Visceral

11 Proposta


O chiado do metal em contato com a amoladeira guiou os passos de Kirin. Os primeiros raios da manhã mal tocavam o pátio, mas o ar já estava denso do lado de fora da fortaleza. Em um canto do terreno, a origem do chiado se revelou. Yano, sentado em silêncio, afiava a lâmina curvada de seu sabre.

Yano era um dos setenta e sete guerreiros especiais de Mukuro. Vinha fazendo parte da equipe por pelo menos um século e, apesar do respeito que nutria por sua rainha, não escondia sua divergência no tocante a muitos assuntos — desde a ronda que era obrigado a fazer para resgatar humanos perdidos no Makai até a rapidez com que Hiei havia alcançado um alto escalão na fortaleza.

— Não está em serviço hoje?

— Se refere ao castigo de Enki? — Yano falou, sem tirar os olhos da amoladeira — É minha folga.

Kirin refreou o impulso de reprimir Yano. Não era a primeira vez, e certamente não seria a última, em que mostrava seu descontentamento com aquele arranjo. Ele sabia que se tivesse a liberdade, Yano comandaria seu próprio exército para tomar as terras de Gandara e os demais reinos do norte.

Mas Mukuro era experiente o bastante para saber que não devia dar poder demais a Yano. O mantinha perto, pois tinha valor como guerreiro. Mas deixava as rédeas curtas para não lhe comprometer.

— Ótimo. Preciso que faça um trabalho — Kirin falou. E após uma pausa, acrescentou — Ordens de Mukuro.

— Estou ouvindo.

— Busque Hiei no calabouço ainda hoje. Certifique-se que perca o uso do braço direito. Definitivamente.

O chiado da amoladeira cessou. O sol refletia debilmente no metal espelhado do sabre.

— Por que continuar o mantendo aqui? Por que não o matam de uma vez?

— Ordens de Mukuro — Kirin repetiu — Algum problema, Yano?

— Nenhum. Permissão para usar meu sabre?

— Use o instrumento que achar melhor. Apenas execute o trabalho.

Yano aquiesceu. Antes mesmo de Kirin se distanciar, os contornos de seu rosto já eram outros, a máscara de subordinação dando lugar a um sorriso predatório que há muito guardava para esta ocasião.

Voltou a amolar o sabre, cada movimento metódico e lento, deliberadamente prolongando o ritual que precedia o derramamento de sangue. O demônio de estimação de Mukuro perderia muito mais do que um braço se dependesse de Yano. Depois de anos sendo obrigado a assistir à preferência de Mukuro por aquele traidor, finalmente teria sua vingança.

(…)

Hiei olhou apático para a própria mão. O punho fechado sangrava, os ossos doíam, a pele quase se soltava dos dedos. Seus socos haviam destruído quase que integralmente a parede ao redor da corrente que o prendia, e, com um último puxão, que trouxe ainda mais calos para sua palma, ela saiu por completo de dentro das pedras. Havia perdido a noção do tempo durante o trabalho — tudo que sabia era que muito certamente o dia já havia raiado do lado de fora.

Como já imaginava, a grade havia sido deixada aberta. Olhou com antipatia para os dois corpos mutilados na cela e soltou um muxoxo de reprovação. Mukuro tinha sorte do Makai não estar em guerra: se aqueles dois representavam o nível atual da base de seu exército, perderia qualquer batalha fácil para Yomi.

Assim que saiu da cela, resgatou sua katana. A mão doeu ao se agarrar à empunhadura, mas não o bastante para que ele a soltasse. Teria tempo de se recuperar depois.

Olhou para a lâmina e, em um movimento rápido, desceu a espada em direção ao grilhão de metal que ainda envelopava seu tornozelo. Um barulho estridente e o metal se rachou. Sorriu satisfeito. Ainda estava afiada.

Subiu as escadas com a intenção clara em sua mente: encontrar Rina e dar o fora dali. A ausência de notícias sobre ela o enervava de uma maneira que ele nem sabia ser possível. Sabia que aquele silêncio era parte do jogo de Mukuro em deixá-lo completamente alienado, mas esse era um tipo de jogo que ele já não tinha mais a menor paciência em participar. Desafiaria ela se fosse preciso.

Diversos youkais cruzaram seu caminho quando Hiei se embrenhou pelos corredores da fortaleza. Muitos paravam, apontavam o dedo, se perguntavam como Hiei estava solto e chegavam a ensaiar uma intromissão, mas bastava um olhar atravessado para inibir quase todos.

