Visceral

6 Percalço


Rina acordou com a espada de Hiei rente ao seu pescoço. Ficou paralisada, olhos arregalados de surpresa. Quase podia sentir o frio do metal encostando na pele, um centímetro apenas a separando do corte. Levantou o olhar. Hiei a encarava do alto, tão frio quanto o ar daquela manhã.

— Eu não sei se está tramando algo — ele falou — Mas não vou ter problema em usar minha espada se precisar.

Ela estreitou os olhos. Não se mexeu e manteve a respiração controlada, mas a voz saiu carregada.

— Ficou louco? Você me acorda com uma lâmina na garganta, mas eu que estou tramando algo? Eu ofereci uma trégua, Hiei. Achei que ia respeitar isso.

Ele continuou a encarando por mais um tempo, inalterado, como se a estudasse.

Rina se manteve imóvel, o fitando de volta. Não estava com medo, estava com raiva. Os olhos prateados mais brilhantes e afiados que a própria lâmina que tinha rente à pele. Queria alcançar a adaga que mantinha debaixo da bolsa, mas sabia que se fizesse qualquer movimento, Hiei seria mais rápido.

— Você sumiu. De novo.

— Impossível — ela respondeu rápido, sem pensar.

A katana chegou ainda mais perto. Rina sentiu o toque fino no pescoço, uma leve pressão na lateral da garganta. Controlada, na medida.

— Eu não vou falar novamente.

— Isso é pra me deixar assustada? — ela disse, em tom de desafio.

— Isso é um aviso. Interprete como quiser.

E Hiei guardou a espada.

— Cate suas coisas e vamos.

Rina levantou a contragosto, ainda atordoada pelo que tinha acabado de acontecer. Em qualquer outra ocasião, jamais deixaria isso barato. Seu impulso era cravar a adaga nas costas de Hiei, e precisou de cada gota de sua força de vontade para não ceder a esse ímpeto. Já até se arrependia de ter desperdiçado sua preciosa bebida com ele no dia anterior.

“Cretino de merda”, ela falou baixinho, entre os dentes.

Ele tinha sorte, muita sorte, de ainda ser útil para ela.

E claro, havia o outro problema.

O que ele queria dizer com “você sumiu”? Ela controlava sua habilidade, sempre controlou. Nunca tivera problemas com isso antes. Ou Hiei estava mentindo — o que seria ruim o bastante — ou algo tinha acontecido.

O que seria ainda pior.

O dia estava frio e ainda escuro quando abandonaram o acampamento. Seguiram calados por todo o trajeto. Hiei na frente, ela logo atrás, nenhum dos dois dispostos a puxar assunto. Para Hiei, Rina era um trabalho como outro qualquer, e jogar conversa fora não fazia parte do escopo. Ela não se importou nem um pouco.

O percurso ao menos era fácil — mas entediante. Hiei estava muito mais fechado do que no dia anterior — se é que isso era possível —, depois do incidente daquela manhã. Logo horas haviam passado, apesar de para Rina terem parecido dias.

— Eu achei que tínhamos um entendimento — ela falou quando fizeram a primeira pausa do dia.

— O único entendimento é você fazer o que eu digo.

— Eu não sou sua cadelinha, Hiei.

Ele não respondeu. Estava de pé, braços cruzados, mantendo distância. Rina o observava. Queria estrangulá-lo. Mas pensou melhor. E então soltou um riso curto, ácido.

— Não sabia que tinha se sentido tão ameaçado por mim assim… — ela falou.

— Não seja ridícula — respondeu, sem se mexer.

Ela bebeu mais um pouco do bourbon. Estava quase no fim. Rina começava a achar que a viagem ia ficar muito mais difícil de aturar quando aquela garrafa estivesse vazia.

Mas o resto do dia passou sem outros incidentes. E com, no máximo, meia dúzia de palavras.

(...)

Era seu sexto dia no Makai, pelas contas de Rina.

Desde o episódio com a espada no pescoço, dias antes, não haviam tido mais confrontos diretos — ou pelo menos, nenhuma nova ameaça explícita de Hiei em cortá-la ao meio. E isso já era um avanço.

