Visceral

7 Águas escuras


Hiei abriu os olhos ainda de madrugada. O céu estava escuro como piche, nenhuma estrela visível. A lua se escondia atrás das nuvens densas. Nem o vento soprava. Tudo estava estático, em suspensão.

Mas ele tinha ouvido alguma coisa. Não, sentido. Uma diferença na pressão, uma energia discrepante, alguma mudança sutil no ar. Ficou imóvel, tentando entender o que era, mas seus sentidos ainda estavam amortecidos, leves, devagar. Como se ainda estivesse dormindo.

Rina estava deitada a uma curta distância dele, os olhos igualmente abertos. Se encararam em um acordo silencioso. Nenhum dos dois precisou abrir a boca para entender que estavam alinhados em uma coisa: algo estava fora do lugar.

Discreta, Rina levou a mão para debaixo da bolsa que usava de travesseiro e puxou a adaga de lá. Instintivamente, Hiei também alcançou a katana.

Então ouviu passos. Quietos, lentos, precisos. Numerosos também.

Estavam cercados.

O primeiro vulto surgiu entre as árvores à sua frente, às costas de Rina. A silhueta era tão escura diante do céu negro que Hiei por pouco não discerniu. Outros dois à sua esquerda, mais um ou dois por trás. Cochichavam entre si e trocavam olhares.

Rina arregalou os olhos. Tinha visto também.

Hiei reconheceu o tipo e logo compreendeu o que estava acontecendo. Eram youkais nômades. Bandidos da estrada, reles salteadores. Não seguiam rei, nem obedeciam lei que não fosse a deles próprios. Atacavam quem encontrassem pelo caminho. Em geral, eram fracos, por isso agiam em grupo, muitas vezes usando artimanhas para pegar viajantes desprevenidos ou com ataques na calada da noite.

— Eles estão acordados — um deles falou, o tom surpreso.

— Não colocamos sonífero suficiente? — Outra voz.

Hiei já estava de pé. Rina o seguiu, mas ainda cambaleante. Faltava firmeza nas pernas.

— Não tem problema — um terceiro falou — Ainda vão estar devagar o suficiente.

Ele se adiantou. Era alto e magro, com garras pontudas e as presas expostas em um sorriso cínico. Segurava uma espada longa e curvada e parecia ser o líder do bando.

Hiei avançou um passo, a mão firme na katana.

— Cinco contra dois? Isso é covardia… — ele falou, com um meio sorriso debochado — Deviam ter chamado mais gente.

O líder do grupo fechou a cara. Soltou um assobio, e todos atacaram ao mesmo tempo. Hiei saltou para desviar, mas se sentiu lento e o facão de um deles raspou a sua roupa, abrindo um corte no tecido na altura do peito. Algo tinha afetado seus movimentos, aquilo era claro. E ele já tinha uma ideia do que era.

Mesmo mais pesado e devagar que o normal, Hiei ainda estava muitos níveis acima de cada um deles. Enfrentou dois ao mesmo tempo, fazendo aparecer fácil. Os derrubou sem grandes problemas, com golpes precisos e fatais — ainda que por muito pouco não tivesse perdido o equilíbrio.

Olhou para Rina e viu que o terceiro assaltante já estava indo para o chão, esse com um corte na garganta. O outro, o mais magro, a atacou, mas ela não teve problemas em pressentir o movimento e evitar o contato.

Hiei a observou, talvez por alguns segundos a mais do que pretendia.

Viu Rina investir contra o demônio, mas sua arma era curta, e ela parecia não conseguir a abertura necessária, os movimentos não tão precisos. Mas ainda assim, igualmente não dava brechas.

Não havia nada de elegante em sua técnica. Faltava mais controle nos seus gestos, mais refinamento. No entanto, sobrava aptidão. E tenacidade. Havia algum poder adormecido por trás. Sem falar em um certo talento no jeito em como segurava a adaga. A mesma adaga que ele achava tão ridícula — mas que na mão dela, ganhava vida. Como se agisse com propósito.

