Visceral

13 Cativeiro


Notas iniciais
Oi, oi! As atualizações caminham devagar, mas seguem caminhando haha O capítulo de hoje é focado na Rina. Queria (muito!) trazer o Hiei de volta à cena, mas não encontrei brecha, então deixo ele para o capítulo seguinte. Espero que gostem!

O salão era amplo e vazio. O que ela chamava de quarto era um ambiente úmido, esculpido por colunas irregulares de pedra, sem janelas e sem conforto. Um tatame no canto, cercado por almofadas e um cobertor gasto, servia de cama. Tinha direito a comida, água e à higiene — supervisionada. A hospitalidade de Mukuro terminava ali.

Mukuro insistia que aquilo não era um confinamento — mas era. Nada a acorrentava fisicamente, no entanto a liberdade era ilusória e circular pelo quarto vazio parecia inútil, um desperdício de energia. Só podia sair escoltada. E, quando saía, era sempre para ir ao mesmo laboratório de sempre, onde tinha o sangue e outros materiais colhidos. Burlar essa regra era um plano adormecido, pelo menos por enquanto. Sem as condições ideais, qualquer tentativa seria fracassada. Já tinha falhado uma vez, não cometeria o erro novamente.

Rina tentava coletar informações sempre que podia. Perguntava casualmente sobre as rotinas do lugar, mostrava curiosidade sobre as áreas que nunca tinha acesso e pedia detalhes sobre os aparelhos. Mukuro era engenhosa demais e sabia calcular suas respostas com precisão. Os outros guardas, nem tanto — era com eles que tentava a sorte com mais frequência.

— O que é aquela porta? — arriscou uma vez.

— Uma escada de serviço entre os andares — um soldado que acompanhava respondeu — Seu acesso não está autorizado.

Infelizmente, momentos assim eram escassos. Mukuro era presença constante, o que, de certa forma, concedia a Rina um certo status privilegiado ao caminhar pelos corredores e dirigir a palavra à comandante, que não demonstrava a menor cautela em sua presença.

Segundo Mukuro, isso era um sinal não apenas de que cumpria sua palavra, mas também da estima que tinha por Rina. Ela deveria se sentir honrada. Eram poucos que recebiam um tratamento como aquele.

Mas para Rina, não havia nada de honra ou de estima. Aquilo não era gratificante. Era humilhante. Uma lembrança da impotência de Rina, que, mesmo sem algemas, continuava incapaz de qualquer movimento.

— Não tem medo que eu fuja? — ela perguntou uma vez.

— Não fugirá — Mukuro respondeu com um sorriso no rosto. Havia uma certeza absoluta naquelas palavras, e Rina as compartilhava. Ao menos por enquanto.

Era quase como se toda a despreocupação de Mukuro em relação ao seu comportamento fosse seu maior grilhão. Instalava em Rina a certeza de que, qualquer que fosse sua tentativa, não terminaria bem para ela.

Suas primeiras semanas nessas condições foram fundamentadas por espera e incerteza. Passava um tempo interminável a sós entre os exames laboratoriais, sem distinguir a manhã da noite ou um dia do outro, em um limbo infernal em que a realidade parecia cada vez mais descolada do corpo. Por muito tempo, não teve notícias nem visitas. Chegou a pensar que eventualmente seria esquecida em sua clausura.

Ela despertou de seu estado de oblívio quando um dos soldados de Mukuro apareceu em sua porta para escoltá-la mais uma vez. Levou-a para o laboratório que ela já conhecia, refazendo o único caminho que Rina havia decorado.

Mukuro a esperava lá, acompanhada de outro youkai. Ele tinha pranchetas na mão e uma expressão ansiosa no rosto. A cada dois segundos, olhava para os laudos que carregava, revirando as folhas como se algo pudesse ter mudado entre os breves momentos em que tirava os olhos dos papéis.

Assim que o soldado deixou os três a sós, Mukuro pediu que o outro youkai prosseguisse. Ele limpou a garganta.

— Como estava falando, senhora, os genes detectados são bem antigos — ele começou — Não conseguimos decodificar tudo, mas, pelos nossos testes, que refizemos mais de uma vez, indica pertencer a uma das linhagens primordiais do Makai. É uma das sequências mais puras que já encontramos.