Também não parecia ter mais ativado sua habilidade involuntariamente desde então — esse, um alívio maior ainda. Hiei nunca perguntou porque aquilo tinha acontecido, e ela muito menos entrou no assunto. Não apenas porque não lhe devia explicações, mas também pois nem sequer as tinha. Sua melhor hipótese era que o corpo tinha reagido de maneira irregular ao Makai e precisava de tempo para se ajustar.

A ideia de que poderia vir a perder o controle — da situação, dela mesma, do próprio corpo — era o tipo de coisa que fazia seu sangue gelar, e ela preferia nem pensar nisso.

Ao menos agora ela e Hiei mantinham uma civilidade contida. Quase diplomática. Um pacto silencioso de tolerância mútua, feito mais por conveniência do que por qualquer boa vontade. Conversavam, mas muito pouco. As interações tinham evoluído de instruções breves ou explicações rasas para respostas atravessadas e réplicas irônicas. Rina se perguntava se aquilo era o mais próximo de paz que se podia alcançar ao lado de alguém como ele.

Ou ao lado de alguém como ela.

Era o começo da tarde. Ela andava atrás de Hiei, como sempre, notando a facilidade com que ele se movia pelo caminho. Tinha a naturalidade de quem não precisa de bússola para se guiar, de quem conhece cada pedaço daquele chão. Ele estava em casa.

Uma pontada de inveja a tocou. Nunca tivera aquela sensação.

— Não existem cidades aqui? É só mato? — ela perguntou.

— Os povoados ficam pro outro lado. Por aqui, cortamos caminho.

Não questionou. Fazer o trajeto no menor tempo possível parecia ser a única coisa em que os dois estavam de acordo.

A trilha agora era íngreme, com pedras soltas e lama pelo caminho. Para Hiei, era como se não fosse nada. Em pouco tempo, abriu distância, obrigando Rina a apertar o passo. Seus pés vacilavam nas partes escorregadias, o solado da bota faltando a tração necessária para se firmar. Se agarrou em alguns galhos próximos, mas alguns eram finos demais e quebravam quando ela tentava se apoiar. Logo tinha ficado para trás.

Hiei parou a subida e se virou, a observando do alto. Não fez menção de ajudá-la. Nem mesmo quando Rina pisou em falso pela milésima vez. Apenas a esperou, impaciente e aborrecido, como se ela o estivesse atrasando.

— Preste mais atenção por onde anda se não quiser quebrar o pescoço — disse, com uma calma assustadora, quando ela quase caiu ao deslizar em uma pedra.

Rina teve um ligeiro sobressalto ao ouvir aquelas palavras, como se seu coração tivesse parado por um microssegundo. Seu semblante escureceu na mesma hora. Por um breve instante, ela foi arrancada dali e jogada para outro lugar dentro da própria cabeça.

Não tinha sido o que ele disse, mas como disse. O tom.

A ameaça travestida de preocupação.

Uma semelhança atordoante com alguém que ela já não lembrava havia muito tempo. Só tinha uma pessoa que falara assim com ela antes.

Dimitri.

Os três anos mais conturbados de sua vida, os três anos que ela se forçou a esquecer, de volta em uma única frase.

“Pare de fazer burrices se não quiser morrer cedo,” ele costumava dizer para ela.

Hiei não notou a mudança no estado de espírito de Rina— ou fingiu não notar.

Rina desviou o rosto e voltou a subir, forçando as pernas a continuarem o ritmo, e a cabeça, a ignorar a lembrança e o olhar meticuloso de Hiei. Ambas pareciam tarefas impossíveis.

O vento batia de frente agora, gelado e seco. Fazia seu rosto doer. Sentiu a garganta fechar, a mandíbula travar. A sensação era insuportável.

Não pensava nele há meses. Talvez anos. E teria preferido manter assim, mas a memória foi trazida à força. Odiou um pouco Hiei por causa disso.

Hiei tinha um pouco de Dimitri, se parasse para pensar. Os dois eram ríspidos, agressivos, orgulhosos. A diferença era que Dimitri também a acolhia, cuidava, ensinava.

