Visceral
29 Ponto de ancoragem
O corpo de Hiei parecia em combustão ao acordar. Seu estômago se retorceu, cada célula uma pequena explosão. Ele abriu os olhos com dificuldade e encarou o teto de madeira por tantos minutos que perdeu a noção do tempo. Até o ar parecia fogo ao passar pelo nariz.
Alguém entrou no quarto, mas Hiei não conseguiu se mexer para ver quem era. Naquele estado, em que não conseguia distinguir hora ou lugar, supôs ser Rina — no entanto, foi a voz de Zennosuke que ouviu.
— Beba isso quando conseguir levantar — o xamã falou, apoiando um copo no chão ao seu lado.
Hiei grunhiu em resposta, não por opção, mas por perceber que as cordas vocais não obedeciam. Os músculos do pescoço, do tronco, dos braços também não. Continuou imóvel, certo de que o corpo inteiro estava carbonizado, incinerado pelas Chamas. E quando fechou os olhos de novo, a dor não permitiu nem que dormisse nem que entendesse as memórias confusas que tentavam se formar no cérebro.
Depois do que pareceu uma eternidade, ele começou a sentir o movimento voltar aos poucos. Apenas as pontas dos dedos primeiro. Mais um tempo e já conseguia mexer os pés. Até que conseguisse levantar as costas, levou pelo menos mais um par de horas. E, ainda assim, era como se a coluna vertebral estivesse rachada em mil pedaços, que fosse se despedaçar caso fizesse o movimento errado.
Hiei tomou o líquido com dificuldade, mas depois que a bebida se assentou na barriga, o enjoo finalmente acalmou. A mente também.
Não havia mais ninguém no quarto com ele, e tudo parecia silencioso do lado de fora. Pela janela, viu que ainda (já?) era noite. O corpo não estava queimado como imaginou, mas, ainda assim, a sensação persistia. Suas lembranças voltavam aos poucos. Um pouco fora de ordem, um pouco difusas, mas se esforçando para terem um mínimo de coerência.
Zennosuke retornou algum tempo depois, quando Hiei ainda estava desorientado demais para fazer algo além de ficar parado. Ele trouxe um novo copo, com um novo líquido, e novamente indicou que Hiei bebesse.
— Como está? — o xamã perguntou depois que Hiei terminou de ingerir a bebida.
— Melhor.
Zennosuke assentiu, sem nenhum sinal de alarme no rosto.
— O que se lembra do ritual?
Hiei estreitou os olhos, forçando o cérebro a trabalhar. Depois do segundo copo de bebida, as imagens na cabeça não pareciam mais tão nebulosas. A lentidão começava a se dissipar.
— Não muito — ele respondeu.
— Vai recobrar tudo aos poucos. O que importa é que conseguiu completá-lo. Só precisa repor seu youki.
Hiei concordou por falta de opção. Porque seus sentidos e suas reações ainda não estavam afiados como costumavam estar. Mas quando Zennosuke o deixou a sós novamente, ele voltou a exigir que a mente trouxesse para a superfície o que ele sabia estar escondido em algum canto.
Não quis falar com Zennosuke quando ele perguntou, mas havia, sim, uma coisa de que ele se lembrava do ritual.
Hiei se lembrava de Yukina.
(…)
Gintaro, enquanto companheiro de viagem, era o completo oposto de Hiei. Era mais falante, mais bem-humorado, mais galanteador. Rina teria apreciado, se seu humor não estivesse azedo desde o momento em que se encontrara com o mercenário. Ainda era madrugada quando ela apareceu no acampamento dele, acordando-o e exigindo que fossem embora, naquele exato instante, agora mesmo.
— O que houve? Brigou com o namorado? — ele perguntou, vendo sua agitação.
— Ele não é meu namorado — Rina respondeu, de um jeito tão cortante e definitivo que o sorriso de Gintaro morreu na mesma hora.
Já havia se passado um dia inteiro, e o corpo de Rina podia sentir o peso daquela caminhada. Enquanto estava apenas dentro da área de Zennosuke, o cansaço não ficava evidente, mas agora, andando por horas a fio, naquele terreno hostil do cânion, ela entendia o quanto a doença havia avançado.
Mais de uma vez se sentiu tonta, as pernas vacilando para não cair. Naquela região, os cactus eram gigantescos, alguns maiores do que Rina, com espinhos de vinte centímetros ou mais. Ela certamente já teria fincado as costas em um deles, não fosse Gintaro para a segurar.
O mercenário percebeu todas as vezes que havia algo de errado, e, em todas as vezes, a aparou e perguntou se precisava descansar. A resposta era sempre a mesma.
— Não temos tempo pra isso.
