Visceral
27 Tempo suficiente
A noite fora lenta para Hiei. As horas se arrastaram como se presas na lama, como se fizessem de propósito, o forçando a reprisar a discussão da noite passada minuto a minuto.
O caos que as palavras de Rina plantaram em sua mente durou toda a madrugada — e ainda persistia mesmo quando os primeiros raios de sol surgiram no horizonte. Ele simplesmente não conseguia aceitar aquela teimosia.
Às vezes, vinha nele a vontade de contar sobre o Reikai e a fazer entender de uma vez por todas o risco que sofria. Quase fez isso ontem à noite, quando segurou seu braço e quis sacudi-la até que o juízo voltasse a entrar na cabeça dela. Mas ele podia até imaginar como o resto da conversa seguiria. Como ela faria mil perguntas a princípio, apenas para depois não querer ouvir mais nada, uma vez que ele dissesse que poderia encarar o Reikai com ela.
"Prefiro enfrentar qualquer coisa sozinha a ter que me preocupar com você de novo", Rina tinha dito. Aquela frase se repetiu na mente de Hiei à exaustão durante as horas solitárias em que passou acordado. Do jeito que ela estava, Rina talvez pegasse as coisas e sumisse dali sozinha no instante em que ele decidisse abrir o jogo.
E talvez o Reikai desistisse de esperar. Talvez não visse razão para adiar a captura se ela estivesse desacompanhada — o acordo que Kurama tinha feito era apenas para garantir que Hiei não fosse envolvido nisso, não era? O Esquadrão Especial não devia ver a hora de colocar suas mãos imundas em cima da Rina.
O estômago de Hiei embrulhou. A ideia lhe causava um desconforto fora do normal. Ele dizia para si mesmo que seu problema era apenas os métodos do Mundo Espiritual. A hipocrisia, a perseguição a youkais. Que era uma questão de princípios antes de qualquer outra coisa. Mas toda vez que ele olhava para Rina, ele ardia inteiro por dentro. Principalmente quando ela olhava de volta.
Tentava espantar a sensação pensando nos próximos passos. Rina ainda estava abalada pelos acontecimentos recentes, mas com alguns dias de calma, isso passaria. Ela retomaria seu bom senso, esqueceria a ideia insana de prosseguir sozinha e o escutaria. Poderiam enfrentar o Reikai juntos se fosse preciso. Ou poderiam simplesmente fugir e se esconder — Hiei conhecia o Makai muito melhor do que qualquer um daqueles vermes fardados. Talvez fosse prudente nem ir mais até Haru. Deixar o velho de lado, traçar seu próprio caminho.
Daria certo. Tinha que dar. Só precisava que ela ficasse ali por mais uns dias. Quieta e em paz.
(…)
Naquela manhã, Zennosuke já os esperava de pé, um galho cortado em uma das mãos e um círculo recém-demarcado no chão de terra. Encarou Hiei e, sem cumprimentos nem explicações, indicou o centro da circunferência. Ordenou, com o tipo de voz que não permite réplicas, que ele invocasse as Chamas novamente.
— Com que objetivo? Já mostrei que posso — Hiei replicou mesmo assim.
— Se não pudesse, nem estaria mais aqui — o xamã devolveu — Agora obedeça.
Hiei olhou para o desenho no chão. Não era muito largo nem apertado, talvez dois metros de um ponto a outro. Uma delimitação, ele entendeu. Provavelmente iria exigir que Hiei observasse o limite estabelecido pelas linhas rústicas feitas na terra, avaliar seu grau de precisão no comando das Chamas.
— Já compreendeu, não é? — Zennosuke falou — Crie uma barreira de fogo à sua volta. Não passe da marcação estabelecida. Isso é manipulação básica, certamente não será um problema.
Sem responder, Hiei apenas se posicionou no centro. Rina o observava, atenta, ao lado do xamã. Mas antes que ele iniciasse o exercício, antes mesmo que o Jagan despertasse em sua testa, Zennosuke acrescentou:
— Se conseguir manter o mesmo nível de controle até amanhã, poderá ficar e ser meu discípulo.
Hiei ficou estático. Rina arregalou os olhos, se virou para o xamã com um grito de "até amanhã?!" que quebrou todo o silêncio daquele cânion.
