Visceral

10 Sob a pele


Notas iniciais
Obrigada desde já pela leitura =)

Rina não sabia quanto tempo estava acordada, mas sabia que estava consciente o bastante para sentir dor.

A mente estava finalmente limpa, os efeitos dos sedativos tendo se dissipado — e isso era bom; mas as dores, ainda que menos intensas, ainda estavam ali, pulsando de leve debaixo da pela.

Ela estava sozinha agora, deitada em uma maca desde que conseguia se lembrar. O corpo cobria-se pelo que ela imaginou ser uma espécie de túnica e, por cima, a envolvendo, um fino lençol.

A perna recém-operada estava envolta por mais algum material. Bandagens, muito provavelmente. Eram delicadas, mas ainda assim pesadas sobre a pele ainda sensível.

Quando tentou se mover ou levantar, se deu conta de que estava presa na cama. Tentou cada um dos membros e encontrou pelo menos seis correias atadas ao corpo: uma em cada punho, uma em cada tornozelo, uma cruzando a cintura e uma no pescoço — essa a mais incômoda, pois dependendo da posição que se virasse, atrapalhava sua respiração.

Por isso, permaneceu quase o tempo todo olhando para o teto, absolutamente imóvel, inspirando e expirando demoradamente enquanto tentava fazer sentido daquela situação.

Não conseguiu, no entanto, impedir uma ligeira palpitação quando ouviu a porta se abrindo e alguém entrando na sala. Tentou virar o rosto ou ao menos os olhos para vislumbrar quem vinha a seu encontro, mas a faixa do pescoço era justa e desconfortável demais. Apenas quando o visitante se aproximou que conseguiu enxergar.

Era uma mulher, cabelos curtos e vibrantes, tiras de tecido cobrindo parte do rosto. Apenas um dos olhos à mostra. A mulher parou do lado da maca e a olhou de cima. Estava impassível.

Rina imediatamente entendeu quem ela era. Havia algo naquela youkai que exalava poder e confiança, mas que também a dizia para ter cuidado.

Por um instante, Mukuro apenas observou. O lábio fino não tremia, o olhar não desviava — ela a estudava como se estivesse prestes a desmontar uma peça rara. Rina não mexeu um músculo, consciente de que o menor sinal de fraqueza poderia ser um erro fatal.

— Como está se sentindo? — a mulher falou. Ao mesmo tempo, tocou a perna de Rina por cima do lençol. O toque ardeu como fogo.

— Estou bem — mentiu — Onde está Shigure?

— Shigure tem outras obrigações a cumprir.

A mão da youkai percorreu o lençol, os dedos tocando de leve do tornozelo até a coxa enquanto ela mesmo se aproximava do torso de Rina.

Aquele mero contato era penoso para Rina, mas ela manteve-se imóvel, evitando mesmo a menor contração. Não daria a ela a satisfação de deixar seu sofrimento aparente.

— Você é Mukuro — Rina falou, como se já soubesse. Tinha uma aura muito diferente dos demais.

Ela assentiu.

— Por que estou amarrada?

— Estava convulsionando demais — Mukuro respondeu de maneira distraída — Shigure induziu o coma para evitar que se partisse ao meio sozinha.

Rina franziu a testa ao ouvir aquilo. Coma?

— Quanto tempo estou assim?

— Alguns dias — respondeu, displicente, como se aquela informação fosse irrelevante — Uma semana, mais ou menos.

E, sem que Rina antecipasse, Mukuro puxou a ponta do lençol e afastou a túnica, expondo a perna ainda em recuperação. O contato do corpo com o ar da sala era gelado mesmo por cima das ataduras e, por um breve instante, pareceu relaxante como um analgésico.

O olhar de Mukuro, entretanto, era extremamente desconfortável. Principalmente naquela situação em que Rina não podia fazer nada.

— É verdade que é uma Yuuma? — Mukuro perguntou — Seu youki é aquém do que eu esperava. O clã Yuuma, ao menos na lenda, costumava paralisar campos inteiros só com a presença.

— Sei apenas o que me foi dito — respondeu, deliberadamente deixando sua energia fluir um pouco mais livremente, apenas o bastante para que Mukuro percebesse a mudança.

