Visceral
28 Feridas abertas
Rina e Gintaro se encararam. Ela ainda invisível, ele sabendo exatamente para onde direcionar seu olhar. E esperando, pacientemente, até Rina, xingando baixinho, entender que não fazia mais diferença.
Pouco a pouco, ela se fez visível de novo. Gintaro riu.
— Bem melhor agora — Gintaro falou — Belo truque que você tem aí.
— Achei que não fosse te ver tão cedo. Veio tentar me levar à força de novo?
— E se eu tentar? Vai ameaçar explodir tudo como da outra vez?
Disse isso mantendo o sorriso no rosto, sem um pingo de preocupação.
A fala deixou Rina incomodada. Ela odiava lembrar do que tinha acontecido, do que tinha feito, do porquê tinha feito.
Mas o pior era saber que ela não hesitaria em fazer tudo de novo.
— Que eu me lembre, foi você quem saiu daquela caverna com o rabo entre as pernas — Rina retrucou — Então não devia me provocar assim.
Outro riso. Gintaro chegou mais perto da margem e sentou ali, o olhar agora analítico. Rina ficou onde estava.
— Se eu soubesse o tamanho da dor de cabeça que seria esse trabalho, teria cobrado o dobro. Mas acho que nem seu papai sabia o tipo de pestinha que você podia ser.
— Haru não é meu pai!
— Tanto faz, princesa… você entendeu.
Rina revirou os olhos. O mítico Haru, que precisava sempre mandar alguém atrás dela. Primeiro foi Yusuke, que mandou Hiei; agora, era Gintaro. Ela começava a dar razão ao que Hiei tinha dito uma vez: se ele nunca estava disposto a vir ele mesmo a buscar, já devia estar nas últimas. Ou era um covarde.
— Você ainda planeja ir até ele? — Gintaro perguntou.
— Foi pra isso que eu vim pra esse mundo, não foi? Só que quero que seja nos meus termos. No meu tempo.
Ele balançou a cabeça.
— É o que você diz… mas tudo que eu vejo é você arrumando desculpas e motivos pra desviar do caminho.
— Eu estava machucada — Rina respondeu, entre os dentes — Vim até aqui pra me recuperar.
— Ah sim… não tem nada a ver com aquele espadachim, não é?
Os olhos de Rina o fuzilaram, o calor da vergonha se misturando com o da raiva nas suas bochechas.
— Ele sabe que eu pretendo ir embora. Que não vou ficar aqui com ele.
— Sabe? E você, sabe também? Porque eu acho que nem você acredita mais nisso, boneca. Eu acho que você está gostando tanto de brincar de casinha com aquele baixinho que pretende continuar enrolando até quando puder.
— Cala a boca, Gintaro, você não sabe do que está falando — ela protestou, de repente sentindo o corpo inteiro endurecer de um jeito desconfortável, repuxando todos seus tendões — Ninguém está brincando de nada.
Antes fosse isso, Rina pensou. Antes os dois estivessem bem e felizes e agindo como se nada tivesse acontecido. Em vez disso havia um Hiei tenso, que escondia as coisas, que treinava até de madrugada, que a deixava sozinha enquanto ela tentava decidir se era covarde o suficiente para abandoná-lo — ou covarde o suficiente para ficar.
E Gintaro continuava a fitando, como se estivesse tentando a entender. Mesmo sério, continuava sorrindo. Um pouco mais discreto agora, era verdade, mas era como se o sorriso fosse uma feição fixa do rosto dele — e isso, ela precisava reconhecer, o dava um charme difícil de ignorar.
— Então porque não vamos agora? Não vejo mais nenhum machucado. Pelo contrário, me parece perfeitamente em forma…
Rina não respondeu. O corpo inteiro formigava debaixo d'água, a tensão se depositando nos ombros, chegando a causar dor de tão apertada.
— É, como imaginei — Gintaro falou, diante do silêncio dela.
Ele se ajeitou melhor no chão. Afastou a capa que usava e puxou de algum lugar um cantil de metal que Rina tinha certeza conter algo muito mais forte do que água. Ele deu um gole e, com um gesto, ofereceu à Rina. Ela queria aceitar, mas recusou.
— Sabe, Rina, eu admito que não tenho muitos valores. Sou um mercenário, leal a quem paga mais alto e só até terminar o serviço. Mas tenho uma regra: não pego um trabalho novo enquanto não terminar o atual. Pode me chamar de ultrapassado, mas o que eu posso fazer? — E ele encolheu os ombros — Um homem precisa ter ao menos alguns princípios.
Gintaro fez uma pausa. Dobrou um dos joelhos e apoiou o cotovelo ali.
— Haru me contratou há quase três semanas — ele continuou — Sabe o que isso significa? Vinte dias que eu estou preso nesse serviço por causa da senhorita. Vinte dias que não pego nenhum trabalho novo e vinte dias que não sou pago. E pelo andar da carruagem, isso não vai mudar tão cedo.
— Vá logo ao ponto.
— O ponto é que você está me fazendo de trouxa e minha paciência está acabando. Eu fiz as contas e eu podia ter feito pelo menos meia dúzia de serviços menores nesse meio tempo, e talvez já tivesse ganhado quase tanto o que Haru me prometeu. Ou seja, você está começando a me dar prejuízo.
