Visceral
31 Detritos
Os agentes do Reikai eram um bando de imbecis.
Tinham tática, mas nem sempre a seguiam à risca — e até Hiei, que era avesso a ordens, sabia o quão desastroso aquilo podia ser. Não que fossem desorganizados ou indisciplinados, mas possuíam uma confiança tão absoluta em seu poderio que isso às vezes os deixava cegos.
Melhor assim.
Se ele não estivesse com tanto ódio, até brincaria um pouquinho. Mas tudo o que Hiei queria era acabar com cada um deles, até o Reikai se arrepender daquela decisão estapafúrdia.
Ele tinha demorado para pressentir a presença deles na região, mas quando sentiu, foi forte feito um soco no nariz. Eles gostavam disso. Gostavam de serem percebidos, de que soubessem que estavam na área. Talvez até mesmo gostassem de dar tempo para que seus alvos se escondessem. Só para ter o prazer inescrupuloso da caça. Era assim que preferiam ser conhecidos: como caçadores.
Hiei não teve a menor dificuldade em perseguir a aura espiritual dos malditos. Deixou que eles o guiassem perfeitamente até o esconderijo de Haru, onde a tropa do Esquadrão Especial já fazia seu cerco. E onde a energia de Rina finalmente voltou a ser sentida.
Era inconfundível. E estava tão forte quanto ele se lembrava, tão forte quanto a primeira vez que a sentiu sem amarras — talvez até mais forte. Aquilo trouxe alívio, mas também ansiedade. Rina estava lá dentro. Havia desistido de se esconder. Se por vontade própria ou por coerção, ele ainda não sabia, mas uma coisa era certa: Rina jamais iria se entregar.
(…)
— Você pode ir embora se quiser. Haru não precisa saber, e você vai ser pago do mesmo jeito — Rina falou.
Gintaro deu uma risada, mas não havia nada de tranquilo nela. A tensão que o mercenário tinha deixado escapar era palpável.
— A oferta é tentadora… — respondeu, em um tom de piada que não causou a menor reação em Rina.
Ela seguia na frente não mais como quem foge, mas como quem procura. Suas mãos formigavam, a visão focada. Não iria sair dali sem ao menos sentir algum osso se quebrando debaixo do seu punho.
— Eu falo sério.
— Eu sei.
A resposta dele perdeu a falsa leveza de antes. O mercenário não estava com medo, e Rina sabia. Mas também não estava confortável.
“Você tem o instinto de quem caça”, Hiei tinha dito a ela uma vez. Ela não tinha entendido na ocasião, nunca havia se visto assim. Como a predadora que ele a chamara na noite em que Rina deixou que ele visse o que ela podia fazer. Agora ela entendia. E concordava.
Ela vinha farejando o rastro indistinguível de um ser que não possuía nem um grama de youki. Para sua sorte, a aura que Haru vinha emitindo devia estar confundindo os agentes, pois nenhum deles parecia ter triangulado sua localização ainda. E ela usaria aquilo a seu favor.
Quando a energia espiritual que sentia se intensificou, Rina parou, Gintaro ao seu lado. Ela estava tão agitada por dentro que não sabia se era de antecipação ou medo de falhar, mas suspeitava ser a primeira opção. Ainda se lembrava do frenesi que sentira quando liquidou um daqueles assassinos com as próprias mãos semanas atrás, depois de ter visto Hiei desfalecer com um rombo no peito.
Rina estreitou os olhos. Deu apenas alguns passos, devagar, até a esquina do corredor. Gintaro, que antes empunhava apenas uma de suas espadas, sacou a segunda com um movimento sutil. Não ousou falar nada.
Ela sabia que seu alvo estaria ali, logo depois de virar à esquerda. Seu corpo estava frio, mas as palmas suavam, e sua pulsação era tão forte que ela podia ouvir por dentro das têmporas.
Preferiu não olhar para o mercenário para não se distrair. Ele não era do tipo que precisaria de comandos ou avisos, de todo modo — não teria sobrevivido tanto tempo na profissão se não fosse astuto o bastante para lidar com situações como aquela. Então Rina deixou seu youki se expandir e tomar seu braço. Espiou com cuidado na esquina. O agente estava logo ali, a apenas alguns passos de distância. De costas, mas já se virando como se tivesse acabado de perceber a presença dela. Antes que ele pudesse reagir, Rina atacou.