O que a movia não era somente a urgência de encontrar logo com Haru, mas também a necessidade visceral de se afastar o máximo possível do acampamento do xamã. O máximo possível de Hiei. Apenas para que ela não corresse o risco de querer voltar.
(…)
A cor da fumaça era branca; o cheiro, cítrico. Essas eram as lembranças sensoriais mais fortes. Hiei estava dentro de uma cavidade subterrânea, o teto e paredes cobertos por estalactites e por raízes retorcidas que se infiltravam feito garras pelo solo. Ele se lembrava vagamente de como encontrou Zennosuke ao lado da abertura, como precisou se espremer para acessar o espaço.
O lugar era úmido de um jeito desconfortável. Hiei também se recordava do calor que sentiu, de como o corpo estava quente, a mente, agitada. Zennosuke havia dito que ele precisava se concentrar, e Hiei precisou do triplo do esforço para esvaziar os pensamentos como devia — naquela hora, tudo o que ele tinha era raiva, era vontade de querer quebrar alguma coisa, de cerrar o punho com força.
— Sente aqui — o xamã indicara um círculo desenhado no chão com cinzas brancas.
Hiei obedeceu. O chão, apesar do ar abafado, era frio, desagradável. Mas Zennosuke já começava a preparar as ervas, alimentando pequenas brasas ao redor do círculo.
— O ritual vai abrir sua mente — o xamã avisou, sua voz ecoando pela caverna — Talvez veja coisas. Memórias, reais ou não. Pessoas ou lugares. Nada que já não exista em seu subconsciente.
— Alucinações? — Hiei perguntou.
— A experiência de cada um é individual — Zennosuke despejou mais ervas e lascas de árvores nas brasas. A fumaça branca começou a subir, lenta — Talvez não veja nada.
Hiei não respondeu. Apenas observou a fumaça se espalhando. Só queria acabar logo com aquilo.
— Mantenha o Jagan aberto todo o tempo — o xamã continuou — E concentre-se no que deseja manifestar. Visualize seu membro perdido, cada articulação, cada nervo, cada músculo. Vai ser seu ponto de ancoragem.
Em seguida, o xamã iniciou um cântico, a voz grave, as palavras estranhas soando estrangeiras para Hiei.
A fumaça começou a engrossar.
(…)
Zennosuke entrou no quarto novamente. Recolheu o copo, mas dessa vez, não trouxe uma nova bebida.
— Estou impressionado — o xamã disse — Normalmente o processo inteiro levaria dias. Você conseguiu em doze horas. Mas acho que subestimei sua intimidade com as Chamas.
— Do que você está falando?
Zennosuke apenas apontou para o braço direito de Hiei. Ele seguiu o olhar do xamã. A visão ainda estava um pouco turva, mas, ainda assim, conseguiu enxergar o suficiente para tomar um susto.
Continuando do cotovelo, onde havia sido cortado meses atrás, havia agora um braço negro, veias roxas iluminando o caminho por dentro. Hiei arregalou os olhos, sem palavras, ao ver sua mão, que até ontem não estava lá.
Levantou o braço. Tentou mexer os dedos, mas eles não o obedeceram com prontidão. Havia um certo atraso nos movimentos, uma certa trava. Mas eles estavam lá, cada dedo, um a um. E quase podia sentir as terminações nervosas se conectando, seu corpo se fundindo com a energia negra das Chamas.
— Não se precipite, demônio de fogo — comentou Zennosuke, observando a reação de Hiei — Ainda vai doer por dias. Seu corpo está se ajustando. Não vai conseguir utilizar por muito tempo, não sem prática constante. Seu treino não acaba quando consegue formar o membro perdido; na verdade, está apenas começando.
Hiei continuou encarando a própria mão, testando seus reflexos — fracos. A sensação de conquista deu lugar à frustração. Ainda não estava bom o suficiente.
Rina diria o contrário, ele tinha certeza. Iria pedir para tocar no braço dele como se aquilo fosse um milagre, ignorando a inconveniência que era não poder usá-lo como queria. Depois teceria algum comentário impertinente, para não perder o costume. Faria mil perguntas sobre o ritual. E claro, se preocuparia de maneira exagerada.
— Onde está Rina? — ele perguntou de repente.
Mas o xamã franziu a testa.
— Não sei. Não está mais aqui.
— Como assim?
— Foi embora, horas atrás. Enquanto você estava no ritual.
Hiei ficou calado, processando a informação. Estava tão preocupado em recobrar o que havia acontecido na cavidade subterrânea que esquecera-se do que havia acontecido antes.
A briga com Rina voltou feito uma avalanche. As mentiras, as acusações absurdas, o jeito colérico com que ela havia despejado um turbilhão de palavras. Um ódio violento o atingiu.