Gintaro bebeu mais um gole do cantil e voltou a guardá-lo. Rina sentiu a ansiedade crescendo e se agitando em seu estômago, as mãos e pernas ficando inquietas impulsionadas pela adrenalina que aumentava a cada instante. O ouviu em silêncio, sem tirar os olhos dele, lamentando ter deixado a adaga no chão junto com as botas, mesmo sabendo perfeitamente que aquela adaga não seria páreo para ele. Era apenas uma vontade irracional, a de segurar a adaga, como se ela servisse mais como amuleto do que arma.
— Cheguei à conclusão que eu tenho três opções. A primeira, mais óbvia, seria te levar à força. Não me leve a mal, mas acho que consigo te derrubar, amarrar suas mãos e pernas e te carregar por cima do ombro. Isso só tem um problema. E acho que você sabe qual é.
Na mesma hora, a energia de Rina pulsou ao redor dela, ameaçadora como uma membrana elétrica. Sem a contenção de antes, sua aura cresceu sem freios, criando pequenas ondulações na água no entorno do seu corpo.
O sorriso de Gintaro se alargou.
— Exatamente — ele falou — Já tive uma amostra grátis do que pode fazer. Acho que seria maluca o suficiente pra querer me mandar pelos ares mesmo que isso não te saia barato. E sinceramente, não quero pagar pra ver. Dinheiro nenhum vale a minha vida.
— E as outras opções? — Rina perguntou, sem deixar seu youki morrer.
— Simples. A segunda é você ir comigo por livre e espontânea vontade. Seguimos juntos, te deixo com Haru, coleto o pagamento e pronto. Fim da história. Todo mundo sai ganhando: eu não fico no prejuízo, você conclui o que veio fazer, seu papai tem a reunião familiar que tanto quer.
Rina apertou os dentes, sentindo o maxilar doer. Soltou o ar pelo nariz quando ele usou a palavra "pai" novamente, mas dessa vez, não o corrigiu.
— E a terceira?
— A terceira é basicamente… desistir do serviço. Aviso Haru que não tenho mais interesse, aceito que perdi tempo e dinheiro e vida que segue. Volto a pegar meus trabalhos e você não me tem mais no seu pé. Não é o que eu quero, mas não seria a primeira vez, então digamos que já me conformei.
— Fácil assim? Quer que eu acredite que você simplesmente vai desistir? Depois de todo esse tempo?
Gintaro soltou um suspiro. Desviou os olhos pela primeira vez, levantando o rosto para algum ponto no horizonte. Parecia cansado. Parecia verdadeiramente cansado.
— O que você faria no meu lugar, Rina? Continuaria insistindo?
Ela ficou quieta novamente. Quando o mercenário voltou a fitá-la, o cansaço genuíno perdurava.
— O que vai fazer então? Qual opção? — ela perguntou. Cautelosa.
— Você que me diz, boneca. Vai seguir comigo? Ou encerramos por aqui?
Ela piscou algumas vezes, pega de surpresa. Decididamente não esperava por isso.
Rina inspirou fundo, pronta para mandá-lo sumir da sua frente. Mas pensou melhor. Não era ela quem havia dito que queria ir embora? Gintaro tinha razão em uma coisa: Rina estava procrastinando.
No entanto, aquela pergunta parecia uma faca abrindo um corte na sua pele: deliberada e dolorosa.
— E então? — ele pressionou.
A resposta tocou sua língua, mas ela não conseguiu expressá-la. Algo fez Rina travar, como se qualquer coisa que dissesse fosse uma sentença que ela não queria escutar.
Talvez aquela fosse a chance de ir embora de vez. Ou de ficar para sempre.
— Eu não tenho como te dar essa resposta agora — falou, por fim — Preciso pensar.
Ele suspirou.
— Não acho que temos mais tempo, gatinha. Dizem que o Reikai está passando um pente fino na área e eu quero evitar entrar no caminho deles se possível.
Rina franziu a testa.
— O Reikai? Como assim?
— Alguém viu patrulheiros do Esquadrão Especial rondando o deserto aqui perto. Eles são os cães de caça do Mundo Espiritual. Não costumam dar muito as caras por aqui, então quando aparecem é pra procurar alguma coisa. Ou alguém.
O mundo ficou em silêncio por um segundo. O estômago de Rina pesou feito um bloco de gelo, o sangue todo fugiu do seu rosto. Alguém? O Mundo Espiritual estava procurando alguém? E se esse alguém fosse… ela?
Sendo Rina ou não, precisava lembrar de avisar Hiei. Para que não tivesse problemas com eles também.
— Ok, me dê ao menos dois dias então. Dois dias e você vai ter minha resposta.
Gintaro ficou quieto, olhos pregados em Rina. Ponderou por alguns instantes.
— Tudo bem — ele respondeu — Dois dias. Vou acampar por perto e se não te encontrar aqui depois de amanhã, vou entender que resolveu ficar. E você deixa de ser problema meu.
— Combinado — Rina falou, tentando fingir ao máximo que seu coração não estava acelerado, que ela não queria ter que tomar decisão nenhuma.
O mercenário acenou, como se estivessem fechando um acordo. Enfim se levantou, limpou a poeira das calças, colocou as mãos na cintura.
— Nos vemos em dois dias então — ele disse — Ou não. Mas espero que sim.
E foi embora, sumindo de vista e deixando Rina sozinha com o som constante da cachoeira. Ela ficou ali, paralisada. Até a ponta dos dedos enrugar.
(…)
A lua já estava alta no céu há horas quando Hiei retornou de mais um treino, a exaustão pesando em cada articulação do corpo. Ele subiu pela escada de cordas, alcançando o topo do casebre de palafitas em segundos — e se deparou com Rina, sentada no alpendre, o olhar pensativo voltado para lugar nenhum.
