Visceral

34 Sem medo, sem recuo


— Ainda quer continuar? — Hiei perguntou.

Rina não respondeu. Apenas continuou encarando o contorno da cidade que surgia no horizonte. Parecia pequena vista dali, rústica também. O prédio mais alto não devia ter mais do que três andares, e, de longe, não via quase movimentação nenhuma de carroças ou pedestres. Mas, por via das dúvidas, Rina manteve sua energia escondida.

Com exceção da comunidade ribeirinha por onde tinham passado semanas atrás, os dois vinham evitando cidades e centros comerciais desde que descobriram o cartaz com a recompensa pela captura de Rina. Não que isso tivesse impedido os dois de terem sido atacados, mesmo assim — e essa tinha sido justamente uma das ponderações de Rina quando ela sugeriu que procurassem uma estalagem em vez de acampar ao relento, como sempre.

Os dois tinham parado mais uma vez na beira do córrego raso depois de deixarem a fortaleza destruída de Haru para trás. Com os pés na água, enquanto Hiei exercitava o controle do braço, Rina estudava os pergaminhos com calma. Ali tinha mais história do que ela poderia dar conta de uma vez só, mas, no momento, o que interessava a ela era encontrar um lugar para ficar. Para guardar os tesouros que tinha herdado. Para terem alguma base para onde voltar quando tudo ficasse difícil demais.

— Tem um abrigo Yuuma não muito longe daqui — ela falou.

Rina comparou os documentos com o velho mapa que ainda carregavam. Ele já estava amassado, rasgado nas bordas, um pouco desbotado. Mas ainda servia. Do mapa, ergueu o rosto para encarar o horizonte. Não havia nada ao redor além da terra seca. Ali, até achar comida estava sendo um problema.

Hiei se aproximou. Conferiu os papéis, o mapa, as coordenadas.

— É pelo menos um dia e meio daqui — falou.

Rina assentiu, ainda sem tirar os olhos de tudo.

— Tem uma cidade no caminho — disse, apontando para um nome já quase apagado no mapa — Se formos agora, chegamos antes de anoitecer. Podemos passar a noite lá.

Hiei demorou um segundo para responder.

— Ainda está sendo procurada — ele observou — Já esqueceu?

— Eu sei. Não esqueci. Mas também não me importo mais.

Ela se virou para ele. Hiei ergueu uma sobrancelha.

— Nós precisamos de comida. De suprimentos. E de uma cama decente — Rina enumerou — Não aguento mais dormir no chão.

Hiei ficou quieto por mais um tempo, os braços cruzados, o semblante sério. Depois, riu, um pouco sarcástico.

— Eu não sei se está sendo irresponsável ou só convencida…

Sentou do lado dela. Puxou o mapa para ver melhor.

— Você acha que vou ter medo de caçadores de recompensa depois de ter enfrentado o Reikai?

— Hum — ele murmurou, ainda com um sorriso no canto da boca, focado no papel amassado em seu colo — Só convencida mesmo.

Rina o empurrou com o ombro.

— Bom, eu tive com quem aprender, não é?

Ele deu uma risada baixa mais uma vez. Mas depois, quando o assunto morreu, ele deixou o mapa de lado e puxou do bolso o comunicador do Reikai que ainda carregava. Estava em absoluto silêncio desde o dia anterior. Hiei tentou sintonizar de novo.

— Não funciona mais? — Rina perguntou, notando os chiados estáticos. Era o único som que conseguiam arrancar do dispositivo.

— Os idiotas devem ter mudado a frequência do canal. Não são tão burros quanto parecem.

E ele arremessou o aparelho no córrego. Os dois o observaram bater em uma das pedras, afundar, ser carregado pela correnteza. Lá se ia a única vantagem que Rina achou que teriam.

— Acha que eles vão desistir?

— Dificilmente — Hiei respondeu.

— Mesmo depois do que aconteceu?

— Principalmente depois do que aconteceu.

Rina suspirou. Estar na mira do Reikai não era exatamente como ela esperava que toda aquela jornada fosse terminar. Mas o que tinha saído como ela esperava, na verdade? Fazer as pazes com seu passado e aprender a admirar as memórias de Haru também jamais havia passado pela sua cabeça.

