Visceral

17 Limites


Hiei estava sentado na frente de Rina, o olhar penetrante focado nela. Por alguns segundos, não falou nada, como se a estivesse estudando. Tudo que se ouvia era o crepitar da fogueira logo atrás dele, mantendo o ar quente e um pouco de iluminação entre os dois.

Rina descansava apoiada na parede rochosa de uma montanha. Não havia chegado a desmaiar, mas se sentiu tão destruída que era quase como se houvesse. Depois do ataque dos ogros, Hiei a levou para longe da aldeia, correndo com velocidade até os despistar e achar um ponto isolado o bastante para poderem montar o acampamento daquela noite.

Agora ela observava Hiei em silêncio, os ânimos já recuperados, mas as dores ainda frescas na lembrança. O que ela temia, no entanto, eram as perguntas que viriam em breve.

— O que aconteceu com você? — ele enfim perguntou.

Rina pensou por vários segundos antes de responder. Sabia que em algum momento teria que contar para ele. Que não iria conseguir escondendo por muito mais tempo. Mas ainda assim, ela resistia, teimosa.

— Eu não sei — admitiu.

Hiei não falou nada, apenas intensificou ainda mais o olhar, pouco satisfeito com a resposta. Ela respirava devagar, incomodada — menos pelas dores, mais pelo jeito com que ele a escrutinava.

Então quebrou o contato visual, preferindo não ver o rosto dele antes de continuar.

— Dores. Por todo o corpo, sempre que tento me camuflar. Não sei explicar. Começou quando fugi da fortaleza.

— Então já aconteceu antes?

Rina ficou em silêncio por mais um tempo.

— Outras três vezes — respondeu, contrariada, arrancando um olhar severo de Hiei — Duas na fortaleza. Uma quando roubei as coisas no vilarejo.

— O que Mukuro fez com você?

— Já falei, testes, exames. Não lembro de muita coisa.

Os olhos dele se avivaram ainda mais. Ele apoiou um dos joelhos no chão e se aproximou dela, com um olhar compenetrado. Rina subitamente teve uma sensação estranha, um incômodo vindo do cérebro. Era como se uma aranha passeasse ali dentro.

Foi então que notou um terceiro olho aberto na testa de Hiei, brilhando e olhando direto para ela. Sentiu um sobressalto.

— O que pensa que está fazendo? — Rina perguntou, exasperada.

— Vendo suas memórias. Mas você passou muito tempo dopada, estão muito confusas.

O queixo de Rina travou. Irritada, sua primeira reação foi o empurrar, fazendo com que perdesse o equilíbrio momentaneamente e interrompesse a atividade do Jagan. A sensação de ter um intruso em sua mente foi embora na mesma hora — mas a revolta se manteve.

— Eu não quero você na minha cabeça!

— Não seja infantil — ele falou, áspero, voltando a se acocorar na sua frente — Não tenho interesse no que quer que esconda aí dentro. Só estou tentando entender o que aconteceu com você, já que não lembra de muita coisa.

— Se eu não lembro, de que adianta vasculhar minhas memórias?

— Posso ver seu subconsciente, coisas que presenciou, mas não lembra de ter visto ou ouvido. Agora fique quieta.

Rina sentiu o incômodo novamente. O olhar de Hiei sobre ela, a sensação de estar sendo invadida. Ficou tensa e quase o empurrou de novo, mas o deixou dessa vez, tentando se concentrar nas suas lembranças do laboratório de Mukuro, dos testes, do seu confinamento. Em apenas no que permitia que ele visse. Mas a apreensão não a abandonou em momento nenhum.

Hiei não esboçava nenhuma reação. Estava fixado em Rina, ignorando todo o resto. Precisava se concentrar para tentar fazer algum sentido naquilo — a sedação a que tinha sido submetida durante os exames deixava tudo embaralhado, com cenas picotadas e falas soltas e sem rosto.

Mas enfim conseguiu separar uma memória do resto. Não conseguia ver direito — a visão de Rina estava nublada — mas pode distinguir Mukuro e um de seus cientistas, conversando no pé da maca de Rina. Ela fazia algumas perguntas, ele dava um relatório. Rina estava acordada, mas parecia em estado vegetativo, completamente anestesiada. Uma sonda estava presa no braço, e, pelo resto do corpo, mais fios estavam colados.

Na memória, as palavras vinham cortadas ou inaudíveis, difíceis de compreender. Mas ele conseguiu entender o contexto. E comprimiu os lábios de leve ao ouvir do cientista uma das respostas.

Ele saiu de sua cabeça. Rina o encarava com certa antecipação, as mãos agarrando a grama onde estava sentada. Não perguntou nada, só esperou.

— Qual o máximo de tempo que já conseguiu ficar camuflada? — Hiei perguntou.

Rina estranhou a pergunta.

— Trinta minutos, uma hora, talvez um pouco mais. Nunca precisei de mais do que isso. Por quê?

Hiei ponderou por um instante, como se quisesse ter certeza de que tinha entendido certo. Se afastou dela, sentando no chão perto da fogueira.

— O que você viu? — ela insistiu.

— Só fragmentos. Mukuro estava testando os limites da sua habilidade. Vendo quanto tempo aguentava, monitorando as horas, vendo como seu corpo reagia.