— Descanse mais um pouco essa noite — Zennosuke falou — Você precisa repor o youki desprendido no ritual.
E seguiu com mais algumas orientações sobre o repouso, os próximos passos, as recomendações para o cuidado com o braço.
Mas Hiei não ouviu nem uma palavra.
(…)
Rina e Gintaro estavam acampando atrás de uma área escarpada, uma fogueira acesa no meio do solo rochoso.
Ela havia suprimido sua aura durante todo o trajeto. Gintaro notou e quis saber, curioso, qual era o problema. "Desde quando não gosta de exibir seu youki por aí?" ele perguntou. Rina não teve outra saída a não ser explicar seus motivos. Que o Mundo Espiritual estava à sua procura, e não seria ela que facilitaria as coisas para eles.
A fala deixou o mercenário mudo por alguns instantes, como se estivesse considerando a situação. Mas por fim ele concordou. Uma emboscada do Esquadrão Especial não estava nos seus planos e, se Rina conseguia mascarar sua presença tão bem, que continuasse assim.
E ela tinha que admitir que Gintaro conhecia bem a região. Sabia das melhores rotas, a alertava para desníveis no chão antes mesmo que ela visse, conhecia quase todas as plantas comestíveis — e as venenosas — que cresciam por lá. Caçou um pequeno animal como se aquilo fizesse parte da rotina, tão rápido que Rina nem tivera tempo de oferecer ajuda.
— Quanto tempo até Haru? — ela perguntou.
Gintaro comia o rabo do lagarto recém-assado na brasa. Demorou para responder apenas o tempo de terminar de mastigar.
— Só mais um dia — ele falou simplesmente.
— Um dia? Já?!
Ele confirmou, despreocupado. Depois, relanceou para Rina com um ar divertido. Piscou um olho.
— Ou posso fazer um trajeto mais longo se quiser, princesa. Não sei o que viu naquele baixinho, mas garanto que uns dias a mais comigo e você nem lembra mais que ele existe.
Rina só revirou os olhos, já acostumada com os gracejos do mercenário.
— Não precisamos de mais tempo na estrada. Quanto mais cedo chegarmos, melhor — ela respondeu — E já avisei que não quero falar sobre ele.
— Como quiser, docinho. O que quer falar então?
— Nada.
Ela sabia que devia estar sendo uma péssima companhia, mas não se importava. Havia uma ansiedade que ameaçava preencher seu peito durante todo aquele dia, e Rina estava tão focada em espantá-la que tudo o que conseguia era o efeito oposto.
Estava nervosa para o encontro com Haru. Não sabia o que esperar, ou o que diria, ou o que ele diria a ela. Mas o que mais a afligia era que a viagem fosse em vão. Que não houvesse solução para a doença e que ela acabasse morrendo como todos os outros Yuuma. Sozinha.
— Está sangrando — Gintaro observou, olhando atentamente para ela.
Rina acordou dos próprios pensamentos. Enrugou a testa sem entender, mas depois abaixou os olhos para ver onde Gintaro apontava. As mangas compridas da blusa tinham manchas escuras agora, do sangue que escapava pelas feridas abertas. Rina arregalou os olhos, mas se apressou em cobrir as partes manchadas com as mãos, se encolhendo.
— Não é nada.
Mas o youkai não pareceu convencido. Manteve o olhar fixo nela enquanto Rina se retraía ainda mais.
— Tem certeza? O trato com Haru era pra que chegasse ilesa, e se está machucada–
— Já falei que não é nada. Eu estou bem — Rina cortou. Não tinha contado a ele sobre esse pequeno detalhe. Mas não era como se Gintaro pudesse fazer alguma coisa a respeito, de todo modo.
O dia tinha sido cansativo, muito mais do que ela esperava. Suas pernas estavam moídas, provavelmente sangrando também — se a calça não fosse tão grossa, talvez exibisse as mesmas evidências que a blusa. Era como se houvesse piorado nas últimas vinte e quatro horas, e ela não sabia se havia sido unicamente pelo esforço físico ou se também pelo esgotamento emocional. Pela briga com Hiei que parecia agarrada à sua memória. Pelo jeito com que ele a olhou: ofendido e com ódio.
E pelas palavras. "Vá embora, Rina. Não me importa."
Talvez ela não devesse se importar também.
(…)
— Hiei?
A voz tinha surgido antes da imagem. Esta se solidificou aos poucos, começando pelo pingente de pérola e terminando pelo cabelo verde-água, mas ainda assim parecendo tão etérea quanto as brumas.
Ele não sabia quanto tempo havia passado. A voz de Zennosuke já tinha desaparecido, e seu corpo formigava de um jeito estranho, como se fosse mais leve que o ar. Como se ele estivesse flutuando.