Seu soco o atingiu no estômago. O homem se dobrou ao meio na mesma hora, um som abafado saindo da boca. Uma das mãos do agente se encaixou, por reflexo, na área do soco; mas outra mão foi, treinada, até algo preso na cintura. Rina nem esperou para ver o que ele estava tentando alcançar; antes disso, acertou um gancho no queixo. Quando ele cambaleou para trás, ela o acompanhou. Mais três cruzados na mandíbula, sangue escorrendo do lábio cortado, o tombo surdo de quando ele caiu no chão.
Uma onda de calor, elétrica e viciante, tomou conta do seu cérebro e, quando Rina viu, ela já estava levantando o homem pelo uniforme e afundando-o contra a parede, fazendo mais sangue espirrar. Ela o prendeu ali e, de novo, preparou o soco. Os punhos de Rina queimavam, os dentes à mostra, o peito subindo e descendo. Até que seus olhos se encontraram com os dele.
Era um oficial jovem. Estava em pânico, sem reação. A boca estava cortada, o crânio, provavelmente rachado por trás. Ele não falou nada, apenas ganiu baixinho, parecendo um filhote de cachorro. Rina hesitou, parou de apertá-lo tanto contra a parede.
E de repente, o agente soltou um último gemido. Os olhos se arregalaram antes de fechar. Gintaro estava ao lado de Rina, a espada cravada no peito do jovem que ela segurava.
Ela o soltou, o mercenário puxou a arma de volta. Nenhum dos dois falou nada. Mas ela, por dentro, odiou sua própria hesitação.
(…)
Os dois agentes do Reikai caíram no chão ao mesmo tempo. O som da katana veio logo depois.
Hiei olhou para os corpos com indiferença. Limpou a lâmina no próprio tecido dos uniformes e devolveu a espada à bainha. Se agachou para vasculhar os homens, e encontrou duas armas — totalmente desinteressantes — e um aparelho comunicador. Este último, ele guardou.
Pegara os agentes desprevenidos do lado de fora, provavelmente montando alguma guarda enquanto o resto da operação saía ao encalço de Rina. Se esse era o nível do exército do Mundo Espiritual, aquilo seria bem menos excitante do que o esperado. Mas ao menos, muito mais fácil.
Ele olhou para a pilha de pedregulhos à sua frente. Uma parte havia sido detonada, revelando um espaço que conduzia ao interior do que parecia uma antiga construção. Com o Jagan já completamente recuperado, Hiei tentou enxergar a situação ali dentro. Contou mais sete ou oito membros do Esquadrão.
— Dez agentes pra dar conta de uma youkai, que ridículo… — ele murmurou para si mesmo — Koenma deve estar desesperado.
Sua mão direita pulsou e, quando Hiei dirigiu o olhar para ela, viu as veias subindo pelo pulso até o cotovelo, roxas e fosforescentes. Arriscou invocar uma chama, e, pela primeira vez, elas responderam. Tímidas, mas estavam lá. Hiei se permitiu um sorriso.
Excelente.
(…)
Tudo que Rina conseguia pensar era naquele seu maldito erro. E em como não iria deixar que ele se repetisse de novo.
Por isso, quando chegaram em uma bifurcação e Gintaro a tentou levar para um lado, ela o ignorou e virou para o outro — para onde a energia espiritual dos soldados ficava mais forte, para o lado em que ela teria chance de se redimir.
— Rina! — ele exclamou, a prendendo pelo pulso — O que você está fazendo?
Como se ele já não soubesse a resposta.
— Me solta.
Rina falou com uma frieza calculada, uma calma que chegava a ser ameaçadora. Mas o mercenário não a atendeu.
— Não é prudente — Gintaro falou, o tom de aviso travestindo o medo em preocupação — Você deu sorte uma vez, não significa que–
— Sorte?!
E o youki de Rina se agitou ao redor dela na mesma intensidade, reativo. Dessa vez, o mercenário a soltou de imediato.
— Não achei que fosse tão covarde.
— Não é covardia, princesa. É autopreservação. Você devia aprender.
Rina revirou os olhos.
— Pode ir se autopreservar sozinho.
E se virou para deixá-lo a sós na bifurcação. Os passos dele, no entanto, a seguiram pouco tempo depois. Quando o mercenário a alcançou, tudo que ela ouviu foi um suspiro exasperado.