Rina talvez não fosse forte do jeito que ele esperava. Mas também não era fraca.

O último dos ladrões apareceu por trás dela, segurando uma clava grossa de madeira. Hiei achou que ela novamente sentiria a presença dele a tempo e conseguiria se esquivar, mas foi lenta demais e o porrete a atingiu na cabeça, fazendo Rina cair como uma boneca de pano.

O youkai magro riu, guardou a espada e agarrou Rina pelos cabelos. A levantou até a sua altura, mas trocou o riso por surpresa. Ela ainda estava acordada. E sem demora, Rina projetou a mão para frente até enterrar a adaga no peito do demônio. Ele arfou, o sangue saindo pelo tórax e borbulhando pela garganta. Rina torceu a lâmina, fazendo o youkai urrar ainda mais, até tombar aos seus pés.

Ela se virou rápido, procurando pelo último atacante, mas ele também já estava caído. Hiei, a seu lado, guardava a katana de volta.

— Nós fomos drogados — ela falou, ainda arquejando.

— Idiotas — Hiei resmungou, olhando ao redor.

Buscou o cantil de bebida que ainda estava jogado por perto. Cheirou novamente, mas o odor etílico mascarava o que quer que tivessem usado como entorpecente. Depois pensou nas comidas. Em tudo que tinham ingerido. Provavelmente também estavam contaminadas.

Era óbvio. Nada no Makai é largado no mato à toa. Ele sabia que estava certo em ter desconfiado. Maldita tinha sido Rina por desdenhar de suas suspeitas. E ele, por ter baixado a guarda.

— Largue o resto das comidas. Vamos sair daqui — disse, jogando fora o cantil.

— Não podemos ficar mais um pouco?

— Já nos fez perder muito tempo ontem.

Rina olhava para um dos youkai caídos no chão. O com a clava de madeira. Era a segunda vez que Hiei salvava a sua vida, e aquilo não a escapava. Sabia que devia ser grata — qualquer outra pessoa seria — mas não conseguia. Não gostava nem um pouco de parecer fraca.

— Está querendo dizer que a culpa é minha?

— A culpa foi minha por dar ouvidos a você — Hiei respondeu.

Rina o fuzilou com o olhar. Estava se sentindo irritada e precisava descontar. Podia culpar o recente ataque pelos nervos aflorados. Ou o golpe na cabeça. Ou até o resquício dos narcóticos no organismo.

Mas ela sabia, no fundo, que não era nada disso.

— Quer saber? Estou ficando farta das suas ordens.

— Não estamos no Makai a passeio — ele falou, inabalado — Eu deixei claro que seguiríamos pelos meus termos, e você aceitou.

— Quando aceitei ainda não sabia que ia ter vontade de enfiar minha adaga em você pelo menos vinte vezes por dia — Rina retrucou.

Hiei a encarou. Franziu a testa de leve. Depois foi até o youkai com a arma de Rina no peito, arrancou a adaga e ofereceu a ela.

— Por que não tenta?

A respiração de Rina continuava instável, provavelmente não apenas pelo cansaço. Ela deu um passo até ele, chegando perto o bastante pra que Hiei sentisse sua respiração quente no rosto.

— Você acha que eu não faria?

E por um instante, Hiei cogitou que ela realmente faria.

Mas ela não fez. Deslizou a adaga da mão dele para a dela, sustentou o olhar por mais alguns momentos, e se afastou.

— Não vale o esforço.

Ela se virou, indo na frente, sumindo entre as árvores.

— Que pena — murmurou Hiei, com um pequeno sorriso enviesado.

(...)

