Visceral
16 O começo
Hiei a guiou por uma floresta fechada, sem trilha. Conhecia bem a região. Sabia todos os caminhos mais navegados, assim como os menos explorados. Optou pelos do segundo tipo.
O chão era coberto de musgo, o que ajudava a silenciar seus passos — mas em contrapartida, evidenciava seus rastros. Mas aquela não era a preocupação dele naquele momento. O importante era se afastar da fortaleza, ganhar distância e sumir antes que alguém decidisse vir ao seu encalce. Ou de Rina.
E assim o fizeram, por pelo menos uma hora, correndo mais do que andando, a adrenalina ainda fluindo de sobra no corpo dos dois.
Um barulho fraco de água corrente começou a surgir e isso fez Rina parar. Lançou um olhar para ele, esperançosa. Ainda não tinham mais trocado nenhuma palavra desde que se embrenharam pela mata, mas Hiei entendeu o olhar de Rina. E indicou o caminho.
O som aumentou, até que as árvores se abriram e deram espaço para uma pequena queda d’água, que desembocava em uma piscina natural.
Ninguém ao redor. Nem um sinal sequer de qualquer atividade que não fossem dos animais nativos da floresta.
Rina foi até a borda. Se olhou um instante no reflexo da água. E mergulhou.
A água estava fria, mas ela não se importou. Para ela, tinha a temperatura ideal.
Rina viu o sangue seco descolando da pele. O líquido grudento do tanque que explodira sumir dentre da água. O cabelo flutuava do lado do seu rosto quando submergia, e a fazia lembrar do clone. Queria que as lembranças da fortaleza pudessem ser lavadas pela água igual a todo o resto. Mas essas dificilmente iriam embora. Seriam só mais algumas para sua coleção.
Hiei não havia perguntado nada. Não ainda. Mas ela sabia que as perguntas viriam — dele, mas dela também.
Ficou na água até os dedos começarem a enrugar. Hiei não a apressou. Não a mandou sair dali nem disse que precisavam continuar.
Ele estava sentado não muito longe da margem, as costas apoiadas em um tronco partido, o olhar cauteloso em Rina. Mas quando ela saiu da água, a túnica molhada colada no corpo, e, provavelmente, transparente demais na luz cinzenta daquela manhã, ele desviou o rosto — talvez com dois segundos de atraso.
— Você não precisa mais seguir comigo — ela falou, sentando perto na borda, um pouco mais à frente — Pode me dar as coordenadas e eu continuo daqui.
— Isso está fora de questão.
Rina se virou para olhar para ele. Continuava com o rosto voltado para a floresta de onde tinham vindo.
— Aquela invasão na fortaleza foi por minha causa. Agora que fugi, eles devem me caçar. Se ficar comigo, vai ser caçado junto.
Ele ficou calado um instante.
— Não seria a primeira vez — respondeu.
Rina só aquiesceu. Sabia que não ia fazê-lo mudar de ideia e, sendo bem sincera, nem queria. Mas achou que devia tentar.
— Bom, acho que te devo um obrigada — falou, num tom baixo. A palavra parecia difícil de sair — por não ter me largado quando eu fiquei ruim. Shigure fez um bom trabalho. Mas te custou um braço.
— O que me custou o braço foi a soberba de Mukuro.
— Você entendeu.
— Pare de querer se responsabilizar pelas escolhas dos outros.
Rina deixou os pés caírem na água. Podia ver algumas manchas desbotadas na pele, mas ainda muito claras. Talvez Hiei não notasse de imediato.
O que a fez lembrar do pedido de Shigure. E de como ela não estava pronta para isso. Ainda.
— O que fizeram com você? — Hiei perguntou.
— Eu não sei bem ainda — Rina esticou um dos braços. Estava coberto de hematomas, principalmente na dobra interna do cotovelo. Ele tinha visto também, com certeza. O pegou mais de uma vez com o olhar fixo nos seus machucados — Exames, testes…
— Que tipo de testes?
— Genéticos. Não sei. Mukuro quis me manter no laboratório depois da operação. Quis me… estudar.
— E você aceitou?
