Visceral
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Notas iniciais
Não demorou para que outros membros do exército de Mukuro localizassem Hiei. Ele bufou, exasperado, pois sabia que não se tratava mais de capricho de Mukuro aquela perseguição. Havia matado um punhado de seus soldados, incluindo um integrante do seu seleto grupo de 77 guerreiros — Yano não tinha resistido aos ataques e sucumbido às chamas de Hiei.
Era uma mera questão de tempo para que os demais se amotinassem contra ele.
O ombro retalhado de Hiei gritava de dor. Ardia ao menor movimento. Mesmo assim, sua agilidade se manteve constante, e foi com um golpe preciso que fincou a katana no peito do próximo youkai que o enfrentou. Sentiu a lâmina raspar a caixa torácica e perfurar os órgãos internos do demônio antes mesmo que ele tivesse alguma chance de defesa.
Afiada, a espada abriu talhos profundos em pelo menos mais quatro ou cinco corpos diferentes — Hiei, engolido por uma súbita impetuosidade, nem os identificou. Só queria abrir espaço para sair dali, a dor o lembrando constantemente de que talvez o braço não aguentasse levantar a espada por mais tanto tempo. Usava o chão e as paredes de impulso para saltar por cima dos demônios que apareciam em seu caminho, direcionando seus golpes para partes do corpo que ao menos os debilitassem.
Os corpos já se acumulavam, mas ele não estava mais contando. Não se incomodou de ter acertado alguns mais do que devia, e a visão de ossos expostos, músculos rompidos e esguichos de sangue não o abalou. Soube que havia passado do ponto em alguns momentos quando miolos sujaram sua espada, mas naquela altura, já não faria diferença aos olhos de Mukuro. Ele já estava condenado de qualquer forma.
Hiei parou por um instante. Olhou para o fundo do corredor e percebeu que talvez tivesse problemas quando viu outros guardas de elite em seu encalço. Discerniu ao menos três antigos companheiros de treino, os três com suas armas a postos e prontos para detê-lo. Os conhecia bem, não seriam intimidados facilmente. E na frente de todos, reconheceu Kirin, segundo em comando de Mukuro. Hiei havia tomado seu lugar quando se instalou na fortaleza, mas desde que havia desertado, sabia que ele havia retomado seu posto.
Kirin era um feiticeiro, não manejava armas, se valia apenas da manipulação de sua própria energia maligna. Tinha conhecimentos profundos de magia negra. Era sempre um desafio esse tipo de combate — um desafio que Hiei considerava irresistível.
Pensou em lançar mão de suas chamas novamente. Seria mais rápido, mais prático e, certamente, mais eficaz. Mas a adrenalina pulsando em suas veias o movia para frente sem que percebesse, a espada já erguida.
Correu na direção dos soldados. Saltou com destreza, sabendo que para eles não passava de um borrão, tão rápido como estava. Planejou os próximos golpes com uma precisão inigualável, mas quando os foi executar, sentiu seu corpo chocar com algo tão forte que chegou a causar uma explosão em seu ouvido direito. A pressão mágica de Kirin praticamente o engoliu.
Incrédulo, deixou a katana escapar das mãos.
(…)
— E se eu a fizer uma proposta?
Havia sido a pergunta inicial.
Rina franziu a testa. Mukuro não exibia mais a feição debochada de antes, apesar de manifestar um brilho incomum em seu olho natural. Agora estava séria como se estivesse tratando de negócios.
— Que tipo de proposta? — respondeu com cautela.
— Nós duas podemos nos beneficiar. Quero que permaneça aqui na fortaleza por mais algum tempo. E que colabore com minha equipe. Em troca, prometo que a deixarei ir assim que concluir minhas pesquisas.
A confusão se estampou no semblante de Rina. Junto com ela, a desconfiança.
— Não estou entendendo. Era você que queria se livrar de mim.
— Sim — Mukuro falou, com certa reserva — Mas as coisas mudaram. Acho que seria mais útil se ficasse.
Rina se manteve calada, aguardando uma explicação. Mukuro havia voltado a encarar a dimensão de seu território pela janela, estreitando a vista como se pudesse enxergar além do horizonte. E talvez pudesse. Seu olho biônico dava a Rina uma sensação estranha sempre que se movia, como se pudesse ler seus pensamentos ou penetrar sua alma. Estremeceu.
