Visceral
30 Desconforto
Rina não sabia o que estava esperando encontrar quando Gintaro avisou que tinham chegado — mas certamente não era aquilo.
O chão ali era de terra vermelha, tão seca e esfarelenta quanto o deserto. Ao redor, milhares de chaminés de fadas de todos os tipos e tamanhos, retorcidos de um jeito que pareciam moldados à mão. E, diante deles, havia uma pilha de rochas alaranjadas, pedregulhos enormes amontoados sem critério, como se fossem o resultado de um deslizamento. O monte ocupava uma área enorme e era tão alto que se erguia até o céu.
— Como assim "chegamos"? — ela perguntou. Não havia nada nem ninguém ao redor, apenas a extensão tortuosa do cânion. E o deslizamento.
Gintaro se aproximou da pilha de pedras. Elas pareciam pesar toneladas, grandes demais para serem movidas.
— Aqui — o mercenário indicou.
Rina o seguiu. Uma pequena abertura estava escondida atrás das rochas caídas, estreita demais, baixa demais. Se ele não indicasse, passaria apenas como uma sombra entre os escombros. Só de olhar, ela sabia que aquilo não parecia feito para que ninguém entrasse por ali. Gintaro precisou se virar de lado e abaixar a cabeça para passar, mas até para Rina a passagem era apertada.
— O que é esse lugar?
O lado de dentro estava quase em completa escuridão. A pouca luz que entrava pela fresta era tão escassa que iluminava apenas uma porção curta do interior.
— Você vai ver — ele respondeu, seguindo na frente com a confiança de quem já estava familiarizado com a disposição daquele espaço.
Rina o seguiu, os passos ecoando, os olhos lentamente se acostumando ao novo ambiente. Mais feixes de luz entravam por arestas aqui e ali, ajudando, ainda que minimamente, na iluminação. Aos poucos, tudo foi tomando cor e forma.
A primeira coisa que notou foi a energia que preenchia o lugar. Era intensa e suave ao mesmo tempo, inédita e familiar.
O longo corredor tinha colunas de sustentação em ambos os lados, decoradas com motivos que ela não reconheceu. A maioria estava rachada e fosca, cobertas do pó deixado pelas quebras sofridas ao longo do tempo — e pelo estado, Rina podia ver que tinha sido um bom tempo.
O ar ali dentro, inclusive, era tão antigo quanto aquelas ruínas. Tinha gosto e peso, rançoso, quase sólido nos pulmões. Era como se aquela fortaleza tivesse sido escondida pelo deslizamento de terra, mas esquecido de desmoronar de vez e, por isso, retinha a aparência decadente de algo que se recusa a morrer por completo.
Até a energia parecia antiga — mas surpreendentemente refrescante. Rina a sentia na pele, macia e reconfortante como uma peça de roupa velha confortável demais para ser jogada fora. Ela aumentava minuto a minuto, como se reagindo à presença de Rina, que podia sentir seu corpo respondendo, seu youki se agitando por conta própria, querendo pertencer àquelas ruínas. Ela entendeu prontamente a quem pertencia aquele lugar.
Quando olhou para cima, viu, pelos feixes de luz, uma abóbada igualmente arquitetada para impressionar — o que, em seu auge, realmente devia ter conseguido. Hoje era apenas um retrato daquele clã: velho, esquecido, delapidado. Partes haviam cedido e, nas que restavam, uma pintura estava descascando, tão estragada que Rina não conseguiu decifrar do que se tratava.
Rina continuou seguindo Gintaro por uma galeria de corredores e salas soterradas. Até que chegaram a um pórtico, onde apenas um dos lados da porta dupla ainda estava de pé, bloqueando parcialmente o caminho. Gintaro parou e olhou para ela. Depois, fez um gesto exageradamente solene, indicando que fosse na frente.
— Primeiro as damas — ele falou.
Ela inspirou fundo. E entrou.
(…)
Hiei não pôde se dar ao luxo de descansar durante a noite. Desde que deixara o espaço de Zennosuke, passou as horas seguintes — com e sem sol — tentando cobrir o máximo de terreno possível para compensar o tempo perdido.
As poucas paradas que fez no caminho foram estratégicas: procurar algo para comer; afiar a lâmina da katana; verificar o novo braço e praticar alguns exercícios básicos que o xamã havia sugerido. Ele já até conseguia segurar o cabo da espada com relativa firmeza — e sem tanta dor. Sua expectativa agora era fazer com que o novo membro repetisse os gestos que seu cérebro mandava, isso sim se mostrando ser um desafio. Mas ele seguia treinando.