Hiei estava machucado — não apenas a mão sangrava, mas também seu corpo carregava alguns arranhões e ferimentos não previstos de quando enfrentou os dois youkais na sua cela. A blusa sem manga estava rasgada, e uma mancha escura destacava um corte ainda não cicatrizado na lateral. Mas estava também com a expressão mais desafiadora que já tinham visto antes, e isso deixava evidente que, apesar das feridas, não estava enfraquecido. E que seria um erro se pôr em seu caminho.

Os poucos que não se acanhavam encontravam o fio da espada de Hiei e cambaleavam, feridos — alguns, mortalmente. O rastro de sangue que ficava cumpria a função de aviso para que os próximos não o incomodassem.

Mas aqueles eram soldados rasos. Certamente um dos guerreiros de elite de Mukuro o interceptaria a qualquer momento. E esses não se acovardariam tão facilmente. Por isso agiu na pressa, sem rodeios.

O primeiro lugar que pensou em procurar Rina foi a enfermaria. Era lá que os guerreiros costumavam se recuperar de ferimentos leves. Acreditava que Mukuro manteria a decisão de não autorizar o uso de sua Câmara de Recuperação nela, por isso duvidava que estivesse no laboratório. Isso se não a tivesse jogado em uma alcova qualquer, mas preferia acreditar que Shigure havia garantido um período de repouso pós-operatório minimamente decente para Rina.

Alcançou o corredor que levaria até lá e procurou pela porta certa. Estava fechada, mas destrancada. A escancarou.

A sala estava deserta. Hiei olhou de um lado para o outro, procurando algum indício. Vasculhou as macas, bagunçou os lençóis vazios, conferiu os equipamentos desligados e não encontrou nada nem ninguém.

No entanto, havia ainda no ar um vestígio fraco de youki. Tinha a mesma assinatura energética de Rina — sutil, mas inconfundível. Ela tinha estado ali. Havia sido removida? Ido embora? Transferida para outra ala da fortaleza?

Hiei mostrou os dentes, irritado. Saiu da enfermaria pisando com raiva, a mão formigando, desejosa para envolver de novo o cabo da espada.

Foi quando sofreu seu primeiro ataque.

(…)

Rina estava parada, rente a parede que descortinava um enorme átrio. A respiração estava falha, em parte pelo esforço que se submeteu para se soltar, em parte pela tensão que o momento proporcionava. A perna também contribuía para seu nervosismo: a cada passo, sentia como se milhares de pequenas agulhas se injetassem na pele. Claramente a recuperação ainda não estava concluída, e talvez ela estivesse colocando tudo a perder por força-la assim, mas era um risco que teria que correr. Assim, preferiu suportar a dor.

Tinha passado a noite em claro, buscando uma maneira de se livrar das amarras da cama. Por horas, se focou em apenas uma, puxando o punho e forçando o couro até sentir que abria um pequeno rasgo. Mais horas foram necessárias para expandir esse rasgo até ter espaço suficiente para passar sua mão. Quase esfolou a pele no processo, e, no final, estava grata por não ter causado uma luxação no próprio pulso, tamanho o esforço.

Com um dos braços livres, foi fácil alcançar um recipiente de vidro que, quebrado, serviu de objeto cortante para auxiliar com o resto das tiras de couro. Ganhou alguns arranhões de presente, tanto no pescoço quanto nas palmas e pernas, mas aquilo já era previsto. Nada profundo ou que não estancasse sozinho em pouco tempo.

Rina por um instante temeu que sua energia estivesse se esgotando e que ela fosse desmaiar de pura exaustão, mas aguentou firme. Não era a primeira vez em que se colocava em uma situação tão estressante, mas era a primeira que a consumia daquele jeito. A estadia naquela fortaleza a estava testando de uma maneira que nunca havia sido testada antes.

Ao sair da enfermaria, Rina encontrou os corredores vazios. Encostou-se contra a parede fria, fechou os olhos e se concentrou o máximo que conseguiu. Respirou fundo, deixando o ar entrar e sair lentamente de seus pulmões enquanto enviava sua consciência para cada poro de sua pele.

Sentiu seu youki se espalhar, não mais contido dentro dela, mas agora a cobrindo por inteira. Quando finalmente abriu os olhos, tudo parecia sob uma nova luz — cores mais vívidas, contornos mais definidos, como se visse o mundo através de uma lente que captava espectros normalmente invisíveis.

Passou despercebida por onde andou, o disfarce funcionando como devia. Mas a preocupação ainda não havia deixado seu corpo totalmente. Aquela não era uma técnica perfeita. Primeiro porque funcionava melhor em ambientes abertos do que lugares fechados. E segundo pois caso se movimentasse rápido demais, as falhas ficavam aparentes. E como sua energia continuava presente, ainda que difusa, seres mais sensíveis a ela poderiam a captar.