Ela riu, o som saindo encharcado de ironia.
— Como se eu tivesse escolha. Acha que Mukuro teria me deixado sair se eu tivesse dito ‘não’? — Rina fez uma pausa, pensativa — Ela estava obcecada com minha habilidade. Queria replicar em seu exército, usar em batalha. Eu acho.
— Hum. Vai precisar de um novo exército primeiro.
Rina deitou na grama. Era a primeira vez em muito tempo que sentia o sol, ainda que pálido, bater no seu rosto. Fechou os olhos. O ar era gelado, bem mais do que se lembrava.
Quatro meses, Shigure tinha dito. Era o começo do outono quando deixou sua casa para trás. Estavam em pleno inverno agora. Uma estação inteira trancada enquanto o mundo aqui fora seguia seu rumo.
— Ela tentou me clonar. Ou algo assim.
Hiei ergueu uma sobrancelha. Olhou para ela.
— Conseguiu?
— Tinha uma criatura no laboratório. Viva. Com meu DNA.
Ele não respondeu, mas fechou a mão, firme, apertando os dedos.
— Mas está morta. Não é só de um novo exército que Mukuro vai precisar. É de um novo laboratório também.
— O incêndio, foi você?
Rina murmurou um “um-hum” e esperou um tempo antes de completar.
— Se depender de mim, essa linhagem maldita morre comigo.
Ele deu um sorriso discreto e satisfeito com a resposta. Se lembrou da breve onda de energia que sentiu quando estava a caminho do último andar da fortaleza, quando ainda nem sabia que Rina estava lá dentro. Teria vindo dela?
Por alguma razão, ele gostava de pensar que sim.
— É melhor irmos — Hiei falou.
Rina abriu os olhos. Hiei estava de pé, olhando para ela. Ele também não estava em bom estado. Tinha arranhões e marcas por toda parte. A mão tinha os dedos esfolados, e o braço direito terminava no cotovelo, com a área do corte marcada por cicatrizes irregulares, como se tivesse demorado a fechar.
Mas o olhar dele era diferente agora. Não a encarava com desconfiança, ou irritação, como se ela fosse um problema a ser resolvido.
Era estranho. Hiei era de quem ela tinha tentado se livrar nos seus primeiros dias no Makai. Quem tinha odiado múltiplas vezes desde que o conhecera. Mas ele também tinha sido a sua única constante desde que tinha concordado em atravessar a barreira para aquele mundo estranho. Quem tinha estado do seu lado quando o mais fácil teria sido abandoná-la.
E ali, na beira daquele lago, com o sol pálido do inverno tocando sua pele, a presença dele era quase… reconfortante. Uma gratidão velada por não estar sozinha encheu seu peito.
— E agora? O que nós vamos fazer? — ela perguntou.
— Agora nós continuamos de onde paramos. Meu trabalho só termina quando você chegar ao destino.
Rina se sentou.
— Então é assim? Isso ainda é só mais uma obrigação pra você?
Hiei desviou o rosto, parecendo incomodado com a pergunta. Rina achou que ele não fosse responder nada, mas quando falou, a voz estava carregada de decisão.
— É um acordo. E uma promessa, a sua. Ou desistiu de matar seu ancestral youkai?
— Não desisti.
— Ótimo. Então vamos.
(…)
Decidiram não fazer mais nenhuma pausa para descansar enquanto não estivessem fora do território de Mukuro. Apenas uma precaução. Eles ainda não sabiam se ela enviaria soldados para recapturar Rina ao perceber que perdera não apenas sua cobaia quanto também todos seus estudos e material colhido nos últimos meses. Mas preferiam não arriscar.
No entanto, havia outra preocupação agora. Durante a fuga, Hiei não tinha ideia do que havia motivado aquela invasão. Pensava se tratar de mais alguma disputa por poder — mesmo durante o mandato de Enki, elas continuavam comuns. Pelo visto, estivera errado.
— Por que estão atrás de você? — Hiei perguntou em determinado momento, quebrando o silêncio da floresta. Ninguém os seguia, ninguém que ele conseguisse perceber.
Rina seguia ao lado dele, concentrada apenas em ver onde estava pisando.