Zennosuke não ficara contente com a decisão de Hiei, mas também não tentara fazê-lo mudar de ideia. Era um desperdício abandonar o treino tão prematuramente, ele tinha dito. Mas àquela altura, já sabia que Hiei dificilmente desistia quando colocava outro objetivo na cabeça. Restou ao xamã apenas oferecer algumas recomendações de cuidado e ensinar exercícios que ele poderia realizar sozinho.
E Hiei partira, confiando na memória e nos seus instintos para navegar pelo resto do cânion até o local onde Haru deveria se encontrar.
A boa notícia era que não tinha visto nenhum sinal do Esquadrão Especial até agora, nem mesmo um rastro que fosse da energia espiritual típica dos agentes.
A má era que também não havia nada de Rina. Ele reconheceria a assinatura energética dela em qualquer lugar, mas seus sentidos não captavam nada. Absolutamente nada. Era como se Rina nunca sequer tivesse passado por ali.
Por um breve momento, instalou-se nele um medo irracional de que estivesse no caminho errado. Ou que Rina tivesse seguido para outra direção por algum motivo qualquer.
Ou, a pior hipótese: que ele de fato já estivesse tarde demais. Que a energia de Rina simplesmente não existisse mais porque ela não existia mais.
Ele vinha evitando usar muito o Jagan para que não consumisse mais do seu youki — já que não estava dando ao corpo o descanso físico de que precisava, que ao menos poupasse seu gasto energético. Ele sabia que iria precisar mais tarde. Mas abriu uma exceção. Vasculhou os arredores com sua visão remota por alguns segundos, atento a qualquer indício de movimento, qualquer coisa fora do normal.
Nada, mais uma vez. Apenas um silêncio que chegava a ser perturbador.
Seu medo, atípico, só se aplacou quando Hiei se convenceu de que nenhuma das explicações que havia pressuposto era a correta. Que ausência da energia de Rina só poderia significar que ela voltou a suprimir seu youki — como fazia no princípio. Provavelmente estava tentando apagar qualquer indício de sua passagem por ali, dificultando o rastreio do Reikai.
Hiei se apegou à ideia pois era a única alternativa possível que ele aceitaria. Afinal, Rina era inteligente o bastante para tomar esse tipo de precaução. E ele nunca conhecera alguém que conseguia mascarar sua energia de maneira tão precisa quanto ela.
Então foi disso que se convenceu. E recusou qualquer outra opção. Simplesmente porque ele não sabia o que faria se estivesse errado.
(…)
Atrás da porta dupla quebrada, Rina encontrou um quarto amplo, escuro, com o mesmo ar parado dos corredores. A energia lá era ainda mais forte, e ela a reconheceu imediatamente, mesmo sendo a primeira vez que a sentia.
Rina deu alguns passos, tentando ver na escuridão. Logo viu uma cama de dossel no meio do salão, solitária. Todo o resto do ambiente estava vazio, despido de qualquer outro móvel ou decoração, apenas com as paredes descascadas e comidas pelo tempo — e todo aquele vazio deixava o quarto ainda maior, a cama ainda mais isolada.
— Rina…?
A voz era frágil, mas, por baixo, ainda carregava certos traços de nobreza. Anos atrás, devia ser uma voz imponente. Aquilo a deixou reticente por um segundo ou dois, mas enfim ela se aproximou.
As cortinas que emolduravam a cama estavam abertas, e Rina o viu ali, sentado debaixo de camadas de mantas, as costas curvadas encostadas na cabeceira, o rosto macilento mesmo sob a penumbra. Não precisava de apresentações. Ela sabia exatamente quem ele era. O youki que sentia vindo dele era exatamente igual ao seu, a mesma essência. Era apenas muito mais intenso.
Haru estendeu uma das mãos para ela. Sorria de um jeito plácido como se aquele fosse o único momento que importasse.
Rina sentiu um nó na garganta, sem saber como se comportar. Odiava quão familiar era aquele demônio, quão reconfortante era sua aura. Ele era o motivo de tudo o que tinha acontecido com ela: da vida escondida que precisou levar entre humanos, do ódio que tinha angariado por todos os cantos do Makai, daquela doença terminal maldita.
Mas ela precisava dele. E naquela cama, naquele estado, ele parecia tão… inofensivo.
A mão de Haru ainda aguardava, esticada em sua direção. Rina olhou para ela, incerta, talvez por mais tempo do que devia. Mas acabou esticando a mão também e deixando que ele a segurasse.
— Não sabe o quanto esperei por isso — Haru falou.