Ela então olhou de relance para Hiei, sentado ao seu lado.

Ter se apaixonado por ele, menos ainda.

— Vamos — ele disse, se levantando — Temos uma cidade pra alcançar antes do fim do dia. Ou quer mudar de ideia?

Estendeu a mão para ela, que a segurou e levantou também.

— De jeito nenhum — respondeu.

Rina pegou a moeda que tinha guardado no bolso. Sem medo, sem recuo. Até que não era um lema tão ruim.

(…)

Já anoitecia quando chegaram às margens da cidade. Felizmente, a perna de Rina já nem doía mais — ela não aguentava mais mascar aquelas cascas de árvore deixadas por Kurama. Ela olhou para o céu, o roxo escuro começando a engolir tudo, pontinhos brilhantes salpicados aqui e ali. Céu de ametista, Rina pensou. Estranho de um jeito bonito.

— Ainda quer continuar?

Ao longe, as luzes da cidade também começavam a surgir. Pequenas lamparinas penduradas em postes e paredes, que envolviam tudo em tons quentes e amarelados. Como se fossem estrelas. Ou vagalumes, guiando o caminho.

— Quero — ela respondeu.

O lugarejo era modesto, quase pobre, de chão de terra batida e comércio simples. O movimento era fraco, mesmo sendo a única cidade em um raio de quilômetros. Nem a taverna local parecia muito cheia ou barulhenta. Dois forasteiros como eles, ainda mais carregando quatro bolsas abarrotadas, não passariam despercebidos. Ainda assim, ninguém pareceu sequer virar o rosto enquanto eles passavam e não atraíram mais do que um ou outro olhar curioso — mas inofensivo. A normalidade seria tediosa, se não fosse tão excitante. Ao menos por uma noite, Rina ansiava pelo normal.

Encontraram uma estalagem no que devia ser a via principal do povoado. Era uma casa baixa e tradicional, acoplada a um armazém que já estava fechado naquela hora, mas onde poderiam se reabastecer na manhã seguinte. Parecia antiga, desgastada pelo tempo e pela falta de manutenção. Na porta, uma nota amarelada indicava que havia quartos disponíveis e uma área comum para banhos. Era tudo que precisavam.

Rina então parou diante da hospedaria. Inspirou fundo. E entrou.

Por dentro, era igualmente frugal. Tinha poucos adornos, mas uma aparência singela. Quando os dois pediram por um quarto, o demônio que os atendeu não demonstrou nenhuma reação além de uma mesura educada. Fez as perguntas de praxe, explicou os valores, os horários, as regras. Era o normal de novo, batendo na porta. Rina quase podia relaxar.

— Isso cobre a estadia? — ela perguntou, pegando uma das moedas de ouro da bolsa e depositando sobre o balcão.

Dessa vez, o youkai franziu a testa. Pegou a moeda para olhar melhor e, quando a virou em sua mão, o susto em seu rosto — e na voz — ficou evidente.

— Onde conseguiu isso?

— Não importa — Hiei respondeu, brusco — É dinheiro, não é?

— É dinheiro Yuuma!

O corpo de Rina reagiu antes que ela tivesse tempo de pensar. A mão ficou fria, a garganta fechou, a pulsação acelerou. E sua aura, inadvertidamente, se expandiu. A energia vibrou agitada como se tivesse vida própria, impossível de não ser notada. A tensão voltou para os ombros e para os músculos da face como se nunca tivesse saído. E toda a suposta normalidade agora se provava tão sólida quanto uma nuvem de fumaça.

— Algum problema? — Rina perguntou. Fechou a mão sobre o balcão, casando o gesto com um olhar fulminante.

O estalajadeiro arregalou os olhos e deu um passo para trás.

— N-nenhum — o youkai balbuciou, desviando o rosto, fugindo do de Rina — Só não quero confusão.

O youki de Rina ardeu por mais um pouco enquanto ela notava o pânico que tinha causado. A maneira como o demônio se retraía, como abaixava os olhos, submisso.

Até ela se dar conta do que estava fazendo.