Era um jogo perigoso, mas calculado — mostrar que tinha controle mesmo estando imobilizada. No entanto, se a rainha notou qualquer alteração, não deixou claro. Continuou como se nada houvesse de diferente entre elas.

Mukuro se demorou sobre as ataduras, olhando-as cuidadosamente como se as estudasse. Tocou de leve mais uma vez. Rina inspirou fundo para segurar a dor.

— Shigure não foi capaz de recuperar sua perna integralmente. A infecção estava muito avançada. Mas talvez consiga se regenerar por conta própria agora.

— Se Shigure terminou o serviço, não há mais motivo pra me manter amarrada. A não ser, claro, que você goste de ver os outros assim.

Mukuro sorriu. A cobriu de volta com o lençol.

— Como conheceu Hiei?

— Através de Urameshi — Rina respondeu. Mukuro levantou de leve a sobrancelha, intrigada — Hiei está sendo pago para me acompanhar até meu destino.

— Você parece ser esperta… por que precisa dele?

— Temos um trato.

O sorriso sumiu dos lábios de Mukuro. A expressão agora era fria como gelo e Rina sentiu todos os pelos do corpo encresparem durante os poucos segundos em que a youkai a fitou em silêncio. O ar parecia dez vezes mais pesado.

— Hiei não irá mais te acompanhar.

As palavras foram secas e cristalinas. E também definitivas.

Rina apertou os punhos. Sentiu a correia do pulso morder sua pele. Mas começou a sentir outra coisa também: uma possível esperança de estar entendendo o que estava acontecendo ali de verdade. A comandante não parecia alguém vulnerável, mas Rina havia aprendido que todos, sem exceção, possuíam pontos fracos.

Então decidiu dar um pouco mais de corda.

— Por que ele está preso?

— Hiei traiu minha confiança — Mukuro falou, mantendo na voz um certo repúdio — O alcei a braço direito uma vez, mas ele mesmo decretou sua sentença ao desertar seu posto. Seu retorno foi insolente. Teria sido mais digno que ele nunca mais voltasse.

Rina não disse nada dessa vez, apenas absorveu aquela nova informação. Enquanto Mukuro acreditava estar no controle da situação, havia deixado escapar algo valioso — sua motivação pessoal.

Mas Hiei certamente sabia que Mukuro não seria benevolente se ele pusesse os pés de novo naquela fortaleza. Por que havia se arriscado de tal modo por sua causa?

Então se lembrou do desvio no trajeto que fizeram dias atrás. Sabia que ele estava querendo evitar alguma coisa no caminho — teria sido Mukuro? Certamente que sim. Não deixava de ser irônico terem acabado ali de qualquer modo, Rina pensou, amarga.

Depois, veio um estalo. O que teria querido dizer sobre Hiei não a acompanhar mais? Havia dito isso apenas pois não planejava soltar Hiei, ou porque ela própria seria sua prisioneira também?

Ou pior, por planejar a morte de um deles.

Ou dos dois?

Um frio correu sua espinha. De repente, algo naquela mulher a fazia sentir que não sairia nunca daquela fortaleza. Pela primeira vez desde que viera ao Makai, sentiu algo próximo de medo de verdade.

Mas, em vez de a paralisar, o medo aguçou seus sentidos, como uma droga que tornava tudo mais nítido e mais urgente. Rina já havia sobrevivido a situações impossíveis antes. Esta era apenas mais uma.

— E quanto a mim? — Rina perguntou — Ainda não disse por que permaneço amarrada nesta cama.

— Por que a pressa? Precisa de repouso.

Um sorriso levemente cruel tocou os lábios de Mukuro, mas se apagou em seguida. Rina estreitou os olhos. Sentiu um impulso de querer se levantar e afrontar a youkai, mas se controlou no último segundo. As faixas que a prendiam na cama não a permitiriam levantar um só centímetro e tudo que ela menos queria era deixar visível a sua agitação.

— Mas não se preocupe tanto com isso. Por ora, deveria aprender a mostrar um pouco de gratidão. Se eu não tivesse permitido que Shigure a operasse, já estaria morta.

Mukuro se virou para sair.