— Não consigo dormir — ela justificou, vendo o olhar inquisitivo dele.
Hiei ficou parado por um segundo. Olhou para a esteira que o aguardava dentro da casa, ansiando pela anestesia do sono. A rotina intensiva vinha o consumindo de muitas formas, se traduzindo em dias intermináveis e noites curtas demais.
E também na ausência de Rina.
Quase não se encontravam mais, apenas se viam à distância. No máximo alguma troca de palavras breve durante os raros intervalos. Às vezes, era como se ela já tivesse ido embora. Seu único alívio era checá-la com o Jagan de tempos em tempos, a penas por precaução.
Encontrá-la acordada, portanto, acabou soando mais convidativo do que a esteira de palha que o esperava, e ele sentou na sua frente, apoiado no parapeito baixo que contornava a plataforma.
Rina o acompanhou com os olhos, sorrindo satisfeita com a companhia.
— Como está indo nos treinos? — ela perguntou.
— Bem — E Hiei observou o próprio braço amputado, o que ele sempre evitava olhar, evitava falar sobre — As técnicas de Zennosuke são… interessantes.
Ele odiava admitir, mas naqueles poucos dias, havia feito mais progresso do que durante todas as semanas após sua amputação. Mesmo com todo o esforço, mesmo com toda dor, ele sentia como seu controle e precisão haviam avançado.
E ainda havia os rituais. Zennosuke havia dito que, se bem sucedidos, alguns ritos o ajudariam a entrar em equilíbrio perfeito com as forças demoníacas das Chamas.
Uma semana atrás ele teria achado isso uma baboseira. Hoje, Hiei apenas aceitava.
— Eu tenho treinado também — Rina falou.
— Eu percebi. Sua energia está de volta.
Ela assentiu. Fechou os olhos, apoiou a cabeça na parede e deu uma risada baixa. Um som que fazia tempo que ele não escutava.
— Mas não é a mesma coisa sem poder xingar você entre um exercício e outro.
Hiei riu também, de um jeito breve. As imagens dela treinando com ele voltaram a sua mente. O olhar obstinado, a frustração depois de um erro, o cabelo grudando na testa, a alegria pueril toda vez que conseguia acertar.
E isso o fez sorrir mais um pouco.
Ficaram em silêncio, ouvindo o som da correnteza que vinha de baixo, do vento agitando as árvores. A lua brilhava, cheia, com uma intensidade quase artificial de tão forte.
— Eu gosto daqui — Rina falou baixinho, em um tom confessional — Não sei mais se quero ir embora.
De repente, o corpo de Hiei, que já havia esfriado com o vento noturno, voltou a queimar.
— Então não vá — disse, igualmente em voz baixa.
Rina não respondeu nada. Por longos segundos ficou tão quieta que nem parecia estar respirando. Hiei a olhou pelo canto do olho.
— Hiei, toda essa relutância em me deixar ir… é só preocupação? Medo do que pode acontecer comigo?
— É claro. Não quero que você-
— Ou é porque você não quer ficar longe de mim? — Rina emendou, antes que ele terminasse de responder.
A pergunta deu um nó na cabeça de Hiei. Uma sensação de afogamento surgiu sem que esperasse, inundando a mente dele com cenas e palavras impossíveis de serem contidas.
Desde que soubera do Reikai, aquele tinha sido seu maior receio. A ideia de que capturassem Rina, que a eliminassem, o deixava mais nervoso do que jamais esteve. A audácia — a hipocrisia — de Koenma era algo que ele não sabia se algum dia conseguiria esquecer.
Mas e se não houvesse o Reikai? Se ele soubesse que ela ficaria bem? Teria deixado que partisse sozinha?
Se lembrou de quando ela falou disso a primeira vez, naquela caverna, quando ele mal conseguia levantar. Ainda não sabia dos planos do Esquadrão Especial, e ainda assim, aquela mera sugestão já fora suficiente para o deixar com um gosto desagradável na boca, difícil de engolir.
E então ali, naquela madrugada, ele finalmente aceitou o que, por dentro, sempre soube. Que o problema nunca tinha sido apenas sobre o que aconteceria com Rina — mas sim o vazio que ela deixaria em sua vida se fosse embora para sempre.
O problema seria perambular pelo Makai sem ter ela caminhando ao seu lado.
Hiei olhou para Rina, que ainda esperava uma resposta. E, debaixo daquele céu, os olhos dela cintilavam feito duas tochas acesas.
— Tola… por que eu iria querer ficar perto de alguém que só dificulta a minha vida? — ele disse, com um sorriso torto e um olhar oblíquo.
Ela abriu a boca para protestar, o rosto ficando vermelho.
— Eu dificulto a sua vida?
A reação de Rina fez o sorriso enviesado dele crescer mais um pouco. Hiei se aproximou, a mão já amparando o rosto dela.
— Terrivelmente.
E antes que ela balbuciasse alguma resposta, ele a beijou.
A mão desceu do rosto até a cintura de Rina, procurando a pele por debaixo da blusa, a apertando de leve, sentindo a boca dela se abrir para aceitar a sua.
Rina o enlaçou também, uma mão em suas costas, a outra segurando sua nuca. O beijou não como se fosse só mais um beijo, mas como se fosse o primeiro. E, de alguma forma, Hiei sentia o mesmo.
Ele a trouxe para mais perto, a puxando até que estivesse em seu colo. O peso dela fez sua virilha latejar de um jeito incontornável, e Hiei se deu conta de que estava com mais saudades daquele corpo do que achou que fosse possível.