— Aparentemente Yuumas não são muito bem-vindos por aqui — falou, sem emoção.
Ele assentiu em silêncio. Não precisou fazer mais perguntas. Lembrou-se das coisas que Mukuro havia dito, sobre os boatos que podiam estar relacionados à linhagem de Rina, sobre os receios de um novo poder emergindo. Mukuro não tinha sido a única a dar ouvido aos rumores então.
— Shigure me avisou que isso ia acontecer. Me deu essa faca — Ela levantou a mão, exibindo a arma — Disse que reinos menores estavam inconformados com a minha presença, que me acham uma ameaça. Aposto que queriam me matar. Então não acho que vão desistir só porque eu fugi.
— Isso é ridículo.
Rina não comentou mais nada. Já tinha motivos suficiente para odiar sua origem, e aquele era só mais um.
Com isso em mente, evitaram, portanto, todos os caminhos conhecidos, preferindo as rotas alternativas, ainda que Hiei não tivesse muita certeza de onde elas dariam. Só isso os ocupou toda a manhã e o começo da tarde, e os sinais de cansaço começavam a surgir.
Assim, quando avistaram um pequeno vilarejo no sopé de uma cadeia de montanhas, o primeiro sentimento foi a desconfiança. O segundo, foi alívio.
Era uma vila simples, de casas improvisadas e pouco comércio. Havia um forte odor de lixo, talvez de chorume, escapando pelos cantos, misturado a um aroma agridoce de ervas sendo queimadas. Lanternas feitas de crânios de pequenos demônios pendiam das entradas dos estabelecimentos.
Hiei olhou em volta, avaliando rapidamente os becos e as saídas. A expressão dele dizia tudo: não gostava daquilo. Nem um pouco. Mas já não estavam mais nas terras que faziam parte do domínio de Mukuro e eles precisavam recuperar o fôlego — e repensar o trajeto depois do desvio forçado.
Rina notou a fachada de um mercado no que parecia a rua principal e tentou olhar para dentro. Seria ótimo conseguir suprimentos e, talvez, roupas limpas para substituir aquela bata hospitalar.
Mas ela não tinha um centavo, e duvidava que Hiei também tivesse, depois do tempo que passou nas masmorras de Mukuro.
— Acha que consigo alguma coisa em troca disso aqui? — falou, levantando a faca que ganhara de Shigure.
— Quer se desfazer da única coisa que tem pra se defender?
Começaram a atrair olhares enquanto cortavam o vilarejo. Alguns, ressabiados. A maioria dos locais tinha uma aparência selvagem de ogros, de feições e estaturas que diferiam em muito de humanos, e isso fazia com que Rina e Hiei destoassem. O fato dos dois ainda carregarem algumas manchas de sangue pelas vestes e machucados visíveis por todo o corpo também não ajudava.
Alguns pares de olhos os espreitavam de alguns becos. Imóveis e vermelhos. Rina se pegou agarrando a faca mais firme do que antes. E Hiei tinha razão: era melhor passar fome do que abrir mão de sua arma.
Procuraram então as ruelas secundárias, na tentativa de passarem despercebidos. Havia uma hospedaria na esquina de uma delas, mas nem ousaram tentar a sorte. Em vez disso, acharam um galpão que parecia abandonado. A porta tinha um trinco quebrado e, por dentro, apenas caixas de madeiras vazias e um pouco de entulho, além de poeira acumulada.
Se esgueiraram para dentro, apenas para descansar longe da vista de todos. Quanto menos gente soubesse que tinham passado por ali, melhor.
Hiei sentou próximo de uma das caixas e apoiou a cabeça na parede. Continuava desperto e vigilante, Rina podia ver, mas a exaustão era inegável.
— Fique aqui — ela falou — Eu já volto.
— Como assim? — Hiei perguntou, em alerta.
Levantou para impedir que saísse, mas em um piscar de olhos, Rina escapuliu pela fresta da porta. Hiei foi até o batente, espiou pelo lado de fora. Nada. Rina já tinha sumido.
— Sua idiota… — reclamou.
