pulso, mas seu ângulo estava perfeito. Tentou reunir sua energia apenas naquele braço, a concentração ainda falha. O máximo que conseguiu foi envolver seu corpo com sua aura.
Já foi o bastante. Ainda com a adaga aparando a espada, lançou a própria força do youkai para o lado, deixando a guarda dele perigosamente aberta. Rina não hesitou. Seu joelho subiu com violência, atingindo a virilha do agressor e arrancando dele um urro gutural que se transformou num palavrão engasgado.
Ela sorriu, mais confiante. O segundo assassino veio logo atrás.
Rina tentou a mesma estratégia, mas esse foi mais ágil — e mais esperto. Ela levantou a adaga, mas o youkai mudou a trajetória da espada, a pegando desprevenida. A lâmina desceu sobre a parte alta do braço direito de Rina, e ela quase não conseguiu segurar o grito de dor.
Não tinha sido apenas um corte. A pele ardia como se estivesse queimando, e, numa olhada rápida, viu que realmente estava. Onde a espada havia tocado agora se abrira um rasgo vertical, na blusa e na carne, mas também lacerações que, debaixo do tecido aberto, deixavam o braço vermelho, borbulhante.
Mas ela nem teve tempo de entrar em pânico. O mesmo demônio se aproximava de novo, pronto para incapacitá-la.
— Não tem pra onde correr — ele falou.
Rina engoliu em seco. O primeiro youkai já tinha se recuperado do golpe e começava a vir também na sua direção.
Sem escolha, e desistindo da manipulação precisa, Rina apenas focou em projetar sua energia do jeito que dava, explosão ou não.
Mas não conseguiu. Uma dor lancinante explodiu no braço ferido, irradiando do corte como se algo estivesse queimando por baixo da pele. Seu youki vacilou, fragmentado, disperso — como tentar segurar água entre os dedos. Era apenas uma fração do que ela sabia que podia invocar.
Ela não entendeu. Correu mais um pouco, abrindo distância enquanto tentava reunir sua energia de novo. Quando finalmente conseguiu liberar algo, foi um jato patético que mal empurrou o ar e a deixou mais exausta do que qualquer tentativa anterior.
Confusa, olhou para os assassinos na sua cola. Todas as presas estavam à mostra, em um sorriso tenebroso. A espada de um deles brilhava com uma luz azulada e doentia, pulsando na mesma frequência que a ardência no braço. Runas negras serpenteavam pela lâmina, vivas, se contorcendo.
Então ela entendeu. O machucado não era apenas físico. A lâmina havia cortado algo mais profundo. Seu fluxo de energia estava rompido, como se as runas tivessem aberto uma fissura no próprio tecido da sua aura e selando seu youki por dentro, bloqueando a passagem.
Ela segurou o ferimento com a mão oposta, prendendo a boca firme para não gritar com a dor.
A outra mão ainda agarrava a adaga. Sabia que eles não a matariam — tinha ouvido a ordem do líder — mas do jeito que a olhavam, era como se pudessem fazer coisas muito piores do que matar.
Então sem escolha, apertou os olhos e sumiu de novo. Sabia que dessa vez duraria ainda menos do que antes, mas talvez um segundo fosse tudo que precisasse. Ela contornou a dupla, encontrou a pequena área descoberta nas costas de um deles, logo abaixo do pescoço, e cravou a faca sem piedade, fazendo o sangue espirrar.
O youkai gritou de surpresa. Levou a mão até a área atingida, mas Rina não soltou. Enfiou a lâmina mais um pouco, contorcendo a faca, deixando o sangue ensopar tudo. Já estava visível novamente, mas não tinha importância. Arrancou a adaga dele e, com toda sua força, o chutou, fazendo com que caísse por cima do companheiro.
Ela olhou arfando para a cena. E, sem nem pensar, saiu correndo dali o mais veloz que pôde, segurando o braço que doía como nunca e sem olhar para trás.
Um vulto chamou sua atenção. Era Hiei, passando não muito longe dela, a espada em gestos tão rápidos que ela mal podia acompanhar. Por uma fração de segundo, os olhos dele encontraram os dela — e então desceram para o braço ferido, onde a energia dela pulsava com dificuldade, bloqueada. A mandíbula dele se contraiu.
Ele estava ferido também, com pequenos arranhões em todas as partes expostas do corpo: ombros, rosto, pescoço. Um dos youkais atirava dardos e mais shurikens em sua direção, e Hiei ia defletindo da maioria — alguns ainda o acertavam de raspão, adicionando mais um filete de sangue no corpo já machucado.