O dia clareava no horizonte, revelando a paisagem aos poucos. Hiei olhava para a imensidão serena que crescia a sua frente. Eram as terras baldias, uma planície árida, de chão duro e marcada por desfiladeiros, que se estendia por quilômetros e que ele pretendia atravessar ainda naquele dia. Nada além de plantas suculentas e insetos peçonhentos viviam ali.

Bem mais ao longe, ele podia ver os enormes rochedos e troncos largos que tinham servido de palco para o primeiro torneio do Makai um ano atrás. Daquela distância, mais pareciam riscos em direção ao céu.

O território de Yomi era naquela direção. O de Mukuro, no extremo oposto. Hiei não queria passar por nenhum dos dois, e isso o obrigava a traçar uma rota menos familiar. Ele não fazia ideia do que encontraria depois daquela planície, mas esse era o tipo de risco que não o incomodava. Makai não o metia medo.

Atrás dele, Rina começava a despertar. Tiveram uma noite agitada e ela desmaiou de sono no instante em que fizeram a primeira pausa.

Era irritante, ele pensou. Para todos, bastava um olhar atravessado para que calassem a boca. Rina, no entanto, não se deixava intimidar tão facilmente. Disparava as perguntas que bem entendia sem o menor constrangimento, o fazia pensar em coisas que ele preferia não pensar, fazia comentários apenas para provocá-lo.

E ainda teria que aguentá-la por mais tantos outros dias.

Hiei afastou os pensamentos e decidiu usar aqueles primeiros minutos matinais para conferir o fio da katana e amolá-la se necessário. E enquanto passava a lâmina pela pedra, uma ideia o atravessou. Olhou para Rina de relance.

E se a vinda dela ao Makai fosse, no fim das contas, com o propósito de dar a ela algum treinamento? Preparação para o próximo torneio, talvez? Meditou sobre essa possibilidade por um instante. E imaginou se eles se encontrariam, se chegariam a duelar e em como seria esse duelo. Como ela estaria depois de treinar com verdadeiros guerreiros do Makai? Depois de parar de limitar sua energia e aprender a usá-la de maneira ofensiva, como deve ser? Seria uma oponente à altura?

Talvez. Havia potencial ali.

— O que você está fazendo? — ela perguntou, o trazendo de volta.

Hiei piscou, como se voltasse de muito longe, se dando conta de que estivera olhando fixamente para ela durante os últimos minutos.

— Já terminei. Vamos.

Recolocou a espada na bainha e saiu na frente, determinado a não oferecer brechas para mais conversa.

Pelo resto da manhã, preferiu não pensar em mais nada.

(...)

Conseguiram cruzar boa parte da planície aquele dia. Mas no fim de tarde, o terreno seco e rachado começava a dar lugar a algo diferente. Mais estranho.

As formações rochosas, antes sólidas e escarpadas, estavam mais espaçadas. Pequenos veios de água brotavam entre as fendas e escorriam como sangue entre as pedras, como se o solo tivesse sido corroído por alguma força silenciosa. Poças escuras que não evaporavam nem mesmo sob o sol começaram a aparecer pelo caminho.

Logo, a terra vermelha se tornava lodosa, tingida de um verde sujo. Ela ficou úmida e lamacenta. A vegetação rasteira agora crescia torta, surgindo das áreas alagadas, e um nevoeiro pairava sobre o chão, carregando um cheiro acre de matéria orgânica decomposta.

Era como se o próprio deserto estivesse apodrecendo. E mesmo sob o sol poente, eles conseguiram vislumbrar que o que tinham diante de si era um pântano. Um trajeto muito pouco convidativo.

Rina inspirou fundo. Vinha sentindo uma dor de leve nas pernas, mas não falou nada. Logo iria passar. Enquanto isso, Hiei mantinha o mesmo olhar certo de sempre — mas ela começava a duvidar que ele soubesse o que estava fazendo.

— Vamos — Era a ordem de sempre.

— Espera — Rina falou.