O bolo na garganta de Rina pareceu se expandir. Haru não parecia tão odiosa quanto ela achou que seria, mas ela já não sabia se era apenas porque tivera a ideia errada desde o começo — ou se finalmente se aceitava plenamente como uma Yuuma. Como parte da família.
— Pode nos deixar a sós por um momento? — ele pediu, se dirigindo ao mercenário, que ainda estava de pé um pouco atrás de Rina.
— Me pagando o combinado, deixo vocês sozinhos na mesma hora.
— Por favor, Gintaro, logo acertamos o pagamento. Preciso apenas conversar com minha herdeira a sós. Você sabe que sempre cumpro minha palavra…
Rina olhou por cima do ombro, concordando com o pedido. Gintaro pareceu titubear, mas acabou por fazer um aceno curto e, dizendo que estava às ordens, voltou por onde tinha vindo.
Os dois esperaram que o mercenário passasse para o corredor e que os passos continuassem até sumir.
— Por que está suprimindo sua energia? Deixe-me sentir seu youki — Haru pediu.
— O Reikai está patrulhando a área, procurando por mim. Não queria que eles me encontrassem.
Haru entortou a boca.
— Aqueles infelizes… O Reikai sempre nos temeu. E temem você também. Sabem que em alguns anos nenhum deles vai sequer conseguir chegar perto, por isso atacam enquanto ainda é jovem.
Rina não disse nada em resposta. Em alguns anos, talvez ela nem mesmo existisse mais.
— Eu preciso perguntar uma coisa — ela pediu.
Se ajoelhou, chegando mais perto da cama. Soltou a mão de Haru, inspirou fundo e, assim como tinha feito com Hiei, esticou o braço e arrastou a manga para cima. Dessa vez, mesmo o roçar do tecido foi suficiente para provocar uma rajada de dor por dentro da pele. Rina suprimiu um ganido que ameaçou escapar e exibiu para Haru o braço já sendo tomado pelos buracos que haviam se aberto.
O horror se manifestou na expressão do youkai na mesma hora, mas não com surpresa. Com raiva. Como se reconhecendo um velho inimigo.
Ele então segurou o braço de Rina com delicadeza, tendo o cuidado de não encostar nas feridas.
— Por favor, me diga que existe algum jeito de acabar com isso.
Haru ergueu os olhos para ela ao ouvir aquela súplica. Por um instante, Rina viu nele a dureza que ele certamente devia ter carregado no passado. Já não parecia mais tanto o velhinho solitário de antes.
— Sinto muito — ele disse, seco. E soltou o braço dela.
Rina ficou petrificada, encarando-o confusa. Pensou não ter entendido. Quando voltou a falar, quase tropeçou nas palavras.
— Como assim sente muito? Não tem cura? Não tem nada? Eu vou morrer então, é isso?
O demônio soltou um suspiro. Para Rina, soou impaciente. Ou resignado, ela não soube dizer.
— Não, não existe cura — Outro suspiro. Ele fechou os olhos brevemente, depois os abriu — Não sei por que nutri a fútil esperança de que você escaparia disso.
O silêncio caiu entre eles, Rina sem saber o que fazer: se gritava com aquele velho, se ia embora ou se simplesmente se conformava. Pelo visto, não tinha sido apenas ele a nutrir esperanças fúteis.
— Você não precisa morrer, Rina — ele falou — Ao menos não agora. Me perdoe se não fui claro. Essa doença sempre foi nosso maior adversário, é um desgosto vê-la em estado tão avançado em alguém tão jovem. Nunca encontramos uma solução definitiva. Mas há alternativas.
— Alternativas?
A confusão continuou nos olhos de Rina. Haru pediu para ver seu braço de novo e ela o estendeu novamente. Mais uma vez, ele segurou com cuidado e se voltou para as feridas como se avaliando a situação. Os lábios dele estavam comprimidos, a testa enrugada de irritação, como se a culpa fosse dela por ter trazido aquele assunto indigesto.
— Que alternativas? — ela insistiu.
Um novo suspiro. Haru parou de prescrutar os machucados abertos e tateou pela cama até encontrar um pequeno punhal, com uma lâmina fina e comprida, de um metal fosco e empunhadura encrustada de joias.
— Há um meio de… controlar. Infelizmente descobrimos tarde demais. Depois que a maioria dos nossos guerreiros havia sucumbido — Haru olhou nos olhos de Rina — Receio que você seja nova demais para suportar, mas suponho que não há outra alternativa.
— Controlar? Controlar como?