Os dois, no entanto, pararam de supetão. No final do curto corredor, vindos de um salão atrás de uma porta quebrada, três oficiais surgiram. E os três ergueram suas armas no mesmo instante, por puro reflexo.
Rina nem pensou. Ela ignorou o fato de que sua camuflagem era péssima em ambientes fechados como aquele e simplesmente ativou sua habilidade. No segundo seguinte, o espaço onde Rina estava ficou vazio.
Os soldados escanearam o lugar, tão confusos quanto irritados. Começaram a correr na direção de Gintaro, e ela aproveitou aquela distração para invocar tudo o que tinha. Encostou na parede, esperou os soldados virem e, assim que passaram na sua frente, ela expeliu sua energia em um jato espesso e precisamente controlado, que explodiu com um clarão nas costas de um deles.
O agente foi arremessado para frente como um boneco de pano. A pressão foi tanta que, quando caiu, o piso se quebrou com o impacto, espalhando rachaduras por todo o corredor.
Os outros dois pararam com o susto. Olharam para trás e Rina pôde ver a expressão deles mudando, indo de confusão para raiva para repulsa. E depois, para o sorriso petulante de quem acredita que aquela missão tinha acabado de acabar.
Gintaro também estava olhando diretamente para ela e Rina entendeu: já estava visível novamente. A maldita habilidade continuava instável.
O que aconteceu a seguir foi rápido demais para que ela conseguisse processar. Ouviu a voz de Gintaro, o tilintar de suas espadas, um grito de um dos soldados. E tiros, ecoando no corredor, enquanto Rina avançava na direção dos dois como se aquilo fosse a única opção possível.
Os alcançou já com o punho fechado e o impulso na medida. Acertou um deles, mas não o suficiente para derrubá-lo. Ele apontou a arma de novo e Rina emendou em mais um soco. Outro soco, outro. Evitou perder tempo se situando — só queria fazer o infeliz largar a pistola. Ela aprendera com Dimitri uma vez como desarmar alguém, mas na hora não se lembrava de nada. Apenas que devia continuar atacando.
Foi uma cotovelada dela que enfim fez o agente perder o equilíbrio. O revólver voou longe. De novo ela nem parou para olhar, apenas aproveitou para concentrar mais energia entre as mãos. Mas quando mirou o soco, afobada, sentiu todo o ar saindo dos pulmões.
O soldado era muito mais forte, mais ágil, muito mais preparado do que o jovem que ela tinha encontrado antes. O golpe dele a atingiu nas costelas, pesado como uma barra de ferro. Rina tentou se equilibrar — mas pisou em falso. Caiu sentada, quase esbarrando em alguém — se era Gintaro ou o outro soldado, ela não viu.
— Cadela imunda — o oficial rosnou, enquanto limpava o sangue que descia pelo nariz.
Antes que Rina sequer tivesse tempo de se levantar, outro golpe. Um chute dessa vez, em cheio na cara. A visão dela escureceu por meio segundo.
Ele se abaixou para pegar a arma de volta, e Rina, mais uma vez, apenas reagiu. Se levantou e se atirou contra ele, o arrastando pelo abdômen até a parede, o prensando com toda a força que tinha. Deixou o youki explodir, agora descontrolado, enquanto ela martelava o estômago do agente até o sangue manchar o uniforme.
Seu último golpe o atingiu no pescoço e ela quase conseguiu ouvir o barulho da cervical se quebrando.
Rina se levantou. Arfava como se o ar ali dentro não fosse suficiente. Seu rosto doía, sua mão doía, seu ombro latejava como o inferno. Havia sangue por toda parte e ela não sabia qual era seu e qual não era — exceto o do ombro, esse sim não havia dúvidas. Pois quando ela tocou, sentiu o ferimento pela primeira vez, do tiro que a havia acertado de raspão sem que percebesse.
— Bom trabalho… boneca…
A voz de Gintaro saiu fraca e difícil. Quando Rina girou para procurá-lo, o viu sentado no chão, uma mão ainda na espada, a outra segurando a barriga, de onde uma mancha vermelha enorme se espalhava. Ainda assim, ele sorria com o charme inconfundível de sempre.
— Você está bem? Foi atingido? — E ela se agachou ao lado dele.
O mercenário apertou o abdômen um pouco mais. Grunhiu.
