Visceral

24 Fragmentado


Rina arrastou Hiei consigo o quanto conseguiu. Ele andava a passos trôpegos, apoiado sobre ela, quase caindo, sem forças para se sustentar. Ela também estava exausta, fraca, o braço doendo, as pernas em chamas. Mas durante o trajeto, não pensava em nada disso. Só queria ir para o mais longe possível, o mais rápido possível. Apenas a sobrevivência importava.

Iam juntos sem pensar em caminho nenhum, apenas seguindo o labirinto de passagens estreitas e espaços côncavos esculpidos na rocha do cânion que se descortinava. Paredões de pedra marrons e vermelhos se erguiam por centenas de metros de cada lado, o céu apenas uma faixa fina e azul lá no alto.

Ela achou uma abertura oculta na rocha e o carregou para dentro. O espaço não era muito amplo, mas era fundo o suficiente para se esconderem das vistas de quem passasse por lá. Foram quase até o final. O caminho era apertado, o interior, úmido e gelado. Rina logo notou uma parte da parede mais escura, coberta de musgo. A água se infiltrava pelas ranhuras, vinda de algum lugar do lado de fora e gotejando de maneira insistente, formando uma poça cristalina no chão.

Ali, afastados da entrada, a luz que passava pelas frestas era pouca, apenas finos feixes que ao menos serviam para que não ficassem totalmente na escuridão.

Rina depositou Hiei no chão. Ele sentou reclinado na parede, soltando um gemido débil. Na mesma hora ela agachou-se ao seu lado, tirando a bolsa que apertava seu ombro.

Apesar da iluminação fraca, ela ainda podia ver o estado deplorável que o torso de Hiei tinha ficado depois do ataque. O sangue que manchava tudo ao redor, as partes queimadas, a pele se soltando.

Ela ficou sem saber por um instante, o pânico querendo tomar conta. Tinha conhecimentos básicos de primeiros socorros, sabia cuidar de alguns ferimentos, mas não tinha a menor ideia por onde começar.

Rina inspirou fundo. A cabeça de Hiei pendia para frente, como se ele não tivesse forças nem mesmo para a sustentar, e ela só sabia que ele estava vivo porque sua respiração era extremamente barulhenta.

A primeira coisa que fez foi tentar tirar a camiseta rasgada do corpo dele. Algumas partes ainda estavam tão grudadas no tórax que ela sabia que se tentasse puxar, a pele viria junto. Então cortou o tecido com cuidado usando a adaga e removeu o que pôde, para ter uma visão melhor do machucado.

Seu maxilar se apertou. Sentiu um peso no estômago, as mãos travando em pleno ar. Agora sem a camiseta o cobrindo, o estrago parecia ainda mais hediondo.

O peito estava escuro, com crostas grotescas. Tecido e carne queimada se fundiam, bolhas de todos os tamanhos se espalhavam. E em volta, linhas escuras se desenhavam, se espalhando em milhares de ramificações debaixo da pele, como se mostrando o trajeto violento que o choque havia feito em seu corpo, rompendo capilares pelo caminho.

Com as mãos tremendo, procurou pelo cantil de água na bolsa. Pegou também um lenço, o umedeceu e começou a limpar o sangue.

— Vai doer um pouco — ela falou, baixinho, sem ter certeza se ele estaria ouvindo.

O corpo dele se retraia de leve em algumas partes, e sempre que isso acontecia, Rina parava, assustada de que o estivesse machucando. Erguia os olhos, preocupada, engolia em seco. E continuava o trabalho.

Ele estava pálido, frio, a pele na altura das costelas estava inchada. O cordão que Hiei carregava ao redor do pescoço estava com a corda quase arrebentando, mas ainda aguentava firme. Rina tocou a pedra com cuidado e a afastou para o lado, observando sua reação. Mas Hiei nem se mexeu.

— Respira — Rina pediu — Só respira, por favor. Eu preciso que você continue respirando.

Ele não respondeu, mas um chiado úmido continuava saindo do seu peito. Toda vez que puxava o ar, ainda que de leve, era acompanhado de um ruído terrível. Por um lado, ao menos isso dizia a ela que ele continuava respirando. Mas por outro, significava que tinha algo de muito errado com seus pulmões.