Uma coisa era fugir de humanos. Outra bem diferente era se esconder de demônios altamente evoluídos em um ambiente que lhes era familiar. Rina estava plenamente ciente de seus riscos.

E agora, vendo os demônios circulando tão perto dela, desejou ter mantido um dos cacos de vidro com ela. Sua adaga, claro, não estava em lugar nenhum, e ela não tinha mais nada que pudesse usar em sua defesa.

Além do mais, não iria demorar para sua fuga ser descoberta. Ela sabia que Mukuro iria mandar seus lacaios atrás dela no minuto em que visse aquela enfermaria vazia.

Ainda assim ela precisava tentar. A alternativa — permanecer atada a um leito, esperando que decidissem o que fazer com ela — simplesmente não era aceitável. E por isso, seguiu em frente. Não havia nada mais a perder, de qualquer forma.

O átrio em que havia chegado era amplo e aberto. Parecia um lugar de passagem, com um ou outro demônio cruzando o espaço em direção a algum escada, porta ou corredor.

Rina buscou uma saída, correndo os olhos de uma ponta a outra e calculando a distância. Aguardou. Queria ter certeza que não esbarraria em ninguém, nem que passaria perto o suficiente para ser notada. Não sabia qual trajeto deveria fazer, ou para onde cada um daqueles corredores a levaria, mas ela poderia descobrir isso pelo caminho — tinha a intuição a seu favor, e ela nunca a decepcionara.

Achou uma brecha. Começou a arriscar. Um passo seguido do outro, confiantes. Por um instante, sentiu o corpo leve como se caminhasse nas nuvens, como se estivesse muito longe dali. Tudo parecia etéreo. Deixou a sensação persistir enquanto mantinha o olhar fixo para o que achou que seria seu primeiro passo rumo à liberdade.

Então uma fisgada puxou seu braço para trás. Primeiro veio a surpresa, só depois o temor ao ouvir aquela voz familiar.

— Aonde pensa que vai?

(…)

Hiei encarou com raiva o demônio a sua frente. O conhecia bem, bem demais para ter odiado aquele encontro.

— Como conseguiu escapar?

A pergunta foi acompanhada de um golpe do sabre de Yano. Hiei levantou a espada em defesa e o aparou no ar.

— Saia do meu caminho!

A mão que envolvia a empunhadura da katana doía, o braço latejava de dor, mas Hiei jamais deixaria que seu oponente sequer suspeitasse que não estava nas suas melhores condições.

— O que deu em você para trazer uma meretriz para a fortaleza? — Yano perguntou — Todos sabiam que você era o queridinho de Mukuro. Quem diria que o cão de guarda dela cairia por qualquer uma.

— Cale a boca!

Hiei o afastou com um chute, mas Yano voltou a atacar, quase tão ágil quanto Hiei. Seus movimentos eram leves, apesar do seu porte musculoso, e o sabre era quase como uma extensão do seu corpo. Tentando retardar seus movimentos, mirou a katana na panturrilha do youkai, mas arrancou somente um corte superficial. Yano era eficiente quando se tratava de desviar dos ataques de Hiei, algo que ele sabia e lhe causava ainda mais dissabor.

— Desgraçado… — Yano falou, ao sentir o corte.

O metal das espadas tilintou mais uma vez quando Hiei investiu novamente. Procurou uma abertura para o desequilibrar com um ataque corporal, mas as táticas de Yano estavam mais afiadas do que ele se lembrava. Yano era rápido no esgrima e bloqueava as tentativas de Hiei com certa habilidade. E quando Hiei saltou mais uma vez para um ataque vertical, sentiu o chute certeiro que atingiu sua mandíbula e o fez perder o ar. Hiei caiu, sentiu as costelas estalando no contato duro com o chão e quase deixou a katana escapar das mãos machucadas. Grunhiu de ódio.

Antes mesmo que pudesse levantar, Yano o puxou pela gola e jogou sua cabeça contra a parede. O sabre tocou seu ombro.

— Sabia que Mukuro exigiu que amputássemos seu braço? — E Yano forçou a ponta da arma, abrindo um corte na pele exposta de Hiei — Mas eu não luto com aleijados. Queria ter o prazer de te derrotar por inteiro. Sua cabeça vai ser o meu troféu.

Hiei trincou os dentes, esquecendo por um instante a dor da perfuração no ombro e sentindo o ódio tomar seu lugar. Tudo que queria naquele exato momento era arrastar o rosto de Yano ainda vivo pelas paredes daquela fortaleza.