— Eu vou ficar bem — Ele tossiu — Vão vir… vão vir outros. Saia daqui — Outra tosse — Enquanto pode.
— Mas e você? Não pode ficar aqui sozinho!
— Não é de mim que eles estão atrás…
Rina comprimiu os lábios, apreensiva.
— Devia ter ido embora — ela falou — Não devia ter ficado comigo.
— E quem você acha… — Gintaro tossiu mais uma vez, ainda mais forte. E de novo, sorriu — Que derrubou aquele ali?
Ele apontou com a cabeça, e Rina viu o terceiro soldado caído no chão, a garganta cortada e a segunda espada do mercenário largada do lado. Rina foi até lá e a pegou. Antes de voltar, viu uma das pistolas ali perto e a buscou também. Trouxe as duas armas até ele.
— Aqui, fica com isso.
Gintaro assentiu, acenando discretamente enquanto tentava segurar mais um grunhido. Ela ainda ficou ali por um segundo a mais antes de se levantar.
— E obrigada. De verdade.
— Às ordens, doci… — Ele tossiu — Docinho.
Rina mal tinha se afastado quando ouviu passos correndo naquela direção, provavelmente atraídos pelos tiros no corredor. Começou a correr também, sem saber para qual direção, sua mente mais acelerada do que ela. Sentiu uma pontada tão grande na parte baixa das costas que teve certeza que ao menos uma costela estava fraturada.
Uma porta jazia aberta no corredor e ela passou por ela. Era um cômodo, fechado, parcialmente destruído. Sem saída. Merda!
Deu meia-volta, perdida, e continuou, os outros passos ora se aproximando, ora se afastando.
Começou a ouvir gritos, ordens que a mandavam parar, tiros em sequência. Rina já nem sabia para onde estava indo, deixou apenas que os pés fizessem seu trabalho e decidiu confiar neles. Sua intuição saberia a guiar.
Outra porta. Dessa vez, o espaço era mais amplo, com mais portas, corredores, e uma enorme escadaria com metade dos degraus já destruídos. Ela olhou para cada novo caminho que se abria, uma indecisão que a custou uma porção de segundos valiosa. Assim que voltou a correr, veio outro tiro. Um estampido rasgou o ar e, no instante seguinte, sua panturrilha ficou quente, e mais quente, e mais quente, até começar a arder. Ela tropeçou nos próprios pés, o sangue já ensopando a calça, transformando cada passo em uma agulhada excruciante.
— Parada!
Quando olhou para trás, viu um soldado com a arma apontada para ela. Rina esticou a mão na direção dele, se esforçando para conseguir liberar sua energia novamente antes que um novo disparo fosse feito.
Conseguiu apenas um feixe fraco, não o bastante para o derrubar, mas o suficiente para o fazer perder o equilíbrio momentaneamente. Ela continuou se afastando, agora mancando, se preparando para mais um ataque — mais concentrado dessa vez.
Ouviu a pistola ser engatilhada de novo e, no improviso, apertou os olhos e desapareceu como fizera antes. Não ia conseguir manter por muito tempo, mas não tinha problema. Queria apenas o despistar.
Um novo estampido estourou, mas dessa vez passou longe dela. O agente xingou, já preparando a arma para mais um tiro.
Ela parou de correr do soldado e passou a correr até ele — sua perna direita queimando, ardendo, não conseguindo a sustentar direito. Chegou perto, pelas costas, mas a percepção do oficial devia ser mais aguçada que a média, pois se virou no momento exato e, mesmo sem a ver, acertou uma coronhada em cheio no rosto de Rina. Ela caiu, desnorteada.
O homem deu uma risada debochada. Rina piscou, a visão ficando preta nas bordas por causa do impacto.
— Sua idiota… acha mesmo que você e aquele velhote conseguem derrotar nossa tropa sozinhos?
Rina tentou levantar, mas não tinha forças suficiente. Se arrastou para trás, sentada.
— Por que não vai ver o que aconteceu com seus homens? Ou acha que esse sangue aqui é só meu? — ela disse, mostrando o punho direito salpicado de carmim.
O oficial fechou a cara. Abaixou a arma e a agarrou pela gola da blusa, a colocando de pé. A perna reagiu, a dor irradiando como filamentos por toda parte.
— Verme! Youkais sempre se achando superiores!