— Ei! — Rina gritou, tentando chamar a atenção do demônio, ao menos o suficiente para dar Hiei alguma vantagem.
Os dois olharam para ela. Hiei entendeu a deixa. E quando estava prestes a liquidar o agressor com um gesto rápido da katana, parou no ato ao ouvir o susto inesperado de Rina.
— Nem mais um passo — outro youkai, o líder do grupo, falou. Ele havia surgido de repente, e agora agarrava o braço de Rina com brutalidade, segurando bem onde estava queimado.
— Solte ela! — Hiei ordenou.
— Você já fez estragos demais. Abaixe essa espada.
Hiei prontamente ignorou. Mudou o alvo para aquele que prendia Rina, e saltou na sua direção. Mas ao mesmo tempo, o youkai puxou dois selos dos grilhões que tinha no corpo e os atirou na direção de Hiei.
Os papéis o atingiram ainda no ar. No primeiro contato, detonaram como se fossem bombas, explodindo em seu peito à queima-roupa. O mundo de Rina se reduziu à luz ofuscante e ao som que rasgou o ar, tão intenso que ela precisou virar o rosto para proteger a vista do clarão. Um estouro forte ecoou ao redor, seguido do baque surdo do corpo de Hiei caindo no chão.
Por um segundo, tudo ficou em suspensão. Mas logo depois, os ouvidos de Rina foram tomados por um zumbido fino e constante, ressoando dentro do cérebro, resquício do estrondo. O cheiro de carne queimada veio logo depois, junto do calor dissipado pelos explosivos.
Ela arregalou os olhos, gritou o nome de Hiei e sentiu todo o sangue deixando seu rosto ao perceber que ele não levantou de imediato. Que ele nem se mexia. Ficou em um completo choque, vendo seu corpo inerte, uma nuvem de fumaça escura pairando sobre ele, se dissipando aos poucos.
Ela tentou se soltar, puxando o braço apesar da dor — o pavor que a visão causava sendo maior do que tudo — mas o youkai a prendia de tal jeito que ela nem saía do lugar. E agora se juntava a ele o mesmo agressor que alvejara Hiei com os dardos, rindo como se o desespero de Rina fosse alguma piada.
O demônio que a perseguia também apareceu do seu lado. Com raiva, um deu um tapa em Rina, tão forte que arrancou sangue do canto da sua boca. O rosto inteiro queimou.
— Vadia — ele falou, seguido de um cuspe que pegou em sua bochecha.
Rina o olhou de um jeito assassino, a vontade de esmagar o crânio de todos surgindo incessante — não pelo cuspe, não pelo tapa, mas porque começava a temer que Hiei jamais se levantasse. Que a explosão houvesse causado um rombo no peito dele e estraçalhado seus órgãos vitais de forma irreversível.
Mas quanto mais puxava seu braço, mas ele parecia preso. Sua energia estava completamente alvoroçada, como se lutando para sair. Ela nunca desejou tanto ter seu poder com força total, nem que fosse para deixar que seu youki a consumisse e levasse tudo e todos ao redor.
— Isso não é maneira de tratar uma dama — Uma voz falou atrás deles, interrompendo os pensamentos de Rina e dando a ela um sobressalto.
Se viraram, todos igualmente intrigados. Gintaro estava logo ali, as mãos prontas para sacar as duas espadas que trazia na cintura, se aproximando devagar. Rina o encarou com espanto. Então ele realmente continuava seguindo os dois.
— E você, quem é? — o youkai que a prendia rosnou.
— Primeiro solte a moça.
Os demônios riram. E quando o líder do bando pegou mais um selo das correntes, Rina prendeu a respiração, já esperando outra explosão. Mas Gintaro foi mais rápido. Na mesma hora, desembainhou as espadas e, com um movimento preciso, as desceu cruzadas sobre o pulso do youkai, decepando a mão que segurava o selo.
Um segundo de silêncio se instalou. Depois veio o choque. O youkai gritou ao ver o sangue esguichando do braço mutilado, soltando Rina por reflexo.
— Sinto muito pela demora, princesa, achei que dariam conta sozinhos — Gintaro falou para ela — Mas vejo que o colega ali está fora de combate.
Rina mal processou as palavras dele. Só olhou para Hiei e correu até ele, ainda caído inerte no chão, e se agachou do seu lado, ansiosa e com medo do que iria encontrar. Só então viu a dimensão e gravidade dos seus ferimentos.
A camisa tinha um buraco no peito, as bordas queimadas pela explosão. Parte do tecido havia derretido e colado no corpo, como se fundido à pele pelo calor. Bolhas enormes se espalhavam sobre a queimadura, o músculo parcialmente carbonizado. O rosto estava frio e pálido, como se todo o sangue tivesse evaporado o corpo.