— Restabelecendo o equilíbrio energético. Não cura, mas acelera a cicatrização. As chagas somem por um tempo, mas vão continuar voltando. Quanto mais desenvolvido o youki, melhor o resultado.
— Eu posso aprender! Tenho treinado, eu fortaleci minha energia! Sei que posso aguentar.
Pela primeira vez, Haru soltou uma risada. Curta e irônica, mas também amigável.
— Não esperava mesmo outra coisa de você, menina...
— Então me ensine.
— Certo.
Com uma mão, segurou o braço de Rina estendido. Deixou a parte interna à mostra. Com a outra, aproximou o punhal da sua pele.
— Existe uma técnica antiga da medicina youkai chamada de Cristalização. Não imagino que tenha ouvido falar.
Ela negou, balançando a cabeça. Se deu conta de que sua boca estava tão seca que chegava a doer. Umedeceu os lábios, tentou engolir.
— Claro que não. Ela não é mais amplamente praticada, foi banida há milênios. Os mais fracos não aguentam e os mais fortes… os mais fortes nem sempre estão dispostos a pagar o preço. Mas Yuumas foram feitos para isso, para aguentar o que for preciso. Uma coisa que você precisa aprender, minha jovem, é que ninguém sobrevive sendo gentil consigo mesmo.
Rina não soube o que responder, então preferiu ficar calada. Podia ouvir seus batimentos dentro do crânio. Umedeceu os lábios de novo. E Haru continuou:
— O princípio é simples: nosso youki não foi feito para ficar estático. Ele precisa fluir o tempo todo. Se você tenta impedir esse fluxo, ele reage. Cristaliza. E não estou falando de suprimir. Ou selar. Estou falando de forçá-lo a parar por completo.
A ponta do punhal tocou de leve na dobra interna do cotovelo de Rina, o metal quase tão frio quanto ela naquele momento.
— É como tentar impedir um rio de correr: só força de vontade não basta. O corpo precisa entender que não tem escolha. Dor ajuda. Urgência também.
— Dor?
Rina olhou para o punhal rente a sua pele, posicionada exatamente em cima da veia.
— O corpo precisa estar à beira do choque, o que não é fácil. Mas há meios.
E, sem esperar resposta, Haru forçou a ponta afiada até que ela rompesse o vaso. Rina arregalou os olhos ao ver o sangue correndo rápido, escuro, em uma linha contínua de dentro dela. Sua primeira reação foi puxar o braço de volta — o que ela não conseguiu. Haru o mantinha preso com firmeza em sua mão. A segunda foi gritar.
— Agora force seu youki a estagnar — ele orientou, com uma calma que, a ela, parecia surreal.
Rina já tinha esquecido toda a explicação que ele havia dado antes. Sua respiração ficou rápida, o braço ardendo onde o corte havia sido feito — e onde o punhal ainda permanecia, mantendo tudo aberto, como se impedindo o corpo de se regenerar, forçando o sangue a continuar fugindo do corpo.
Seus dedos se moveram sem comando, sua visão se estreitando nas bordas. O líquido vermelho ensopava seu braço.
— Não consigo!
— Você consegue!
Ela sentiu lágrimas surgindo nos cantos dos olhos, escorrendo pelo rosto. Sentiu a dor concentrada no braço. Sentiu que o coração martelava tão rápido que estava prestes a falhar.
Não havia concentração. Ela não conseguia comandar sua energia, sequer sua intenção, de maneira alguma. A mão de Haru a apertava com força agora, já molhada pelo sangue de Rina, e ela sentia que iria desmaiar a qualquer momento.
— Faça, Rina! É o único jeito!
Ela gritou mais um pouco. Não tinha a menor ideia do que devia fazer. A ideia parecia insana. Como alguém impedia um rio de correr?
— Rina!
Com o braço livre, ela esfregou os olhos. Depois, mordeu a mão, reprimindo seus berros e agarrando-se à consciência.
Respirou o mais fundo que conseguiu — o que, naquele estado, não foi muito.
E, de algum jeito, fosse por desespero ou puro instinto, Rina se viu forçando seu youki a obedecer. Difícil no começo. Quase impossível. Mas quanto mais o corpo tremia diante do choque iminente, mais ela investia contra a própria energia, segurando-a no lugar. O grito, abafado pela mão entre os dentes, ficou mais alto ainda.
E algo aconteceu. O fluxo sanguíneo diminuiu, afinando até estancar. O ardor no braço se transmutou, o corte afiado virando uma queimação surda e pesada como se algo estivesse se formando ali dentro. Como se ela estivesse se cristalizando por dentro.