— Desenvolvi um certo interesse em sua habilidade. Tenho uma equipe de cientistas interessada em estudá-la. Aperfeiçoá-la. Se ela puder ser replicada, daria a meu exército uma vantagem sobre Yomi e sobre os reinos menores.
— Quer me usar para a guerra.
— Pelo contrário. Abomino o caos, tudo que eu quero é manter a ordem. Mas não sei até quando a paz instaurada por Enki vai durar, e prefiro estar preparada. Tenho certeza que Yomi também está reunindo cartas na manga durante esse tempo.
— E por que eu deveria aceitar ser seu rato de laboratório?
— É sua melhor opção.
Ficaram em silêncio um instante, Mukuro olhando a paisagem, serena como se aquela conversa não a preocupasse; Rina igualmente olhando pela janela, mas sem enxergar nada, a mente muito longe dali. Confusa, mas ciente da astúcia de sua captora.
Tentou calcular rapidamente as possibilidades, algo que fazia com certa facilidade em sua vida pregressa, entre humanos, mas que adquirira novos níveis de dificuldade desde que pusera os pés no Makai. Tudo ali era especialmente difícil, como se tivesse que reaprender tudo que sabia, mas em um novo contexto.
E as artimanhas de Mukuro era algo que ainda a inquietavam. Seu contato com ela havia sido curto demais para compreender tudo que movia a youkai — o relacionamento pregresso com Hiei era apenas a ponta do iceberg. Havia muito, muito mais por trás que ela ainda não assimilava.
— Não tenho interesse em ajudar você — Rina respondeu, pensando com cuidado na linha de raciocínio que pretendia seguir — Mas sei que não me mataria. Você mesmo alegou que sou valiosa demais para isso. No mínimo, se eu recusasse, levaria adiante a ideia inicial de me vender em troca da melhor oferta.
— Eu sempre posso manter você a força…
— Então por que simplesmente não o faz?
— Prefiro sua colaboração — Mukuro falou, se voltando para Rina — Facilitaria as coisas para todos nós, além de ser menos doloroso pra você, claro. E mais confortável. A menos que prefira ficar algemada em uma cela, o que é sempre uma opção. É cansativo e custoso manter prisioneiros, mas não proibitivo. No entanto, se cooperar, terá status de hóspede.
“Hóspede”
A palavra arrancou uma risada, ainda que sem humor nenhum, de Rina.
— Além do mais — Mukuro continuou, analisando cada traço de seu rosto — gostaria de verificar sua genética e checar se sua linhagem é mesmo da tribo Yuuma. Poderia compartilhar o resultado com você. Talvez isso lhe seja interessante. Não foi por isso que veio até o Makai? Para encontrar suas origens?
— O que está escondendo? Quer mesmo que eu acredite que tem alguma intenção de me beneficiar? — Rina perguntou. Não comprava a conversa de Mukuro, ou sua súbita mudança de planos. Tentava enxergar algo no semblante da youkai, encontrar as entrelinhas daquela conversa, mas tudo parecia lhe escapar.
— Que tipo de monstro você acha que eu sou? Por acaso não permiti que Shigure cuidasse de você? Eu sei que vou enfurecer muita gente ao te manter aqui, mas estou disposta ao sacrifício. E como disse, se contribuir livremente com meus estudos, prometo permitir sua soltura depois que terminarmos os testes — completou. E, sorrindo, acrescentou — O que me diz?
Rina inspirou fundo e desviou o olhar. Não estava satisfeita com o rumo da conversa, com o nível da proposta ou com a ideia de se submeter aos interesses e experimentos de Mukuro. Também não sabia do que se tratavam tais estudos ou o que seria esperado dela. A perspectiva de ficar à mercê da youkai não a agradava nem um pouco.
As mãos continuavam presas pelas algemas energéticas, e os pulsos agora começavam a formigar. Se manter prisioneira ali não estava nos seus planos, mas rejeitar a proposta de Mukuro não a ajudaria em nada também, já que seria mantida em cativeiro de qualquer forma. E fugir escondida claramente não tinha dado certo uma vez.
No entanto, igualmente desconfiava da disposição da youkai em conceder qualquer tipo de vantagem. Duvidava da simplicidade da proposta ou a facilidade com que a deixaria ir. Algo ali não soava certo.