E voltou para o seu posto, o corpo endurecido e a mão agora na katana só por precaução.
(…)
Rina voltou algum tempo depois. O rosto estava um pouco pálido, parecendo nauseada. Mas estava ilesa.
Trajava um manto puído sobre as vestes hospitalares, claramente não do seu tamanho — os ombros eram largos, a bainha arrastando um pouco no chão. Mas adequado.
Nas mãos, um embrulho de pano. Sem dizer nada, o desfez e atirou os itens na direção dele: um cantil de água e dois sacos de juta.
Hiei abriu um dos sacos. Eram biscoitos de sementes. Pegou um e comeu. Secos e duros, mas comida era escassa e ele não reclamou. No segundo, achou pedaços de queijo curados e uma peça de carne seca envolta num papel. Largadas no fundo, algumas moedas de ouro.
Depois, deu para ele o tecido que havia usado como embrulho. Era outro manto, cinza-escuro, feito de uma malha leve, mas resistente, com botões simples nas pontas.
— Pra você, caso queira usar — ela falou.
Hiei pegou a peça, inspecionou com um olhar rápido. As bordas estavam desfiadas, a gola um pouco gasta. Ainda assim, ele a vestiu sobre os ombros. Servia.
— Como conseguiu essas coisas?
— Não importa — respondeu, se sentando de lado, com os joelhos recolhidos.
Ele a observou por um momento. Depois riu, baixo.
— Você roubou.
— Tem algum problema com isso?
— Só espero não ter sido vista.
“Eu também espero,” Rina pensou. Mas manteve o pensamento só para ela.
— Você realmente pensa bem pouco de mim… — Foi o que realmente falou.
Rina pegou um punhado de biscoitos.
— Acha que Haru ainda está me esperando? Depois de todo esse tempo?
— Provavelmente. Não teria pago Yusuke para desistir tão rápido.
Ela ficou em silêncio, mastigando devagar.
— Talvez tenha ouvido sobre minha passagem pela fortaleza de Mukuro. Sobre minha fuga. Talvez esteja vindo me encontrar.
Hiei pensou por um momento. Se lembrou mais uma vez dos boatos que Mukuro havia mencionado meses atrás. Especialmente sobre um novo exército. Se houvesse alguma verdade naquilo, a notícia chegaria até eles.
— Isso não muda em nada nossos planos.
Rina inspirou pesadamente. Ficou pensativa por longos segundos. Depois seu olhar desviou até ele, quase sem querer.
O manto estava aberto, o braço cortado repousando sobre o joelho. A cena que tinha sido obrigada a presenciar voltou à sua memória e o biscoito ficou ainda mais difícil de descer pela garganta.
Hiei notou que ela o observava e ajustou o tecido sobre o ombro, discretamente escondendo o membro amputado.
— O que aconteceu com você? Nesses quatro meses?
— Nada. Estava preso, só isso.
— Como está o braço?
Ele demorou a responder.
— Já me acostumei.
Mas Rina havia notado os pequenos espasmos que ele tentava disfarçar durante a caminhada, os gestos involuntários com o braço direito, interrompidos no ato, como se a mão ainda estivesse lá.
— Precisa massagear a área. Vai ajudar com a sensação — Rina falou, hesitando no segundo seguinte.
“Posso fazer isso, se quiser,” ela pensou em acrescentar, mas a frase desistiu de sair e o momento passou.
Hiei fez um aceno curto com a cabeça, como se aceitando a sugestão, mas não disse nada em retorno. E Rina se perguntou se ele havia notado o que ela quase falou. E se teria aceitado.
Pelos próximos minutos, compartilharam o silêncio e o saco de biscoitos. E os olhares que trocavam, embora rápidos, agora não eram mais combativos ou pesados. Não eram exatamente íntimos, mas algo havia mudado. Talvez fosse apenas a exaustão. Talvez fosse algo mais.
Concordaram em não passar a noite na cidade. Apesar do galpão parecer razoavelmente seguro, o lugar era desconhecido e não queriam arriscar ser encontrados. A fuga ainda estava muito recente.