— Nos veremos de novo em breve — falou, antes de continuar em direção à porta.

A respiração de Rina voltou a ficar pesada. Conhecia muito bem aquela sensação de estar em risco. Uma sensação que percorria todo seu corpo e a mandava agir, como um instinto de sobrevivência.

Aquele breve encontro com Mukuro tinha sido suficiente para Rina achar — não, ter certeza — de que se continuasse ali, morreria. E não podia morrer antes de terminar o que viera fazer. Não daquele jeito. Não naquele lugar. Não por aquela mulher.

Começou então a forçar as amarras do punho para testar quão resistentes seriam. Eram tão duras que Rina jurava que seriam de aço, se não tivesse sentido a aspereza do material roçando na pele. Pareciam algum tipo de couro, não arrebentariam fácil. Mas Rina continuou tentando. Às vezes, a única saída era avançar diretamente pelo centro da tempestade.

Arrancaria aquelas tiras de couro à unha, mesmo se precisasse rasgar a própria pele. E encontraria Hiei também. Não necessariamente porque precisava dele para chegar a Haru, mas porque agora existia uma dívida.

Uma que ela pretendia quitar antes que fosse tarde demais.

(…)

— O que achou? — Kirin perguntou, mais tarde naquele mesmo dia.

Mukuro estava contemplativa em frente a uma das janelas da fortaleza. Observava o treinamento usual de sua equipe no pátio externo, banhados pela cor alaranjada do crepúsculo.

Kirin estava de volta das habituais rondas em busca de humanos desorientados, um trabalho do qual não era particularmente afeito, mas que cumpria com o mesmo rigor com que sempre cumpriu as demais obrigações.

Desde a deserção de Hiei, ele havia reconquistado seu posto de segundo em comando, recuperando também um status de conselheiro nas horas oportunas graças a sua perspicácia e experiência.

— É inofensiva. Jovem demais para nos oferecer algum risco real — ela respondeu.

— Shigure disse que seu nível de youki é elevado para alguém que viveu apenas com humanos.

Mukuro concordou. Havia notado o mesmo. Apesar de ser bem abaixo da média de seu exército, ainda era maior do que os youkais ordinários que vagavam pelo Mundo dos Demônios. Com certeza se destacava. E ainda estava em um estado bruto, como uma pedra carecendo de lapidação. Se trabalhada corretamente, talvez alcançasse um grau potencialmente elevado.

Rina era inofensiva, sim. Mas somente por enquanto.

— Ela pode vir a ser valiosa — Mukuro comentou.

No pátio abaixo deles, os demônios bradavam a cada golpe. Os treinos na fortaleza pareciam cada vez mais longos e frequentes, especialmente desde o retorno de Hiei.

— A notícia de que uma descendente Yuuma está em nossa posse já está se espalhando por outros territórios. Um dos patrulheiros deve ter vazado a informação, em troca de alguma compensação — Kirin falou — Os ânimos andam exaltados. Alguns reinos menores chegaram a cogitar a possibilidade de se unirem em um assalto à fortaleza.

Mukuro riu, gélida.

— Bobagem. Sabem que seriam reduzidos a cinzas antes de tocarem os portões.

Kirin meneou a cabeça. Também não havia levado muito a sério a ameaça, entreouvida em uma taverna durante uma de suas rondas diárias. Era sua obrigação, no entanto, alertá-la da possibilidade, ainda que remota.

— Muitas famílias ainda abominam o nome do clã e gostariam de vê-la morta. Ninguém quer arriscar que eles cresçam novamente — ele falou — Inofensiva ou não, está atraindo atenção demais.

— A ideia também não me agrada. Mas acho que podemos nos beneficiar disso.

— O que tem em mente? — Kirin perguntou.

Mukuro não respondeu de imediato, ainda ponderando sobre a situação que tinha nas mãos. Do lado de fora, o dia se punha gradualmente no horizonte e jogava uma sombra sobre eles. Apenas os sons secos de luta e o ruído metálico das armas vindas do treinamento se faziam ouvir ali de cima.

— Sonde a possibilidade de uma permuta. Algum reino pode estar disposto a ceder terras ou soldados em troca da garota. Não seria má ideia expandir nossas tropas — falou. Ela sabia bem o quanto o nome Yuuma era maldito naquelas terras. Usaria aquilo a seu favor.