— Shigure falou que tem planos de matar seu ancestral caso o encontre. É verdade? — Mukuro perguntou, livrando Rina de seus pensamentos.
— Por que quer saber? — respondeu ainda sem a encarar.
— Isso também me interessa. Os Yuuma eram um clã guerreiro que prefiro que permaneça extinto. Não quero ter o risco de que um novo poder surja no Makai depois de tantos anos. Depois que eu estiver satisfeita com que puder obter de você, posso emprestar um dos meus melhores soldados para escoltá-la até a localização dele para que realize o serviço.
— Já tenho uma escolta — ela reagiu, uma resposta quase automática.
— Se está se referindo a Hiei, isso foi antes. Ele agora é meu prisioneiro. Sabe disso.
As mãos de Rina se fecharam, uma tentativa de conter a súbita raiva que sentiu ao voltar a pensar em Hiei e naquela situação em que ambos se encontravam. As unhas apertaram a própria pele. Sabia que seu rosto estava tão endurecido quanto e preferiu manter o olhar para algum lugar longe de Mukuro. Manter a calma ainda era primordial.
— Só ele tem a localização correta — Rina então falou — Eu não conheço o lugar. Não sei chegar lá sozinha nem saberia guiar ninguém.
Mukuro não replicou. Parecia imóvel, os olhos colados nela, a postura ereta e firme, as mãos seguras atrás das costas. Estudava Rina com atenção, notando os punhos cerrados que sua prisioneira não tentou esconder.
— Se deseja que esse sujeito seja encontrado e morto, precisa deixar que Hiei me guie até lá — Rina voltou a dizer — Ele não levaria nenhum de seus soldados, muito menos cederia à tortura para revelar o local, se é isso que estiver pensando. Principalmente se souber o quanto você quer essa informação. Acho que sabe perfeitamente bem quão teimoso ele pode ser.
Mukuro pela primeira vez pareceu perder a calma. Rina ouviu quando a respiração da youkai se alterou, quando ela expirou por mais tempo que o normal, quando a aura oscilou como a chama de uma vela que enfrenta o vento.
Rina enfim se permitiu sorrir, deixando uma discreta satisfação transparecer. Suavizou a face, finalmente sentindo uma tênue chance de virar o jogo, ainda que parcialmente. Tudo dependeria das reais intenções de Mukuro — algo que Rina não estava inteiramente certa ainda, mas a julgar pelo silêncio demorado e pela reação da youkai, acreditava que estava indo bem.
E pelos segundos seguintes, ninguém falou mais nada, cada uma absorta em suas próprias posições. O silêncio era delicado entre as duas.
— E por que eu deveria confiar que fala a verdade? — Mukuro enfim perguntou.
O sorriso seguia estampado no rosto de Rina quando ela se virou para encará-la.
— É a sua melhor opção — respondeu, saboreando as palavras e sustentando a ironia no olhar ao repetir a resposta que Mukuro dera momentos atrás.
A conversa, no entanto, foi interrompida por batidas insistentes na porta. As duas olharam instintivamente na direção do barulho, Mukuro dando alguns passos em sua direção, Rina permanecendo na janela.
Quando Mukuro ordenou que a pessoa entrasse, um youkai surgiu pela porta. Alto, bem equipado, o semblante sisudo exibindo sinais de urgência. Ele olhou rapidamente para Rina, mas focou sua atenção naquela que era sua superior.
— Mukuro, senhora, preciso que venha comigo agora.
— O que aconteceu para me importunar desse modo? Pedi que não fosse interrompida.
— Peço perdão, mas… — ele fez uma pausa — é sobre Hiei.
Rina segurou a respiração e encarou o emissário, que notou o olhar e abaixou o rosto incomodado. Não parecia feliz em trazer a notícia, provavelmente temendo que fosse descontado nele qualquer frustração. Mukuro, ao mesmo tempo, olhou de soslaio para Rina.
— O que tem Hiei? — Mukuro perguntou.
— Ele tentou escapar. Dizimou parte do exército — falou, sob os olhos flamejantes de sua senhora. Na mesma hora, completou — Mas foi capturado.
— Onde ele está?
— No átrio. Kirin pediu que a chamasse com urgência.