— Agora mantenha a pressão — Haru exigiu.
Ela não respondeu — não conseguiria. Mesmo com a boca mordendo o punho, Rina arfava, focada apenas na sensação que subitamente tomou conta, muito mais intensa agora. Não ousou pensar em nada, nem mesmo desviar o rosto, mexer qualquer músculo. O tempo passava devagar, escorrendo lentamente. Aos poucos, deixou de sentir o corpo. Não existia mais nada, apenas o ponto onde sua energia se aglutinava.
— Está bom — ele falou, depois de um tempo que Rina não soube medir.
Rina se deixou soltar por completo. Teria caído se Haru ainda não estivesse segurando firme seu braço.
— Excelente — Haru comentou em voz baixa, olhando com satisfação para a dobra do cotovelo dela.
O punhal saiu de dentro do corte aberto, mas se manteve perto. O braço de Rina endurecia ao redor do machucado.
— Se não remover as placas cristalinas imediatamente, não vai ser a doença que vai tirar sua vida.
Ela concordou apenas por reflexo. Estava lívida.
Com um cuidado metódico, Haru passou o dorso da lâmina rente à pele — um gesto mais de raspar do que de cortar. Ela percebeu o contato do metal, mas a mente estava lenta demais para processar qualquer coisa além do peso quente se espalhando pelo antebraço.
Aos poucos, pequenas lascas de youki, do seu youki solidificado, afloraram na superfície e se desprenderam como uma poeira brilhante, voando até o chão.
— Pode arrancar as placas inteiras, se quiser… ou apenas raspar. Eu prefiro a segunda opção.
E mais uma vez, ela apenas concordou.
(…)
As lágrimas já haviam secado, mas o suor ainda escorria das têmporas de Rina enquanto ela se recuperava do que acabara de fazer. Estava sentada no chão, costas escoradas na cama, o braço latejando ao seu lado enquanto a respiração normalizava com dificuldade.
— As primeiras vezes são sempre as piores — Haru falou — Logo se acostuma.
Rina mexeu a cabeça devagar. Passou a língua pelos lábios ressecados pela décima vez, se forçou a engolir a saliva como se o corpo estivesse esquecido de funcionar.
— Podia ter me avisado — ela reclamou, a voz custando a sair — Antes de ter enfiado essa merda de punhal em mim.
— Avisar não tiraria a dor. Ninguém cresce no conforto, Rina.
A resposta a irritou, mas ela não retrucou. Pois na mesma hora olhou para o braço, para o hematoma que se criou onde Haru havia a aberto momentos atrás — e suas costas se endireitaram na mesma hora, a exaustão temporariamente deixando seu corpo.
As úlceras abertas na pele já não sangravam mais como antes. Diante dos seus olhos, cada ferida ia se reconstruindo — não totalmente, não com rapidez, mas o suficiente para fazer Rina acreditar.
— Quanto tempo pra fechar tudo? — ela perguntou, incrédula.
— No seu estado, horas.
Rina olhou para cada parte afetada, puxando a barra da calça, subindo a manga do outro braço. Eram muitas ainda. E horas era tempo demais.
Ela então se virou para ele. Se colocou de joelhos diante da cama e esticou o outro braço, com a face interna do cotovelo à mostra.
— Faça de novo — pediu.
Uma sobrancelha se ergueu no rosto dele.
— Tão cedo? Tem certeza?
— Tenho.
Ele riu.
— Você não foge da dor. Gosto disso. Mas essa ousadia costuma ter um preço.
— Faço eu mesma se não me ajudar. Vou ter que aprender a fazer sozinha, não vou? — Rina falou, alcançando o punhal que repousava por cima das cobertas na cama e o apontando para sua veia.
Haru franziu o cenho. Os olhos estreitos caíram sobre ela com um ar de reprovação, e ele tomou o punhal de suas mãos como se tirando das mãos de uma criança que não sabe o que faz. Mas não o afastou, deixando a ponta fina tocar de leve a pele dela.
— Certo — disse contrafeito — Como quiser.
Seu estômago borbulhou de ansiedade, mas Rina olhou para ele de um jeito decidido mesmo assim. Sentiu o metal a perfurando, o sangue fugindo como se tivesse pressa.
E ela gritou novamente.
(…)
A segunda vez tinha sido tão ruim quanto a primeira. Talvez mais.
Os pulmões de Rina queimavam, o coração trabalhando dobrado. Sua mente reagia com um horror profundo, fazendo-a prometer que jamais repetiria aquilo de novo. Mas quando ela via cada ferida aberta encolhendo, cada pedaço voltando apenas a ser uma nódoa em vez de uma fissura, ela prontamente esquecia a promessa.