Ao redor, tudo estava branco e ele não sabia mais se era fumaça ou neve cobrindo o chão. Não sabia se estava sonhando com a irmã, ou se eram os treinos com o xamã que tinham sido um sonho distante. Tudo o que vinha fazendo era visualizar o braço como ele havia solicitado — empunhando a katana, invocando as Chamas, golpeando o ar.
— O que você está fazendo aqui? — Hiei perguntou, desorientado — Onde estamos?
Yukina inclinou a cabeça de leve, como se a pergunta não fizesse sentido.
— Vim aqui pra te ver, bobinho.
— Devia estar no Ningenkai.
— Eu pertenço ao Makai tanto quanto você, esqueceu?
Ela era real. Tão real quanto ele, Hiei tinha certeza disso. Era a voz de Yukina, o farfalhar das roupas, o sorriso doce, inocente, gentil. Ao mesmo tempo, nada era real. Nem ele mesmo. E quando olhou para os próprios braços, viu o direito coberto por uma labareda de línguas roxas. Voltou então a mentalizar. Espada na mão, fogo vindo da palma, socos duros atingindo o alvo. Ele ardeu ainda mais em resposta.
Sentiu uma pressão na testa repentina. Era o Jagan, aberto, funcionando, latejando de forma brutal.
Hiei fechou os olhos, mas ouviu a risada de Yukina e voltou a procurá-la. A neve-fumaça se agitou ao redor. Estavam em Hyouga, em uma caverna de gelo. Não era calor, era frio que sentia, tão intenso que chegava a queimar.
— Por que tem medo de mim? — Yukina perguntou.
— Não tenho.
— Então por que nunca se aproxima?
— Eu não quero que se machuque — Hiei falou, se sentindo zonzo. Buscava a irmã entre a névoa, mas via apenas uma silhueta. E o brilho do pingente.
— Você me machucaria?
Yukina estava do seu lado e, ao mesmo tempo, muito longe dali. Hiei sentiu frio, depois calor, depois frio de novo. O braço doía como se estivesse em uma fornalha, queimando a mil graus centígrados. Ou talvez congelando.
— Eu não sou quem você pensa que eu sou — Hiei falou.
— Talvez você seja exatamente quem eu preciso que você seja.
— Não. Precisa ir embora.
Ela estava na sua frente de novo, o rosto a alguns meros centímetros de distância. Hiei podia ver seus cílios, as unhas da mão quando ela levantou para tocá-lo, a fita no cabelo.
— Você me acha fraca, Hiei? Não sou digna de ser sua irmã?
— O quê? Claro que não! De onde tirou isso? — ele falou, o tom muito mais nervoso do que ele sabia que devia estar usando com ela. Mas não conseguiu evitar. Aquela conversa começava a gerar um incômodo severo dentro dele e tudo que Hiei queria era que Yukina parasse de falar.
— Então por que tenta me afastar? — ela perguntou, a mão fria apenas roçando seu rosto.
— Estou tentando te proteger.
— Me proteger? Ou se proteger?
Hiei ficou paralisado. Tentou pegar a mão dela, afastá-la do seu rosto, mas não conseguiu; seus dedos tocavam apenas o ar, como se Yukina fosse uma miragem. Ou talvez a miragem fosse ele. Talvez seu corpo estivesse a quilômetros dali, em um cânion enfumaçado no meio do deserto.
— Você tem medo que eu vá te rejeitar, não é? Por isso me rejeita primeiro.
— Yukina…
A irmã recolheu o braço. Deu um passo para trás.
— Ou talvez você só prefira ficar sozinho. Sem família. Sem ninguém. Deve ser por isso que afasta todo mundo. Por isso que afastou ela também.
Hiei não respondeu. Não conseguiu. A boca parecia cheia de chumbo, pesada demais para abrir.
A imagem de Yukina estava opaca, como se um filtro tivesse sido aplicado. Podia ser a fumaça voltando — ou talvez a fumaça nunca tenha saído dali, talvez ele nunca tivesse saído do cânion, talvez Yukina nunca tivesse falado com ele.
Ele piscou e a irmã não estava mais lá.
O cânion estava de volta. As paredes tornaram a ser de terra, a temperatura voltou a subir. Ele estava suando, as estalactites pendendo do teto como lanças de cristal.
Veio uma tontura. Suas costas bateram com um estrondo no chão. Não enxergava nada, a fumaça cobrindo seus olhos. Uma sucessão de imagens passou diante dele, tão vívidas que pareciam reais demais para não serem. Tão reais quanto Yukina, talvez mais.