— Rina não é a única Yuuma viva. Shigure mencionou que ela busca um parente youkai, algum antigo sobrevivente.

— Se quiser, ele que a venha buscar, então, e o capturaremos também. Mas se não veio até hoje, deve estar enfraquecido demais. Ou morto.

— E se estiver reunindo escravos para criar seu próprio batalhão como os rumores sugerem?

Mais uma pausa.

— Então melhor tomarmos uma decisão depressa — Mukuro falou — Ela já está tempo demais aqui dentro.

— Acha que Shigure poderá interferir se tentarmos nos livrar de Rina? — Kirin falou, um pouco com cautela — Ele tem influência no resto do exército. E pode ter se apegado a ela.

— O combinado era apenas de que ele faria o procedimento. A decisão seria minha do que fazer com ela depois. Afinal, está em minhas terras. Sei que ele não vai ficar satisfeito, mas ainda é meu subordinado e sabe seu lugar.

A voz de Mukuro estava um tom mais severo que o habitual. Kirin sabia o quanto ela detestava se indispor com algum de seus soldados de elite. Especialmente Shigure. Suas habilidades eram úteis, tanto em combate quanto no atendimento clínico de seus guerreiros. Ainda assim, ele não era indispensável — e isso Shigure sabia muito bem.

— Mais uma coisa — Mukuro falou — Providencie a amputação do braço de Hiei. O direito, de preferência. Peça para Yano, ou qualquer outro que saiba cumprir ordens sem argumentar. Quero garantir que ele nunca mais maneje uma espada. E que aprenda de uma vez por todas que ninguém me vira as costas impunemente.

Kirin assentiu em silêncio, mantendo seu semblante incólume. Apenas uma leve contração no maxilar traiu sua surpresa com a severidade da punição.

Pediu licença para se retirar e se despediu. Deixou Mukuro sozinha, o olhar perdido no horizonte.

Em duzentos e cinquenta anos de serviço, tinha visto Mukuro ordenar torturas, execuções, e toda sorte de castigo, mas nunca com aquele ressentimento nos olhos.

Para a maioria dos soldados, sabia que aquilo seria visto como a maneira da comandante de forçar a capitulação de Hiei. Mas para aqueles que conheciam Mukuro há tanto tempo quanto ele, era evidente que para ela, a traição de Hiei tinha sido mais do que uma insubordinação — tinha sido uma ofensa pessoal que ela não conseguia esquecer ou perdoar.

(…)

Hiei sabia o que Mukuro estava fazendo com ele.

Fazia dias que ele não via uma viva alma, e a comida parou de chegar dois dias depois de Rina ter sido levada por Shigure. A única água que tinha acesso era de uma goteira insistente no fundo da cela, com gosto de ferrugem. Ele não sabia a origem e preferia continuar sem saber.

Desde então havia estado no mais absoluto isolamento: sem notícias de Rina, sem as visitas — ou provocações — de Mukuro e sem refeições. Hiei tinha uma boa resistência e conseguia passar dias com baixos estoques de alimento ou líquidos, mas isso não impedia seu estômago de doer de tempos em tempos.

O primeiro prato, que ele havia jogado no chão daquela cela imunda, continuava ali. A ração pastosa, que sequer podia ser chamada de comida, estragava naquele ambiente abafado pelos últimos dias. Ele se recusava a se rebaixar ao ponto de comê-la. Precisaria de muito mais tempo para lhe causar inanição.

O que mais o atormentava, no entanto, era a limitação dos seus movimentos. Com o espaço reduzido, sozinho e sem sua espada, treinar era quase impossível — e seus músculos protestavam contra a inatividade forçada. Sentiam falta da exigência constante de antigamente.

Portanto, a única coisa que lhe restava era desferir alguns socos contra a parede. Não era o suficiente, mas ajudava.

Parava somente quando os dedos começavam a sangrar. No dia seguinte, recomeçava tudo de novo. Era sua maneira de se manter são. De se lembrar que ainda era o mesmo.

E talvez de mandar um recado para Mukuro: ele não tinha desistido de lutar.