— Já é o suficiente — Haru falou, ríspido.
Ela ignorou o aviso, esperando os ecos da dor irem embora.
O corpo foi ficando gradualmente mais leve. Talvez fosse por não estar mais com o peso da doença a marcando de forma tão intensa, ou talvez fosse mesmo o equilíbrio energético a fazendo se sentir renovada.
Tinha sido semelhante com Shigure. Não sabia exatamente o que ele havia feito com ela — estivera anestesiada durante todo o tempo — mas o cirurgião havia mencionado algo parecido, sobre como havia estabilizado seu youki. Mas, ainda assim, naquela ocasião, não sentira a mesma leveza que sentia agora. Era como se dessa vez houvesse alguma coisa diferente, alguma coisa que a alimentava em vez de só a tratar.
Ela olhou ao redor, absorvendo a energia. Parecia pulsar ainda mais, envolvendo cada centímetro do quarto, envolvendo cada centímetro dela.
— Não é só a Cristalização me ajudando, não é? — perguntou, voltando os olhos para ele.
Um sorriso mordaz surgiu no seu rosto.
— Consegue sentir? — E deu uma risada breve — Costumávamos usar nossa aura para fortificar nossas construções. Só isso já bastava para intimidar invasores. Há resquícios dela até hoje nessas paredes...
Rina assentiu, pensativa.
— Então é por isso que escolheu ficar aqui? — ela perguntou — Você está morrendo também, não é?
O quarto ficou em silêncio. O rosto de Haru se fechou em uma expressão séria, pesada. Ficou assim por algum tempo.
— Eu falei que não havia como se livrar da doença — ele falou, por fim, com o tom zangado de quem tem que admitir uma falha terrível — A Cristalização ajuda, mas há um limite de quantas vezes o corpo aguenta o processo.
Novamente os dois se calaram. Rina apenas aceitou, quieta, o fato de que aquilo faria parte da sua vida para sempre. Não apenas a doença, mas também o tratamento, a dor. Estranhamente, encarou isso com uma paz que não esperava que fosse sentir. Veio ao Makai esperando encontrar resposta e as havia encontrado. Não eram as mais agradáveis, ou as mais otimistas, mas eram respostas, e isso bastava.
Ter sangue youkai sempre foi um desgosto para Rina, mesmo até quando ela sequer sabia que era uma. Mas agora, que ela tinha ainda mais razões para odiar aqueles genes, não conseguia fazer isso. O problema não era mais quem ela era, nunca tinha sido.
— Eu só aceitei vir ao Makai porque queria te matar — Rina falou de repente.
— A mim?
Ela confirmou.
— Por quê?
Rina se ajeitou no chão. Estava ainda sentada contra a cama, sem encarar Haru, massageando distraidamente o hematoma por baixo do sangue ainda úmido na dobra do cotovelo.
— Por que foi sua culpa eu ter nascido youkai. E eu só queria ser normal. Só queria ser humana.
— Humana? — E ele fez um ruído de escárnio — Por favor… humanos são frágeis. Humanos quebram à toa.
Ela ficou em silêncio, o corpo apoiado na cama, ainda cansada.
— Nós somos muito melhores que humanos, Rina.
Dessa vez, ela riu. Devolveu o escárnio na mesma medida.
— Melhores?
Ela balançou a cabeça lentamente. Se lembrou da comunidade ribeirinha por onde tinham passado, da hospitalidade de Kangetsu. Mas também dos assassinos a sua procura, dos experimentos que tinha sofrido. E dos humanos, que podiam ser tão gentis quanto sanguinários.
— Somos mais fortes. Não melhores. Só diferentes.
— Não seja ridícula, Rina.
Dessa vez, ela não fez questão de retrucar. Os dois ficaram em silêncio. Rina abaixou os olhos. Passou o polegar pelo hematoma mais deliberadamente agora, sentindo uma pequena pressão debaixo da pele.
— E por acaso ainda quer? — ele perguntou depois de um tempo — Me matar?
A resposta veio apenas alguns momentos depois.
— Não… não mais — Rina disse — Matar você não vai mudar nada no fim das contas.
Ela olhou para os braços, onde o sangue começava a secar.
"Ninguém cresce no conforto."
Hiei teria concordado na mesma hora.
A imagem dele surgiu em sua mente no mesmo instante. Rina quase teve um espasmo.