— Nós também não — Rina respondeu, moderando o youki até torná-lo mais brando — Só um lugar pra passar a noite. Não vamos causar problemas.

— E se não quer confusão, recomendo manter essa boca fechada — Hiei acrescentou.

O demônio apenas concordou, balançando a cabeça em um gesto rápido e nervoso. Entregou uma chave e apontou para o corredor mais adiante, indicando o quarto e ainda evitando o contato visual.

Hiei recolheu a chave e seguiu na frente. Rina se virou para acompanhá-lo, mas antes algo a fez parar. Se voltou para o estalajadeiro, que se encolheu um pouco mais.

Ela apertou os lábios. Rina sempre fora uma pessoa reativa, principalmente quando se sentia ameaçada. Era um instinto. Sua maneira de se proteger, de não se deixar diminuir na frente de ninguém. E no Makai, quase tudo era uma ameaça.

Mas aquele estabelecimento era humilde; o dono, mais ainda. Havia sentido algum perigo na fala dele ou reagira por puro reflexo? Ela já não sabia mais dizer. Mas o comportamento do youkai havia mexido com ela.

Primeiro, porque ele sentira medo. Não um mero receio, ou desconfiança, ou raiva. Mas medo. Dela. De verdade.

E segundo, porque ela havia gostado.

Sua atitude, portanto, era legítima — ou, no fundo, só estava reforçando o mesmo estereótipo Yuuma que rejeitara durante a conversa com Haru?

Sem saber como remediar, ela então pegou mais uma moeda, de prata dessa vez, e depositou no balcão.

— Pode ficar com o troco — ela falou, empurrando o dinheiro na direção dele.

O youkai agradeceu com uma reverência curta, ainda nervosa. Rina suspirou mais uma vez e sumiu atrás de Hiei.

— O que foi aquilo? — ele perguntou quando chegaram no quarto — Por que a moeda extra?

— Só uma gorjeta.

Hiei não disse nada. Mas lançou-lhe um olhar apertado, sorrateiro. Durou menos de um segundo, mas para Rina, foi longo o suficiente para conter uma infinidade de julgamentos.

— Eu não preciso tentar aterrorizar todo mundo que encontro pela frente — ela se defendeu — Tem outros jeitos de ser levada a sério.

— Prefere pagar pra ser respeitada então?

Rina ameaçou rebater a provocação, mas acabou não falando nada. Queria dizer que não era bem assim, mas percebeu que era exatamente isso que seu gesto tinha dado a entender. E isso a irritou.

— Dinheiro e força bruta. Às vezes é só isso que funciona por aqui — Hiei comentou, com a naturalidade de quem já havia vivenciado aquilo dezenas de vezes.

Os dois largaram as bolsas, dando um descanso merecido para o ombro. O quarto era simples, com nada além do básico. Era forrado com tatame e dispunha apenas de uma mesa baixa e um armário onde acharam os futons que usariam para dormir. Nada muito luxuoso, mas, para Rina parecia um palacete.

— Você também deve achar que essa suposta tranquilidade do Makai não vai durar nada, não é? — ela perguntou, já tirando os futons e os espalhando no chão.

— Não vou ficar surpreso se um dia alguém decidir começar uma guerra. Youkais não precisam de muita coisa pra brigarem entre si.

Ela deixou a mente vagar. Foi até a janela, de onde podia ver um pouco da cidade. A rua quase vazia, a atmosfera pacata, as construções simplórias. Não parecia um lugar com ameaças à espreita, ou onde líderes disputavam poder. Estavam no meio do nada — e mesmo lá, o nome Yuuma era reconhecido. Era temido.

Pegou a moeda do bolso e a girou entre os dedos. Estava cada vez mais claro que carregar o estigma do clã era um destino do qual ela talvez jamais fosse conseguir fugir.

— Haru disse que eu devia estar preparada — ela falou, a voz um pouco distante. Rina estava lá, mas a mente estava longe, estava ainda na conversa com Haru — Que eu tinha que, eu não sei, reativar o clã de alguma maneira. Mas que clã, se não sobrou mais ninguém?

— Se quer estar preparada, você não precisa de um clã. Precisa de um exército.