— Não acha que é tempo demais? — ela questionou.
Zennosuke não respondeu, sequer tomou ciência dos seus protestos. Fitava Hiei calado, em forma de desafio, como se ansioso para ver a reação do demônio de fogo.
Hiei rangeu os dentes. Assim como Rina, também achava que era tempo demais — não pelo mesmo motivo que ela, mas sim porque tempo era um luxo que ele não tinha. Já haviam perdido dois dias somente para chegar até ali, e se tivesse que passar as próximas 24 horas inerte naquele exercício idiota, restava apenas o quê? Uma semana para que resolvesse tudo antes do fim do prazo de Kurama?
— Isso é ridículo — disse.
— Considere como um ritual de iniciação — Zennosuke afirmou, vendo o impasse — E de purificação também. O fogo é um excelente meio de remover impurezas.
— E se acontecer alguma coisa com ele? — Rina perguntou, endurecendo sua voz — Pretende se responsabilizar por isso?
Zennosuke coçou a barba, levantou uma sobrancelha, cruzou os braços.
— Por acaso acha que seu companheiro não é capaz? — A fala era para Rina, mas ainda era para Hiei a quem olhava quando fez a pergunta.
— É claro que sou — Hiei sibilou — Essa não é a questão.
— Então prove que tem a resiliência necessária. Manter as Chamas como parte integrante do corpo vai exigir muito mais, física e psiquicamente, do que esse simples teste. E se acha que meus métodos são ridículos, está livre para ir embora.
Hiei trincou ainda mais os dentes. Rina olhava indignada para o xamã, mas quando se virou para Hiei, ele viu nela o mesmo olhar que tinha visto na caverna. Medo, preocupação, pânico.
Diabos. Ele não precisava daquele tipo de cuidado. Quando Rina iria esquecer o que tinha acontecido? Quando ia entender que ele não iria morrer a qualquer momento?
Então engoliu o orgulho, travou ainda mais o maxilar e, suprimindo a raiva pela irrelevância daquele ritual, conjurou as Chamas e deixou que as labaredas cercassem seu corpo. Respirou fundo. Compensaria o tempo perdido depois.
(…)
Rina tentou se distrair. Visitou as outras cabanas abandonadas, explorou os arredores, limpou o corte no braço pela décima vez. Mas sempre voltava para o círculo. Sempre checava se ele ainda estava de pé.
Horas se passaram. O sol cruzou o céu. A tarde deu lugar ao crepúsculo.
E Hiei continuava queimando.
Acabou se sentando diante do círculo, assistindo Hiei manter o fogo com a mesma intensidade desde a primeira hora da manhã. Ela tentou chegar perto, mas o calor era tanto que formava uma barreira física para além da linha no chão, e Rina teve que se contentar em ficar a alguns passos de distância.
Hiei de vez em quando olhava em sua direção, mas na maior parte do tempo, mantinha o foco em outro lugar, como se a presença dela ali o distraísse.
Em determinado momento, Zennosuke se aproximou. Trouxe uma posta de peixe assado para ela e sentou-se do seu lado, igualmente acompanhando as chamas de Hiei o rodeando, assistindo a tudo calado.
— E você quem é? — ele perguntou, quando ela terminou de comer.
Rina inspirou fundo. Manteve os olhos em Hiei. Zennosuke pelo visto não havia a reconhecido.
— Rina. Mas não sou ninguém. Não é comigo que precisa se preocupar, não pretendo ficar aqui por muito tempo.
O olhar de Zennosuke voltou-se também para Hiei.
— Há quanto tempo o conhece?
A pergunta fez Rina franzir a testa. Tentou se lembrar quando tinha sido seu primeiro encontro com ele, de quando o tinha encontrado ainda no Mundo dos Humanos, prestes a atravessarem para o Makai.
Parecia que tinha sido uma vida inteira atrás. Ela era outra pessoa, ele era outra pessoa. Naquele dia, ele a esperava com um olhar aborrecido que logo se transformou em prepotência quando achou que a tinha lido com precisão naqueles breves segundos de introdução. Rina o odiou de imediato.