De repente, queria contar a ele que tinha dado um jeito no fim das contas, que ela ia sobreviver, ao menos por algum tempo. Anos, séculos, talvez. E que não odiava mais ser uma youkai como antes.
Queria dizer que ele tinha razão, que ela podia se aceitar, que não precisava fugir de quem era para ser quem queria ser. E que a opinião dele importava, mesmo ela tendo dito que não.
Rina desviou sua vista dos próprios machucados, voltando-se para a imensidão daquele quarto vazio. Por algum motivo, a ausência de Hiei ficou ainda mais marcada, ainda mais absoluta.
Isso a causou um engasgo na garganta que a fez apertar os olhos. Um embrulho no estômago, subindo pelo tórax e comprimindo tudo pelo caminho, a deixando sem ar. O engasgo se transformou em um bolo, tão sufocante que ela não teve outra opção senão deixá-lo escapar na forma de um choro, baixo, mas angustiante, que ela tentou conter — mas não conseguiu.
Tudo voltou ao mesmo tempo, imagens sobrepostas e sufocantes. O rosto dos seus pais, o rombo no peito de Hiei, o laboratório frio de Mukuro. A dificuldade que tinha sido crescer sem entender quem era, e a igual dificuldade que tinha sido descobrir. Os sentimentos conflitantes que tentou enterrar ressurgiram um a um: o remorso e o orgulho e a culpa e a raiva e o medo.
Por um tempo, Haru não disse mais nada. Rina não sabia se era por cautela ou desprezo, mas, de qualquer forma, ela apreciou o silêncio. Secou as lágrimas, mas outras surgiram logo em seguida. A dor residual no braço entrou em segundo plano como se agora fosse algo muito distante, muito menor do que comprimia seu peito.
Até que sentiu a mão de Haru em seu ombro.
— Rina… você sabe por que a trouxe para cá, não sabe?
Ela continuou onde estava. Secou mais as lágrimas com pressa, procurando se recompor. Tentou fazer sua voz mais estável.
— Por quê?
— Como já pode imaginar, não me resta muito tempo; preciso passar a você tudo que sei para que possa continuar o legado da nossa família.
Silêncio.
— Minha família está morta — ela respondeu baixinho, uma irritação cortante por baixo.
A mão dele apertou mais o seu ombro, as unhas querendo cravar sua pele.
— Me refiro a sua família de verdade. Precisa conhecer nossa história. Nossas conquistas. O que fomos — Haru fez uma pausa, em que Rina permaneceu calada — É você quem vai ser responsável pela ascensão dos Yuuma novamente.
— Eu não quero esse tipo de responsabilidade. Nunca quis.
— Não se trata de querer.
Rina se virou para encará-lo. Os olhos de Rina faiscaram em desafio, mas ele sequer mexeu um músculo da face.
Ainda estavam assim, nesse impasse silencioso, quando um estrondo explodiu do lado de fora, alto e poderoso o suficiente para fazer as estruturas da fortaleza vacilarem. Alguns pedaços do teto se desprenderam, soltando pedrinhas pelo ar.
Rina ficou em alerta na mesma hora. Se levantou em prontidão e olhou para Haru, que também tinha a expressão de quem pressente o perigo.
Os dois se viraram na direção da porta, atraídos pelo som. Gintaro surgiu no batente, o rosto igualmente sério, as duas espadas já em mãos.
— Temos companhia — ele falou, tenso.
Rina sabia que se tratava do Reikai mesmo antes de Gintaro falar mais alguma coisa. A energia deles não era violenta, mas era opressora; e de natureza muito diferente da que estava acostumada a sentir.
O mercenário se apressou até a cama de Haru, olhando para os braços de Rina sujos de sangue com uma expressão de profundo alarme. Mas não perguntou.
— Temos que sair daqui. Agora — ele falou.
Haru tinha no rosto uma expressão muito diferente da de quando Rina chegou. Nem de longe parecia mais o velho inocente à beira da morte.
— Vá. Eu posso segurá-los um pouco — ele falou, sua energia crescendo e envolvendo quase todo o quarto.
Ele estava fraco, mas, ainda assim, seu youki era invejável. E quase como em resposta, uma nova explosão eclodiu do lado de fora, balançando as estruturas.
Gintaro guardou uma das espadas de volta na cintura e agarrou o braço de Rina.
— Vamos.
Os olhos dela estavam colados na porta, cada um dos seus sentidos se esforçando ao máximo para perceber tudo. O cheiro da pólvora, as rachaduras na parede ficando mais evidentes, os ruídos das rochas se quebrando.