Aquilo trouxe Rina de volta para o quarto. Ela se virou para ele. Hiei estava sentado no futon, costas inclinadas contra a parede em uma postura relaxada. A katana repousava do seu lado.

— Um exército?

— É o que qualquer um faz pra defender seu território. Até líderes menores têm ao menos uma tropa de capangas.

— Que território? Eu não sou líder de nada.

— Ainda não.

A resposta a pegou desprevenida. Por algum motivo, sentiu o rosto corar.

— Então é isso que acha que eu devia fazer? — ela perguntou — Reunir um exército pra lutar em meu nome?

Ele riu.

— Achei que não devia te dizer o que fazer — Hiei disse.

Rina sorriu também, mas o gesto foi breve. Ela achava que finalmente tinha entendido o Makai, que tinha compreendido quem era… apenas para descobrir que havia muito mais.

— Não se preocupe com isso agora. Foque em ficar mais forte, pode decidir o resto depois. O próximo torneio é em menos de dois anos e, se quiser testar seu poder contra os melhores, lá é um bom começo.

— Como assim? Que torneio?

— Pra escolher o novo líder do Makai.

— Um torneio pra decidir quem vai mandar no Makai inteiro? — Rina perguntou. Aquilo era novidade — Isso funciona?

Hiei deu de ombros.

— Ideia de Yusuke. Só tivemos um até agora. Enki ganhou, vai governar por três anos. Até vir o próximo.

— E todo mundo aceita o resultado?

Ele riu mais uma vez. Lançou um olhar oblíquo para ela.

— Você aceitaria? — perguntou, com um pouco de malícia. Como se estivesse querendo testá-la.

— Não sei. Depende.

— Do quê? Dos seus interesses?

Ela, novamente, não soube o que responder. Um campeonato para decidir o próximo líder do Makai talvez não fosse tão ruim. Dava estrutura, dava validação pública. Um poder obtido por força, e não por política, ao menos era honesto para um mundo como aquele, onde as métricas de sucesso eram muito diferentes do que estava acostumada.

Mas, ainda assim, a ideia parecia arriscada. Frágil. O Makai era plural demais, e Rina duvidava que todos fossem civilizados o suficiente para simplesmente acatar aquilo de bom grado por muito tempo. O que aconteceria se alguém se cansasse de esperar por uma chance a cada três anos? Ou se o próximo vencedor fosse simplesmente lunático demais, até para os padrões do Makai?

Ou, pior, se o segundo lugar fosse lunático demais?

Talvez Haru pensasse do mesmo jeito. Talvez fosse exatamente isso a que ele se referia ao afirmar que a paz não duraria muito por lá. E aquilo, ela pensou, era assustador.

Mas um pouco interessante também. No futuro, um exército realmente não seria uma má ideia.

Ela sentou-se no parapeito da janela, ainda pensativa. Mas quando o olhar caiu sobre Hiei, notou que ele ainda a encarava. E agora de um jeito fixo, predatório, quase perigoso. De um jeito que ela gostava de ser encarada — e que trazia à tona vontades que nenhum deles conseguia mais esconder.

— A ideia de um conflito deixa você tão animada assim? — ele provocou.

— Quem disse que eu estou animada com alguma coisa?

Mas Hiei continuava a fitá-la, e Rina sabia que ele não precisava do seu terceiro olho para enxergá-la por dentro.

Ele então se levantou e cruzou o quarto numa fração de segundo, parando diante dela. Rina separou instintivamente os joelhos, deixando Hiei se encaixar no vão entre as pernas dela, o espaço entre eles quase nulo.

— Vai negar que é isso que você quer? Uma desculpa pra mostrar sua força para o resto do mundo?

— E o que você quer, Hiei? — ela perguntou — Governar o Makai?

Os olhos dele se estreitaram. O canto da boca se curvou em um sorriso ladino.

— O que eu quero é ganhar o torneio — ele falou em uma voz baixa, mas grave, as mãos já a segurando pela cintura, o rosto a centímetros de distância — Posso deixar a liderança pra você.

Rina apoiou os braços nos ombros dele.

— Mas aí teria que me derrotar primeiro… não é? — ela respondeu.