Mas depois perderam quatro meses na fortaleza de Mukuro, quatro meses em que não se viram, não se falaram. Ela achou que Hiei a esqueceria, que nunca mais se encontrariam. Que morreriam por lá ou tomariam rumos completamente opostos. Terem conseguido fugir vivos — e juntos — tinha sido mais do que sorte. Tinha sido um verdadeiro milagre.
E desde a fuga, quanto tempo tinha passado? Ela não sabia. O tempo era um borrão. Ele era medido em momentos: as lutas e perseguições, as conversas, as noites de vigília, as intimidades. Talvez em dias não fosse muito, mas em momentos, tinha sido mesmo uma vida inteira.
— Tempo suficiente — ela acabou respondendo.
Zennosuke apenas a observou. Coçou a barba.
— Então deve saber que ele vai ficar bem. Não precisa se preocupar.
— E se não ficar?
— Se não ficar, não merece ser meu discípulo — Zennosuke respondeu, de um jeito simples, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se o bem-estar de Hiei não tivesse a menor relevância naquele contexto.
Rina fechou a cara.
— Eu não gostaria de estar na sua pele se isso acontecer. E não falo só por Hiei. Então, pro seu bem, torça pra ele ficar.
Um sorriso surgiu no canto da boca do xamã.
— Você é bem interessante para uma ninguém — comentou, com um olhar de esguelha para Rina — E admito que estou curioso para ver como ele assimilaria essa técnica. Se a obstinação de Hiei for tão grande quanto a soberba, acho que é o candidato ideal para aprender algo assim. E vocês vieram em uma boa época.
— Por quê?
— Vamos ter o equinócio da primavera dentro de alguns dias. É o período mais propício para ritos de equilíbrio e harmonia.
Rina apenas concordou em silêncio, sem entender muito bem do que aquilo se tratava, mas sem vontade de perguntar mais.
E os dois voltaram a olhar para Hiei. Ele estava imóvel no centro do círculo, toda sua atenção concentrada nas próprias chamas ao redor. O braço vacilava de leve agora, os músculos do ombro tensionados. Algumas gotas de suor se formavam na sua testa, escorriam pelo rosto e eram prontamente ignoradas. Os olhos ameaçavam fechar, mas ele lutava para os manter abertos.
— Já fui como seu companheiro — Zennosuke continuou — Já achei que podia ser melhor que todo mundo. As Chamas Negras são uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas, e por isso eu decidi que iria aprender. Mesmo o fogo não sendo a minha natureza. Era um desafio a mim mesmo. Achava que se conseguisse isso, conseguiria qualquer coisa. Podia dominar o mundo.
E Zennosuke deu uma risada curta, baixa.
— Eu era um tolo — completou.
— Mas acabou conseguindo, não é?
O xamã assentiu. Continuou em silêncio por mais um tempo. Rina espiou rapidamente a mão dele, escura como carvão. Se lembrou do que ele havia mostrado, do braço elemental acendendo como que por comando, o obedecendo a níveis celulares.
— Consegui. Mas quase me custou a vida — ele falou, notando o olhar dela — Perdi parte do corpo nas primeiras experiências com as Chamas. Um dos braços, parte da perna, um pedaço do abdômen. Foi tudo consumido.
Rina arregalou os olhos.
— Achei que iria morrer. Quando percebi que iria sobreviver, foi quando me esforcei ainda mais. A minha maior vingança seria dominar o mesmo fogo que havia levado parte de mim. E obrigar as chamas a se submeterem à minha vontade.
Zennosuke levantou o braço esquerdo. A manga de linho, fluída, caiu para trás, revelando o membro enegrecido. Parecia sólido, mas, olhando de perto, ela podia ver um certo movimento entre as veias roxas, como se as mesmas labaredas que Hiei conjurava também estivessem ali. Porém, contidas. Submissas. Moldadas com perfeição para simular o formato necessário.
E pelo que ele tinha contado, outras partes do seu corpo seriam assim também, forjadas apenas pelo fogo mortal que vinha das profundezas do Makai. Era realmente um feito extraordinário.
Aquele lugar maldito não cansava de surpreendê-la.
(…)
O dia estava raiando novamente, mas para Hiei, tudo estava escuro. A fraqueza mental e a dor que sentia no braço o cegavam de todo o resto.