Viu sua queda de Hyouga, as nuvens e montanhas e árvores passando depressa ao seu redor até atingir o chão. Viu o grupo de ladrões que o encontrou, viu as mortes que causou enquanto crescia — a maioria, apenas porque sim. Viu Kurama e Yusuke e Mukuro e Yomi e Toguro e Sensui e até Kuwabara — e muitos outros de que nem se lembrava. Quis mandar todos embora, para que ninguém o visse naquele estado.
E viu Rina. Sorrindo. Depois, com os olhos inchados. Depois, com as mãos esticadas, a energia fluindo como uma explosão prestes a acontecer.
Ouviu também mais vozes, misturadas e confusas. Alguns o chamavam, outros riam dele. Alguns o xingavam com escárnio, outros, com medo.
Teve outras conversas, a maioria bem mais confusas do que a que tivera com Yukina. Com Rui, com Koenma e até com Shigure. Por horas falou muito mais do que gostaria. Mandou todos calarem a boca, tentou levantar, tentou se manter no chão, tentou focar no braço.
Acabou ficando parado, a cabeça rodando, a respiração acelerada demais. A fumaça enchia seus pulmões com ainda mais velocidade, e ele tossiu, tentando se livrar do gosto de madeira na boca.
Não sabia quanto tempo havia passado ali dentro. Podiam ser minutos, mas bem podiam ser dias.
Quando enfim se ergueu, a tontura retornou, seguida de uma dor que se espalhou dos pés à cabeça, como se seu corpo estivesse sendo rasgado ao meio. Tudo queimava, por dentro e por fora. A boca secou, os olhos também.
Precisava sair dali.
(…)
Depois disso, o que Hiei se lembrava era de vomitar. Muito. Apenas bile e sangue, as entranhas fervendo, se torcendo, o corpo parecendo uma fornalha. Mais sangue escorreu pelo rosto e ele se deu conta de que vinha do Jagan, escancarado e ressequido em sua testa.
Se lembrava de ver as luzes finais do crepúsculo. Do gosto ruim na boca, de como o mundo girava.
E de acordar na esteira de palha, debaixo do teto de madeira.
(…)
Naquela mesma noite, Hiei fazia sua primeira refeição em dias. Estivera em jejum desde que começara o treino com Zennosuke, mas depois do ritual — que durara doze horas, conforme o xamã havia revelado — Zennosuke preparou uma pequena bandeja com grãos, legumes e proteínas leves. Hiei deveria estar faminto, mas, estranhamente, a comida não tinha gosto de nada.
Ele conseguiu levantar e ir até a janela, onde a lua cheia brilhava quase tanto quanto duas noites atrás. Quando Rina ainda estava lá, quando eles tinham–
O pensamento foi interrompido na hora. Rina não era mais problema dele. Ela tinha escolhido ir embora e ele precisava se preparar para a segunda etapa do treinamento. Aquilo sim era importante.
Não era exatamente uma escolha se ela estava morrendo, era?
A pergunta brotou em sua cabeça sem ser chamada, mas ele tentou ignorar. Se ela precisava ir independentemente de qualquer coisa, aquilo era mais um motivo para Hiei esquecer a questão. Não havia nada que ele pudesse fazer. Ainda mais depois de tudo o que ela dissera, de como tinha deixado claro que não o queria mais por perto, de como se arrependia de tê-lo conhecido.
O assunto estava encerrado.
(…)
— Alguém não dormiu bem essa noite — Gintaro observou, enquanto Rina esfregava os olhos na manhã seguinte.
Ele notara quão agitada ela tinha ficado durante a noite. Rina parecia tão cansada no dia anterior que Gintaro tinha certeza que a garota apagaria assim que deitasse. No entanto, o que viu foi exatamente o oposto.
Rina se virou e revirou dezenas de vezes. O acordou sem querer, murmurando frases desconexas e palavras que ele não entendeu — exceto uma. Rina tinha falado o nome de Hiei em mais de uma ocasião naquela madrugada, e o mercenário se perguntava se devia mencionar.
Quase fez isso.
— Impossível dormir bem nesse chão duro — Foi a resposta dela — Mas eu consigo continuar a viagem, se esse é o problema. Você não precisa se preocupar.
Gintaro sorriu. Gostava do jeito afiado dela. De como ela nunca aparentava se intimidar, ao mesmo tempo em que era cuidadosa com a escolha de palavras quando a situação exigia. Ainda que por dentro estivesse um caco — como estava agora, por mais que fingisse que não.
Havia aceitado o trabalho proposto por Haru exclusivamente pelo montante de dinheiro que ele havia prometido pagar. Ele já tinha ouvido as histórias sobre o antigo clã, mas aquilo nunca fora um problema no seu trato com o velho demônio. Para ele, Rina seria um trabalho como outro qualquer. E Gintaro estava acostumado com serviços onde precisava escoltar alguma caravana ou servir de segurança para algum chefe de Estado, algum comerciante poderoso ou para quem quer que seja. Levar uma jovem youkai inexperiente do ponto A ao ponto B seria mamão com açúcar.