Começou a subir a mão pelas costas dela, arrastando a blusa junto. A boca trilhou o caminho até o pescoço e arrancou de Rina um suspiro baixo, a garganta vibrando contra o lábio dele. Rina estremeceu, a mão colada na nuca de Hiei o segurando com força.
Até que os dedos de Hiei roçaram em alguma coisa em suas costas. Ele sentiu uma textura diferente contrastando com a pele macia. Uma crosta, grossa, inusitada, imprevista. Rina arfou, arqueando o corpo, o prazer se convertendo em susto. E segurou o braço dele na mesma hora, firme, quase desesperada, o impedindo de continuar.
Hiei interrompeu os beijos, notando a alteração na postura de Rina.
— O que é isso? — ele perguntou, em voz baixa.
— Nada — Rina respondeu, rápido demais, o hálito quente em seu ouvido — Só um machucado.
Ela ainda estava em seu colo, mas a mão da nuca agora se apoiava em seu ombro, o empurrando com uma força sutil. A que segurava seu pulso continuava o comprimindo com firmeza.
— Eu vou ter cuidado.
Mas Rina balançou a cabeça.
— Não, melhor não, melhor pararmos — ela falou, com a cabeça inclinada para baixo e a voz fraca.
— Qual o problema?
Rina manteve os olhos baixos. A mão forçou mais um pouco o braço dele, até ele o retirar completamente das costas dela e ela o soltar aos poucos, como se estivesse relutante também em deixá-lo ir. Rina ajeitou a blusa.
— Nenhum, eu só… só estou um pouco indisposta.
Mas havia incerteza na sua voz. Hiei ainda pensou em segurá-la, mas Rina acabou se desvencilhando dele, deixando seu colo para voltar para o chão.
— Está tarde, é melhor irmos dormir — ela disse.
E Rina se levantou. Foi até a porta e olhou para ele, esperando que a seguisse.
— Me deixe ver — ele pediu, se erguendo também, indo até ela.
Rina deu um passo para trás, defensiva.
— Não — falou, um pouco mais dura do que ele esperava — Não é nada, não precisa se preocupar. Eu… vem, vamos deitar.
Hiei estreitou os olhos, vendo a mentira deixar a boca dela. Um novo alerta soou em sua cabeça. Rina, porém, relaxou a postura. Deu um sorriso suave que o desarmou completamente. E, em vez de se afastar, o puxou para perto.
— Não se preocupe, Hiei — ela falou em seu ouvido — Eu não vou mais a lugar nenhum.
E ele a beijou de novo.
(…)
Rina acordou com o braço de Hiei ainda ao seu redor.
Não tinham feito nada além da troca de beijos, mas ainda assim, aquela noite ao lado dele foi mais íntima do que todas as outras. A maneira como ele a segurou, como a manteve perto, tinha sido a única resposta que ela precisava para formar sua decisão.
O único pesar que tinha era a mentira sobre a ferida nas costas. Se arrependeu no instante em que abriu a boca, mas não podia deixar que ele descobrisse daquele jeito, naquele momento. Iria estragar tudo, e a única coisa que Rina queria era uma noite tranquila ao lado dele.
E, quando Hiei saiu para mais um dia de treinos, Rina verificou os braços e pernas mais uma vez. Uma agonia brotou dentro do peito ao ver como as marcas haviam se espalhado, como várias estavam abertas, ardendo ao toque, repuxando sua pele.
Se pretendia ficar — e ela pretendia — precisava fazer algo a respeito.
(…)
Rina encontrou Zennosuke desacompanhado, carregando uma travessa de madeira, e colhendo pedaços de plantas e galhos de arbustos. Hiei não estava por perto, provavelmente praticando sozinho algum exercício ou meditação.
Perfeito, Rina pensou.
— Precisa de ajuda? — ela ofereceu, ao se aproximar.
O xamã olhou para ela um instante e pediu que carregasse a travessa. Depois, continuou cortando com a mão alguns ramos.
— Vejo que seu corte já cicatrizou — ele observou, focado ainda na tarefa.
— O seu bálsamo ajudou — Rina disse, segurando a travessa enquanto ele depositava mais algumas folhas.
Zennosuke apenas fez um ruído de aprovação. Continuou até uma árvore próxima com Rina em seu encalço. Puxou um pequeno canivete e apalpou o tronco, até achar o ponto certo. Arrancou uma lasca.
— Talvez você possa me ajudar com outra coisa também — ela arriscou.
— Com o quê?
Rina mordeu o lábio inferior. Era a ansiedade novamente querendo tomar conta. Olhou ao redor, confirmando que estavam sozinhos. Ainda assim, não quis arriscar.
— Posso te mostrar. Mas não aqui.
O xamã recolheu mais um pedaço da madeira, colocou na bandeja que Rina segurava e olhou para ela.
— Venha comigo — pediu.
Rina acompanhou Zennosuke até uma abertura entre as rochas, tão escondida que ela jamais teria visto se ele não a tivesse levado até lá.
A entrada dava espaço para uma espécie de salão esculpido dentro da pedra, amplo e escavado demais para ser chamado de caverna. Era claramente obra de alguém, não uma formação natural. De cada lado, um corredor se seguia, provavelmente levando a mais câmaras. O lugar era iluminado por lamparinas de óleo e era mobiliado de maneira frugal: algumas esteiras no chão, tapeçarias, alguns poucos móveis de madeira.