Ele nunca perguntou o que estava fazendo nas ruas sozinha — Rina mal tinha feito 16 anos quando o conheceu —, mas a chamava de mimada sempre que a teimosia de Rina falava mais alto. Era autoritário e grosseiro, mas cuidava dela mais do que cuidava de si próprio, e tinha um carinho que escondia por baixo de seu jeito zangado de falar. Nunca pedia ajuda e ensinou Rina a fazer o mesmo. Sua maior vaidade era o tigre branco no pescoço.

Um maldito. Que Rina jamais devia ter deixado se aproximar demais. Ao menos essa era uma lição que havia aprendido.

Não trocaram mais nenhuma palavra por todo o resto da subida. Se Hiei falou algo, Rina não ouviu, tampouco respondeu. Quando o terreno voltou a ficar plano, Rina continuou como se não tivesse percebido a diferença, deixando as pernas fazerem o trabalho de modo automático, mal olhando por onde pisava. Se arranhou algumas vezes, por descuido, mas não se importou.

— Você ouviu o que eu falei? — Hiei perguntou de repente.

Não, ela não tinha ouvido.

— Tem um riacho não muito longe daqui. Vamos. Quero chegar antes que escureça.

Sem responder, sem nenhum outro gesto, Rina voltou a andar, seguindo a direção apontada por ele. Subitamente estava cansada. Exausta. Queria deitar ali mesmo e dormir até o dia seguinte. Mas sabia que a falta de ânimo seria notada — e criticada — por Hiei e manteve o ritmo constante. Deixou que ele fosse na frente e somente o acompanhou de perto, torcendo para que não falasse mais nada.

Todo o passado de Rina era convoluto na cabeça dela, algumas memórias mais fortes do que outras. Algumas mais escondidas do que outras. E assim como um novelo, todas começaram a se desenrolar durante aquele dia, uma a uma, a sufocando.

— O que há com você? — Hiei perguntou de novo, vendo que Rina mais uma vez não tinha respondido a algo que ela sequer tinha ouvido.

— Nada — ela falou. Não irritada, apenas apática.

O céu já estava escuro novamente e o riacho estava diante deles, mas ela nem tinha percebido. Só agora ouvia o barulho alto da correnteza quebrando o silêncio. Para onde tinha ido o dia?

Sem forças ou paciência para mais nada, Rina apenas passou uma água no rosto, reabasteceu o frasco de metal que trazia e se deitou sob a árvore mais distante, a cabeça apoiada na bolsa que carregava e as costas viradas para Hiei. Fechou os olhos e guardou a lembrança de Dimitri de volta no lugar de onde nunca deveria ter saído.

Hiei a observou por um tempo. Tinha apreciado o fato dela ter ficado calada durante todo o trajeto, mas agora, estranhava. Era como se ela nem sequer estivesse presente. Como se ele estivesse guiando um fantasma esse tempo todo. O corpo dela estava ali, mas a mente, em qualquer outro lugar.

Irritado consigo mesmo por se importar, Hiei procurou outra árvore e se empoleirou no galho mais alto. Depois mudou de ideia.

Dormiu no chão aquela noite. Com Rina bem claramente em seu campo de visão.

(…)

— Eu preciso beber alguma coisa — Rina falou, sacudindo a garrafa de bourbon quase vazia. Apenas algumas gotas rolaram pelo gargalo. Já tinha passado metade do dia seguinte e eles estavam caminhando por horas. O sol quente estava exatamente em cima de suas cabeças.

— Sobrou água no cantil.

— Não é isso que eu quero beber.

Hiei olhou por sobre o ombro. Rina seguia atrás dele, quase ao seu lado. Tão calada quanto o dia anterior. Aquela, na verdade, era a primeira frase que proferia em horas. Mas não era ele quem iria perguntar o porquê, muito menos reclamar.

— Não estamos de férias, caso ainda não tenha percebido. Beba água ou morra de sede.

— Ora, vai à merda, Hiei! — Rina respondeu irritada e o ultrapassou, dando passos largos e marcando o chão à frente.