Mukuro acenou lentamente, como se estivesse compreendendo aos poucos aquele resultado e deixando que se afundasse dentro da cabeça. Rina não ousou dizer uma única palavra. Ia igualmente deixando que o sentido se revelasse passo a passo em sua mente, as frases se desdobrando e anunciando novos significados.

O técnico então continuou sua apresentação, entrando no complexo campo dos termos científicos. Seguiu-se a preleção por mais algum tempo, com explicações complicadas e jargões que Rina abstraíra completamente, até Mukuro pedir que interrompesse.

— Qual a correspondência mais próxima? — ela perguntou.

O técnico olhou para Rina, em seguida para Mukuro. Hesitou um instante.

— É difícil precisar. Muitas raças e famílias de youkais precedem nossos estudos, e não possuímos exemplos genéticos suficientes em nosso banco de dados.

— Mas se tivesse que opinar, diria que a linhagem pode vir dos Yuuma?

E ele hesitou novamente. Dessa vez, por mais tempo. Pigarreou.

— Diria que é possível, sim — respondeu depois de um tempo.

Mukuro não sorriu nem mudou sua expressão. Apenas concordou em silêncio, lançando um olhar demorado para Rina, como se a jovem agora fosse tingida de outras cores. Acenou com a cabeça para ela, e Rina correspondeu, indicando que havia entendido. Mukuro havia dado sua palavra de que analisaria a linhagem de Rina, e agora entregava o fruto de sua promessa.

Não era benevolência, muito menos um favor; era um recado. Aquilo somente indicava a Rina de que sua estadia ali estava longe de terminar. Mas para ela, também indicava outra coisa.

Enquanto tivesse utilidade para a soberana, continuaria viva.

Mukuro agradeceu ao profissional e pediu que ele prosseguisse com os testes necessários, deixando Rina e o técnico a sós no laboratório.

Rina ficou em silêncio, a cabeça bem longe dali. Yusuke estava certo no final das contas. Teria então uma família a sua espera naquele mundo?

Tinha passado anos, praticamente sua vida inteira, buscando uma explicação para coisas que não tinham nenhuma. Sentiu raiva, uma ansiedade no peito, e lembrou do juramento feito a si mesma de que o mataria se o encontrasse.

Ele era tudo que tinha, mas também tudo que ela não queria ter. Rejeitava aquela herança genética com o horror de quem rejeita uma calamidade. Se pudesse, abriria as próprias veias e arrancaria aquele sangue.

Era estranho. Nunca se sentiu em casa no Mundo dos Humanos, mas agora que habitava e convivia com demônios, a estranheza permanecia, como se lugar nenhum fosse seu lar. Como se precisasse continuar lutando pela própria sobrevivência.

A dor queria lhe arrebentar de dentro para fora, e sequer notou que já estava posicionada dentro de uma das máquinas do laboratório, agulhas a injetando uma substância ardida. Pensou em gritar, mas, em vez disso, adormeceu.

(…)

A ampla ala do laboratório havia se tornado sua segunda casa. Conheceu todas as câmaras e seus equipamentos, e seu corpo serviu de cobaia para instrumentos que ela nunca antes havia visto. Descobriu que a tecnologia de Mukuro era uma das mais avançadas e que a youkai se orgulhava dos avanços conquistados por seu time.

Estudar Rina fazia parte de seu ambicioso projeto de melhorar a performance de seus soldados — ou, ao menos, era o que ela lhe falava. Seus especialistas acreditavam que a memória genética presente em suas células e em seu youki tinha potencial ainda não explorado. Por isso, a coleta de materiais fazia parte da rotina. Sangue, pele, secreções e até o cabelo de Rina eram enviados para análise.

Muitas vezes, conversavam sobre ela como se não estivesse presente. Ou como se fosse apenas mais um tubo de ensaio, uma cobaia sem autonomia.

Mal tinha acordado quando ouviu vozes. Estava grogue demais para distinguir qualquer coisa, apenas a sensação típica de formigamento que sentia sempre que acordava.

— Fascinante, não acha?

Rina virou-se lentamente. Um dos cientistas de Mukuro, com seu jaleco branco, estava de costas para ela, com a comandante ao seu lado. Os dois olhavam para um conjunto de monitores que o cientista nervosamente ajustava.