A queimadura no peito continuava a encarando. Ela não tinha muito o que fazer quanto a isso, ia precisar esperar que seu corpo se recuperasse sozinho. Youkais se regeneravam mais rápido, ela sabia disso. Os machucados de Rina nunca duravam muito, em Hiei deviam durar menos ainda. Ao menos foi disso que ela se convenceu.

Então umedeceu o pano mais um pouco e também limpou seu rosto. Os lábios estavam secos e rachados, e ela se demorou neles, tocando com delicadeza o tecido molhado.

— Não morra, seu idiota. Você ouviu bem? — ela sussurrou, a voz brava escondendo todo o medo que sentia — Eu nunca vou te perdoar se você me abandonar desse jeito.

Nunca iria se perdoar também. Ela tinha uma mira em suas costas e, por causa dela, Hiei tinha uma também.

Ela voltou para a bolsa para procurar por curativos. Ainda havia várias pedras ali dentro, que Hiei a fazia carregar durante o caminho. Por isso o ombro doía tanto — mas na hora em que praticamente arrastava tanto Hiei quanto a bolsa para aquela gruta, ela nem tinha reparado no peso extra que carregava.

Jogou todas as pedras para fora, e achou um rolo de gaze e esparadrapos, restos do que trouxera do templo e do que comprara no entreposto comercial. Olhou para Hiei de novo, sem saber como proceder, com medo dos machucados internos estarem tão ruins quanto os externos. Mas fez o que pôde, cobrindo com cuidado as partes mais prejudicadas e torcendo para que fosse suficiente.

Rina o deitou com cuidado, a cabeça apoiada sobre a bolsa para ter alguma elevação. Ela o checava a todo instante, e seu coração quase parava toda vez que a respiração dele ficava sutil demais. Ela, com os dedos gelados, tentava sentir seus batimentos, procurando-os debaixo da mandíbula ou no pulso esquerdo. Só se tranquilizava quando conseguia encontrar a pulsação, mesmo que fraca.

Uma febre surgiu logo depois, e ela posicionava o mesmo pano umedecido em sua testa, tentando fazer sua temperatura baixar. Hiei acordava de tempos em tempos, abrindo os olhos com dificuldade, mas os fechando logo depois, balbuciando alguma coisa ininteligível com uma voz borbulhante que lhe dava calafrios.

Rina caiu no sono em algum momento, por pura exaustão. Acordou devagar, mas assim que lembrou-se de onde estava, levantou o corpo com um terror que fez seu coração disparar.

Olhou para o lado, assustada, mas Hiei continuava dormindo ao seu lado. A gruta estava um breu — provavelmente já era noite. Nem sabia quantas horas haviam se passado. A temperatura tinha despencado, e a umidade da caverna deixava tudo ainda mais gelado. Então abriu a bolsa com cuidado — ela ainda servia de travesseiro pra ele — e puxou a pequena manta de dentro.

O corpo inteiro de Rina doía tanto que ela nem sabia mais de onde vinha a dor. O braço ainda estava com o corte aberto, com o sangue já seco ao redor. Algumas queimaduras margeavam a laceração e mesmo o menor movimento a fazia fechar os olhos de desespero.

Tentou usar um pouco de água para limpar o sangue, mas mesmo tomando cuidado, tudo ardeu. Prendeu de qualquer jeito uma atadura sobre a ferida, esperando que estivesse melhor no dia seguinte.

Não havia uma gota de energia dentro dela. Se sentou do lado de Hiei e encostou a cabeça na parede como quem anuncia uma rendição. Trouxe a manta para si. Fechou os olhos, mas os abriu em seguida, com medo de cair no sono de novo. Era tentador a ideia de poder descansar, mas o receio de alguém encontrar os dois ali, tão vulneráveis, a enchia de um medo que se sobrepunha a todo o resto.

Ela pegou a adaga, segurando com a mão fraca, mas prestes a enterrá-la no primeiro que resolvesse aparecer. Ficou em silêncio. Tudo que ouvia era a água pingando no fundo da caverna, a respiração ainda ruidosa de Hiei.

— Você é o pior professor que eu já tive, sabia? — ela falou, olhando as pedras que antes estavam na bolsa, agora jogadas pelo chão.

Até falar parecia trabalhoso, mas era o melhor jeito de distrair o sono.

— Eu odeio quando você não explica direito o que é pra fazer. Ou quando me pede coisas impossíveis — Rina continuou, a voz rouca e a garganta doendo — Odeio que você espera que eu levante e continue mesmo quando eu me machuco.