Hiei quase sorriu com aquela resposta. Ela estava voltando ao normal.

(...)

Por um dia inteiro, eles não encontraram uma única criatura viva pelo caminho. As pradarias que atravessaram eram longas, e o solo, coberto de tocas e buracos feitos por pequenos animais. Ainda assim, não avistaram nenhum, nem ouviram seus sons ou perceberam seus movimentos.

Rina não conhecia o Makai, e, portanto, não estranhou. Mas Hiei conhecia aquele lugar o suficiente para saber que tanta calma assim poderia ser um mau sinal.

O Makai, era verdade, estava bem mais em paz desde que Enki assumira a liderança. Os principais reinos haviam concordado em uma trégua, e o medo de uma guerra de proporções desastrosas parecia cada vez mais distante. Mas youkais são youkais e muitos tinham dificuldade em abrir mão da vida bandida que levavam. Hiei não era um exemplo ele próprio? Não tinha detestado ficar na coleira, cumprindo ordens de um Rei que ele não havia escolhido, tendo seus dotes e habilidades subaproveitadas? Não tinha aceitado acompanhar Rina em parte para ver se a história contada por Kurama sobre os Yuuma tinha algum fundo de verdade?

Mas talvez estivesse errado. Talvez fosse seu instinto de sobrevivência que o estivesse fazendo imaginar que perigos o podiam estar espreitando. Talvez aquela região estivesse mesmo em paz, e ele apenas estava vendo coisas que não existiam, procurando motivos para sacar a espada. Os demônios, afinal, podiam conviver harmoniosamente quando queriam.

Ele quase se convenceu disso. Quase. Pois Hiei não se convencia tão fácil assim de coisa alguma.

E quando viu um conjunto de alforjes abandonados no meio do campo, esqueceu-se de todas as teorias sobre a harmonia entre os povos do Makai.

Os dois se aproximaram, cautelosos. As bolsas estavam cheias, mas não havia ninguém por perto. A planície era vasta e, apesar do capim relativamente alto, não oferecia espaço suficiente para alguém se esconder. Também não encontraram sinais de luta, nem mesmo energias malignas destoantes. Estavam completamente sozinhos.

— O que pode ser isso?

— Não sei — Hiei respondeu. Por via das dúvidas, deixou a mão próxima à katana — Vamos abrir as sacolas.

Eram duas bolsas, ambas contendo mantimentos, incluindo alguns alimentos ainda frescos e o que pareciam ser bebidas. Hiei as inspecionou rapidamente.

— Só comidas — ele falou — Vamos levar.

Apesar disso, Hiei continuou olhando ao redor por mais algum tempo, as suspeitas crescendo dentro dele. Por que as sacolas haviam sido abandonadas? E por quem? Aquilo não fazia o menor sentido. Algo estava errado, ele só ainda não sabia o quê.

Mas Hiei não era como Kurama. Não tinha paciência para analisar tão meticulosamente cada detalhe que aparecia em seu caminho. Então apenas pegou uma das sacolas carregadas de provimentos e mandou que Rina pegasse a outra.

— O que acha que aconteceu? — ela perguntou — Se atacaram quem estava com isso, por que deixaram as sacolas pra trás?

— Isso não importa. Vamos embora.

— E se for uma emboscada?

Ele considerou a hipótese por um instante.

— Aí vai ser nosso dia de sorte.

Mas ninguém os atacou, o que deixava Hiei ligeiramente desconfortável — ainda que não admitisse em voz alta. Voltou novamente a temer aquela calma, aquela sorte tão improvável. Nada no Makai era o que parecia ser. E quando estavam longe o suficiente do local onde haviam encontrado as bolsas, ele sugeriu que fizessem uma pausa para avaliar o que tinham conseguido.

— Nada mal — Rina comentou, abrindo a sacola e pegando cada alimento. Algumas castanhas, frutas, um pedaço de pão, tiras de carne seca — Parecem boas.

— É, boas demais...

— Agora você está só sendo paranóico.