Zennosuke indicou que ela deixasse a travessa sobre uma pedra lisa, que servia de mesa de trabalho.
— O que quer me mostrar?
Rina sentiu o coração disparar, as mãos ficarem frias, mas decidiu tentar mesmo assim. Ele era sua melhor chance.
Então, apoiando o pé em um banquinho de madeira, levantou a perna da calça até o joelho.
Na panturrilha, exibiu as manchas negras que ela já tinha visto tantas vezes. Que não paravam de crescer, que doíam ao toque — merda, doíam mesmo sem que ninguém as tocasse.
— Acha que pode me ajudar com essas feridas também?
Zennosuke se curvou para olhar de perto. Pegou uma das lamparinas e iluminou a perna de Rina. Tinha na expressão uma curiosidade profissional, a barba branca o dando ares de um curandeiro com conhecimentos antigos. Ele estendeu a mão, o dedo pairando sobre a pele dela... mas antes mesmo de tocar, ele parou.
Sua mão recuou como se tivesse levado um choque. A lamparina tremeu, projetando sombras dançantes na parede da caverna. De supetão, ele se afastou, dando um passo cambaleante para trás, o rosto agora completamente transformado. A curiosidade se fora, substituída por algo que Rina não conseguiu decifrar de imediato: um misto de incredulidade e pavor.
— Como conseguiu isso? — ele sussurrou, a voz rouca, mas intensa.
— O quê? Os machucados? — Rina sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Zennosuke não respondeu. Seus olhos estavam fixos na perna dela, como se vissem ali um fantasma.
— Você é uma Yuuma — ele disse por fim, não em forma de pergunta, mas como uma constatação.
— O quê?!
Rina ficou branca. Voltou a cobrir a perna, apressada. Subitamente, o ar ali dentro mudou. Uma onda de claustrofobia a atingiu, e ela se sentiu presa dentro daquela rocha, como se as paredes estivessem se fechando em cima dela.
— Pensei que estivessem todos mortos — Zennosuke disse, ainda incrédulo, encarando Rina como se ela fosse uma espécie de pesadelo encarnado.
— Por que acha que sou uma? — ela perguntou, mas a voz era tão trêmula que estava óbvio que não conseguiria mentir.
— As manchas. É a maldição Yuuma. É assim que muitos foram dizimados. Sua raça tem um sangue maldito. Corrompido.
Os dentes de Rina trincaram. Um pânico tentou afogá-la, gelado e paralisante. Não havia sentido em negar. Mas sob o medo, outro instinto, mais afiado, tomou o controle. Sua mão desceu para a cintura, os dedos se fechando ao redor do cabo reconfortante de sua adaga.
Com um movimento fluido, ela sacou a lâmina. Seus olhos, antes arregalados de pavor, agora se estreitaram, focados nele.
— E o que pensa que vai fazer com essa informação? Me delatar? Me entregar pra alguém?
Zennosuke não se mexeu, mas seus olhos se guiaram até a ponta da adaga. Depois, se voltaram para Rina. Ela sentiu seus sentidos se inflamarem ainda mais, cada músculo preparado para reagir.
— Responda minha pergunta.
Os olhos de Zennosuke se estreitaram como os dela. Parecia outro homem agora, com a luz da lamparina jogando sombras sobre seu rosto, com a barba o fazendo parecer um guerreiro experiente em vez de um simples xamã.
— Hiei sabe disso?
Rina prendeu o ar novamente. A garganta já estava seca. Apertou ainda mais a arma entre os dedos, sentindo o suor escorrendo na mão.
— Ele sabe quem eu sou, mas não sabe das manchas que tenho no corpo. E prefiro que continue assim. Ao menos por enquanto, até eu decidir como contar.
Zennosuke assentiu.
— Eu não vou te entregar. Não fico confortável em abrigar uma Yuuma nos meus domínios, sua raça sempre causou problemas por onde passava. Mas não vou alimentar o ciclo de violência, nem te botar para fora. Você está morrendo e precisa de um lugar para ficar.
— Eu- o quê? — Rina sentiu o mundo inteiro girar, seu corpo virar do avesso.
Morrendo.
— E guarde essa adaga, Yuuma.
— O nome é Rina.
Ela nem tinha percebido que ainda mantinha a lâmina apontada para ele. Pensou duas vezes se devia acatar o pedido, o coração querendo sair pela boca, sem conseguir raciocinar direito. Relutantemente, acabou abaixando a adaga. Não a guardou de volta na cintura, no entanto. Preferiu a deixar na sua mão. Apenas por cautela.
— Por que diz isso? Que estou morrendo. Deve ter alguma coisa que possa ser feita.
— Se houvesse, outros da sua raça ainda estariam entre nós, não acha? O seu estado está tão avançado que não acredito que tenha muita salvação.
O pânico se alastrou. Rina sempre soube quão debilitada aquele distúrbio poderia deixa-la, mas nunca quis acreditar que levaria à morte. Sempre achou que conseguiria dar um jeito antes que fosse tarde demais. Ouvir isso da boca de outra pessoa foi como levar um murro no queixo. A deixou desnorteada.
— Achei que os Yuuma tivessem sido mortos pelos inimigos que fizeram — ela falou, ainda sem acreditar.
Zennosuke ficou calado, a estudando. Rina sabia que devia estar parecendo uma nova pessoa para ele, em luz dessa descoberta. Era como se ele não soubesse se podia confiar mais nela também, como se também estivesse arrependido de ter se exposto tanto, tê-la permitido ficar tanto tempo.