E Rina soltou um suspiro, longo e triste.

— Eu odeio gostar tanto de treinar com você.

Ficou em silêncio o resto do tempo, olhando na direção da abertura da caverna, riscando o chão com a adaga apenas para ter o que fazer. Não ousou dormir. Mesmo o corpo suplicando por alguns momentos de sono, forçou o cérebro a não desligar.

Já tinha feito vigílias noturnas antes, mas naquela noite, as horas pareciam durar uma eternidade.

(…)

Já estava dia novamente. O sol entrava pelas frestas e pela abertura da caverna lá na frente, jogando uma faixa de luz pelo chão. Hiei continuava na mesma posição, a respiração ainda ruidosa. As gotas d'água seguiam no ritmo constante, imperturbáveis.

Ela foi até a poça formada e lavou o rosto. A água era limpa, mas também gelada, o que a ajudou a se manter acordada.

Checou Hiei, mas a febre não havia abaixado, e ela umedeceu de novo o mesmo pano, molhou seus lábios, ajeitou o tecido na testa. De repente o peito dele se agitou, e Hiei tossiu violentamente. Rina se assustou. O corpo dele tremia tanto que ela precisou o segurar para que não batesse com a cabeça no chão.

O acesso de tosse continuou, forte e visceral. Um pouco de sangue saiu da sua boca. Ele mal abria os olhos, as pálpebras tremendo. Mas então o engasgo se intensificou e, de repente, ele ficou quieto. O som antes barulhento da respiração também cessou. Hiei agora estava ainda mais pálido que o normal, mais inerte também.

Rina o encarou sem entender. Com medo, colocou os dedos em seu pescoço, mas não achou a pulsação. Tentou mais um pouco, mudando a posição, procurando algum outro ponto. Nada. Arregalou os olhos. O peito dele não se mexia mais, não subia ou descia. Não saia mais ar do nariz.

— Não, não, não… — ela sussurrou, alarmada.

O deitou de volta com cuidado. Precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Massagem cardíaca. Rina sabia como fazer — ou achava que sabia. Olhou para o tórax dele, enfaixado, se lembrando das queimaduras, das bolhas, da pele carbonizada. Colocar pressão ali iria só piorar o machucado.

Mas ela não tinha opção. Era isso ou deixar ele morrer.

Posicionou as mãos e começou a comprimir o peito dele, contando desesperada o compasso certo na cabeça, tentando se concentrar apenas no movimento. Depois inclinou a cabeça dele, pinçou o nariz, soprou o ar para dentro da boca. E repetiu tudo de novo.

Rina já nem sabia se contava no tempo certo, se a posição das mãos estava correta, apenas continuava fazendo cegamente o procedimento. As ataduras do peito se sujaram de sangue, mas ignorou isso também. O pânico rastejava ameaçadoramente dentro dela, e era um esforço tremendo afastar a sensação, focar apenas nele.

O suor pingava da sua testa, os braços e ombros doíam, as costas pareciam que iam quebrar. Os olhos procuravam o menor movimento do peito dele, o menor sinal de que os pulmões estavam trabalhando.

Na terceira tentativa, Hiei tossiu novamente. Rina parou, ofegante. O som que saiu da garganta dele era ainda mais horripilante do que antes, mas ao menos estava respirando. Ela apoiou a mão no chão, deixou a cabeça despencar. Aliviada, mas ainda apavorada. Em choque. Sentiu-se engasgar. E se isso acontecesse de novo? E se acontecesse quando Rina estivesse dormindo? E se da próxima vez, a manobra não desse certo?

Foi quando ouviu passos vindo de fora. Todos os seus sentidos ficaram em alerta, a adrenalina do que tinha acabado de acontecer ainda forte em suas veias.

Ela empunhou a adaga, segurando o mais firme que conseguiu, mesmo que o braço ainda ardesse, tanto pelo corte quanto pelos movimentos sobre o peito de Hiei. Não importava. A dor ficava em segundo plano.

Quando os passos ficaram mais fortes e uma sombra apareceu na entrada, ela ergueu a faca, foi para frente, avançando sem pensar. Só reagindo.

E Gintaro apareceu, as mãos erguidas na altura do rosto em sinal de rendição, as sobrancelhas arqueadas em surpresa, logo dando lugar a um sorriso.

— Opa, vamos com calma! Adorei a recepção ousada, mas vamos deixar as brincadeiras com faca pra outra hora — ele falou.