Ele ainda encontrou dois cantis de couro: um trazia um pouco de água e outro, alguma bebida escura de forte teor alcoólico, que ele percebeu apenas pelo cheiro. Testou a água. Não parecia envenenada. Guardou o primeiro cantil e jogou o segundo em direção à Rina.

— A bebida que queria.

Ela abriu o frasco e examinou o conteúdo. O fechou em seguida, parecendo satisfeita. Não era o bourbon que estava acostumada a tomar, mas aquilo iria servir.

— Vamos parar um pouco? — ela pediu, já se servindo de um pouco da comida encontrada.

Hiei estranhou o pedido, mas concordou. Ela geralmente não se opunha às longas caminhadas e havia deixado claro o quanto queria encurtar aquela viagem o máximo possível.

O que fez Hiei lembrar-se de uma coisa: estavam próximos da fortaleza de Mukuro. Se seguissem mais um pouco para o Norte, não demorariam a avistá-la. E encontrá-la era tudo que Hiei menos queria. Como ele não tinha pensado nisso antes e refeito o trajeto? Ou teria ele ido inconscientemente na direção dela?

De qualquer maneira, não poderiam prosseguir naquela direção. A decisão já estava tomada.

— Vamos ter que fazer um desvio para o Oeste — Hiei disse, um pouco abrupto. Não que Rina soubesse o caminho que ele tinha traçado, mas cedo ou tarde ela ia perceber que ele estava deliberadamente se afastando daquele local antes de seguir em frente. Era melhor que mostrasse logo que ele sabia o que estava sabendo antes que o questionasse demais.

— Por quê?

— Porque sim.

Ela o encarou demoradamente. Ele a ignorou. Pegou uma das carnes da bolsa e comeu sem retribuir o olhar.

— O que você está querendo evitar?

Hiei não respondeu. Falar sobre Mukuro para Rina estava fora de cogitação naquele momento. Provavelmente em qualquer momento, fosse agora, fosse mais tarde.

— Qual é o problema? Se vamos passar os próximos dias juntos, é melhor que eu saiba o que está acontecendo — ela insistiu, em um tom autoritário — Nós temos um trato.

— O trato é com Yusuke — ele respondeu, seco — E é pra te levar até um lugar. Só isso. O caminho é escolha minha.

Hiei não precisava olhar pra saber que ela ainda o encarava. Ótimo. Queria que ela se revoltasse, que bufasse, que desse meia-volta e o deixasse em paz. Mas ela riu.

Um riso baixo, incômodo, como uma farpa entrando sob a pele.

— Qual é a graça? — rosnou.

— Não é óbvio? — ela respondeu, ainda sorrindo — Você está com medo de alguma coisa.

O rosto de Hiei se contorceu em uma expressão de raiva. Rangeu os dentes e cerrou os olhos.

— Não é nada disso — Hiei explodiu, mais rápido e mais alto do que pretendia.

— Ué, então o que é? Se não quer me dizer, vou pressupor que não quer admitir que está assustado. Não tem problema, Hiei. Eu juro que não conto pra ninguém.

Hiei levantou, exasperado, olhos semicerrados.

— Continue — falou entre os dentes — E faço você engolir cada palavra.

Rina ergueu uma sobrancelha, nem um pouco impressionada. Não havia um traço de preocupação em seu rosto. Estava começando a gostar de tirá-lo do sério. Era muito mais eficaz do que ameaçá-lo de volta.

— Sossega, Hiei. Sente aí. Não quero brigar, só estou brincando com você. Se você queria passar mais uns dias comigo, era só falar — respondeu, com uma piscada de olho e um sorriso no canto da boca.

Hiei ficou lívido com a ousadia. Antes que ele pudesse responder ou fazer qualquer coisa, porém, Rina jogou o cantil de volta na direção dele, um pouco alto demais, de propósito. Ele se atrapalhou, quase deixou cair, mas o pegou no ar.

— Acho que está precisando de um gole — ela disse.

Hiei soltou o ar pelo nariz, ainda irritado, mas voltou a se sentar. Tomou um gole do cantil e limpou a boca com o dorso da mão. Ao menos a bebida não era tão ruim assim.