Ele bateu com a coronha do revólver no seu rosto de novo. Se o nariz de Rina não tinha quebrado da primeira vez, tinha acabado de quebrar.
— Não parece tão superior agora, não é?
Os olhos de Rina se estreitaram. Reuniu a saliva e o sangue na boca e cuspiu no oficial, acertando em cheio na bochecha. Ele inteiro ficou vermelho, as pupilas dilatadas.
Num acesso de fúria, jogou Rina para o lado. Ela bateu em uma parede e, dessa vez, se segurou para não cair no chão. Quando viu o homem vindo até ela, achou que ele engatilharia a arma novamente, mas pelo visto o cuspe de Rina havia desbloqueado um estado de cólera no agente, e ele fez questão de guardar a pistola para acertá-la com o punho. A investida a atingiu nas costelas, que já latejavam antes e agora latejavam ainda mais.
Rina não desistiu de reunir seu youki. Sem precisão alguma, apenas deixou sua energia crescer ao seu redor. Seria um golpe grosseiro, mas ela pouco se importava. Agora ódio e instinto de sobrevivência se misturavam dentro dela, e Rina estava disposta a qualquer coisa naquele momento.
Quando sua energia começou a estalar, no entanto, o agente a atacou novamente. O soco no queixo fez Rina quase perder a consciência, e seu youki detonou de forma desajeitada — forte, mas previsível. Tudo o que o soldado precisou fazer foi se proteger com a própria energia espiritual e neutralizar a tentativa de Rina.
— Estúpida demais… — ele riu.
Rina quis cuspir na cara dele de novo, mas sentiu o cano frio da arma encostar na parte inferior da mandíbula, forçando sua boca. Sua respiração, que já estava rápida, se acelerou.
— Por que não tenta implorar pela vida? Quem sabe eu me compadeço — o homem provocou.
Pressionou ainda mais o cano contra a pele dela. Rina não fechou os olhos, nem sequer os desviou. O encarou devolvendo o mesmo ódio. Se fosse morrer, não daria a satisfação de que ele a visse com medo.
— Vai. Se. Foder — ela falou entre os dentes.
O agente riu. Engatilhou a arma. Ela esperou.
Mas, de repente, outra energia, muito mais massiva, surgiu, tomando os dois de assalto, tão encorpada que parecia sólida. Mal tiveram tempo de se virar quando um enorme dragão elemental apareceu varrendo a sala e fazendo o ar estalar de estática.
Rina arregalou os olhos, depois os fechou, apertados. Tudo o que ela sentiu foi o ar quente secando seu rosto, o youki opressor raspando seu peito, o vento rasgando a blusa, a pressão atmosférica a fazendo colar na parede.
O dragão rugiu. Quando ela voltou a olhar, viu o animal ziguezagueando em descontrole pelo salão, ignorando a presença dos dois. Até que a parede oposta explodiu. A energia negra se dissipou com um estouro que fez tudo tremer, destruindo as estruturas, levantando uma nuvem espessa de poeira.
Rina não conseguiu sair do lugar em momento algum, completamente em choque. Já tinha visto aquele dragão antes e sabia exatamente a quem ele pertencia, mas isso não ajudou a deixar a situação mais clara. A presença de Hiei ali não fazia o menor sentido e seu cérebro estava cansado demais para tentar compreender.
Principalmente quando viu o agente do Reikai de novo no chão, ainda vivo, se arrastando até ela. Rina não entendeu. Ninguém sobreviveria àquele impacto — a menos que não tivesse sido atingido.
Mas aquilo não importava. O homem esticou o braço, e Rina, seguindo com os olhos, notou a arma caída aos seus pés, onde o oficial agora tentava alcançar. Sem pestanejar, ela pisou na mão dele. Sua perna baleada ardeu em protesto, mas Rina ignorou, pressionando o pé ainda mais. Sentiu a resistência do homem ceder, os ossos quebrando-se debaixo da bota. Ouviu os gritos e xingamentos em resposta.
— Cala a boca — ela falou, pronta para calá-lo com um chute.
Mas assim que o pé dela saiu do chão, ele o agarrou com a mão livre e a derrubou. Rina caiu sobre a perna ferida, a dor a fazendo ver estrelas.
O maldito não desistia. Tudo bem, ela entendia. Rina não desistiria também.