Algumas árvores finas cresciam na beirada da água, carregando pequenos frutos verdes. Para Rina, lembravam maçãs, redondas e suculentas. Ela arrancou algumas dos galhos mais baixos, guardou todas na bolsa, mas manteve uma na mão e deu uma mordida. Era azeda, mas a fome de Rina era mais.

— Só garantindo meu lanche.

Hiei foi na frente, entrando no pântano. Logo a lama se transformava em uma água barrenta e cobria seus pés, chegando aos tornozelos. Era tão escura e densa que já nem podiam vê-los debaixo dela. Tão grudenta que parecia querer os prender e impedir que continuassem.

— Temos mesmo que atravessar isso? — Rina perguntou.

Ele ignorou a pergunta e continuou andando, prosseguindo com veemência para vencer o pântano o mais rápido possível. A água escura subia devagar pelos corpos dos dois, a cada passo, cobrindo um centímetro a mais. Em pouco tempo, cobria seus joelhos.

— Você já pensou no que vai fazer quando isso acabar? — ela perguntou.

— Do que está falando?

— Quando chegarmos no destino. Para onde vai depois disso?

Hiei ficou calado. Não costumava pensar tão a frente assim. Tinha largado a fortaleza de Mukuro sem um plano em mente e o trabalho com Rina estava ajudando a ocupar seu tempo. Dali em diante, era uma incógnita.

— Isso não é da sua conta.

— Só estou puxando assunto, seu infeliz.

— Pois se preocupe apenas com você — Hiei respondeu.

Ela fez uma pausa. Tinha terminado sua segunda maçã. Ofereceu uma a Hiei, mas ele nem olhou.

— Você não quer responder ou você não sabe a resposta?

— Eu preferia quando você ficava calada.

E ela desistiu da conversa. Os movimentos estavam pesados e difíceis, o pântano parecendo levar a melhor. Seu humor estava ficando tão escurecido quanto as águas que estavam sendo obrigados a atravessar.

Hiei, no entanto, seguia firme na frente. Se não conhecia aquele caminho, disfarçava bem. O miserável era bom no que fazia, precisava reconhecer. Mais uma vez se pegou pensando no quanto tudo aquilo parecia natural para ele, e se perguntou se algum dia seria assim para ela também.

Tinha desejado, em mais de uma ocasião, perguntar quanto tempo ainda faltava para alcançarem o destino, mas nunca chegava a fazer. Tinha medo da resposta. Podia ser um dia ou cem, não faria diferença. Qualquer quantidade seria igualmente assustadora.

Rina fez uma pausa, de repente sentindo a bolsa mais leve que o normal. Olhou para trás e suspirou irritada. Durante o trajeto, a lona tinha rasgado, e parte do conteúdo agora boiava pela água suja. Algumas maçãs e até itens pessoais tinham ficado pelo caminho, flutuando para longe.

Hiei notou, olhando de relance. Parou também.

— O que houve? — perguntou.

— Minhas coisas.

— Algo de valor?

Rina não respondeu de imediato. Sentiu os ombros caírem. Amarrou a bolsa tentando segurar o rasgo e olhou para o horizonte. Sabia que a maioria das coisas seria perda de tempo tentar recuperar.

Mas um papel branco chamou sua atenção e ela foi até ele, o apanhou e limpou a água preta da sua superfície. O virou. Era a foto de um grupo de jovens, com jaquetas de couro e rostos adolescentes. Rina sorriu sem perceber. Nem se lembrava de ter trazido aquilo.

— Se não é importante, vamos logo. Não temos o dia todo.

— Sensível como sempre, não é?

— Não sabia que era apegada a bobagens — Hiei falou, a indiferença na voz — Esse sentimentalismo barato não combina com você.

Ela se virou para ele. Jogou a cabeça para o lado, cruzando os braços devagar. Os olhos semicerrados, cheios daquele ar superior que Hiei detestava. Ele, como sempre, fingiu não ver.