Na tela, Rina desaparecia e reaparecia alguns segundos depois, em uma filmagem claramente acelerada.

— Nunca tinha visto algo assim antes — o mesmo youkai de jaleco comentou, aumentando a resolução das imagens e voltando o vídeo para que vissem a gravação novamente.

Mukuro inclinou-se levemente, estudando o monitor.

— Explique o mecanismo — ordenou, sem desviar o olhar da tela.

— Pelo que observamos, não é invisibilidade no sentido convencional — começou o cientista, abrindo um gráfico tridimensional ao lado das imagens — Alguns demônios podem até se tornar ligeiramente translúcidos, mas o que ela faz é fundamentalmente diferente. Muito mais sofisticado.

O cientista ampliou uma seção do gráfico onde linhas de energia formavam padrões concêntricos ao redor da silhueta de Rina.

— Ela gera um campo energético extremamente refinado envolvendo seu corpo. É como... — ele buscou as palavras — uma membrana que captura as informações do ambiente, como cor e textura, e projeta uma simulação sobre si mesma. Isso consegue confundir a forma como nossa visão capta a luz ao redor e engana o cérebro de quem observa. Quando perfeitamente executado, a sensação é de invisibilidade.

Rina piscou, ouvindo a explicação. Não conhecia a dinâmica da sua habilidade e nunca tinha refletido sobre o que fazia em termos técnicos.

Mukuro se virou para olhar para Rina.

— Um dom natural de sua raça? — perguntou, ainda fixada em Rina deitada na maca — Ou desenvolvido por ela?

Rina não disse nada. O cientista pigarreou.

— As duas coisas, eu diria. A capacidade genética está claramente presente. Já conseguimos mapear alguns genes que creio serem os responsáveis por facilitar tal habilidade… Mas a precisão com que ela controla talvez indique anos de prática consciente — O cientista pausou o vídeo no momento exato em que Rina começava a desaparecer — Veja como o processo é ativado. Não é desordenado. É meticulosamente controlado.

Mukuro voltou a analisar os padrões exibidos nas telas.

— Alguma limitação?

— Temos algumas teorias, mas só um estudo mais aprofundado nos daria a verdadeira dimensão do poder e de suas insuficiências — ele disse — Se possível, gostaríamos de fazer alguns testes adicionais... Posso fazer uma apresentação detalhada do que pretendemos e, se aprovado-

— Não há necessidade. Podem começar imediatamente — disse, interrompendo o cientista.

Mukuro afastou-se da tela, um brilho calculista em seu olhar. Ela se virou novamente para Rina.

O cientista assentiu e se dirigiu a outra bancada. Rina ouviu o tilintar dos apetrechos técnicos, de vidro e metal e de soluções aquosas.

— Que testes adicionais? — ela perguntou quando o cientista veio até ela com uma seringa na mão.

Não obteve resposta.

Sentiu uma picada na pele. O ardor corroeu seus vasos sanguíneos.

Tentou resistir, mas o sono sempre vinha em ondas implacáveis, a arrastando todas as vezes em que tentava ficar alerta.

Quando acordou, já estava de volta ao seu quarto.

(…)

— Precisa se hidratar mais — Mukuro falou, vendo a jarra com água ainda cheia ao lado do tatame — Isso pode afetar os testes.

Era raro visitá-la daquele modo, sem um propósito visível; por isso, Rina aprendera a se deixar na defensiva assim que Mukuro entrava em sua câmara. Não apenas por cautela — sabia perfeitamente do que a rainha era capaz de fazer quando contrariada — mas também para disfarçar a angústia que sentia por não ter ainda avançado como queria em seus planos de encontrar uma saída.

A exaustão que sentia semana após semana só contribuía para sua sensação de fraqueza diante daquele desafio, e a desorientação por vezes demorava a passar. Acordava e dormia sem nem se lembrar. E suspeitava que passava mais tempo desacordada do que desperta. Dores surgiam pelo corpo sem que ela entendesse ou lembrasse de nada. Desde a apresentação do especialista sobre sua habilidade, os exames pareciam cada vez piores. Mais longos. Mais dolorosos. E sua memória sobre eles, cada vez mais confusa e apagada.