Seguiriam dando preferência às trilhas longe da estrada. Teriam que atravessar a cordilheira também, mais por segurança do que por necessidade. Só isso levaria alguns dias e talvez fosse o suficiente para a poeira baixar. Ou ao menos era o que eles esperavam. Depois disso seria mais fácil retomar o rumo originalmente traçado — o esconderijo de Haru ficava nas regiões mais ao Norte, de qualquer forma.
Saíram do galpão quando a tarde já havia se transformado em noite. O céu escureceu, pequenas luzes estavam acessas nas ruas e estabelecimentos noturnos, e a vila ficou mais silenciosa. Apenas bares e estalagens pareciam abertos, o burburinho contido.
Conseguiram atravessar incólumes as passagens e ruas àquela hora, sem olhares estranhos ou encontros indesejados.
Estavam quase no fim da viela que levaria para a saída do povoado quando sentiram a presença de alguém. Os dois pararam, escaneando a área. A luz de uma tocha surgiu por trás deles, jogando sombras compridas sobre os dois. Se viraram.
Duas figuras pararam a poucos passos de distância. Eram ogros, com a pele grossa, chifres na cabeça e altura que passava de Rina e Hiei com folga. Um deles fixou o olhar em Rina.
— É ela? — o ogro perguntou.
— A mesma.
Ele deu um passo para frente.
— Ninguém rouba aqui e sai impune.
Rina sentiu o corpo travar. Apertou a empunhadura da faca, como se pra ter certeza que ela ainda estava ali. Tudo que queria era ter conseguido sair sem chamar a atenção. Um suspiro impaciente escapou de seus lábios.
— Péssima hora pra isso — murmurou, baixinho.
— Achei que não tinha sido vista — Hiei reclamou.
— Desde quando você recusa a oportunidade de entrar numa briga? — Rina provocou, tentando esconder o nervosismo e a culpa pela imprudência.
Mas a verdade era que não tinha conseguido se camuflar. Assim como quando tentou fugir da fortaleza, todos os sentidos gritaram ao mesmo tempo depois de alguns meros minutos com a habilidade ativada. A dor a atingiu em todos os poros. Manteve o quanto pode, o que não foi muito. E aceitou o risco de poder ser vista — o que, infelizmente, foi inevitável.
Apesar disso, Hiei, ao seu lado, já tinha a postura de quem não teria problemas em encarar a luta. A mão foi na direção da espada, ameaçadora. Entre a sacar e fatiar os dois ao meio, não levaria nem um segundo.
— Pense com cuidado no que quer fazer — Hiei avisou.
— Você é bem abusado pra alguém tão pequeno — o ogro respondeu.
Hiei não se moveu. Seu olhar foi suficiente para segurar o ogro por um instante.
No entanto, o demônio à esquerda — o que segurava a tocha — deu mais dois passos para frente. O chão, de terra batida, pareceu tremer sob o peso dele, a poeira levantando quando ele se adiantou.
— Dou uma última chance — o ogro rosnou — Devolva agora o que pegou. Ou vamos arrancar à força.
Hiei inclinou a cabeça, como se estivesse estudando o movimento do adversário. Estreitou os olhos. Rina se alinhou ao seu lado, adotando a mesma posição ofensiva, ainda que contrariada — causar uma confusão não estava em seus planos.
— Vem arrancar, então — Hiei falou, com um sorriso petulante no rosto.
Os dois ogros avançaram com um rugido. O primeiro foi ao chão no mesmo instante, a katana de Hiei o cortando como manteiga. O segundo se lançou contra Rina, mas ela deslizou para o lado, se abaixando e passando a faca no tornozelo do demônio. Apesar da pele grossa, o corte foi o suficiente para rasgar o tendão, arrancar sangue e fazê-lo cair.
Ele rugiu, ainda mais irritado, tentando se levantar, mas Rina já estava nas suas costas. E a faca, na jugular.
Hiei e Rina se entreolharam, ele limpando o sangue da katana, ela girando a faca entre os dedos, como hábito. Mas logo notaram que as ruas não estavam mais vazias como antes.
Cabeças curiosas se esgueirava, pelas portas e janelas das tavernas locais, atraídos pelo barulho do confronto. Alguns chegaram a sair na rua. Um murmúrio começou a percorrer as vielas.