Rina o fitou por um tempo, pensativa, mas depois foi até ele e pegou o cantil de volta. Sentou a uma certa distância, não muito longe, nem muito perto. Segura o suficiente.

— Eu achei que era a única tentando deixar alguma coisa pra trás. A gente tenta esquecer, mas certas pessoas teimam em deixar rastros, não é?

Ele franziu o cenho. Não gostou nem um pouco daquela conversa.

— Não sei do que está falando.

— Não, claro que não — ela riu de novo e ofereceu o cantil, que ele aceitou — Eu sou patética, lembra?

— Eu disse que sua habilidade era patética.

— Dá no mesmo. Principalmente quando ela é a única coisa que te mantém viva.

Hiei olhou de esguelha. Ela tinha uma expressão meio distante, o rosto fixamente voltado para frente. O sarcasmo tinha sumido. Restava apenas um vazio no olhar e a sobra de um sorriso que lentamente se apagava.

— Você é mais forte do que qualquer humano. E sabe disso. Não precisava se esconder.

— Você não tem mesmo ideia de como a vida funciona do lado de lá, não é?

Ele deu de ombros. Não se deu ao trabalho de responder. O assunto não o interessava. Mas Rina continuou, um pouco para si mesma.

— Matei algumas pessoas pra sobreviver. Não me orgulho, mas também não me arrependo. A maioria merecia. Mas... penso que às vezes, a vida devia ser mais do que isso. Não é vida quando tudo que você faz é tentar sobreviver.

Hiei bebeu mais um gole.

— Você está errada. Quem deixa de lutar, deixa de viver.

As palavras pairaram no ar por um tempo entre eles. Ficaram em silêncio, cada um absorto nos próprios pensamentos. Os dois bem longe dali.

— É, parece que você também não teve uma vida muito leve — Rina falou depois de um tempo — Sei como é.

— Você não sabe de nada. Não me compare a você.

— Jamais.

Rina mordiscou algumas das castanhas, desatenta. Olhava o horizonte.

— Mas tem alguém por quem você lutaria, Hiei? Alguém que não seja você mesmo.

Ele não respondeu. Nem sequer a olhou. Mas por um instante, a imagem de olhos vermelhos idênticos aos seus atravessou sua mente. Sentiu o pingente que carregava pesar no pescoço com a lembrança de Yukina.

Hiei apertou os dentes. Voltou a mastigar devagar, como se a pergunta nunca tivesse existido.

— Você fala demais — ele murmurou.

Rina deixou o assunto de lado. Atrás deles, o sol começava a se pôr gradualmente e os dois concordaram em encurtar a caminhada daquele dia e acamparem ali mesmo, a céu aberto. Talvez fosse a bebida, ou talvez fosse aquele assunto indigesto, mas nenhum dos dois encontrou pique para retomar a jornada naquele fim de tarde. Rina chegou a bocejar, alegando estar com dores na perna e a cabeça pesada. Hiei não disse nada, mas podia sentir o mesmo peso. O dia tinha sido longo para os dois.

Se mantiveram assim por mais um tempo, sem palavras entre os dois. Apenas os insetos se manifestavam. Esperaram até a última luz do dia se apagar, o breu tomar conta e o cantil estar completamente vazio antes de decidirem dormir.

— Hiei — ela chamou quando ele começou a se afastar — O que tem ao Norte daqui?

Hiei ficou em silêncio por um tempo, pensando a respeito. Rina esperou. Ele estava de costas para ela, e assim ficou. Quando falou, nem sequer virou para trás.

— Alguém que eu prefiro não encontrar.

— Um fantasma do passado?

Ele não respondeu. O que, para Rina, foi resposta o suficiente.

— Ahhh — disse ela, sugestiva, se ajeitando contra a bolsa — Então é esse tipo de história. Entendi.

Hiei se calou. Mais do que isso, ficou furioso. Consigo, por não ter mantido a boca fechada. Com Rina, por ter se aproveitado.

— Não se meta na minha vida — ele disse, por fim.

— Foi você quem deixou escapar. Eu só captei.

Hiei ignorou o comentário.

Idiota. E pensar que ontem havia se preocupado com ela.