Mas as ganas de lutar nunca morriam, mesmo sob todas as tentativas de Mukuro de esmigalhar seu espírito. Quando acordada, treinava aumentar e esconder sua energia, apenas para se certificar de que continuava tendo controle. Também tentara, inúmeras vezes, produzir algum objeto cortante com o que encontrava pelo quarto ou até roubar algo do laboratório — esses planos, no entanto, sem sucesso.

— Me traga um bourbon da próxima vez — Rina respondeu — Talvez assim eu consiga ingerir mais líquidos.

— Vai poder beber todo o álcool que quiser quando sair daqui.

Rina soltou uma risada seca. Estava sentada no chão, longe de Mukuro, segurando os joelhos com os braços. Olhou para a youkai, de pé a alguns metros dela.

— Insiste nessa mentira? Nunca vou sair desse lugar se depender de você.

— Não seja exagerada. Estamos quase concluindo as pesquisas. O que são mais alguns meses para alguém que vive séculos?

A cabeça de Rina balançou, incrédula e sarcástica.

Chegou a tentar marcar o tempo que passava ali, riscando pequenos traços numa pedra solta da parede. Após duas semanas, porém, começou a perder as contas — principalmente por não ter mais noção da passagem do tempo ou quantas horas passava dormindo ou acordada. A sensação era de cansaço constante.

Um desgosto sem fim a engolia. O corpo por dentro parecia em chamas, não apenas literalmente, por conta das substâncias que era obrigada a ingerir para os intrincados exames a que era submetida; mas também pela raiva que sentia por ter se permitido ficar tão a mercê de Mukuro, ter se deixado dominar tanto de pouco a pouco.

Hiei a chamaria de idiota por não ter oferecido resistência e aceitado tudo tão docilmente. Principalmente ele, que tinha enfrentado tanta coisa.

A ponto de perder um braço.

O pensamento trouxe de volta a lembrança mais dolorosa de todas. A cena de sua mutilação apareceu em suas visões quando menos esperava. Do sangue empoçando debaixo dele, de como tinha sido arrastado. Do uivo horripilante que ele não conseguiu segurar.

Nunca tinha visto Hiei assim. Nunca sequer achou que o ouviria gritar de dor daquele jeito.

Teria sobrevivido aos ferimentos? Provavelmente. Hiei era resistente demais para ser derrubado por qualquer coisa. Quase conseguia visualizá-lo falando isso, apoiando as costas na parede do seu quarto e lançando para ela um olhar convencido. "Acha que vou desistir de lutar por causa de um braço a menos?", ele certamente diria.

Sabia que ele ainda devia estar por lá — ou ao menos preferia acreditar nisso. Era melhor do que a hipótese contrária: de que já tinha sido executado. Mas achava que se fosse o caso, a confirmação já teria chegado até ela.

Portanto, a ausência de notícias só poderia ser uma boa notícia.

Ninguém nunca abordava o assunto, e ela evitava perguntar, preferindo deixar que as preocupações permanecessem apenas na sua cabeça, sem levá-las ao mundo real. Calculava as palavras que projetava, pois não confiava naqueles que a rodeavam e mentia com facilidade sempre que era preciso.

— Está sendo ingrata. Não é minha prisioneira. Está vendo alguma algema? — Mukuro falou.

— Então posso ir embora a hora que eu quiser?

— Sabe que é perigoso sair sozinha agora que os exames revelaram que sua linhagem é de fato tão ancestral quanto alegavam ser. Principalmente se não estiver familiarizada com a região. Era mais fácil quando tinha companhia, não era?

Rina deu de ombros. Preferiu não responder a última parte, sabendo que era apenas uma isca de Mukuro para provocar reações. Que falasse de Hiei, se tanto queria; não seria Rina quem iria perguntar.

— Sei me virar. Nunca tive problemas com isso antes.

— Antes era uma youkai em um mundo com humanos. O Makai é diferente. É um mundo hostil o que vivemos. Já teria sido molestada se não fosse por mim — Mukuro falou, deixando a malícia escorrer da voz — Mais de uma vez.

— O que isso significa?

— Que meus soldados teriam prazer em violentá-la.

Os olhos de Rina se estreitaram. Uma ameaça?

— Eles que ousem tentar — respondeu.

Mukuro sorriu.

— Não se preocupe. Os proibi de se aproximarem. Ao menos enquanto estiver cooperando.