— Acho que não sou a única, não é? — Ela fez uma pequena pausa, observando a reação dele — Esse pingente que você carrega no pescoço por acaso é o quê? Alguma recordação sentimental barata também?

Hiei gelou na mesma hora. O maxilar se contraiu e até os olhos pareciam petrificados. Mas no segundo seguinte, a mão agarrou a empunhadura da katana, uma reação rápida e instintiva — mas não a sacou.

— O que você sabe sobre isso? — falou, a voz baixa, fria, com uma dureza que cortava mais que a própria espada.

Rina tinha certeza que ele puxaria aquela espada para ela a qualquer instante, mas ainda assim, fez questão de manter o sorriso insolente. Ela não costumava recuar depois que começava.

— Eu notei que usava um cordão quando limpei seu ombro — respondeu em um tom provocante — Mas só vi o pingente quando cortou a roupa no ataque dessa madrugada. Vi algo brilhando pela fresta. E sinceramente, você não me parece o tipo que usa joia por vaidade. Então só pode ter valor sentimental.

Hiei finalmente sacou a espada e apontou para ela.

— Nunca mais toque nesse assunto — ele falou, enunciando cada palavra.

Rina não se mexeu. Ficou absolutamente imóvel, encarando Hiei. A espada chegou ainda mais perto. Estava tão afiada que um pequeno arranhão se formou em seu pescoço. Uma gota de sangue escorreu pelo metal.

Ficaram assim por um tempo, em um impasse eterno que durou apenas alguns segundos. Não tiraram o olho um do outro. Ela, como afronta; ele, como ameaça. Até que Hiei se afastou, sem dizer mais nada. Guardou a katana. Rina limpou o risco de sangue do pescoço e igualmente se manteve calada.

Foi a primeira vez que viu algo real no olhar dele. Na voz. Algo profundo que também, pela primeira vez, a intimidou. Ainda que ela não demonstrasse — ou admitisse.

O silêncio entre eles se estendeu por alguns passos. Rina tentou focar em manter o corpo em movimento, mas sentiu uma fisgada no peito — não de mágoa, mas física, real.

Ao mesmo tempo, Hiei parou de andar. Esticou o braço para o lado obrigando Rina a parar também e pediu silêncio. Olhou para a vegetação aquática que flutuava sobre as águas negras e lodosas. Tudo estava quieto. Quieto demais.

Cortando o ar de repente, um som grave, como um coaxar, os surpreendeu. Antes que qualquer um dos dois pudesse ter uma reação, uma força violenta os atingiu pelas costas, os derrubando ao mesmo tempo. Hiei e Rina caíram para frente, mergulhando os rostos no pântano e sentindo a água pegajosa grudar no corpo. O fundo era arenoso e instável, mas a profundidade era baixa o suficiente para que conseguirem se levantar logo em seguida.

Eles podiam ouvir o barulho da água se agitando, respingando entre a vegetação. E mais à frente, viram um vulto quicar sobre o pântano, pulando rápido de um ponto para o outro enquanto ganhava distância, espalhando água pelos cantos.

— Minha bolsa! — Rina exclamou.

Hiei estreitou os olhos, tentando capturar o movimento do ser que saltava com rapidez e uma facilidade fora do comum sobre a água. Sem esperar, partiu em seu encalço, enfurecido — não tanto pelo roubo quanto pelo pelo atrevimento de tê-lo acertado nas costas.

Rina o acompanhou à distância. Seu coração acelerava de um jeito irregular, a respiração ficava mais curta. Tentou disfarçar, seguir andando como se nada tivesse mudado, mas o mundo ao redor já começava a se desfocar pelas bordas e ela não conseguiu sair do lugar. Rina fechou os olhos. Tentou controlar a pulsação, mas não conseguiu. A respiração parecia sem freio. E aquilo a incomodou.