Mukuro pensou por um instante, parecendo achar a situação divertida, apesar da expressão aborrecida do rosto. Ela saiu do quarto sem expressar mais nenhuma palavra, apenas voltando o rosto rapidamente para Rina mais uma vez, indicando que a seguisse. O mensageiro saiu logo em seguida e Rina os acompanhou, tentando não se demorar ao mesmo tempo em que preferiu manter uma pequena distância de Mukuro.
No átrio, uma comoção tomava conta do lugar. Dezenas de demônios aglomerados falavam ao mesmo tempo. Rina seguia atrás de Mukuro, e a medida que a líder dos youkais passava, aqueles mais perto se calavam, se limitando a abrir caminho e observar em silêncio os passos de sua soberana.
Quando chegaram no cerne da concentração, Mukuro parou. Rina se colocou ao seu lado, apenas um pouco pra trás. Uma exclamação involuntária escapou seus lábios quando viu o que causava tanto alvoroço.
No centro, de joelhos, estava Hiei. Possuía lesões no rosto e, no ombro direito, um corte profundo dividindo a pele. Muito provavelmente haveriam outras lacerações, escondidas debaixo das vestes, agora rasgadas. O calcanhar sangrava profusamente, provavelmente dificultando ou mesmo impedindo que ficasse de pé. Não que fossem permitir que se levantasse, de todo modo.
Os demônios ao redor abriam espaço formando um círculo, mas dois deles permaneceram ao lado de Hiei, cada um segurando firme um de seus braços, o mantendo imobilizado e forçando que se mantivesse ajoelhado. De vez em quando, Hiei ainda se debatia, tentando se soltar, mas era firmemente impedido. Os olhos ardiam com um ira que ela nunca tinha visto antes. Todo seu rosto se contorcia de raiva.
Um dos youkais então se aproximou de Mukuro. Abaixou a voz e confidenciou-lhe palavras que somente ela escutou. Rina, mesmo a poucos passos, não conseguiu absorver nem uma sílaba, mas sabia se tratar da fuga malograda de Hiei.
— Obrigada, Kirin — Mukuro respondeu ao término do relato.
Os olhares de Rina e Hiei se encontraram. Ele sustou os rosnados, por um breve instante ignorando os gritos e xingamentos ao seu redor para se focar somente nela. Pela primeira vez tomava conhecimento de que ela estava viva e havia se recuperado da operação de Shigure, apesar das ataduras ainda na perna.
Rina, por sua vez, permaneceu imóvel, impedindo que qualquer reação sua se revelasse e complicasse ainda mais a posição de Hiei. Se havia algum contentamento compartilhado entre os dois, foi omitido com maestria.
Ao mesmo tempo, Rina pensava no que aquele ato de rebeldia implicaria nos planos de Mukuro. Durante a conversa, Rina achou que conseguiria ganhar tempo, tanto para ela quanto para Hiei; mas agora, nessa nova configuração, não fazia ideia do que se passava pela cabeça da rainha ou como ela reagiria perante aquela situação. Preferiu, portanto, apenas acompanhar em silêncio. Se tentasse qualquer coisa naquele momento, seria igualmente capturada e suas chances de sair dali — com ou sem Hiei — se eliminariam no ato.
Mukuro então caminhou até o centro do círculo, se postando na frente de Hiei. O olhou de cima por um bom tempo.
— Sempre me causando problemas, não é? — ela falou, o rosto dividido entre a raiva e o prazer. Era quase como se ela não esperasse outra coisa vindo dele.
— Covarde… — Hiei praguejou, o rosto agora fixo em Mukuro. Os olhos transbordavam de ódio, famintos — Precisa do seu exército inteiro para me segurar?
Ela riu e, sem que ninguém esperasse, o golpeou.
O primeiro soco, em seu estômago, o fez golfar um jato de sangue. Ele soltou um urro seco, jogando a cabeça para frente. O segundo o atingiu na cabeça, acertando as têmporas e jogando seu rosto para o lado. O ataque, inesperado, emudeceu a plateia e abriu um corte no supercílio de Hiei.
Quando terminou, puxou seu cabelo, o forçando a levantar o rosto. Um hematoma se formava onde o soco de Mukuro o atingira. A respiração era ruidosa.
— Espero que esteja satisfeito. Não era isso que queria de mim? — ela murmurou, e soltou seu cabelo. Sua cabeça pendeu para baixo.