Acostumou-se também com a claridade constante da cela. A única lâmpada que pendia do teto era fraca e, muitas vezes, piscava tanto que ele achava que ela se apagaria a qualquer momento e o deixaria no breu. Mas ela nunca apagava e Hiei era obrigado a conviver com aquela luz artificial 24 horas por dia, inclusive durante o período que ele acreditava ser o noturno.

Tinha perdido a noção do tempo e tentava regular seu próprio relógio biológico mantendo uma contagem rudimentar das horas e dormindo quando achava que toda a fortaleza estaria adormecida também.

Hiei tinha a plena certeza de que Mukuro o deixaria por meses, talvez anos, naquela situação. Não por tê-lo esquecido nos porões da fortaleza — ela nunca esquecia — mas apenas pelo prazer de vê-lo definhar e deixar de ser quem ele havia sido um dia.

Naturalmente, ele havia tentado usar seu terceiro olho algumas vezes, em seu primeiro dia sozinho. Mas era como se seu Jagan estivesse defeituoso, pois tudo que conseguia era uma dor na cabeça sempre que tentava usar seus poderes.

Foi quando notou, quase escondidos nas sombras na parte mais alta das grades, os ofudas. Os talismãs vibravam de maneira opressora sempre que tentava usar os poderes do seu Jagan, funcionando como uma espécie de bloqueio.

Mukuro conhecia bem suas habilidades — e suas fraquezas. E ela havia se preparado especificamente para contê-lo.

Por fim, mais uma coisa também o incomodou nesse tempo a sós. Hiei havia sonhado duas noites seguidas, o que já era raro. Mais raro ainda era que os dois sonhos tinham Rina. Ou quase isso.

Os sonhos eram tão vívidos que ao acordar, ele ainda podia sentir seu impacto. No primeiro, ela estava morta. Ele não a via, apenas sabia da informação, como se fosse um fato estabelecido. No sonho ele não estava mais na cela, mas em algum outro lugar qualquer da fortaleza, em liberdade. Sem algemas ou correntes. E ainda assim, não conseguia ir embora.

Pensou nisso por um bom tempo naquele dia, tentando separar o que era a sensação persistente do sonho — de que Rina estava morta — do que era realidade.

No segundo, os dois estavam em uma trilha estreita, como tantas que cruzaram nos últimos dias. Rina seguia na frente, os passos mais rápidos do que o normal. Hiei tentava alcançá-la, mas quanto mais se apressava, mais ela se afastava. Mais ela corria. Mais ela sumia por entre as árvores.

O que começava como uma profunda raiva pela atitude de Rina terminava como a frustrante sensação de que ele não tinha a menor chance de chegar até ela. Que ela iria sumir no instante em que Hiei deixasse de correr e continuar para sempre fora do seu alcance.

A impotência o consumia por dentro de um jeito insuportável. Ele questionou sua competência naquela perseguição até se dar conta que o fracasso não tinha nada a ver com a sua velocidade.

Hiei acordou suando frio dessa vez. Demorou a levantar.

De alguma maneira, o segundo sonho o havia perturbado ainda mais do que o primeiro.

Depois disso, as noites passaram em branco como a maioria de suas outras noites, sem sonhos vindo lhe importunar.

Porém, naquela madrugada, Hiei mais uma vez teria seu sono interrompido — e não pelo próprio inconsciente como antes. Naquela noite, ele foi acordado bruscamente com uma dor aguda no estômago, seguida por outra nas costelas. Abriu os olhos e se levantou com rapidez, por puro impulso.

Na mesma hora, viu dois demônios pularem para trás, se afastando, também agindo por instinto ao notarem que Hiei acordara com os golpes. Os dois estavam dentro da cela com ele, mas não eram prisioneiros. Logo os reconheceu como sendo membros da sentinela de Mukuro.

— O que diabos pensam que estão fazendo?

— Não disse que era Hiei? — um dos demônios falou, se virando para o outro, um sorriso malicioso nos lábios.

Um misto de medo e excitação permeava o olhar dos dois.

— E o Jagan?

— Deve estar debaixo da faixa.