Ergueu-se um pouco e foi até o agente, que mostrava os dentes, ofegante, em uma expressão de cólera bruta. Rina fechou o punho e o acertou no nariz. A cabeça dele foi para trás, mas os nós dos dedos dela latejaram, talvez até mais do que o rosto dele.
Ele esticou o braço novamente. Rina empurrou de qualquer jeito a arma para longe, mas aquilo não ia ser suficiente — pois o desgraçado, ainda mais enfurecido, se jogou até ela, agarrando seu pescoço com a mão boa que sobrara. Rina sentiu a garganta fechar. Tateou às cegas pelo chão e pegou o primeiro pedaço de escombro que sua mão encontrou e que conseguiu levantar. Com o corpo em chamas por dentro, ela concentrou um pouco de sua energia ao redor da pedra. Não era muito youki, nem muito tempo; era apenas o que ela podia fazer.
Sem pensar, a desceu com toda força que conseguiu na têmpora do oficial. Ouviu o crânio se rachando na mesma hora em que o sangue espirrou em seu rosto.
Ainda ergueu a mão uma segunda vez, pronta para um novo golpe — mas não foi necessário. Os olhos do agente finalmente tinham se revirado, o corpo desistido de tentar se mexer.
Rina largou a pedra de lado, sentindo o braço pesar e os dedos tremerem. Tentou levantar, mas a perna machucada não deixou. Então apenas se arrastou até a parede mais próxima, enfim olhando a destruição ao redor. Um pouco de sangue escorria do supercílio, caindo pelo olho e tingindo o mundo de vermelho. Ela limpou de qualquer jeito.
A poeira tinha baixado e só agora ela se dava conta de que Hiei estava ali, parado, observando tudo, mais sério do que nunca.
Uma dezena de perguntas brotou em sua cabeça. O que Hiei estava fazendo ali? Ainda havia mais agentes? O Reikai mandaria outros? Ele tinha notícias de Haru ou de Gintaro?
Mas quando ele chegou mais perto, ela esqueceu de todas elas.
Ele estava machucado também. Não tanto quanto ela, mas Rina podia ver algumas marcas pelo corpo, o cabelo em desalinho, a katana torta na cintura, suja pelo uso. A atenção dela inevitavelmente caiu até o braço direito dele — negro, a mão aberta com os dedos imóveis e rígidos, quase petrificados, as veias roxas que subiam do pulso. A boca de Rina se abriu e uma nova pergunta se somou às demais em sua cabeça.
E os dois continuaram se encarando, ofegantes e mudos, olhos escaneando tudo, mas terminando por se prender no rosto um do outro.
Hiei deu alguns passos até ela, a expressão se intensificando. “Eu estou bem,” ela pensou em dizer, mesmo estando o oposto de bem. Rina ainda podia sentir onde o cano da arma havia comprimido seu maxilar, o quão perto ela esteve de achar que tudo acabaria ali.
— Hum — Hiei deixou o som escapar — Fico longe por três dias e você quase consegue se matar.
O máximo que Rina conseguiu fazer foi juntar as sobrancelhas no meio da testa e apertar os dentes.
Tinha sido uma das clássicas provocações de Hiei, do tipo que devia fazê-la se irritar. Rebater.
Em vez disso, o que ocupou sua mente foi algo muito diferente e assustador.
“Eu estou me destruindo.”
Hiei ofereceu uma mão para ela. Rina olhou por um segundo, a aceitou, e se deixou ser puxada para cima. Quando ela quase desabou de novo, ele a aparou.
“Não. Estou me reconstruindo.”
— Pelo visto, não posso mais te deixar sozinha.
Rina quis retrucar, mas nenhuma palavra saiu.
Nem quando ele chegou ainda mais perto, segurou seu rosto, a encostou na parede. Rina arquejou com aquela proximidade.
Quem Hiei pensava que era? Como ele ousava insinuar que, depois de tudo, ela ainda precisava de sua ajuda? Quem havia dado a ele o direito de–
Mas a boca dela encontrou a dele antes que o pensamento concluísse, em um contato tão abrupto e agressivo quanto necessário. O beijo tinha gosto de poeira, fazia os lábios de Rina arderem nos cantos, e ela teve certeza de que Hiei podia sentir o sangue dela em sua língua. Mas Rina não se importou.
Naquele momento, o Makai inteiro podia explodir que ela não iria se importar nem um pouco.
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