Visceral

35 Epílogo


Seis meses depois

— Eu sinto muito, Koenma — Kurama falou — Sei tanto sobre o paradeiro de Hiei e Rina quanto você.

O líder do Mundo Espiritual estreitou os olhos em uma expressão desconfiada. Kurama permaneceu inalterado, oferecendo apenas um pequeno sorriso de desculpas.

— Acobertar foragidos também é crime. Não preciso te lembrar disso, não é?

— De forma alguma. Meus dias como fora da lei estão no passado.

E ele sorriu de novo, de um jeito cândido dessa vez. Não havia nada em seu rosto ou postura que o traísse, mas Koenma o encarava como quem encara um mentiroso confesso. Kurama entendia. Em sua posição, faria o mesmo. Mas não havia provas, não havia sequer um indício; então, tudo o que Koenma podia fazer era repetir as mesmas perguntas vinte vezes e liberá-lo, como sempre fazia.

Kurama era paciente. Respondia de bom grado às perguntas repetidas, sem qualquer alteração na voz. E quando era dispensado, apenas se despedia com a cordialidade de sempre, deixando o líder do Reikai espumando em seu trono.

Fazia seis meses que o Reikai não conseguia mais localizar Rina. As buscas não haviam cessado — e Kurama sabia que provavelmente não cessariam tão cedo. O Esquadrão Especial tinha um orgulho maior do que o próprio Makai, e, há meses, esse orgulho tinha sido dilacerado pelas mãos de Rina e Hiei.

Koenma tinha tentado barganhar. Em consideração pelos velhos tempos, ele tinha dito. Conversara com Yusuke, com Kurama, dissera que poderia amenizar a pena de Hiei caso ele se entregasse, reconsiderar a sentença de Rina. Não funcionou. Kurama, portanto, seguia sendo convocado para novos interrogatórios — Yusuke, em teoria, também, mas ele simplesmente decidiu ignorar todos os subsequentes chamados de Koenma. O que, em contrapartida, só deixava o líder do Mundo Espiritual ainda mais frustrado. E o Esquadrão, mais impaciente.

Mas Kurama não estava preocupado. Hiei sempre fora ótimo em desaparecer quando queria; Rina sabia esconder sua presença melhor do que qualquer youkai. Juntos, eram dois fantasmas. Seguiriam assombrando os comandantes do Esquadrão Especial por bastante tempo.

E Kurama não tinha o menor problema em continuar mentindo enquanto fosse preciso.

(…)

O crânio do demônio rachou sob o punho de Rina. Ela olhou para o corpo sem vida, não se demorando mais do que alguns meros segundos. O prazer que sentia quando usava seu poder ainda estava ali, sempre estaria — mas ela tinha feito as pazes com isso. Rina agora só era mais meticulosa sobre quem merecia lhe dar essa satisfação.

Logo se virou para procurar Hiei. Ele limpava o sangue ainda fresco da katana, o segundo mercador também a seus pés. Dirigiu o olhar para Rina quando ela se aproximou.

Os dois abriram a lona da carroça. Havia meia dúzia de youkais franzinos amarrados, que eles libertaram e ordenaram que fossem embora. O que os interessava realmente estava nos fundos da diligência: caixas com ouro, prata, artigos de valor. Pertenciam a mercadores de escravos, youkais da pior espécie. Mas o que tinham de desprezíveis também tinham de abastados, e Rina e Hiei não sentiam um pingo de remorso em se apropriarem daquele dinheiro.

Ela queria reconstruir a fortuna do clã. Ele estava ali apenas por diversão. Depois de ataques como aquele, os dois carregavam os espólios de volta ao esconderijo Yuuma mais recluso que tinham encontrado e comemoravam mais uma ação bem-sucedida. Juntos, no quarto. Ou na sala de tesouros. Ou em qualquer outro lugar que desse vontade.

(…)

As histórias sobre os dois — algumas fidedignas, outras nem tanto — se espalhavam como fogo pelo Makai. Em pouco tempo, Rina se tornou praticamente uma lenda viva: a última Yuuma, a que ninguém conseguia matar, a que iria fragmentar o Makai de vez — ou unificar. Dependia de quem estivesse contando.

Muitos duvidavam que ela sequer existisse, enquanto outros juravam já tê-la encontrado. Ela e seu parceiro, um Jaganshi, um mestre das Chamas Negras Mortais. A mesma dupla dos antigos cartazes de “Procura-se”, que agora já quase não eram mais vistos em parte alguma — afinal, que recompensa valeria o risco de enfrentá-los?

Era através de Gintaro que eles ficavam sabendo da maioria dos boatos. Rina tinha conseguido rastrear o mercenário algumas semanas depois do fatídico ataque do Reikai, não apenas para quitar a dívida de Haru, mas também para se certificar de que ele realmente tinha ficado bem apesar do ferimento que sofrera.

Os três acabaram desenvolvendo uma inusitada parceria, ainda que Hiei não conseguisse esconder um certo desgosto pelo mercenário. Mas ele era útil. Conseguia informações sobre quase tudo o que precisavam — incluindo, às vezes, avistamentos de alguma patrulha do Reikai na região. Os encontros eram esporádicos. Uma vez por mês, duas no máximo, sempre em tavernas diferentes. Gintaro trazia as notícias, eles pagavam. Simples e prático.

Então Hiei aceitava participar da conversa. Só não fazia questão de ser simpático. Nem educado.

Mas naquele dia, depois do ataque aos mercadores, não havia Gintaro. Ou ameaças do Reikai, ou olhares espantados na direção dos dois. Havia apenas Rina, deitando com seus cabelos molhados no colo de Hiei, em uma tarde preguiçosa depois de um mergulho na nascente de um rio.

O braço de Hiei forjado pelas chamas agora lhe obedecia quase que perfeitamente. As manchas de Rina ainda não haviam voltado. Não tinha ninguém ali a não ser eles, e aquele era um dos raros dias em que não estava nem frio nem quente, nem quieto nem agitado demais. Estava na medida certa.

Na manhã seguinte pegariam a estrada de novo. Eles dificilmente ficavam muito tempo em um mesmo lugar, nem mesmo no esconderijo onde acumulavam as cargas roubadas. Preferiam a vida nômade. E, de vez em quando, a solitude.

Pois quando estavam sozinhos, ela não era a Yuuma. Não era a lenda. Era apenas Rina. Ele era apenas Hiei. E isso era mais do que suficiente.

Era, na verdade, tudo o que eles queriam.

Notas finais
Oi! Se você chegou até aqui, MUITO OBRIGADA!! Sou sempre muito grata a todos os leitores, que comentam ou não. Mas se você se sentir à vontade, vou adorar saber o que achou da história e dos personagens. Um abraço e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!