— É isso que eles gostam de contar — Zennosuke falou, olhos fixos nela — Mas não é a história completa.
— E qual é?
— Os Yuuma foram massacrados, é verdade. Mas teriam resistido muito mais se não fosse a própria doença que os corroeu por dentro.
Uma doença. Como a dela. Desde que Rina aprendera sobre sua linhagem demoníaca, ela suspeitava que aquela enfermidade maldita tinha a ver com seu sangue youkai, mas nunca tinha parado para imaginar que isso podia ter sido a causa da extinção daquele clã.
— A maldição Yuuma — Zennosuke continuou — Fizeram de tudo para esconder, sabiam que isso os faria parecer fracos diante dos inimigos. Funcionou, quase ninguém conhece a história toda. Mas eu vivi tempo demais, vi e ouvi o que muitos nem sonham.
— E o que aconteceu? — Rina perguntou, ansiosa, fazendo de tudo para ignorar a aversão no rosto dele — Nunca acharam uma cura?
— Como vou saber? Morreram todos. Ou, pelo visto, quase todos.
Rina engoliu em seco. A mão que ainda apertava o cabo da adaga já estava pegajosa de suor.
— Alguém saberia? Alguém teria a resposta?
O xamã a fitou com o mesmo olhar rígido de antes.
— Só outro Yuuma saberia.
Ela sentiu a garganta secar.
Haru.
E assim, de uma hora para outra, tudo mudou. Desmoronou como um castelo de cartas.
Se Rina ainda tinha alguma esperança de que poderia desistir de ir com Gintaro, ela havia evaporado naquele exato minuto.
(…)
Rina inspirava e expirava lentamente, tentando conter a agitação crescente que ameaçava engoli-la por completo. Ela esperava Hiei acordada, sentada na esteira dentro do casebre em cima do rio, atenta ao menor ruído que indicasse que ele estava chegando.
Repassou mentalmente suas opções. A conversa com Gintaro, com Zennosuke. Rina tinha sido ingênua ao pensar que havia alguma escolha a ser feita, que a ida até Haru podia ser adiada. Teria que ir agora. Sem espera. Ela não tinha meses, não tinha semanas, céus, se Zennosuke estivesse certo, talvez mal tivesse alguns dias.
Ela estava morrendo.
Rina se recusava a acreditar que não havia chance alguma para ela. Haru estava vivo, não estava? Talvez ele possuísse uma cura, talvez fosse exatamente por isso que queria encontrá-la. Para repassar a informação adiante e dar a ela uma chance de sobreviver.
Rina se agarrava a essa ideia por saber que não havia alternativa a não ser ter esperança. Ou porque a alternativa era o desespero e isso ela não poderia permitir. Pois nos breves lapsos de insanidade, quando cogitava que morrer talvez fosse a melhor opção — talvez só assim ela tivesse um pouco de paz — alguma coisa se rebelava dentro dela. Como se desistir fosse inadmissível. Fosse errado.
E mesmo nervosa, Rina riu, amarga, com a ironia. Ela tinha ido ao Makai com a intenção de matar Haru, sem saber que era ela quem iria morrer de qualquer jeito. E que agora era dele de quem precisava se queria reverter isso.
Então divisou um plano. Iria até Haru, procuraria um jeito de eliminar a doença, e depois retornaria. Hiei só precisaria esperá-la por um tempo. Uma separação breve, apenas. Não definitiva. Quanto aos perigos da estrada, daria um jeito.
A premissa era frágil, mas era a única que ela tinha.
A escada de cordas rangeu de repente. Rina se virou para a entrada da cabana em um gesto nervoso, sentindo uma tensão no pescoço tão rígida que uma enxaqueca brotou na mesma hora. Hiei surgiu, o olhar caindo sobre ela. Primeiro, seu rosto se suavizou ao vê-la acordada de novo, esperando por ele. Provavelmente esperando que continuassem de onde tinham parado na noite anterior. Depois, se franziu. Sentia que havia algo de errado.
E como não iria sentir? Rina estava gelada, pálida, provavelmente com medo estampado em cada poro da face.
Ainda assim, ela forçou um sorriso e sua voz mais tranquila.
— Preciso falar com você.
Hiei encarava Rina como se estivesse pressentindo um perigo invisível. Como se todo o esforço dela para parecer calma estivesse tendo o efeito contrário.
— O que houve? — ele perguntou.
Rina havia ensaiado aquela conversa mil vezes na sua cabeça, mas, na sua cabeça, era sempre mais fácil — e mesmo lá era difícil.
— Sobre eu ir embora… decidi mesmo ir até Haru agora. Sozinha. Resolver o que preciso resolver e ficar livre — ela começou, avaliando a reação dele, tentando entrar no assunto aos poucos.
O rosto inteiro dele se transformou. A boca ficou tão rígida quando um cabo de aço, e os olhos tão escuros que nem pareciam mais vermelhos. Não de raiva ou rancor, mas de algo tão mais difícil de lidar que Rina sentiu uma pontada violenta no estômago, que sabia não ter nada a ver com sua doença.
— Pensei que tinha mudado de ideia.
— Eu tinha, mas preciso ir de uma vez. Você fica aqui, continua o treinamento e nos encontramos depois. Eu já estou melhor. Vou me manter fora das rotas principais. Não tem erro.
— Por que ainda quer ir até ele? Você não precisa disso, dessa vingança inútil agora que aceita quem você é. Você sabe.