— Chega dessa brincadeira idiota — Hiei respondeu.

Forçou o corpo para frente, se afastando alguns centímetros da parede. A lâmina do sabre entrou mais fundo em seu ombro e o sangue escorreu quente e rápido, como águas de uma nascente, mas Hiei não pestanejou. Não demonstrou um único sinal de fraqueza. Em vez disso, seus olhos endureceram, pupilas contraindo-se em pontos de fúria concentrada.

Sentiu sua energia demoníaca fluir das profundezas de seu ser, um fogo negro e púrpura que corria por suas veias junto ao sangue. Canalizou essa energia para fora, uma onda invisível mas palpável de poder que compeliu o youkai, arremessando-o para trás.

Assim que abriu espaço, desviou para o lado com rapidez, para em seguida se lançar em direção a Yano, dessa vez envolvendo o punho em chamas púrpuras. Elas estavam agitadas, refletindo o estado de espírito de Hiei. Ardiam sobre seu corpo como se a quisessem consumir também.

O demônio tentou bloquear o golpe, mas, tomado pelas chamas, o ataque de Hiei ficava ainda mais potente. As labaredas inevitavelmente tocaram a pele de Yano, que gritou com a dor da queimadura. Por um instante, fraquejou, e Hiei aproveitou o momento para dessa vez o acertar com força como devia. Socou o abdômen do demônio na altura do diafragma repetidas vezes, chamuscando o tecido que o cobria e deixando uma marca enegrecida em seu torso. Yano arquejou e seu lamento ecoou pelo corredor enquanto caia de costas.

— Vou te dar uma chance — Hiei falou, aproximando o pulso ainda em chamas para perto do rosto do oponente — Me diga onde está Rina e te dou uma morte rápida.

Yano tentou se afastar, puxando o corpo para trás até se chocar com a parede. O sabre havia voado durante o último ataque e agora jazia metros além dele.

— Por que eu deveria saber onde está sua putinha?

— Você está me fazendo perder a paciência!

Yano arfou. Um cuspe de sangue saiu de sua boca ao tossir.

— Vá pro inferno, seu verme — falou, com dificuldade.

— É mesmo um inútil…

Hiei sentiu com gosto o punho arder no contato com o maxilar de Yano. Mesmo protegido pelo fogo que controlava, o soco que desferiu no youkai foi pesado o bastante para ele também sentir a força do murro. Manteve as chamas pelo tempo que foi necessário. O cheiro de carne queimada subiu até suas narinas e só então Hiei o soltou.

(…)

Mukuro olhava com curiosidade para Rina a sua frente. Ela agora tinha as mãos atadas na frente do corpo, amarradas por algemas feitas apenas de youki. Evitava encarar Mukuro, deixando o olhar endurecido se perder pela paisagem do Makai que conseguia ver da janela.

Foi com certa satisfação que Mukuro havia encontrado Rina no átrio da fortaleza nas primeiras horas da manhã, um borrão que tentava se fundir com as estruturas internas da fortificação. Decidiu a prender novamente, apenas as mãos dessa vez, com algo que ela não conseguiria arrebentar, e a levou para uma sala mais reservada. Ordenou seus soldados que a deixassem a sós. E manteve o silêncio enquanto estudava a criatura audaciosa que tinha em sua posse.

— Estou impressionada — Mukuro falou em certo ponto — Com sua ousadia e sua habilidade igualmente. Já a havia visto, claro. Durante seu coma, seu corpo sumiu debaixo dos lençóis uma vez. Mas é muito mais fascinante assim, em plena atividade. Gostei muito do que vi.

Rina não respondeu. Não se virou. Mas sentiu uma certa apreensão ao descobrir, da pior maneira possível, que novamente seu corpo agira de maneira involuntária. Por que ele a estava traindo daquele jeito? Sentiu uma pontada. Não podia perder o controle.

— Por que tentou fugir escondida?

— Acho que está claro — respondeu, erguendo as mãos presas.

— As algemas são meramente uma precaução. Estava sendo mantida em minha enfermaria, e não em uma cela.

— Sim, amarrada. Faz isso com todos os seus hóspedes?

Mukuro deu uma risada discreta. Rina permaneceu séria. Voltou a olhar a paisagem.

— Entendo sua desconfiança. Não estou deixando claro minhas intenções.

Rina sentiu o efeito daquelas palavras. Sua respiração alterou, ainda que de leve. Havia uma animosidade velada no tom calmo com que Mukuro se dirigia a ela, quase um sinal de perigo. A energia maligna era evidente.