Hiei franziu ainda mais o cenho. Mostrou os dentes. Os punhos já estavam fechados pelo ódio repentino que sentiu dos demônios a sua frente. Tentou avançar, mas foi impedido pela corrente que ainda tinha no tornozelo.

O mero gesto fez os youkais recuarem mais um passo, se contraindo em terror. Os dois no entanto, logo relaxaram ao notar que Hiei estava preso como um cachorro enjaulado. Daquela distância, só poderia mesmo latir; não tinha como mordê-los.

— Então Mukuro agora recruta vermes que só têm coragem quando o inimigo está acorrentado? Que piada — Hiei falou, o tom agressivo.

Os dois riram, debochados.

A notícia de que Hiei estava preso no calabouço da fortificação correu rápido entre as guardas da fortaleza. Alguns o admiravam, mas outros o desprezavam desde seus dias de braço direito de Mukuro — e esses últimos finalmente viram sua chance de se vingar.

Queriam ver pelos próprios olhos a situação miserável em que ele se encontrava — e com isso ter sua chance de derrotá-lo, valendo-se da segurança que as correntes proporcionavam e do estado enfraquecido que certamente estaria.

Vangloriar-se sobre uma surra em Hiei era tudo que muitos ali almejavam. Ainda que não fosse em pé de igualdade.

— Continua arrogante, mesmo preso como um animal! Ótimo, vai dar ainda mais prazer em acabar com você.

Hiei sorriu, a própria malícia estampada no rosto.

— Vou adorar vê-los tentar — ele falou.

Os dois retribuíram o sorriso ferino. Estavam em vantagem e sabiam disso. Pela primeira vez não teriam medo de Hiei.

(…)

Quando um terceiro youkai desceu para o subsolo na avidez de se juntar aos colegas na tortura que haviam premeditado, estancou de imediato.

O lugar estava completamente às escuras. A lâmpada que antes pendia do teto agora estava em cacos espalhados pelo chão sujo. Seus olhos, acostumando-se à penumbra, logo vislumbraram algo — duas silhuetas caídas, estraçalhadas, largadas como sacos de carne. E mais ao fundo, os olhos incandescentes do demônio, parados, brilhando como brasas em meio à escuridão.

Hiei estava sentado, encostado contra a parede, os braços e parte do rosto sujos de sangue — muito sangue. O cheiro, quente e metálico, enchia o calabouço, impossível de ignorar.

Um dos youkais mortos tinha o rosto voltado para a entrada, olhos arregalados, congelados no terror da sua última expressão antes de ter sido dilacerado. O outro nem rosto tinha. Estava irreconhecível. O crânio estava quebrado e uma pasta incolor, disforme e grudenta era o que havia sobrado.

Assustado, o youkai ficou parado. Se agarrou nas paredes de pedra da escadaria como se elas fossem um salva-vidas. E, num impulso, fugiu escada acima, o terror cobrindo todo seu corpo, como se Hiei fosse ir atrás dele e o dilacerar também.

Do fundo de seu cárcere, Hiei o observou desaparecer. Com desprezo. Mas também com frustração, porque mesmo após toda a carnificina, ele ainda estava ali. Sua condição não havia mudado.

O olhar se voltou para a grade da cela. Os dois imbecis que vieram primeiro não haviam se preocupado em trancá-la e agora ela estava aberta, meramente encostada no batente. Ele a olhava com intensidade. Sua rota de fuga. E logo adiante, a katana abandonada. Mas a visão lhe causava mais raiva que alívio.

Nada daquilo o saciava. Os corpos, o sangue, o medo que provocara — tudo parecia raso. A raiva que corria em suas veias não vinha apenas da fome ou da prisão. Era mais fundo. Mais silencioso.

Ele olhou para o grilhão, o olhar sombrio e quase primitivo.

Uma energia começou a emanar de seu corpo, tornando o ar ao redor mais denso. A faixa em sua testa parecia queimar a pele, e por baixo dela, o Jagan pulsava, lutando contra os ofudas. Os músculos de seu braço se contraíram, as veias saltando sob a pele enquanto ele fixava o olhar na corrente.

Estava na hora de parar de pensar como um prisioneiro — e começar a agir como um monstro.

Notas finais
¹Ofuda = talismã de papel da cultura japonesa