Aquilo era culpa dela. Se não tivesse cartazes espalhados pelo Makai inteiro, se não fosse uma maldita recompensa ambulante, Hiei estaria ileso. Se ela ao menos conseguisse lutar de maneira decente. Usar seus poderes como devia. Se não fosse tão inútil.
E agora ele podia morrer só por ter escolhido ficar ao lado dela.
Mas ele ainda respirava. Abria os olhos devagar, com dificuldade, tentava mexer os lábios ressequidos. O coração dela deu um salto, indo do terror ao alívio no mesmo instante. Ela segurou as lágrimas que quase deixou derramar e afastou o cabelo dele da testa com as mãos ainda geladas e trêmulas pelo nervosismo.
Na mesma hora, no entanto, Rina sentiu um puxão no braço. Um dos atacantes, tendo escapado dos golpes de Gintaro, agora a carregava, em uma última tentativa de capturar aquela que os daria uma gorda recompensa.
— Me solta! — ela gritou, tentando se levantar.
Ele continuou a puxando, as garras firmes quase furando a pele do seu braço, o corpo sendo arrastado pelo chão. A energia de Rina vibrou ao redor, fraca, mas ainda viva. Não conseguia se concentrar como devia, o que também não fazia diferença. Naquela altura, queria mandar o controle para o espaço.
O youkai estancou, sentindo fragmentos da aura de Rina, e olhou para ela.
Rina aproveitou a parada momentânea para se colocar de pé. Sem pensar duas vezes, usou o braço livre para acertar um soco no seu assaltante, que quase caiu, estupefato, a soltando no processo.
O braço de Rina latejou, o corte ainda sangrando. O demônio mostrou todos os dentes, a mão indo sacar a espada de volta. Ela não deu tempo. Acertou mais um soco, pegando no queixo dessa vez. Tentou lembrar das lições que Hiei. Como posicionar o cotovelo, o punho, a direção do golpe — mas a mente estava em branco. O que vinha era apenas a imagem dele caído, o peito desfigurado, o medo de que ele nunca mais se levantasse — era isso que estava queimado em suas retinas e em suas memórias, e era isso que a movia para frente.
Sabia que estava enfraquecida, assim como sabia também que, se reunisse sua energia em único ponto, ela poderia ficar mais concentrada. Então focou o pouco de youki que ainda restava em sua mão direita. A dor foi alucinante, tomou conta de todo seu corpo, como se vidro moído estivesse passando pelas veias. Mas se forçou a passar por cima disso e, sentindo o punho arder, desferiu mais um soco. E mais um, e mais um.
Perdeu as contas de quantas vezes o acertou. O braço só subia e descia. Automático. O demônio já não se mexia, caído no chão, mas ela não parou. Quando finalmente deu por si, os nós dos dedos estavam ensanguentados. O crânio do youkai, esfarelado. Rina olhou para as próprias mãos, trêmula, exaurida demais para ficar de pé.
Levantou-se, vacilante. Quando se virou, uma nova surpresa. Um outro youkai, com seu bastão erguido, já a um passo de distância.
Tudo que ela conseguiu fazer foi levantar a mão em defesa e jogar o corpo para trás. Não havia uma gota de energia sobrando no corpo de Rina e ela fechou os olhos, esperando o ataque.
— Eu cuido dele, docinho. Vá embora daqui — A voz de Gintaro surgiu.
Rina abriu os olhos, a tempo de ver o mercenário empurrando o demônio para longe. Ela ficou atônita por um segundo, mas concordou.
— Ei — Gintaro chamou, antes que ela se afastasse. Rina olhou — Vai precisar disso.
E ele jogou para Rina a bolsa dela que havia ficado para trás.
Rina apanhou no ar ainda sem saber o que fazer. Os pés a levaram correndo de volta para Hiei, que tentava erguer o tronco, mesmo sem a força necessária. Um pouco de sangue saiu da boca dele quando tossiu.
— Não tente falar — ela disse, a voz tão firme que até ela se surpreendeu — Só... só se apoie em mim.
Os olhos dele estavam opacos sob as pálpebras quase fechadas. Rina pegou o braço dele e o passou por cima dos seus ombros. O puxou para cima, mas ele cambaleou. Ainda assim, seguiu o puxando, fazendo com que ele desse um jeito de andar sem tropeçar nas próprias pernas, quase o arrastando. E, ao mesmo tempo, rezando para que ninguém viesse em seu encalço.
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