Hiei bufou, impaciente.
Ele já estava com a espada em riste novamente. Não falaram mais nada, aguardando por algum ataque. Tiveram mais uma troca de olhares, silenciosa. Decidiram sair andando, começando com alguns passos em direção à saída do vilarejo, as armas ainda em punho.
O grupo que tinha se formado se afastava a medida que eles avançavam. Alguns cochichavam. Havia curiosidade sobre aqueles forasteiros, um certo temor em alguns, mas também animosidade. Todos viam os corpos caídos na calçada, os corpos que os dois sem dificuldade haviam derrubado.
Estavam quase alcançando a outra extremidade da rua. Até que, do fundo, alguém gritou.
— É ela! — um velho youkai, com uma cicatriz embaixo do olho, apontava diretamente para Rina — É a Yuuma que Mukuro estava escondendo!
O burburinho aumentou. Rina ficou petrificada por um momento, sentiu o coração disparar. Como podiam tê-la identificado?
Olhou de relance para Hiei, mas ele não retribuiu o olhar, preferindo se fixar nos demônios em volta dos dois.
Alguém jogou uma garrafa de vidro, que se espatifou por perto. Hiei se virou para o lado de onde ela tinha vindo, mas outras vieram logo em seguida.
— É verdade! — alguém mais na multidão falou — Eu ouvi que o plano da invasão fracassou, que ela conseguiu fugir!
Hiei soltou um rosnado. Rina sabia que ele estava prestes a avançar contra todos ali, e ela não descartou a ideia. Era seu instinto de sobrevivência berrando em seu ouvido. Matar todos poderia ser a maneira mais fácil de garantir que não seria reconhecida novamente, que não sobraria testemunhas sobre sua passagem pela vila.
Mas logo a ideia pareceu irracional. E nenhum dos dois saiu do lugar.
Por longos segundos, mantiveram o impasse. Apesar dos gritos e garrafas jogadas, nenhum dos moradores do vilarejo atacou — provavelmente com receio da dupla. Mas agora tanto Rina quanto Hiei estavam certos que seria impossível sair daquela cidade sem antes derrubarem mais sangue para abrir o caminho. A única questão era quem daria o primeiro passo.
Hiei se adiantou. Não se importava de ser o primeiro. Mas antes que isso acontecesse, uma voz ressoou do meio do grupo. Era forte, alta, imponente.
— O que está acontecendo aqui?
Vinha de um outro ogro, bem mais largo que os demais. Mais alto também. Quase um gigante. Tinha cicatrizes grossas no corpo robusto e usava um elmo de metal que lhe conferia ares de líder, como se talvez fosse o chefe daquele povoado. Exalava autoridade.
Alguém do seu lado se esticou para explicar algo, apontando para os dois. Rina não conseguiu ouvir, mas nem precisava. Sabia exatamente que era dela que estava falando. Hiei entendeu também, seu corpo cada vez mais tenso.
O ogro balançou a cabeça, concordando. Deu alguns passos na direção dos dois, e todos ao redor se afastaram, deixando o caminho limpo entre eles. Estava sozinho diante de Rina e Hiei.
— É verdade o que estão dizendo sobre você? — ele perguntou — Que você é a Yuuma que escapou?
— Por que não vai pessoalmente na fortaleza de Mukuro conferir? — Rina respondeu.
— Vamos fazer o seguinte. Se entregue e pouparemos sua vida.
— Vá pro inferno! — Rina respondeu.
— Acha que somos estúpidos? — Hiei falou.
Ele então olhou para Hiei com curiosidade, o analisando de cima a baixo. Meneou a cabeça e deu um sorriso escondido por entre as presas que saíam da boca.
— Um espadachim maneta! Isso é novidade. Você não tem nada a ver com isso. Entregue a mulher e vou deixar que vá embora vivo. Se ficar, será capturado com ela.
Hiei pareceu cravar os pés ainda mais forte no chão, como se isso fosse a única resposta possível.
— É sua última chance antes que eu ordene que meus homens levem os dois daqui.