Também não viu quando caiu de joelhos, nem mesmo registrando o choque deles contra o chão duro. A única coisa que importava era manter as chamas. Era não desistir.
Ele olhou para o próprio braço. Sustentar as Chamas Mortais por tanto tempo não consumia apenas seu youki, mas começava a devorá-lo vivo também. A carne já estava escura, queimada, a pele descamando. Era disso que se tratava quando Zennosuke disse que as Chamas cobrariam seu preço?
— Hiei?
A voz de Rina vinha distante e abafada, em parte pela barreira criada pelas labaredas, em parte porque o cérebro de Hiei só conseguia focar em seu próprio esforço. Por isso, também não percebeu que a boca estava aberta, em um rugido gutural.
— Você precisa parar! — ela exclamou, agora mais alto. Hiei não sabia se estava gritando para ser ouvida por cima do barulho do fogo, ou se porque não conseguia controlar a voz — Já provou que consegue!
Ele não conseguiu responder. Se abrisse a boca de novo, seria para emitir mais um grito, e isso ele se recusava. Preferiu travar os dentes.
E não soube quanto mais tempo ficou daquele jeito. Talvez segundos, talvez horas. Só quando ouviu a voz grave de Zennosuke é que levantou os olhos.
— Já está bom — disse o xamã.
Hiei ergueu o rosto. Zennosuke estava na sua frente, dentro do círculo. Havia conseguido passar pela barreira formada pela Chamas Mortais como se não fosse nada.
— Eu aguento mais — Hiei falou, por entre os dentes, engolindo a dor.
— Eu disse que já está bom.
O peito de Hiei subia e descia com dificuldade, e ele cogitou continuar mais um pouco apenas por orgulho, apenas para mostrar que não precisava ser tratado com benevolência.
Mas um grito ameaçou romper de novo na garganta e ele enfim fez as labaredas se extinguirem. Usou toda sua força para não colapsar de vez no chão, principalmente quando Rina correu para se agachar ao seu lado. Ela tocou em seu braço, mas ele estava tão sensível que ele recuou, em uma reação automática.
— Nada mal, demônio de fogo. Pelo visto você é mais do que apenas um fanfarrão que gosta de contar vantagem. Agora cuide desse braço. Começamos amanhã — Zennosuke falou, olhando para Hiei com um misto de aprovação e interesse.
— Não — Hiei respondeu. Ainda zonzo, ainda precisando forçar os sentidos a obedecerem — Hoje.
— Ficou maluco?! — Rina falou.
Mas Zennosuke soltou uma risada curta e rouca.
— Você é muito ambicioso, meu jovem…
— Não é ambição — Hiei respondeu. Obrigou os joelhos a se levantarem. As pernas tremeram, o corpo parecia ter triplicado de peso, mas ele ficou de pé mesmo assim. E usou tudo que restava dentro dele para que não voltasse a cair — Eu estou pronto. Fiz o que pediu, passei no teste que propôs. Agora me ensine.
O xamã o estudou com os olhos apertados, a boca comprimida em um risco debaixo da barba.
— Cuide desse braço — ele repetiu — E me encontre em duas horas. Veremos o que mais você aguenta.
E se afastou, deixando-os ali.
— Vamos — Rina disse, a voz tensa — Precisa ao menos descansar um pouco.
Hiei não teve forças para discutir.
(…)
— Você não precisa fazer isso. Podia esperar até amanhã — Rina falou, aplicando no braço queimado de Hiei um bálsamo cedido por Zennosuke.
— Eu estou bem. É só uma queimadura.
Ela pegou a gaze e começou a enrolar por cima da ferida. Ele retraiu o corpo quando ela apertou de mais, mas Rina continuou com o curativo. Todo o membro de Hiei estava queimado, desde as pontas dos dedos até chegar no ombro.
Mas não era só a queimadura. Os ombros dele estavam caídos, as costas curvadas, as pálpebras se mantendo abertas por pura teimosia.
— Sabe, existe uma diferença entre ser forte e ser imprudente. Ao menos dorme um pouco quando eu terminar.
— Você não entende.
— O que eu não entendo?
— Já perdi tempo demais. E eu não quero gastar com isso um dia a mais do que o necessário.