Ela costumava ter um controle excepcional do seu corpo, mesmo em situações tensas ou perigosas. Mas não era apenas a palpitação que fugia do seu controle dessa vez. Suas mãos também estavam frias, geladas quase. E não eram pela água. Suas entranhas se reviravam. A dor que vinha sentindo no músculo da coxa desde mais cedo explodiu, queimando de dentro para fora, como se um ácido a estivesse corroendo.

Ela tentou ignorar tudo mais uma vez e seguir adiante — era isso que sempre fazia, que sempre funcionava — mas no primeiro passo que deu, as pernas vacilaram.

Rina parou, insegura. Uma fraqueza que ela não conseguia mais espantar tomou conta.

Hiei não notou. Seguiu na perseguição do assaltante e não demorou para alcançá-lo. O agarrou pelo pescoço, o puxando para trás. Era um pequeno youkai anfíbio, com a pele escorregadia, apenas três dedos longos em cada mão e olhos grandes e amarelos. Exalava um cheiro desagradável de lodo. Provavelmente, o pântano era seu lar.

— Espere! — ele gritou, a voz tomada de pânico, quando Hiei apertou seu pescoço.

— O que pensa que está fazendo?

— Só queria as frutas, podem ficar com o resto! Sou um demônio fraco, não ofereço riscos!

Hiei olhou para o pequeno youkai a sua frente. Tinha o rosto contorcido de medo. E realmente parecia insignificante demais para ser sequer considerado uma ameaça. A ousadia, no entanto, era enorme.

— São cirelas, veja — o demônio continuou, tentando se exlicar. As mãos tremiam enquanto ele abria a bolsa de Rina de maneira desajeitada e tentava pegar uma das maçãs. Puxou um dos pomos, pequenos e verdes — São tóxicas para youkais terrestres, não iriam servir pra vocês. Só crescem no pântano.

Hiei o largou e pegou a fruta da sua mão. A observou de perto. Nunca tinha visto ou ouvido falar naquele nome antes.

— Do que está falando?

— A seiva, ela é ácida. E infestada de parasitas.

Então ouviu o som de algo pesado caindo na água — rápido, abrupto, fora do ritmo da caminhada. Olhou primeiro pelo ombro, até que se virou completamente, estupefato.

O corpo de Rina boiava, desmaiado, nas águas barrentas daquele lodaçal.

(...)

"Merda! Você só pode estar de brincadeira comigo," Hiei pensava, exasperado, enquanto carregava Rina. A água, que chegou quase na altura do peito em um momento, o atrasava. A resistência somada ao peso extra nos braços o deixava mais lento do que o normal.

Hiei a largou em terra firme quando já era noite. A única luz que tinha era a da lua cheia, que passava aberta pelo céu limpo. As folhas e gravetos largados pelo chão estavam molhados demais para servirem de base para uma fogueira e ele nem perdeu tempo tentando.

Ainda assim, analisou Rina, desmaiada, imunda pela lama e marcada pelos arranhões que fizera pelo caminho.

A energia de Rina pulsava, indicando que ainda estava viva. Mas ela não havia acordado ou sequer se mexido desde que ele a apanhara do lodo do pântano e a trouxera até o ponto em que agora se encontraram.

Chegando mais perto, viu pequenas manchas escuras tingindo partes do seu corpo. As pernas estavam tomadas, e quando ele afastou o tecido encharcado da saia, seu semblante endureceu com o que viu.

Os pontos pretos não só eram maiores, como também eram mais do que simples manchas. Eram buracos, pedaços apodrecidos de carne. Escaras vermelhas que se espalhavam pela coxa esquerda e começavam a aparecer na direita, abrindo furos cobertos de pus e outras secreções. Há quanto tempo estava assim?

— Idiota — falou, como se ela o pudesse ouvir — Por que você não falou nada? E como diabos arrumou isso?

Pensou por um segundo. O pequeno ladrão youkai já tinha fugido, aproveitando a confusão para carregar a bolsa consigo e sumir para longe dali. E Hiei então se deu conta.