Menos quando essa jovem era Rina.
— Eu me preocupo quando tem uma pequena fortuna no meu nome me esperando. E quando depende do bem-estar da senhorita para que essa fortuna venha parar no meu bolso.
— Uau, ok. Achei que fosse mais cavalheiro. Acabaram as cantadas?
Ele riu de novo, olhando para ela como quem avalia bem a pessoa na sua frente. E Gintaro gostava do que via.
— E eu achei que não gostasse das cantadas — Gintaro se aproximou, trazendo a mão dela até sua boca para depositar um beijo — Se decida, boneca.
Rina arrancou a mão de volta, acabando com o contato de maneira abrupta. Gintaro sabia o quanto seus maneirismos a irritavam, bem como sabia quão perigosa ela podia ser quando irritada. Ainda se lembrava perfeitamente de quando ela ameaçara explodir tudo, apenas para não ter que deixar aquele maldito espadachim para trás.
Por um lado, achava que não havia mais motivos concretos para que ela repetisse aquela loucura; por outro, via o quanto ela ainda estava vulnerável. E, pela sua experiência, pessoas vulneráveis podiam ser imprevisíveis — como quando ela apareceu esbaforida, de madrugada, querendo ir embora com ele sem maiores explicações enquanto ele jurava que Rina nunca mais daria as caras.
Que diacho. Engraçado como as malucas eram também sempre as mais interessantes.
— Vai, vira de costas — ela falou, o tom nada amigável — Preciso trocar essa blusa.
Gintaro ergueu uma sobrancelha. Estava prestes a perguntar se ela tinha certeza que queria que ele se virasse, mas mal teve tempo de abrir a boca; na mesma hora, Rina sacou a adaga da cintura e a brandiu em sua direção.
— Eu furo seu olho se você olhar!
A ameaça arrancou mais um sorriso sincero do mercenário, que levantou os braços em sinal de rendição e atendeu ao pedido.
— Fique tranquila, jamais desrespeitaria uma donzela.
— Agora sou uma donzela? Achei que fosse só um saco de dinheiro com seu nome em cima.
— Você é sempre tão zangada assim?
Dessa vez ela não respondeu. Gintaro esperou, de costas, até ela indicar que ele poderia se virar novamente. E quando fez, viu Rina enfiando a blusa com as mangas sujas de sangue bem no fundo da bolsa. Como se quisesse esquecer que ela existia.
Ele olhou rapidamente para os braços dela, mas continuavam cobertos, agora pelas mangas compridas da nova roupa que trocara. A lembrança do sangue que vira no dia anterior deixou um gosto ruim na sua boca. Ainda tinham um dia inteiro pela frente e a ideia de Rina estar ferida não o agradava nem um pouco. Não apenas por temer que isso os forçasse a passar mais dias na estrada, mais dias correndo o risco de serem atacados — lidar com o Reikai certamente não estava no contrato — mas também porque começava a se preocupar de verdade com ela.
Machucados simples se fechavam em pouco tempo. Se os dela continuavam abertos, aquilo cheirava a problema.
— E os braços? — ele perguntou — Vai precisar de curativos?
Rina suspirou, envolvendo o próprio corpo, disfarçando uma careta de dor ao tocar nas áreas feridas.
— Não acho que temos curativos suficientes.
— Rina–
— Eu estou bem. Só precisamos chegar logo até Haru. Ele vai saber o que fazer.
O mercenário achou melhor não comentar mais nada, mas as palavras dela saíram fracas, incompatíveis com a segurança que ela tentava demonstrar. E quando ela o apressou para que deixassem o acampamento logo e seguissem viagem, Gintaro apenas concordou. Mas manteve o olhar atento sobre a garota.
(…)
Já era a terceira vez que Zennosuke chamava sua atenção pela falta de foco.
Hiei apertou os dentes, quase soltando fogo pelas narinas. Nutria respeito pelo xamã, mas isto às vezes se transformava em antipatia quando ele o tratava como uma criança incapaz.
Depois de uma noite mal dormida — com sonhos tão confusos quanto as visões do ritual — os dois haviam iniciado a segunda etapa do treinamento na manhã seguinte, em que Hiei teoricamente deveria aprender como controlar o novo braço. Mas o membro não o obedecia do jeito certo, a mente de Hiei teimava em não se concentrar e Zennosuke respondia com reprimendas e os olhos apertados, aumentando o volume e a severidade da voz cada vez que precisava repetir um comando.
Hiei, que preferia ficar sem mestre do que se rebaixar, devolvia um olhar igualmente impaciente, beirando a indignação.