Rina parou o que estava fazendo por um segundo. Levantou os olhos até ele, mas assim que os olhares se cruzaram, Hiei desviou o rosto. Ela podia ver a tensão em cada músculo.
— Que pressa é essa de repente? Achei que não tivesse lugar nenhum pra ir depois que terminasse a viagem comigo.
O queixo de Hiei endureceu ainda mais. O rosto continuava virado para lugar nenhum, propositalmente evitando Rina.
E ela se deu conta: ele estava escondendo algo.
Hiei era excelente em mascarar tudo. Sua expressão nunca o traía. Mas ela havia aprendido a ver as nuances com o tempo, a distinguir as pequenas alterações. Ele estava sempre desinteressado ou irritado com alguma coisa. Quando falava, havia sempre pitadas de deboche ou de impaciência por baixo. Ultimamente, porém, era mais do que isso. Era uma tensão que nunca o deixava, um jeito rígido, mais rígido do que o habitual, mais rígido que o necessário.
— Não tenho — ele respondeu — Só não gosto de ficar no mesmo lugar por muito tempo.
"Você está mentindo", ela pensou em dizer, a mão que segurava a gaze ainda suspensa no ar com apenas metade do trabalho feito. Havia algo que ele não estava contando.
Mas Rina voltou a se fixar no curativo. Retomou o movimento, envolvendo cada pedaço de pele machucada.
— Aconteceu alguma coisa, Hiei? — perguntou, impostando a voz para parecer firme.
Ele demorou o que pareceu à Rina uma eternidade. Ela não sabia se queria terminar logo de enfaixar o braço dele, ou se devia postergar ao máximo e manter ele ali por mais tempo.
Mas quem era ela para fazer cobranças? Não era ela que vinha escondendo algo também?
— Não aconteceu nada — Hiei disse, baixo e grave.
Rina assentiu, dividida entre insistir mais e deixar aquilo de lado.
— E se preocupe mais com você — ele prosseguiu — Seu corte mal cicatrizou, nem consegue usar sua energia direito. Está pior do que quando chegou no Makai.
— Vou dar um jeito nisso — Rina respondeu, focada, sabendo que a fraqueza que ela vinha sentindo não era exatamente apenas pelo corte de dias atrás.
Mas então era isso. Se ele não confiava seus segredos a ela, Rina também não devia nada a ele.
Finalizou o resto do curativo em um silêncio meditativo. Assim que colocou a última tira de esparadrapo, Hiei esticou o braço, testando sua mobilidade e disfarçando uma pequena careta de dor.
— Como está? — Rina perguntou, observando Hiei abrir e fechar os dedos.
— Bom. Vai servir.
Ela começou a guardar o kit de primeiros socorros de volta no estojo.
— Isso já está virando rotina. Seria bom se ouvisse o próprio conselho e começasse a se preocupar mais com você mesmo também. Ainda bem dessa vez não tive nada a ver com isso.
Hiei interrompeu os movimentos e olhou para ela. Rina fez questão de devolver o olhar. Estava cansada. Cansada de se importar tanto com ele, cansada de querer se afastar, cansada de querer ficar perto.
Tempo suficiente, ela tinha dito a Zennosuke. Suficiente para que? Para se envolver? Se apegar?
— Ainda acha que eu quase morri por sua causa — ele falou.
As sobrancelhas dele se juntaram, a expressão no rosto afiada como a katana. A impaciência de sempre estava de volta.
Ótimo. Era melhor do que aquela tensão inexplicável que Rina, em tão pouco tempo, tinha aprendido a odiar.
— Você já parou pra pensar que nada disso teria acontecido com você se não tivesse aceitado me escoltar?
— Muita coisa não teria acontecido se eu tivesse tomado decisões diferentes na vida. Você também. A diferença é que eu não perco meu tempo me lamentando — Hiei disse, áspero. Quase uma reprimenda.
— Não é lamentar, é entender que fez uma escolha errada. Ou está me dizendo que nunca se arrependeu de nada?
— Que diferença isso faz? Arrependimentos não mudam o passado.
— Não mudam, mas tem vezes que eu bem queria que mudassem — ela declarou, enfática.
Rina não sabia como, mas o olhar de Hiei conseguiu ficar ainda mais severo.