— Que gentileza…

Rina desfez o contato visual, preferindo encarar o vazio ao seu lado enquanto segurava o nervosismo. Não poderia se deixar abalar.

As conversas com Mukuro eram recheadas de provocações, pontuadas por sutis indiretas que a faziam lembrar de como Rina estava nas mãos da rainha. Não havia segurança alguma a cercando quando estavam a sós, e o pescoço de Mukuro era tão acessível que chegava a doer em Rina toda a impotência que a situação provocava.

Sua fraqueza naquela situação era esfregada em sua cara toda vez que Mukuro aparecia em seu campo de visão, causando mais dano do que qualquer experimento que participasse em seu laboratório.

Rina não tinha mais sua adaga, mas, mesmo que ainda a tivesse, conseguiria realizar o feito de abrir um rasgo no corpo de Mukuro? De sequer a ferir?

Ela era realista demais para saber que não.

— Espero apenas que entenda seu lugar — Mukuro falou, desta vez se aproximando — Se tivesse a chance, retomaria sua jornada com Hiei?

O nome novamente. Mukuro a olhava de perto, atenta. Não havia inocência em seu olhar nem em suas palavras. O que estava querendo saber? Ou era apenas uma provocação pela provocação?

— De que me adianta um espadachim que não pode mais manejar uma espada? — Rina respondeu, arrancando outro sorriso da youkai.

— Fala como se não soubesse que Hiei possui muitas outras qualidades…

Rina segurou os joelhos com mais força. Cerrou os dentes para não dar a resposta que entalava a garganta e deixou que Mukuro risse de sua falsa indiferença. Ela saiu sem se despedir, e tudo ficou vazio novamente.

(…)

Foi Shigure o primeiro a notar o começo de uma febre queimando a testa de Rina. Era um dos poucos youkais da fortaleza que possuíam autorização para interagirem com Rina a sós, apesar dos encontros serem esparsos e limitados.

Estavam no salão onde Rina passava seus momentos quando não tinha tubos presos ao corpo durante os testes do laboratório, seu semblante um pouco mais apático do que o normal. Shigure não se revelou surpreso ao notar a temperatura em suas têmporas; em vez disso, o demônio suspirou discretamente, como se reconhecesse algo que não poderia evitar.

— Posso examiná-la? — ele perguntou.

Rina entendeu. Ela o encarou em silêncio por um segundo e estendeu a perna no chão frio. Não havia mais feridas abertas ou pele necrosada como quando tinha chegado à fortaleza, mas manchas claras, quase imperceptíveis, despontavam timidamente por debaixo da epiderme.

Ele a tocou em alguns pontos. A pele estava quente.

— Dói?

Ela fez que "não" com a cabeça. Shigure suspirou novamente.

— Por que não pede a Mukuro que a deixe utilizar seus tanques de recuperação? Posso interceder, se qui-

— Não quero — Rina o cortou — Não darei a ela mais motivos para me prender aqui. Ou dever favores.

Shigure a encarou por alguns segundos e deixou que recolhesse a perna. Rina olhava impassível para lugar nenhum.

— Há quanto tempo tem isso?

Ela apenas balançou a cabeça, o lábio curvado, escancarando a indisposição para a conversa.

— Seria melhor se fizesse menos perguntas.

— Seria melhor se as respondesse — E Shigure sorriu preocupado — Pedi a Mukuro que me deixasse revisar seus testes genéticos. Os resultados são bem conclusivos.

— Que bom — Rina respondeu em um tom monocórdio.

— Rina — ele falou, pensando um pouco antes de continuar. Levou a mão ao queixo e estreitou os olhos — Você sabe por que as manchas estão reaparecendo.

Rina sabia. E Shigure também sabia; ela tinha certeza. O cirurgião não era estúpido. Deve ter desconfiado desde o começo que as frutas, sozinhas, não seriam capazes de deixá-la tão mal, tão rápido. Que havia algo a corroendo por dentro desde muito antes.

E provavelmente um dos milhões de exames que tinha feito naquele lugar tinha apontado alguma anomalia discreta. Shigure não apenas devia ser o único ali a tratando como gente, mas também o único perspicaz o bastante para identificar tal anomalia, somar dois mais dois e chegar na única conclusão possível.

Rina estava doente.