— É você — Rina constatou.

Rina abaixou a adaga, esgotada. De todas as pessoas que estavam procurando por eles, ao menos Gintaro era alguém que ela podia contar. Talvez pelos motivos errados, mas Rina não estava em muita posição de escolher aliados.

— Obrigada. Pela ajuda ontem.

Ele fez um aceno curto com a cabeça.

— Às ordens. Como você está? — perguntou, como se a resposta já não estivesse óbvia o bastante.

— Sobrevivendo — Rina guardou a adaga na cintura — Como estão as coisas lá fora?

— Mais tranquilas, por enquanto. Aqueles paspalhos não vão mais ser um problema. Eu falei pra você ter cuidado, boneca… — Gintaro esticou a mão e a acariciou no rosto. Depois, olhou para Hiei — E pelo visto seu guarda-costas ali apagou, não é?

— Ele está se recuperando — Rina falou. Nervosamente, deu um passo para trás, na direção de Hiei, quebrando o contato com o mercenário — Só precisa de mais uns dias.

Ela cruzou os braços e desviou o rosto, sentindo o olhar de Gintaro sobre ela, sobre Hiei. Era como se ele estivesse considerando os dois.

— Bom, não importa. Nós temos que ir — ele disse.

— Não — Rina balançou a cabeça — ele não está podendo andar. E eu não sei como estão os machucados por dentro. Temos que ficar aqui mais um tempo, até ter certeza.

— Quem falou em levar ele?

Rina franziu a testa. Estava tão cansada que não entendeu de primeira o que o mercenário estava propondo. Mas assim que a ficha caiu, ela deu mais um passo para trás.

— Está dizendo pra deixar ele aqui? Sozinho?

— Já falei que meu compromisso é só com você e Haru.

— Não! — ela exclamou, atônita. Balançou a cabeça com veemência — De jeito nenhum! Não! Eu não vou largar ele desse jeito! Ele pode morrer se eu fizer isso.

Mais um passo para trás. A mera ideia a deixou transtornada, apavorada demais para sequer cogitar o que ele estava propondo. Não iria deixá-lo. Principalmente depois do que tinha acabado de passar. Não, Hiei era responsabilidade dela. Estava daquele jeito por sua causa.

— Eu sinto muito, docinho — Gintaro falou, sorrindo como se não sentisse nem um pouco — Mas não é um pedido. Eu tenho um contrato a cumprir.

O desespero a alcançou. Sem pensar, Rina puxou a adaga da cintura. Apontou para ele, os olhos injetados, o maxilar firme.

— Eu disse não. Te mato se você chegar perto — ela ameaçou, mantendo a mão o mais estável que conseguiu.

— Eu não duvido — Gintaro falou — Mas vamos combinar que sua condição não é das melhores… Não me obrigue a te carregar a força.

Os dentes dela se apertaram ainda mais. Os olhos desceram rapidamente para as duas espadas na cintura dele. O desgraçado estava coberto de razão. Se sentia abatida, enquanto o mercenário estava em plena forma. Ele até tinha alguns arranhões, um furo na capa, mas isso não era nada. Rina sabia que não tinha a menor chance.

E quando ele deu um passo até ela, braço esticado em sua direção, Rina andou mais um pouco para trás. Outro passo e ela bateria com as costas na parede da caverna.

A energia dela então começou a pulsar, sozinha, sem comando. E não de forma controlada, não como Hiei ensinara. Era errática, selvagem, respondendo ao pânico que a consumia. O ar ao redor começou a vibrar, a distorcer.

Gintaro parou. Os olhos dele se estreitaram.

— O que você está fazendo? — ele perguntou, a voz mais cautelosa agora.

Rina nem sabia ao certo. Só sentia a energia se acumulando, comprimindo, querendo explodir. Doía. Cada célula do corpo gritava para parar, mas ela não conseguia. O corte no braço flamejou com a dor.

Ela percebeu o receio no semblante de Gintaro e continuou forçando seu youki, deixando crescer, tentando romper todo o bloqueio que o machucado causara. Mesmo que isso a despedaçasse inteira por dentro.

— Encoste em mim e eu solto tudo — ela falou, a voz baixa, perigosamente calma — Não sobra nada de nenhum de nós.

— Você está blefando.

— Quer descobrir?