Mukuro retornou para o lugar ao lado de Rina, que acompanhava incerta de como aquela situação iria progredir. Ao redor, estavam todos calados, igualmente aguardando o que mais poderia vir como punição para alguém que em outros tempos, tinha conquistado um status tão alto dentro daquela fortaleza. E entre eles, quanto maior a posição de um dos seus, maior era o sentimento de traição quando um deles se rebelava.
Ver a queda de Hiei daquela maneira parecia estar sendo motivo de apreensão entre os presentes, mas também um certo júbilo, como se todos ali estivessem sedentos por ainda mais sangue. A aura que rondava o lugar era animalesca e, entre Mukuro e Hiei, a maioria parecia estar do lado da soberana.
Mukuro, enquanto isso, parecia pensar, refletindo ela mesma em todas as suas possibilidades como se não quisesse ser tomada apenas pelo impulso. Quando pareceu ter tomado uma decisão, levantou os olhos em direção a Shigure. Fez um pequeno gesto, pedindo que se adiantasse.
Ele adentrou o círculo, ficando a poucos passos de Hiei. A mão segurava a enorme arma circular que envolvia seu corpo. Por um instante, Mukuro e Shigure apenas se encararam em silêncio, como pudessem se comunicar sem trocar nenhuma palavra. Ela acenou discretamente, e o cirurgião, compreendendo o gesto, ergueu a espada. Mais um aceno e a espada desceu, um movimento curto e seco, mas tão rápido que o som da lâmina só foi ouvido um segundo depois. O grito de Hiei veio logo em seguida. Alto o bastante para abafar o susto de Rina.
O youkai que segurava seu braço direito o soltou, e a parte amputada do membro caiu no chão, cortado rente ao cotovelo. Um esguicho de sangue se seguiu, inundando o chão e formando rápido uma poça debaixo do braço arrancado. Rina mais uma vez precisou prender a respiração para evitar reagir ainda mais à cena e deixar a turbulência dentro dela vir à tona. Cada ato seu ali poderia colocar os dois em risco — e nenhum dos dois estava na menor condição de lutar. Mas por dentro, tudo que pensava era em quanto queria fazer Mukuro pagar.
Dentro do círculo, Hiei se esforçava para olhar para cima em direção de Mukuro, o rosto machucado exibindo um misto de raiva e dor. Ele arfava, dividindo a respiração com os gemidos que tentava censurar.
— Levem-no para enfermaria para estancar esse sangue — ela ordenou — E se assegurem dessa vez que não escape.
Um pequeno falatório se formou enquanto Hiei era arrastado para longe dali, deixando o sangue seguir seu rastro. Já não mais se debatia como antes.
Parte dos youkais presentes se dispersou, parte seguiu acompanhando a cena, talvez ansiosos para o que mais poderia acontecer ali, como se finalmente se dessem conta da presença de Rina algemada ao lado de Mukuro.
— E quanto a você — Mukuro se virou para Rina — fique feliz. Estou o mantendo vivo como deseja, não é mesmo? E se quiser que as coisas continuem assim, sugiro cooperar.
— Não vai matá-lo enquanto ele tiver a informação que você quer.
Ela se aproximou de Rina. Sua energia parecia ainda mais forte.
— Talvez julgue que meu interesse na localização desse homem é maior do que realmente é. A única coisa em suas mãos nesse momento é a sua sobrevivência, então pense com cuidado em suas palavras e ações. Eu não arriscaria me irritar ainda mais se fosse você.
E antes que Rina pudesse falar mais alguma coisa, Mukuro ordenou para que fosse levada. Ela sabia que não teria opções, que ficaria ali independente de sua vontade e de sua resposta em relação à proposta de Mukuro de colaborar com o que quer que fosse que a rainha tinha em mente. Mas sabia que manter uma fronte ofensiva traria mais problemas do que soluções. O caminho ali precisava ser outro.
— Está bem — ela falou, alto o suficiente para a voz alcançar a youkai antes que a distância entre as duas estivesse grande demais — Terá minha total colaboração se prometer que irá mesmo me libertar quando já estiver satisfeita.
Mukuro a olhou, como se atestando que ouvira a resposta.
— Tem minha palavra — respondeu, voltando a se afastar, já com a feição satisfeita e diabólica de volta ao rosto.
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