Ela não queria fugir, mas aquele quarto seria sua tumba se não fizesse alguma coisa.
— Vá! — Haru repetiu — Já enterramos Yuumas demais.
O instinto de sobrevivência, já antigo conhecido de Rina, tomou as rédeas. Ela correu para a porta, Gintaro à tiracolo; olhou pelo corredor. Estava vazio.
— Pra que lado? — ela perguntou.
O mercenário saiu na frente, já indicando o caminho. Os dois se apressaram. Enquanto o sentido era um só, o trajeto foi fácil. Viraram à esquerda, passaram por mais uma porta, seguiram reto.
As pernas de Rina ainda doíam. Mesmo com toda a adrenalina, com toda a urgência, elas doíam. Menos do que antes, mas mais do que o ideal. Se continuasse assim, isso seria um problema. E fatal.
— Gintaro, me dá cobertura!
— O quê?! Rina–
Não havia tempo para explicações, então Rina não ofereceu nenhuma. Ela sabia que o que estava prestes a fazer era irresponsável, insano quase, mas preferiu não pensar por muito tempo. Apenas afastou a manga de qualquer jeito, pegou a adaga e posicionou-a em cima do pulso. A mão tremia. Ela engoliu em seco.
"Ninguém cresce no conforto."
E empurrou a ponta com violência até rasgar a veia.
A dor foi ainda mais grotesca do que ela se lembrava. O grito dela, também. Gintaro arregalou os olhos ao ver o sangue correndo e perguntou, com seu desespero comedido, o que diabos ela pensava que estava fazendo. A pergunta mais uma vez ficou sem resposta.
Rina quase desmaiou dessa vez. Ela sentiu a cabeça ficando leve, os olhos piscarem pesados e quase fecharem de vez. Não fosse a tensão do momento para a deixar desperta, não achava que teria conseguido.
Mas conseguiu. Como nas outras duas vezes, pressionou seu youki na marra até ele parar de correr e ficar ali, sobre seu corpo, inerte. Até as placas cristalinas surgirem debaixo da pele, fazendo o sangue estancar e a ardência do corte mudar para algo pior.
Sem a experiência de Haru, ela seguiu pelo único critério que tinha — e encerrou o processo somente quando a dor ficou insuportável. Tirou a adaga de dentro da veia com dificuldade; o youki já havia se solidificado em volta. Tarde demais, ela pensou. Quando arrancou os cristais, ele saiu em lascas enormes, pedaços da pele sendo arrancados juntos.
— Que merda foi essa?
— Só mais… um instante — Rina disse, ofegante.
Gintaro xingou baixinho e olhou de um lado para o outro no corredor vazio. A adaga de Rina voltou para seu lugar na cintura, a pele se recuperando aos poucos enquanto o suor descia pelo seu rosto. Rina precisou se apoiar na parede para fazer o corpo parar de tremer tanto e ela não despencar de vez.
Ao menos não ouviram mais nenhum abalo durante todo aquele tempo, o que significava que o que quer que Haru estivesse fazendo, estava funcionando.
— Rina, não quero te apressar, mas–
— Tudo bem — ela disse, mesmo não estando. Mas Gintaro tinha razão. Precisavam ir — Vamos.
O pulso de Rina latejava, mandando pequenas ondas de dor pelo braço acima. As pernas estavam bambas, mas logo iriam se recuperar, ela tinha certeza. Mais alguns passos, e se estabilizaria.
Seguiram juntos, Rina um pouco mais devagar enquanto a respiração ia encontrando seu ritmo. Mas quando encontrou, quando o corpo começou a se restabelecer, ela sentiu um frescor que há muito não sentia. Aquilo a animou.
Por impulso, deixou sua energia livre. O youki se expandiu tão forte e tão rápido que Gintaro sentiu na mesma hora.
— Devia esconder isso — Gintaro alertou — Vão nos achar em dois tempos.
— Que achem.
— Diacho, Rina, você não conhece os porcos do Esquadrão. Eles têm armas especiais, eles vêm pra matar.
— Nós não precisamos de armas.
Gintaro chegou a abrir a boca, mas se calou. Mas ainda assim, ele a relanceou de um jeito apreensivo. Rina notou o olhar dele, mas não se importou. Havia outra coisa dentro dela agora, algo que queria sair há muito tempo.
Ela era uma Yuuma, não era?
Sentiu tudo mais uma vez: medo, orgulho, culpa. Mas dessa vez, a raiva veio por último e veio mais forte. Pois a vida inteira Rina tinha sido penalizada por ser quem era. Já tinha passado da hora de revidar.
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