A expressão dele se intensificou. Aproximou o rosto um pouco mais, devagar.

— Tão convencida…

E ele a apertou ainda mais. Colou o corpo no dela e prendeu sua boca em um beijo.

Rina o envolveu também, subindo as mãos pela nuca, deixando o cabelo dele passar devagar por entre seus dedos. Queria sentir cada fio. Não tinha urgência dessa vez, não tinha pressa. Tinha só vontade.

Quando o beijo ficou tórrido demais, Hiei a ergueu da janela. Ela enlaçou a cintura dele com as pernas e se deixou carregar, segurando o rosto dele com ainda mais firmeza, até sentir as costas batendo na parede. Hiei a pressionou ali, o corpo dele fazendo pressão sobre o dela, a esquentando por dentro como uma fornalha.

Os rostos se descolaram por um instante. Eles se encararam, um pouco sem fôlego. Rina ainda tinha as pernas presas em volta dele, e não as queria soltar. Mas lentamente desfez o enlace e ficou de pé, resistindo a vontade de beijá-lo de novo.

Em vez disso, levou as mãos até a própria blusa, procurando pelos botões. Começou a abri-los um a um, vendo a atenção de Hiei se dirigir imediatamente para seu colo. O olhar era ansioso, mas ele não a apressou. Deixou que ela continuasse devagar, como se estivesse se preparando para um ritual para o qual valia a pena esperar.

Quando terminou de desabotoar tudo, Rina deixou a blusa escorrer pelas costas até o chão, revelando o tecido escuro que cobria seu peito. Uma faixa simples, funcional. As bordas gastas, os nós nas costas levemente desalinhados. Ele a tocou, por cima do tecido primeiro, procurando o mamilo. Rina soltou um suspiro involuntário, mas outro, mais forte, se seguiu quando ele puxou a faixa para baixo, expôs seus seios e ela sentiu o toque dele em sua pele.

Ele afundou o rosto ali, uma mão massageando um lado, a boca percorrendo as curvas do outro. Rina fechou os olhos por um instante, admitindo a saudade que estava daquelas carícias. Dos lábios dele pelo seu corpo, das mãos apertando-a como se ela fosse dele. As preliminares com Hiei eram quase tão boas quanto o ato em si.

Hiei subiu pelo pescoço de Rina até encontrar sua boca novamente. Voltou a beijá-la, ainda sentindo o seio dela em sua palma, a ansiedade dele evidente pela forma como a tocava.

Rina queria senti-lo também, queria tê-lo nas mãos antes que ele a fizesse se desmanchar de prazer por completo, como sempre fazia. Então tateou até a calça dele, procurando a fivela do cinto. Abriu às cegas, empurrando a roupa para baixo, traçando os dedos pela virilha em um caminho sugestivo. Hiei reagiu intensificando o beijo. Apertou o pescoço de Rina ainda mais.

Ela o tocou de novo, exatamente como queria, agora envolvendo o membro por completo. Com firmeza. Sentiu o calor dele em sua mão, a maneira como pulsava reagindo a ela. Hiei interrompeu o beijo, sem conseguir suprimir um gemido assim que Rina começou o movimento. E grudou a testa no ombro dela, fechou os olhos e não fez questão de abafar o som. Agarrou o seio dela com ainda mais fervor.

Ficaram assim por um tempo, Rina gostando daquele contato tanto quanto ele. O beijou de leve no pescoço, vendo a nuca dele se arrepiar. Repetiu o carinho, subiu os lábios até a orelha, mordeu o lóbulo. Os gemidos que conseguiu tirar dele, à medida que acelerava, eram combustível para o fogo que já a consumia — quase foram suficientes para Rina se satisfazer. Se não quisesse tanto o sentir dentro dela, teria continuado até o fim.

Parou aos poucos, ele estremecendo de leve. Hiei abriu os olhos, a olhando por um segundo antes de mudar a atenção para o resto da roupa dela. Rina já estava abrindo a própria calça, mas ele se adiantou e terminou o trabalho, as mãos dos dois se encontrando.

Quando Rina se desvencilhou da calça, Hiei desceu as mãos pelas coxas dela com vontade, como se quisesse memorizar cada centímetro. Foi Rina quem se arrepiou dessa vez.