— Onde está querendo chegar? Acha que ter vindo pro Makai foi um erro? Por acaso se arrepende?
Muito. E nem um pouco.
— Não estou querendo chegar a lugar nenhum — ela concedeu, em parte para encerrar logo aquela discussão inútil — Mas a verdade é que ser quem eu sou deixou tudo mais difícil. E eu queria que as coisas tivessem sido mais fáceis.
Ele ficou quieto por um instante.
— Tsc, bobagem — Hiei retrucou.
E Rina notou que a impaciência se dissipou do rosto dele, dando lugar a outra coisa. Mas não era deboche, nem o desinteresse habitual.
Não, o que ela viu surgir nas pupilas de Hiei — e que se espalhou até os lábios — era algo totalmente diferente dessa vez. Indecifrável.
Tão indecifrável quanto o que Rina sentiu quando ele fixou os olhos nela apenas por um segundo antes de os fechar, apoiar a cabeça na árvore mais próxima e adicionar, com um micro sorriso no rosto:
— O fácil não me interessa nem um pouco.
(…)
Rina observava à distância uma labareda envolver o braço cortado de Hiei como uma capa de fogo. O esquerdo, enfaixado quase que totalmente, estava inerte, caído ao seu lado. Um pouco de sangue havia escorrido pelas frestas, mas ele não parecia sentir dor. Ou ao menos, não demonstrava. Nunca dava para saber com Hiei.
— Fique por aqui — ele tinha pedido a ela quando se encontrou com Zennosuke para iniciar o aprendizado. Não que Rina tivesse muito para onde ir, de qualquer maneira.
Estavam os dois — Hiei e o xamã — na parte rasa do rio, a água os cobrindo até as canelas. Rina estava sentada na margem, longe o suficiente para não interferir, mas perto o bastante para acompanhar tudo. Ela não sabia que força de vontade era aquela que o mantinha de pé. Quando Rina exauriu o próprio youki da última vez, precisou dormir por horas.
Ela aproveitou para passar o bálsamo de Zennosuke no próprio corte, e a pele agora parecia dormente, como se estivesse anestesiada. Aquilo era um bom sinal, Rina achava.
Testou a própria energia com o cuidado de quem maneja algo muito delicado, com medo de que a ferida fosse se romper de novo caso tentasse demais. O youki, no entanto, respondeu. Fraco, mas presente. Ativo, ansioso para sair. Uma ponta de esperança surgiu. Rina forçou mais um pouco, deixando-se levar — e a dor familiar voltou.
Soltou um suspiro inconformado. O bloqueio ainda persistia. Quanto mais tempo levaria?
E o resto da tarde se arrastou, com Rina deitada em paralelo com o rio, ouvindo os grunhidos ocasionais de Hiei, as ordens cada vez mais ríspidas de Zennosuke, e sentindo o tempo esfriar à medida que o sol caía.
Quando Hiei foi até ela, já era noite. O braço amputado seguia igual como estava antes, o esquerdo precisando de novos curativos. Estava sem camisa, indiferente ao vento gelado.
— Venha. Vamos arrumar algo pra você comer.
Rina ergueu o tronco.
— E você? — ela perguntou.
— Estou de jejum.
Ela assentiu, sem questionar. Ordens de Zennosuke, presumiu.
— Como foi o primeiro dia?
Hiei fez um ruído baixo e incompreensível em resposta, mas Rina entendeu perfeitamente.
Pelo visto, não tinha sido tão bom assim.
(…)
O dia seguinte começou da mesma forma: os dois com os pés na água, Rina entediada sem ter o que fazer, assistindo tudo de uma distância segura, tentando não olhar para Hiei por tempo demais — mas falhando.
Os machucados do peito dele já estavam todos fechados. Isso ajudava. Não ver as queimaduras a impedia de lembrar da caverna, do pânico, do medo de perdê-lo. Mas também significava que, quando o observava, via apenas ele. Via a mão que percorrera seu corpo. A boca que encontrara a sua. Os olhos famintos que a desejaram.
Ela dispersava as memórias, mas elas voltavam todas as vezes, fortes e inevitáveis como um mar em ressaca, a puxando de volta para os momentos que ela não queria esquecer, mas que sabia que devia.