Outra pontada. Rina abraçou o próprio corpo, como se aquilo pudesse amenizar a dor. Não podia. Aquele tipo de dor vinha de dentro, o tipo que fazia o sofrimento causado pelas manchas serem meros arranhões.
— Não é tão simples assim.
A mão de Hiei se fechou. A tensão subiu pelo braço, chegou ao pescoço, à mandíbula. Era a mesma tensão de antes, a que ele demonstrara nos primeiros dias quando chegaram ali.
Quando ele estava escondendo algo.
— Então me dê mais uns dias e podemos ir juntos — ele pediu.
— Eu não tenho mais uns dias.
— Como assim? — Hiei perguntou, em um tom alerta e desconfiado.
Rina sentiu a angústia comprimir seu peito, um calor tão intenso que era como se suas entranhas estivessem em brasas e fossem parar de trabalhar a qualquer momento.
Uma nova fisgada no estômago a fez se virar de costas. Ela fechou os olhos, tentando conter as lágrimas não solicitadas que surgiram de repente.
Mas não conseguiu. Não a tempo, ao menos. Pois quando Hiei repousou a mão em seu ombro e a fez girar novamente para encará-lo, um rastro úmido descia por suas bochechas — que ela se apressou em limpar.
— O que está acontecendo, Rina? — Hiei perguntou — Me diga.
Ela esfregou os olhos mais um pouco. Respirando fundo, Rina esticou o braço para frente e puxou a manga até o cotovelo.
Hiei arregalou os olhos. Puxou a mão dela, trazendo as feridas para perto.
— O que é isso? — ele perguntou, a apreensão rasgando cada palavra.
— Isso é o porquê eu preciso ir até Haru agora. Porque ele talvez seja a única solução.
Ele ainda segurava o pulso dela, os olhos agora estreitos, indo de uma marca à outra, como se não acreditasse no que via.
— Por que nunca me contou?
— Eu não queria que ficasse preocupado.
Hiei levantou o rosto para ela. Rina podia ver a confusão passando em seus olhos, o pânico inconfundível.
— Você devia ter falado algo antes — ele falou — Eu podia ter ajudado.
Ela apertou ainda mais os lábios. Trouxe o braço de volta e o cobriu, a mão tremendo ao puxar a manga para baixo.
— Não é assim fácil… Shigure não pôde me ajudar, Zennosuke também não… o que você-
— Shigure? — Hiei a interrompeu, as sobrancelhas de repente se unindo no meio da testa — Há quanto tempo tem isso?
A garganta de Rina travou na mesma hora.
— Não tem importância.
— É claro que tem importância!
Hiei ainda estava perto, perto demais. Rina quase podia sentir o calor vindo do corpo dele, como se ele estivesse fervendo. Como se ele fosse do mesmo material das suas Chamas.
— Eu só estou dizendo que, agora, a única coisa que importa é ir até Haru. E logo — Rina falou, se afastando — A gente pode discutir sobre isso outro dia, mas agora-
— Você não pode ir. Não sozinha.
— Eu não vou sozinha — ela disse, sem conseguir se segurar — Posso ir com Gintaro.
A frase fez Hiei se inflamar ainda mais, como se aquele nome fosse a maior ofensa de todas. Rina podia ver como ele ruiu por dentro, podia ver a aversão se solidificando naquele instante diante de seus olhos.
— Não pode estar falando sério.
— Hiei, eu tenho que ir. Não posso te esperar. E não quero que interrompa o treino por minha causa.
— Você não entende-
— Você que não entendeu ainda! — Rina falou, elevando a voz, ficando exasperada — Eu vou morrer se eu não for, Hiei!
— E vai morrer se você for! — ele falou, tão alto e firme que soou como se estivesse gritando. Rina nunca o tinha visto falar daquele jeito tão alteado.
E aquilo a fez parar. Olhou para Hiei sem palavras, a respiração ficando mais pesada a cada segundo transcorrido. As palavras dele reverberaram entre as paredes de madeira.
— Por que está dizendo isso? — Rina perguntou, controlando a voz que queria sair trêmula, abaixando o tom para que ele não percebesse as falhas de suas sílabas quebradas.
Hiei apertava os dentes, o rosto em uma fúria nervosa.
— Não são só outros youkais que estão atrás de você — ele revelou.
E imediatamente Rina entendeu. Arregalou os olhos, incrédula.
— O Reikai está atrás de você pelos seus crimes contra os humanos. Estão enviando tropas pra te capturarem. Se você for sozinha, não vai ser apenas presa.
O silêncio caiu sobre eles novamente. Rina tentava processar o que tinha ouvido, mas o que a espantava não era a confirmação de que o Mundo Espiritual realmente estava lá em sua busca. O que a deixou calada foi descobrir que Hiei já sabia disso. E que não a tinha informado.
— Como você sabe disso? — ela conseguiu perguntar.
Hiei não respondeu. Virou o rosto, escondendo-se do olhar dela. Mas ela já tinha visto a culpa piscar por um instante nos olhos dele.
— Desde quando você sabe, Hiei? — Rina pressionou.
— Achei que esse tipo de coisa não tivesse importância.
E a ficha caiu com um estrondo na cabeça dela. O chão abriu sob seus pés.
— Você sabe há dias, não sabe? Desde que chegamos. Talvez desde antes. É por isso que estava nervoso, olhando por cima do ombro o tempo inteiro no trajeto pra cá. É por isso que me arrastou com você, por isso que ficava agitado toda vez que eu falava em ir embora.