E de repente, ele a ergueu do chão. A levantou pelo quadril, apoiou-a contra a parede mais uma vez e de novo pressionou seu corpo contra o dela. Forte, como se não aguentasse esperar mais para concluir o que tinham começado. Quando finalmente o sentiu, Rina também não conseguiu segurar um gemido. Ela estremeceu, a respiração perdendo o ritmo. O apertou contra si, as unhas cravando no ombro dele, deixando que ele controlasse o movimento, que a empurrasse contra a parede com o vigor que ela já conhecia.

Com Hiei, prazer e dor sempre se misturavam de maneira explosiva. Mas, dessa vez, ela sentia que era mais do que apenas uma necessidade física sendo saciada. Dessa vez, era ele quem beijava seu pescoço, quem, mesmo arfando, mordia sua orelha, querendo também a provocar. Ou arrancar dela gritos mais altos — o que ele conseguiu.

Segurando com força, Hiei se empurrou ainda mais fundo, o suor escorrendo dos dois. Ela sabia que ele estava prestes a terminar pela maneira como tudo se intensificou: a velocidade, os barulhos, a maneira como ele a prensava. Até a energia dele estava mais feroz. Rina apertou as pernas ao redor dele como pôde, pressentindo que o mesmo aconteceria com ela em breve. E, quando aconteceu, foi quase em conjunto — algo se desmanchando dentro dela, no mesmo instante em que ele estremecia, os dois ainda presos um ao outro, sem se importar se estavam sendo ouvidos no quarto ao lado.

Rina demorou um pouco para desfazer o enlace das pernas. Ele demorou ainda mais para a soltar completamente. Ficaram juntos, Rina apoiada na parede, Hiei apoiado nela, os dois arquejando no ouvido um do outro, os peitos colados.

Mas, dessa vez, sem pressa de se separarem.

(…)

Depois de um tempo, foram para o futon, as roupas ainda espalhadas pelo chão, os corpos quentes demais para se cobrirem. Rina se deitou ao lado dele, a mão acariciando-lhe o peito de leve.

— Podíamos procurar alguma coisa pra comer — ela falou — Pra beber também.

Hiei ficou em silêncio por mais um tempo. Primeiro, encarando o teto; depois, virando-se para ela. Os olhos ainda pareciam famintos.

Sem que ela esperasse, ele a puxou. Segurou em sua cintura e a trouxe para perto — mas continuou puxando até que ela estivesse sobre ele, sentada sobre seu quadril.

— O que é isso? — Rina perguntou, rindo.

— Por que a pressa?

As mãos dele já estavam de novo na sua coxa. Já estavam a tocando como antes, já estavam a fazendo se sentir acesa por dentro mais uma vez.

— Hiei, nós acabamos de–

— E daí?

Ela se inclinou até ele, sentindo sua respiração de perto. Adorava vê-lo de perto. Notar cada detalhe, a íris vermelha focada só nela, o cabelo espetado, algum pequeno arranhão. O jeito como a boca se entreabria só um pouco. A textura da pele. Minúcias às quais só ela tinha acesso.

Quando ajeitou o corpo um pouco mais para baixo, notou que a vontade de Hiei não era apenas da boca para fora. Que ele estava pronto para uma segunda rodada. Aparentemente, não era apenas dos machucados que youkais se recuperavam mais rápido do que humanos. O calor se espalhou pelo seu ventre na mesma hora.

Então o beijou, longa e demoradamente dessa vez, provando cada fagulha de desejo que vinha dos lábios dele. Desceu pelo pescoço, pelo tórax, marcando com a boca cada contorno dos músculos, sentindo o sabor dele de novo e de novo.

Quando se ergueu um pouco, apenas para se encaixar nele, os movimentos foram lentos, deliberados. Foram no ritmo que ela estabeleceu. Prendeu as mãos de Hiei por um tempo debaixo das suas, mas depois as liberou, para que ele voltasse a tocá-la — a aspereza da palma dele em contato com sua pele era algo que sempre lhe arrancava os melhores suspiros.