— Você fala bastante. Vai ser divertido arrancar sua língua com a minha espada.
— Vocês foram avisados.
O líder levantou uma das mãos, ordenando a captura dos dois. Outros ogros surgiram entre os espectadores, correndo em sua direção, cada um trazendo uma comprida alabarda. Eram oito ao todo, vindo de todos os lados. Estavam cercados.
Na mesma hora, Hiei virou um borrão, rápido como sempre. Alcançou o outro lado da rua em menos de um segundo, a katana igualmente rápida — porém ligeiramente torta. Foi a primeira vez que Rina reparou que o controle de Hiei não estava perfeito como antes.
Mas Rina não teve muito tempo para isso. Não era nem de longe tão veloz quanto ele, e logo os os ogros e suas alabardas estavam na sua frente. A rua parecia encolher ao redor dela, os youkais enormes ocupando todo o espaço.
Rina tentou como pôde se defender das investidas, mas sua faca era curta demais para aparar cada golpe. Precisaria ser mais criativa, saltar e agachar se queria ter alguma chance.
Então se esquivou, abaixando no chão e rolando para o lado. Achou uma abertura e fincou a lâmina na lateral do abdômen de um deles. Tentou o mesmo com os outros, mas eles estavam longe demais; as lanças, perto demais.
Fez mais um giro para trás, mas o público que assistia o embate a segurou dessa vez, impedindo o movimento. E a empurrou em direção aos lanceiros.
Rina conseguiu evitar por pouco uma investida mais vigorosa da alabarda, e entendeu que, para ganhar tempo e distância, só havia uma coisa que pudesse fazer.
Não queria, não enquanto ainda não entendesse o que estava acontecendo com ela. Mas não tinha escolha. Sabia que ia doer — tinha doído antes, agora não seria diferente. Cada raspão que levava das lanças, no entanto, a deixava sem alternativa.
Então, sem tempo para decidir, apenas fechou os olhos e sumiu. O vento parou por um instante. O chão debaixo dos pés ficou mais macio. Quando voltou a abrir os olhos, o mundo parecia turvo, como se estivesse debaixo d’água.
As expressões atônitas dos ogros a disse que tinha dado certo. Só precisava daquele respiro para poder se afastar dos atacantes, os cercar por trás, os atingir nos pontos vitais certos. A estratégia perfeita.
Mas logo tudo estourou.
Veio tudo ao mesmo tempo. As luzes dos estabelecimentos a cegaram. Os sons das lanças colidindo, da espada de Hiei, dos passos fortes no chão — tudo de repente era ensurdecedor, ameaçava perfurar seu tímpano, rasgá-la em pedaços.
O corpo de Rina se dobrou ao meio. O estômago parecia virar do avesso. Seus joelhos quase cederam, mas ela aguentou firme, os forçando a resistir.
Se afastou com pressa do cerco que estava. Arfava, a dor na cabeça a torturando. A mão ainda prendia a faca, mas ela já quase escorregava dos dedos trêmulos agora.
Ainda assim, conseguiu surpreender um dos ogros e cravar a faca nas costas. Ele caiu, chamando a atenção dos outros. Rina tentou mais um golpe, mas dessa vez não conseguiu nem erguer a mão. Era como se o seu próprio corpo a estivesse atacando. Ficou zonza e, sem opção, se tornou visível aos outros novamente.
Um dos joelhos finalmente cedeu, e bateu no chão com uma dor surda partindo para todos os pontos do corpo. Tentou se segurar para não cair completamente, mas nem foi necessário. Antes que desabasse, sentiu um tecido resvalando em seu rosto. O calor de alguém do seu lado. Sentiu alguém a apoiando, a impedindo de despencar. Não precisava levantar os olhos para saber quem era.
Hiei estava do seu lado, a mão esquerda na espada, o que restava do braço direito servindo como suporte. Ela se segurou nele.
— Você está bem? — ele perguntou.
Ela não conseguiu responder. Não conseguia nem entender direito o que estava acontecendo. Só sentiu que ele a puxava para cima, que a tirava do chão e que o vento no rosto parecia cortante como cacos de vidro.
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