Maldição!

As frutas. O anfíbio devia estar certo sobre elas.

Rina tinha ingerido algumas. Se estava assim do lado de fora, não conseguia nem pensar em como estaria por dentro.

Um verme rastejou para fora da ferida. Hiei o agarrou sem hesitar. Olhou de perto a pequena larva e o esmagou entre os dedos. Talvez tivessem mais. Talvez tivessem infestado o corpo de Rina. E ele podia ficar a noite toda tentando arrancar aquelas larvas comedoras de carne uma a uma, mas sabia que isso não seria o bastante.

— Inferno — resmungou, frustrado.

Pela primeira vez, Hiei não soube como proceder. Talvez fosse mais piedoso acabar com a vida de Rina ali, agora. Mais sensato também. Queimar seu corpo junto com aqueles parasitas e encerrar de uma vez por todas aquela viagem infernal que estava exigindo dele mais do que ele estava disposto a oferecer.

Ou ele podia simplesmente a deixar aí. Seria até mais fácil. Largar o corpo e ir embora como se ela não fosse mais problema dele.

Quase quis fazer isso.

Mas, por alguma razão, não conseguiu. Mesmo agora, quando finalmente havia um motivo real para se livrar dela que não fosse pura irritação, ele não conseguiu. Ao contrário, só pensava em como faria para superar aquele contratempo desagradável.

Tentou pensar nas opções. Em uma alternativa, qualquer uma. Mas quanto mais ele pensava, mais ele sabia que não haviam muitas.

Na verdade, só havia uma. Ao menos só uma que vinha a sua mente, que ele conhecia o caminho, que ele sabia que teria os recursos necessários. Que infelizmente, ele conhecia bem.

A simples ideia de levar Rina até lá era insuportável. Impossível. E Hiei tentou lutar contra ela pelo tempo que conseguiu. Voltar significaria engolir o orgulho, se colocar diante de alguém que ele jurou nunca mais servir.

Mas enquanto olhava para Rina, pálida, febril e cada vez mais imóvel, sentia a margem de escolha se estreitar como uma corda em seu pescoço.

Quanto mais tempo perdesse debatendo aquilo, menores seriam as chances dela manter a perna. Talvez até a vida.

E Hiei sabia — mesmo que odiasse admitir — que não tinha outra saída.

“Você me paga,” ele murmurou entre os dentes, a pegando no colo.

(...)

Levou mais um dia inteiro para que Hiei chegasse na fortaleza. A perna esquerda de Rina já estava completamente necrosada. Hiei rasgou parte da própria saia dela e amarrou com força nos pontos mais críticos — tentando conter o avanço da infecção e proteger o que ainda restava da carne.

Os soldados da fortificação congelaram ao vê-lo exigindo passagem pelo portão principal. O olhar que lançou bastou para afastá-los. Todos ali conheciam bem o mau humor de Hiei — e ninguém estava disposto a testá-lo.

Ele olhou para cima enquanto atravessava a longa e sinuosa passagem que levaria ao interior da fortaleza. Viu uma silhueta na janela mais alta. Sabia perfeitamente quem era que acompanhava atentamente seus passos — e imaginava o que ela pensava ao vê-lo com uma estranha nos braços.

Fez o trajeto que conhecia de cor sem falar com ninguém, nem mesmo com os rostos conhecidos com que cruzou pelo caminho. Entrou naquele salão que lhe era tão familiar e encarou a dona do lugar, que parecia já estar esperando por ele.

— Você voltou, Hiei.

A voz de Mukuro cortou o ar como uma lâmina de gelo, fria e desafiadora. Não era o tom de alguém disposto a perdoar um desertor.

Aquilo agravou ainda mais seu humor.

Hiei detestava pedir favores.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Não se acanhe e deixe um comentário. Todos são sempre muito apreciados =)