De alguma forma, o orgasmo tinha sido ainda mais intenso dessa segunda vez. Talvez por ser inesperado.

Mas quando, um pouco mais tarde, eles se procuraram pela terceira vez naquela noite, não houve surpresa. Ao contrário, foi exatamente como Rina esperava que fosse. Ela o instigou, ele aceitou a provocação. E depois, ela fechou os olhos. Deixou que ele beijasse todo seu corpo. Que a virasse de bruços, que a tomasse como quisesse.

E, depois, ainda ofegante, que descansasse em seus braços. E que ficasse ali o quanto desejasse. Como se não quisesse mais sair.

(…)

Era ainda madrugada quando Hiei abriu os olhos. Quando ele percebeu que o lado de Rina no futon estava frio. E ele podia alegar que tinha sido qualquer coisa que o tinha feito levantar o tronco e escanear o quarto com desconfiança — algum barulho suspeito vindo de fora, a mudança na energia do ambiente. Mas ele sabia perfeitamente que o motivo era um só: a ausência dela do seu lado.

Mas Rina não tinha ido longe. Ele a achou sentada debaixo da janela aberta, os pergaminhos esparramados em volta dela, apenas o brilho fraco da lua servindo como fonte de iluminação.

— Estou sem sono — ela justificou, antes mesmo que ele se levantasse por completo ou perguntasse qualquer coisa.

Hiei soltou um grunhido. Aquilo não era nada bom. Rina sempre ficava mal-humorada quando não dormia direito.

— Vai ter bastante tempo pra ler isso depois.

— Será que vou?

Outro grunhido, baixo. Ele a observou por um tempo. Mesmo na penumbra, seus olhos de prata cintilavam.

— Está preocupada.

— Talvez. Um pouco — ela admitiu, voltando a olhar os documentos.

— O Makai é gigante. Se está tão nervosa assim, pode viver isolada. Ser uma anônima.

Rina franziu a testa. Os olhos desfocaram. Se invadisse sua mente agora, Hiei tinha certeza de que a veria tentando simular cada detalhe daquele cenário na própria cabeça.

— Não… não sei se conseguiria ser anônima. Não por muito tempo.

— Você não tem obrigação de continuar o legado de ninguém.

— Eu sei que não — E ela se voltou para ele de novo — Mas talvez eu queira. Não continuar um legado, mas fazer o meu. Eu sou uma Yuuma, não sou? Não tenho como abrir mão disso depois de tudo que aconteceu. É quem eu sou.

— Achei que não gostasse desse rótulo.

Um sorriso brotou nos lábios dela. Discreto, suave.

— Eu também achei… mas acabei me apegando.

E Rina se virou de novo para os papéis distribuídos no chão, vasculhando as páginas até encontrar o que queria. Começou a ler, compenetrada, e Hiei percebeu que não havia mais o que dizer. Rina era teimosa, sempre dava um jeito de fazer o que bem entendia.

Então ele só soltou mais um grunhido e se ajeitou no futon para voltar a dormir.

— E Hiei? — ela chamou, antes que ele se deitasse.

Hiei olhou para ela.

— Só queria dizer obrigada.

— Pelo quê? — ele perguntou.

— Sei lá. Por nada. Por tudo.

Hiei não soube o que dizer. Apenas fez um aceno com a cabeça, deixou que ela voltasse para o que quer que fosse que estivesse lendo e repousou na almofada.

Por que agradecê-lo quando tinha sido ela quem havia virado a vida dele de cabeça para baixo — e do melhor jeito possível?

Hiei estava preso a ela, ele já sabia. Por quanto tempo, isso ele não sabia. Mas suspeitava que seria por um bom tempo. Rina era a antítese do tédio. Era a força da natureza em pessoa. Tinha uma espécie de magnetismo, algo irritantemente sedutor, do qual ele não conseguia — não iria, não queria — escapar.

E ainda assim, aqui estava ela, passando a noite em claro. Estudando como se precisasse disso, como se o mundo fosse uma prova que ela precisava gabaritar.

Tola. Será que ainda não tinha entendido? Não era Rina que não estava preparada para lidar com o Makai; era o Makai que não estava preparado para lidar com ela.

Talvez nunca estivesse.