Rina começou a acreditar que poderia mesmo furar o bloqueio de sua energia se tentasse o suficiente. E foi o que fez. Prendeu os dentes com força para evitar mostrar a dor que isso causava nela e continuou obrigando seu youki a se expandir. O ar entre eles começou a rachar, pequenas fissuras de energia pura se abrindo. A caverna inteira vibrava agora, pedrinhas caindo do teto. A água da poça ondulava, inquieta. Tudo estava denso, elétrico.

Gintaro deu um passo para trás. Depois outro. Pela primeira vez desde que o conhecera, Rina viu algo próximo de incerteza em seu rosto.

— Abaixe sua energia, Rina — ele falou — Você está cansada, não está pensando com clareza.

— Exatamente — ela respondeu, e havia algo quebrado na voz — Então não me teste.

Não era blefe. E ele sabia — podia ver isso refletido nos olhos dele. Ela realmente faria. Explodiria tudo, ele, ela, Hiei, as rochas, caverna, o cânion inteiro. Só para não ter que viver com a culpa de abandoná-lo.

O silêncio se estendeu. A energia ao redor dela pulsava, instável, pronta para detonar ao menor movimento errado. Mesmo ela sabendo que ainda estava fraca, que forçar mais poderia ser seu fim, que o curativo no braço já estava ensopado de sangue novamente, como se o esforço estivesse rasgando ainda mais a ferida.

— Rina-

— Eu vou continuar o trajeto — ela se apressou a falar — Depois que Hiei estiver melhor. Enquanto isso, nos deixe em paz. Se você vier aqui de novo, se eu vir nem que seja sua sombra-

Gintaro soltou um suspiro longo, as mãos se erguendo em rendição.

— Está bem — ele falou, a irritação evidente — Você está começando a me dar mais dor de cabeça do que pensei.

— Vai. Embora.

— Como quiser — ele falou — Mas não me faça esperar muito.

Ele se virou, os passos deliberadamente lentos. Antes de sair, olhou por cima do ombro.

— E da próxima vez que nos encontrarmos, espero que esteja com a cabeça no lugar.

E saiu.

Rina ainda ficou parada, a energia pulsando descontrolada. A pressão que sentia no peito era insuportável, mais pesada que toda uma cadeia de montanhas. Sua respiração saiu irregular, entrecortada. Mãos suavam, o estômago doía. Todo o corpo estava em frangalhos. Esperou até o som dos passos dele desaparecer completamente. Até ter certeza de que ele estava longe dali.

Então soltou tudo de uma vez.

Parte da energia voltou para dentro dela, e o resto se dissipou lentamente em uma onda fraca, até não sobrar mais nada — só o braço latejando, a enxaqueca martelando o crânio.

Toda a adrenalina que a mantinha em pé se evaporou no mesmo instante e os joelhos dela cederam. Rina caiu no chão, as mãos ainda tremendo, quase sem ar. Era como se finalmente conseguisse respirar, depois de horas debaixo d'água.

O terror veio imediatamente.

O que ela tinha feito? O que ia fazer?

Olhou para as próprias mãos como se pertencessem a outra pessoa. Elas ainda vibravam com resquícios de energia, ainda formigavam com a memória do poder que quase liberara.

Não tinha sido uma ameaça vazia. Por um segundo, um segundo terrível, ela realmente estava disposta a explodir tudo. A matar Gintaro, a si mesma, e levar Hiei junto no processo. Tudo para não ter que tomar a decisão de deixá-lo sozinho naquele estado. No que ela tinha se transformado? Até onde estava disposta a ir?

A respiração dela ficou ainda mais irregular. O peito apertado demais, a garganta fechando.

E foi assim, quando toda a angústia que vinha segurando finalmente se alojou dentro dela e um silêncio aterrador se seguiu, que a pergunta mais perigosa de todas surgiu em sua mente: o que seria dela se Hiei morresse?

A resposta veio devagar, aterrorizante em sua clareza: o que a assustava não era a ideia de ficar sozinha.

Era a ideia de ficar sem ele.

Rina levou a mão à boca, assustada com a ideia. Mais assustada ainda com o que aquilo causava nela.

Pois agora entendia que aquele sentimento ia ser a ruína dos dois. Dela, pois estava disposta a fazer coisas impensáveis por ele. Dele, pois só o fato de acompanhá-la já o colocava em perigo, o transformava num alvo.

Rina então deixou a cabeça cair para frente, as costas curvadas, derrotada.

E chorou.