— O que está te distraindo? — o xamã perguntou.
— Não estou distraído.
— É por causa da menina?
— Eu não estou distraído.
Mas Zennosuke manteve os olhos apertados em cima dele, o rosto impassível.
Não era apenas a atitude do xamã que o irritava, mas isso Hiei não admitia. Irritante mesmo era a falta de domínio de Hiei sobre uma parte do seu corpo, era a maneira como sua energia também não o atendia como devia.
A ideia do exercício era simples: ele deveria compensar a falta de mobilidade com seu próprio youki, fazer a mão se mexer com ajuda da energia e segurar com cuidado as folhas de uma árvore sem as danificar. Algo tão básico, mas que Hiei vinha falhando de um jeito vergonhoso.
Como pensava que conseguiria empunhar a própria katana desse modo?
A exasperação era tanta que Hiei chegou a considerar pedir para darem uma pausa, mas descartou a ideia quase com raiva. Apenas fracos precisam de pausas. O que ele precisava era continuar tentando.
E afastar da cabeça todas as memórias inconvenientes dos dias anteriores.
(…)
— Você já fez trabalhos pra ele antes? — Rina perguntou algumas horas depois.
— Quem, Haru? Um ou outro.
Os olhos dela brilharam de curiosidade. Ela se virou para ele.
— Sério? Como ele é?
— Como cliente? Objetivo, um pouco exigente. Mas paga bem.
— Não, como pessoa.
Gintaro devolveu o olhar. Estavam caminhando há um bom tempo, e, assim como no dia anterior, ela havia fraquejado algumas vezes, tropeçado outras. E, assim como no dia anterior, não quis parar em momento algum.
— Vai conhecer ele amanhã, vai poder tirar as próprias conclusões — ele comentou.
— Só queria saber o que esperar.
— Não se preocupe tanto. Ele tem adoração por você.
A resposta fez Rina parar por um segundo. Gintaro parou também, a encarou com uma expressão interrogativa.
— Ele nem me conhece.
Voltaram a caminhar, Rina agora com a cabeça mais baixa, como se olhar para o chão a fizesse pensar melhor.
— Ele adora a ideia de você existir. Não teria me contratado se não estivesse tão preocupado que chegasse até ele sã e salva — o mercenário explicou. E diante do silêncio dela, acrescentou — Ele sabe que estava sendo procurada, ele viu o cartaz com a recompensa. Nunca vi o velho tão fora de si.
— Você não se importa de fazer negócios com um Yuuma?
— Por que deveria?
— Porque desde que eu pisei no Makai, tudo que eu escuto é que somos uma raça maldita. Que todo mundo nos odeia. Parece que o mundo seria um lugar melhor se a gente não existisse.
Dessa vez, Gintaro riu. Não apenas um sorriso de lado ou uma risada discreta, mas uma gargalhada ampla e verdadeira, que fez Rina girar a cabeça em sua direção por reflexo, piscando como se não tivesse entendido a piada.
— Docinho, a maioria dessas pessoas sequer conheceu um de vocês pessoalmente. Nem devem saber de onde vêm essas histórias ou por que têm tanta raiva.
— Não entendi, você acha que as histórias são mentira então? Que é exagero?
— O que eu quero dizer é que os Yuuma sumiram por séculos, milênios, sei lá. E você acha que o Makai foi um lugar melhor durante esse tempo? Matar você não ia mudar nada. As pessoas só querem alguém pra culpar.
Rina olhou demoradamente para ele, que respondeu com sua expressão galante de sempre, uma piscada de olho para acompanhar.
Depois, voltou a encarar o chão. E ficou em silêncio por um tempo. Por um bom tempo.
(…)
A pausa que Hiei secretamente precisava (mas era orgulhoso demais para pedir) acabou por vir no começo da tarde, quando Zennosuke se ausentou para preparar um almoço leve.
Hiei se serviu, mas comeu longe das vistas do xamã. Engoliu a comida sem vontade, olhando para o rio, resmungando mentalmente por conta da falta de progresso.
Sua atenção acabou indo, sem querer, até as casas de palafita mais adiante. Até a que estava usando para dormir. A escada de cordas permanecia imóvel, o alpendre frontal, vazio. Ele não havia se dado conta de quão espaçosa a choupana era por dentro. Nunca havia reparado antes, não até dormir e acordar sozinho.
Ele não precisava de tanto espaço. Talvez devesse se mudar. Dormir ao relento, no topo de alguma árvore, no vão detrás de alguma pedra. Conforto nunca fora uma prioridade para ele, e só havia aceitado ficar em uma das casas pois sabia que Rina estava cansada de passar a noite ao ar livre, que apreciaria ter um teto e quatro paredes.