Não demorou para que Rina se cansasse de tudo aquilo e decidisse arrumar algo para se ocupar. Se afastou mais um pouco, procurou uma área mais reservada e tentou treinar, do seu jeito, como podia.
O corte naquele dia já parecia melhor. A cicatrização enfim havia acelerado, e seu youki, ainda que tímido, passava a fluir de maneira um pouco mais natural. Ainda encontrava resistência, mas não a mesma de antes, quando a dor queria a rasgar por dentro.
Então brincou um pouco com sua energia, a fazendo se expandir até onde aguentava, e depois suprimir completamente. Relembrou algumas das práticas que aprendera com Hiei, testou seu foco e concentração, arriscou alguns golpes e sequências que ele demonstrara.
Pensou que, sem ele ali para lhe dar ordens, poderia treinar no seu ritmo. Fazer as pausas quando bem entendesse, continuar quando e como bem quisesse. Mas se pegou repetindo os mesmos padrões que Hiei ensinara. Se cobrando do mesmo jeito que ele a cobrava, exigindo a mesma perfeição que ele exigia.
A única diferença era o vazio que a ausência dele causava.
(…)
Hiei passava quase todo o tempo livre dedicado à dominar a nova técnica. Eram sessões de meditação, exercícios de resistência com o Jagan, manipulação energética. Desde que ele iniciara o treino com Zennosuke, três dias atrás, Rina dormira e acordara sozinha na cabana de palafita quase todas as vezes. Passava o dia inteiro desacompanhada. Perambulava pelas margens do rio, espiava o treino de Hiei ao longe, praticava o que tinha aprendido.
Já não sentia mais o bloqueio de antes. O corte virou uma linha marcando a pele, a energia voltou a obedecer. Sentia-se cansada mais rápido, mas era um mero detalhe. Rina preferia focar no seu progresso, como o fato de que ela agora conseguia até mesmo usar sua habilidade de camuflagem por mais tempo, e se esconder por longos minutos, observando o mundo enquanto sua aura a deixava invisível, mesclada com a paisagem ao redor.
Nesses minutos, esquecia-se de tudo. Da doença crescendo lentamente em sua pele, do último ataque que sofreram, da saudade que vinha sentindo da companhia de Hiei (e que Rina se perguntava se ele estaria sentindo também). Até mesmo a decisão de ir embora já começava a ficar mais desfocada em sua mente. Eram minutos de paz, até a dor de sempre chegar, a despertar daquele estado e a fazer se lembrar de tudo de novo.
Ainda assim, ganhou confiança para sair daquela área isolada — pela primeira vez contrariando a recomendação de Hiei de se manter sempre à vista e por perto — e decidiu refazer o caminho até a queda d'água que a tinha deixado deslumbrada quando chegaram ali. Cruzou as passagens estreitas e seguiu a linha do rio até ele se alargar e revelar o estrondo magnífico da cachoeira.
Rina ficou parada, observando a paisagem por um momento. A água volumosa que fazia espuma ao mergulhar na piscina natural, o tom de um azul impossível, o contraste com as paredes de rocha. Arrancou as botas com pressa, as largou de qualquer jeito junto com a adaga e mergulhou com a roupa do corpo, sentindo o choque da água fria envolver cada pedaço dela, deixando o rugido da cascata preencher seus ouvidos — alto o suficiente até para não escutar nem os próprios pensamentos. Rina não sabia o quanto precisava daquilo até finalmente estar submersa.
Mas ao levantar a cabeça e jogar os cabelos para trás o viu ali, sentado no chão e apoiado em uma pedra, pernas esticadas para frente, pés cruzados um sobre o outro, uma expressão displicente no rosto como se fosse o dono do lugar. Olhava exatamente em sua direção.
A primeira reação de Rina foi se camuflar. O corpo inteiro ficou imóvel, os sons ficaram distante, seu youki agindo sozinho.
— Eu já vi você, Rina.
Era como se a própria natureza estivesse abrindo passagem. Pois mesmo debaixo do estrondo da cachoeira, a voz de Gintaro era tão cristalina quanto aquela água, impossível de não ser notada. O sorriso infernal, também.
E Rina sabia: ele não ia esperar mais.
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