Ele ficou calado novamente. Hiei não se deu ao trabalho de negar. Nem de confirmar, mas Rina não precisava de confirmação alguma depois daquele silêncio.
— Merda, Hiei! Eu te perguntei! Eu perguntei no dia que enfaixei seu braço, eu sabia que estava escondendo alguma coisa e te dei a chance de falar! E você mentiu! Mentiu! O que mais você esconde de mim?
— Você quer falar sobre mentiras? — ele disparou, voltando a olhar na cara dela — O que foi aquilo ontem à noite? Quando eu senti a ferida nas suas costas e você preferiu ir dormir a me contar a verdade?
— É diferente!
— Qual é a maldita diferença?
— Isso é pessoal! Minha doença não te afeta em nada, é comple-
— Você é idiota, Rina? — Hiei cuspiu, chegando perto, batendo com o dedo no peito dela — Você está morrendo e acha que isso não me afeta em nada? Será que não percebeu ainda que eu me preocupo com você?
O coração de Rina agora batia tão rápido que ela podia ouvir o sangue sendo bombeado com pressa. Um zunido surgiu dentro do ouvido, uma cólica atingiu a barriga.
Ela sabia que Hiei tinha razão. Bem no fundo, ela sabia. Mas estava magoada demais para admitir.
— Se se preocupa tanto, por que não me contou assim que soube do Reikai? — Rina perguntou mais uma vez — Eu achei que fôssemos parceiros! Que você confiasse em mim!
— Como ia confiar enquanto estivesse agindo só na base da emoção? Enquanto não estivesse pensando com clareza? Você não ia escutar uma única palavra se eu contasse antes.
— Se tivesse me dito a verdade, é claro que eu iria escutar!
Hiei estava a centímetros do rosto dela, a boca repuxada de raiva. Novamente sentiu o calor que ele emanava.
— Não, não iria. Você ia tapar os ouvidos e jogar fora qualquer resto de bom senso que ainda sobrasse. Iria fazer as malas e partir, porque era só disso que você falava desde que eu acordei naquela maldita caverna.
— Eu não sabia o que estava acontecendo, droga! Só estava tentando te proteger!
— Não, o que você estava tentando fazer era fugir. Era se punir por algo que não foi sua culpa. Por que é isso que você faz quando as coisas saem do controle: você foge. Ignora o problema em vez de encarar. Lamenta em vez de seguir em frente. Foi assim com seus pais e agora é assim comigo.
As palavras dele a atingiram com força. O zumbido no fundo do ouvido de Rina ficou ainda mais forte. Ela sentiu o sangue ferver, raspando a pele em plena ebulição, a adrenalina um licor amargo em suas veias.
Alguma coisa mudou dentro dela. Não — alguma coisa quebrou.
— Ora, vai à merda! Como você ousa usar o que eu te contei sobre meus pais contra mim?
E ela o empurrou.
— E pensar que eu me importava com o que você achava de mim! — Rina continuou — Como se a sua opinião de merda tivesse algum valor! Você não passa de um arrogante que se acha melhor do que todo mundo, com a maturidade emocional de uma porta!
A raiva brilhou ainda mais forte nas pupilas de Hiei. Rina nunca o detestou tanto.
— Sabe por que eu não te contei da minha doença antes? Porque eu não queria que você voltasse a me olhar como se eu fosse um problema a ser resolvido. Por que você não tem a menor paciência pra nada nem ninguém que não seja no mínimo do mesmo nível que você e eu fiquei igual a uma imbecil tentando chegar nesse nível. Só pra você gostar de mim.
— Você-
— Mas eu não sei onde estava com a cabeça! Eu tinha jurado nunca mais mendigar amor de ninguém, mas aqui estava eu, cometendo os mesmos erros de sempre. Você me perguntou uma vez se eu me arrependia de ter vindo ao Makai, e quer saber? Não me arrependo nem um pouco. Mas me arrependo, e muito, de ter conhecido você!
As palavras saíram descontroladas da boca de Rina. Seu único intuito era machucá-lo. Muito. Até que ele sangrasse por dentro como ela sangrava também.
E pelo modo como Hiei a fulminou, com nada além de puro ódio e ressentimento cobrindo seu rosto, ela sabia que tinha conseguido.
Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada, deixando que apenas a tensão elétrica do ar falasse por eles. Rina se sentia à beira de um colapso, a pulsação completamente fora do compasso natural.
Até que Hiei deu alguns passos, fazendo Rina recuar. Mas em vez de ir até ela, ele saiu da cabana e começou a descer os degraus da escada de corda.
— Onde você vai? — Rina perguntou, irritada.
— Não que seja da sua conta — ele disse, frio — mas tenho um compromisso com Zennosuke.
— E quanto a nós?
— Faça o que quiser, Rina. Vá até Haru, lide com o Reikai, encontre aquele mercenário cretino. Não me importa.
E ele desapareceu na noite, marchando pelo contorno do rio até que sua silhueta se tornou apenas uma mancha de tinta preta contra o céu noturno, tragada pela escuridão.
Rina ficou onde estava. Ofegante, inquieta, a raiva se misturando com a dor e a impedindo de formar qualquer pensamento coerente.
Com o corpo tremendo, a boca seca, o coração tentando atravessar o peito, ela foi até sua bolsa largada no canto e arrumou de qualquer jeito, jogando tudo para dentro sem muito critério. Antes que pensasse demais e mudasse de ideia, desceu as escadas também.
E seguiu na direção oposta. Na direção de Gintaro. Decidida a nunca mais voltar.
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