Mas não havia mais Rina, então que diferença fazia?
Hiei mudou de posição, incomodado. Olhou para o novo braço, escuro como piche. Conseguiria um dia usar para manipular as Chamas? Para invocar o Dragão? Ele achava que sim. E que o Dragão ficaria ainda melhor, quando conseguisse. Ficaria ainda mais–
Incrível, tinha sido a palavra que ela usara.
Os lábios quase se curvaram em um sorriso, mas ele endireitou a boca. Não iria perder seu tempo pensando em Rina.
Se fosse para pensar em alguém, que fosse em Yukina. Nas visões que tivera durante o ritual e no que ela havia lhe falado. Ou que ele imaginou que ela tinha falado. Afinal, nunca tinham discutido o parentesco antes. Era desnecessário. Ela não precisava saber isso, não precisava amargar o fato de ter um irmão como ele.
E Hiei sabia que aquela não era Yukina de verdade e que, portanto, aquelas falas não tinham vindo dela. Nada daquilo era real. Eram apenas ruídos criados por sua imaginação. Pela queima de ervas do xamã. Mais nada. Talvez não devesse dar tanta importância a isso também. Não era como se fosse mudar alguma–
"Tem medo que eu vá te rejeitar, não é? É por isso que me afastou. É por isso que afastou ela também."
Bobagem. Ele não havia afastado ninguém. Nem Yukina, nem Rina. Apenas preferia viver a vida dele, sem aporrinhações. Passara tempo demais com Rina e tudo que conseguiu foi dor de cabeça em cima de dor de cabeça. Foi uma série de brigas inúteis sem fim, de preocupações que ele não precisava ter. E quando agiu para protegê-la, o que recebeu em retorno foram acusações infundadas.
Qual o problema de ter omitido a informação sobre o Reikai? Afinal, ela também havia escondido coisas. Também optou por não compartilhar seus problemas. Se Rina preferia tanto assim lidar sozinha com suas questões pessoais, que lidasse sozinha com as consequências. Era adulta, não precisava dele.
"E quanto a nós?"
"Nós"? Lembrar daquela pergunta cretina deixou seu maxilar tão rígido que chegou a machucar. Como se algum dia tivessem sido algo além de parceiros temporários. Como se os dois não soubessem que essa parceria chegaria ao fim em algum momento. Como se fosse possível manter uma aliança por muito tempo com alguém tão difícil quanto Rina. Tão rebelde. Tão obstinada, tão–
Hiei crispou os lábios. Por que mesmo distante, Rina não o deixava em paz?
Ela já havia partido há um dia e meio atrás, já devia estar bem longe a essa altura. Tão longe que ele talvez nunca mais a encontrasse.
Tentou usar o Jagan, apenas por curiosidade. Apenas para ver quão longe Rina tinha conseguido ir. Não que fizesse diferença.
Mas seu olho demoníaco não respondeu tão bem como ele esperava. Estava desgastado demais, mostrou somente imagens borradas que ele mal conseguia distinguir. Zennosuke tinha avisado, o estresse tinha sido grande, ele precisaria de mais–
Tempo.
Hiei fez as contas, também por curiosidade. Aquele era o décimo dia desde que se encontrara com Kurama. Era o último dia do prazo do Mundo Espiritual. Os desgraçados haviam mesmo cumprido o combinado, o que era surpreendente — deles, Hiei sempre esperava o pior. E ao menos não era mais ele que precisava se aborrecer com isso. Kurama estava certo, Hiei não precisava desse tipo de complicação na sua vida. Já tinha sido alvo de Koenma uma vez e tinha sido suficiente. Agora Rina que se vire–
Algo dentro dele se agitou.
"Rina é perigosa demais para ficar presa."
Até que o chamado de Zennosuke o trouxe de volta à realidade. Era hora de retomar os exercícios. Hiei virou-se para ele e se pôs de pé, mas ficou incapaz de sair do lugar, preso em uma indecisão repentina.
Como ela iria se virar? Estava sozinha. Doente. Morrendo. Com aquele mercenário inútil como única proteção — e agora, com o Reikai à espreita.
As mãos se fecharam — as duas, dessa vez. O xamã chamou de novo. Devia treinar. Devia ir atrás dela. Devia ficar e aprimorar os movimentos. Devia–
Diabos! Para o inferno com a indecisão. Zennosuke podia chamá-lo o quanto quisesse, mas o treinamento teria que ficar para outro dia. Havia algo mais importante, e que ele precisava resolver já. Ou seria tarde demais.
Rina o pagava por isso.
Isso é, se ela sobrevivesse.
Merda!
E de repente Hiei não sabia quem era o mais estúpido naquela história: se Rina, por ter ido embora daquele jeito; ou ele, por tê-la deixado ir.
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