— E quais seriam elas? — Rina perguntou.

Mukuro retardou a resposta, ainda a estudando com certo interesse. Caminhou até a janela ao lado de Rina e olhou a vista. O sol já cobria todo o terreno, deixando a paisagem vermelho-terra quase brilhante.

— Muitos traficantes de escravos dariam tudo para ter uma mercadoria como você — Mukuro comentou — E tribos inteiras estariam dispostas a barganhar uma troca. Pedi que Kirin explorasse possíveis ofertas. O nome Yuuma tem peso de ouro nessas terras.

— Então quer me vender.

Mukuro voltou a ostentar o sorriso irônico, a cabeça ligeiramente para o lado para ter certeza de que Rina podia ver seu rosto.

— Estou apenas sondando minhas opções.

— Por causa da minha suposta linhagem?

— Não é todo dia que tenho nas mãos a herdeira perdida de um clã extinto há séculos.

— Ou é por causa de minha proximidade com Hiei?

Silêncio. Depois, uma risada.

— É bem atrevida por sugerir algo assim — Mukuro falou — Acha que alguém na minha posição estaria agindo por ciúmes? Por sentir algo por ele?

— É a única explicação para não tê-lo matado ainda.

Rina esperou a resposta. Disfarçou a ansiedade contida em seu peito.

Estava apenas jogando um verde, claro. Não fazia ideia se ela já havia ordenado sua execução. Não tinha notícias de Hiei desde que fora levada para a mesa de operações, e, a essa altura, ele bem já podia estar morto, já que passara uma semana em coma. Mas decidiu arriscar e jogar a isca. Torceu para que Mukuro a engolisse. E que não notasse sua tática.

— E se eu o matar? — Mukuro perguntou, as palavras caindo no espaço entre elas como pedras em um lago parado, criando ondulações quase imperceptíveis.

E então, outra pausa. Alívio e surpresa ao mesmo tempo.

Ainda estava vivo.

— Seria uma inconveniência — Rina falou, dando de ombros e escondendo da voz qualquer emoção — Hiei é um bom guia.

A aura de Mukuro se tornou desconfortável daquela distância. Estavam próximas demais. Rina não tinha certeza se era intencional, mas ao mesmo tempo duvidava que Mukuro não colocasse intenção em cada um de seus passos. Principalmente quando o objetivo era a intimidação.

— É uma boa mentirosa… — ela falou.

Rina se manteve inexpressiva. Sabia que Mukuro esperava uma reação, um tremor, um desvio de olhar, qualquer fração emocional que pudesse explorar. Mas Rina não daria algo do tipo.

Anos escondendo-se entre humanos haviam lhe ensinado a arte do autocontrole absoluto. Jogos de poder como este eram sempre sobre paciência e controle. Quem perdesse a compostura primeiro, perderia tudo. E Rina não tinha mais nada a perder além de sua dignidade.

— Hiei está meramente sofrendo as sanções militares que lhe são cabíveis pelo abandono de seu posto — Mukuro continuou — Não que eu lhe deva qualquer explicação.

— Ao menos o retorno dele está sendo lucrativo, não é? O que estão oferecendo em troca se me entregar?

Mukuro sorriu mais uma vez.

— Tenho certeza de que adoraria saber seu valor. Mas andei me reunindo com meu comitê de especialistas… — ela fez uma pausa, como se realmente estivesse repassando a conversa na cabeça — E eles levantaram um ponto interessante.

O silêncio que se seguiu entre as duas foi pesado. As pausas de Mukuro eram sempre calculadas, mas dessa vez pareciam contemplativas. Rina tinha certeza de que a comandante estava tomando a decisão naquele exato momento.

E Rina, sempre tão controlada, não conseguiu reprimir que uma centelha de curiosidade escapasse ao ouvir o que Mukuro começou a dizer em seguida.

Olhou para ela, os olhos se mexendo apenas milimetricamente.

— E se eu fizer uma proposta? — Mukuro falou, com um sorriso indecente recheado de astúcia.

O primeiro impulso de Rina foi dizer que não estava interessada, mas se conteve. Responder de maneira prematura seria apenas a manifestação de seu orgulho, e ela era melhor do que isso.

Mukuro esperou, pois estava segura do resultado. Seus olhos nunca deixaram o rosto de Rina, observando com certo prazer o conflito que se desenrolava por trás daquela fachada de indiferença.

Rina ponderou, mas não por muito mais tempo. Precisava manter o jogo. Entender suas opções.

— Que tipo de proposta?