Seu rosto, no entanto, não lhe traiu e manteve a ansiedade toda dentro peito. Conjurando todo o cinismo que havia aprendido a cultivar, sorriu para ele.

— Claro que sei — disse apenas.

— Por que não me contou?

— Por acaso faria alguma diferença? — perguntou, sem esperar resposta.

Ele franziu os lábios, claramente insatisfeito com a atitude dela.

— Se for autoimune, como suspeito, provavelmente não. Eu a tratei como pude e consegui estabilizar a condição. Os sintomas devem demorar a voltar, e talvez sejam menos severos. Está sob controle por enquanto. Mas não está curada.

— Já imaginava.

— Suponho que também não falou nada para Hiei.

Rina inspirou fundo. Fechou os olhos, evitando ter que encarar Shigure, mas os abriu logo em seguida para olhar para a outra direção.

Tinha sentido dores no corpo, especialmente na perna, desde os primeiros dias no Makai. Era seu corpo reagindo. Ela ainda não sabia que era sua enfermidade vindo à tona — fazia anos que os sintomas estavam em remissão — mas devia ter suspeitado.

E, mesmo que soubesse, não teria dito uma só palavra a Hiei.

— Não sabia que devia satisfações a ele.

Shigure ficou a olhando intensamente sem esboçar nenhuma palavra ou emoção, apenas mantendo os lábios cerrados. As argolas ao redor da boca e da mandíbula cintilavam, e Rina podia ver seu reflexo distorcido nos aros maiores: uma mistura de rosa pálido com o branco das vestes hospitalares.

Aquela inexpressividade a incomodou. Não que preferisse uma reação dramática da parte dele, mas por remeter a outra ocasião, na qual Shigure também demonstrou o mesmo comportamento frio como o metal dos seus acessórios.

Em um impulso, ela esticou o corpo para frente. Segurou o braço de Shigure e chegou perto de seu rosto, apertando a pele do demônio com força entre os dedos.

— Eu não esqueci o que você fez com Hiei — ela falou em voz baixa e tom ameaçador. Apertou um pouco mais seu braço e o encarou com firmeza, os rostos apenas centímetros um do outro.

Ele a encarou de volta, mas não demorou para que, desta vez, a boca se repuxasse em um sorriso enviesado.

— É mesmo bem nova no Makai — ele falou — para achar que isso foi o pior que poderia acontecer com ele. Não sou seu inimigo aqui, embora entenda que me veja assim. Mas está direcionando sua frustração para o lugar errado.

Rina o soltou e voltou para o lugar, mantendo um pouco o olhar afiado, mas sem conseguir fazer a palpitação acalmar. A própria cabeça dava voltas e chegava a doer. Discretamente, prendeu uma mão na outra. Estavam frias como gelo, apesar da febre — mas estáveis.

Ele a olhou por mais um tempo, como se considerando o que estava prestes a fazer.

— Talvez não saiba, mas reinos menores estão cogitando um ataque — Shigure contou — Os boatos existem desde que você chegou aqui, mas, com sua permanência, os ânimos se acirraram, e agora a investida é iminente. Não gostam da ideia de que Mukuro está mantendo uma youkai de uma linhagem tão poderosa em seus domínios.

— Poderosa — Rina zombou — Não ficariam tão impressionados se me vissem aqui.

Aparentemente, todos naquele mundo já haviam decidido quem ela era. Uma figura mítica, imponente, que deveria ser temida apenas com base em lendas de uma época em que provavelmente ninguém ali existia ou lembrava.

Enquanto isso, Rina não tinha liberdade nem para ir ao banheiro sozinha.

— Está subestimando sua origem. E esperava que tivesse mais fortitude mental. Achei que levaria mais tempo para que Mukuro conseguisse te quebrar…

— Não estou quebrada! — reagiu, aumentando intencionalmente a energia que liberava — Precisa de muito mais do que isso para me quebrar.

Ele voltou a sorrir satisfeito, os braços cruzados na frente do corpo. A pose o fazia parecer ainda maior do que era, mas o rosto agora parecia suavizado, as linhas não tão duras quanto antes. Os piercings voltaram a tilintar.

— Por acaso sabe quanto tempo está aqui? — ele perguntou.

— Tenho uma ideia — ela respondeu, hesitante em mostrar quão desorientada estava.

— É normal perder a noção do tempo nessas condições.

Rina olhou para ele demoradamente.

— Quanto? — perguntou, enfim.

— Quatro meses.

Ela emudeceu. Arregalou os olhos. O número a deixou desnorteada. Sua chegada no Makai parecia ter sido ontem, de tão rápido que tudo tinha acontecido, mas, ao mesmo tempo, era como se tivesse passado a vida inteira naquela fortaleza.

Shigure tinha razão: sua noção de tempo estava completamente bagunçada.

— Por mais quanto tempo Mukuro pretende me manter aqui?

— Isso depende.

— Do quê?

— Da utilidade que ela acha que você tem. Não se decidiu ainda.

Rina soltou uma risada fria.

— Ótimo.

Shigure fez um som discreto, e Rina pensou que ele se levantaria e a deixaria. Em vez disso, no entanto, permaneceu no lugar e voltou a levar a mão ao queixo, pensativo.

— Posso ajudá-la, talvez.

Ela franziu a testa, esperando explicações.

— Como assim?

— Posso… dar uma vantagem. Se souber usá-la, conseguirá sair daqui.

— Por que faria isso?

— Você tem um objetivo. Uma motivação. Respeito isso.

Rina o encarou. As sobrancelhas se ergueram e ela pensou com cuidado no que deveria esperar de Shigure. Se deveria confiar em alguém que já havia mostrado seguir as ordens de Mukuro tão de perto e sem contestação. O olhou com intensidade, com um peso que chegava a ser tangível.

— Que tipo de vantagem?

— Posso lhe conseguir uma arma. E garantir que as atenções durante a invasão estejam longe daqui.

Ela ponderou por um tempo enquanto digeria a solução que ele propunha. Talvez aquela fosse sua melhor opção. Se fosse uma armadilha, seria seu fim, mas que alternativas restavam?

— Como vou poder escapar? Ainda que eu saia desse quarto e chegue nos portões, as entradas vão estar todas comprometidas, ou com segurança reforçada.

— Nem todas as rotas são óbvias. As entradas principais ficam na base da fortaleza, é verdade. Mas também é possível acessar a área externa se seguir pelo caminho oposto.

Rina apenas balançou a cabeça em concordância, tentando entender o que ele queria dizer. Shigure não forneceu mais detalhes.

— Muito bem — ele continuou — Como falei, posso ajudá-la. Mas isso não sairá de graça.

— Naturalmente, eu deveria imaginar. O que quer de mim?

— Quando reencontrar Hiei, quero que conte a verdade a ele.

As paredes absorveram as palavras, e o silêncio se instaurou. Longos e demorados minutos, em que Shigure permanecia sério e Rina processava com confusão o pedido.

A primeira coisa que ouviu foi o nome de Hiei. Sempre suspeitou que ele estivesse vivo, mas ter a confirmação foi como se uma pedra tivesse sido levantada do seu peito. Uma fagulha de esperança acendeu dentro dela.

— Ele está vivo? Onde? Como vou conseguir encontrar com ele?

— Não me preocuparia com isso se fosse você. Hiei tem suas próprias artimanhas. Se tentar procurar por ele, colocará em risco sua própria fuga, e eu acho que sair daqui deveria ser sua prioridade. Pode não haver outra oportunidade depois — E, em seguida, fez uma pausa. Continuou — Você entendeu o que eu pedi?

Rina olhou para ele. Pensou novamente no que ele havia dito — "quando reencontrar Hiei".

Mas depois se focou no restante da frase. E então franziu a testa.

Julgou não ter ouvido certo. Ou não ter entendido. Molhou o lábio, apertou a própria mão, inclinou o rosto procurando uma explicação.

— O que isso quer dizer? Conte o quê?

— Não costumo pedir pagamentos materiais de meus pacientes, mas sim algo que lhe custe um pedaço da alma. Não solicitei nada durante a operação, mas agora já me decidi: quero que revele o que está escondendo para Hiei.

— É só isso? — perguntou cautelosa.

Ele confirmou, igualmente sério. Rina não soube o que responder. Como poderia esperar algo tão intrinsecamente inesperado? Fugiu-lhe qualquer reação, e as palavras saíram quase que sem controle.

— Tudo bem.

Mas ela sabia que não estava.