Rina o olhou intrigada. Ao mesmo tempo, se lembrou de como ficava cansada entre as sessões, de como às vezes dormia e acordava sem ter certeza de quanto tempo havia se passado. Da fraqueza que sentia sem explicação.

— E quanto tempo eu aguentei?

Ele mais uma vez hesitou antes de responder.

— Setenta e duas horas. Provavelmente mais. Não consegui ver tudo.

— Seguidas?!

Hiei confirmou.

Rina inspirou fundo. Lutou para conseguir absorver a informação, o choque crescendo dentro dela.

Setenta e duas horas. Provavelmente mais. Três dias inteiros.

Nunca havia colocado seu corpo sob aquele tipo de pressão. Não tinha nem a menor ideia de que isso sequer seria possível — mas agora sabia exatamente o tipo de sequela que uma sobrecarga daquela magnitude deixava em seu sistema.

Sem perceber, arrancou a grama que agarrava entre os dedos, se sentindo desnorteada. E se estivesse quebrada permanentemente? E se nunca mais conseguisse usar sua habilidade? Aquilo mudava tudo.

— Até quando vai continuar se comportando como se fosse humana? — Hiei falou, trazendo a atenção dela de volta para o presente.

Ela o encarou, confusa.

— Como assim?

— Você tem energia demoníaca correndo em você. Use-a.

Rina ouviu aquela afirmativa como se fosse uma acusação e preferiu não responder. Apenas se manteve em silêncio, o rosto na fogueira, os olhos bem longe dele.

— Eu vi nas suas memórias o que fez no laboratório. Quando destruiu o tanque com as próprias mãos. Por que tem medo do próprio poder? Podia ter usado com os ogros. Em vez disso, fomos obrigados a fugir.

Rina sentiu um arrepio ao lembrar daquele momento. Do tanque explodindo, dos vidros voando, do prazer que sentiu. E do terror também, o terror profundo e inominável que aquilo causava.

— Você estava perto, podia te machucar.

— Essa é a sua desculpa? — ele falou

— Não é tão simples assim — Rina falou entre os dentes, a pele ficando quente. Sentiu um medo irracional que ele entrasse em sua cabeça de novo. E um ódio mortal por tê-lo permitido na primeira vez.

— Você não consegue controlar.

— Se eu não conseguisse controlar — Rina respondeu, cortante — você já estaria morto. Então não me provoque.

Falou sem pensar, na raiva e no medo. Apenas um blefe. A verdade é que já tinha tido amostras do seu poder fora do controle antes, mas ainda não sabia tudo do que era capaz — principalmente naquele mundo onde tudo era tão diferente de tudo que tinha conhecido antes.

Poderia matar Hiei? Talvez sim. Provavelmente não. Mas sinceramente, aquela era o tipo de resposta que ela preferia não ter.

Hiei a observou em silêncio, a expressão cerrada. O fogo soltou um estalo, lançou mais fagulhas pelo céu, iluminando parcialmente o rosto de Rina. Ele achou que veria raiva, mas era algo muito mais profundo. Mais forte.

— Hum — Hiei soltou, com um desdém friamente calculado — Estavam errados sobre você. Deve ser só uma youkai ordinária, não tem nada de especial como dizem.

— Eu nunca quis ser especial.

— E como pretende matar o demônio que te deu esses genes? Com um canivete e uma habilidade defeituosa que usa de muleta quando a situação aperta?

O corpo de Rina enrijeceu ainda mais. Os ombros já estavam travados, os punhos cerrados com força. Ela podia sentir as têmporas latejando. Por que aquele ataque gratuito de repente?

— Já chega, Hiei.

— Eu estava certo no fim das contas — ele falou, apenas para ver até onde ela iria, apenas um teste — Patética…

— Eu falei que chega! — Rina gritou.

A energia que mantinha reprimida escapou sem querer. O ar ficou pesado como se uma tempestade estivesse a caminho, o vento agitado quase apagando o fogo.

Hiei levantou. Arrancou a capa e a jogou de lado.

— Então pare de se fazer de coitada — ele continuou.

Rina o copiou, ficando de pé, colérica. Um nó ácido se formou na garganta, outro no estômago.

— O que você quer de mim?

— Disse que poderia me matar. Prove.

E Hiei chegou bem perto dela. Sua provocação estava surgindo exatamente o efeito esperado. Tudo que ele mais queria era ter a oportunidade de ver do que Rina seria capaz.

O calor que ela emanava era bem mais forte do que o da fogueira. A energia agora pulsava, finalmente viva e liberta, mas ainda não era suficiente. Não para Hiei, que podia sentir que aquilo não era tudo que ela tinha.

Rina o empurrou com força para o lado, mas sem o tocar. Seu youki fez o trabalho. Ele bateu com as costas na parede da montanha e, antes que tivesse tempo para qualquer outra coisa, ela surgiu na sua frente, um antebraço travando sua garganta, a outra mão encostando a faca em seu tórax.

— Não me force a fazer o que eu não quero.

Hiei trouxe para a boca um sorriso pretensioso. Ele quase podia ver a aura de Rina agora, tão densa que estava.

E ainda assim, era apenas parcial. Havia mais, ele tinha certeza. Mas, por alguma razão, ela não permitia que ele enxergasse todo seu potencial, como se algo ainda a estivesse a impedindo.

— É o melhor que consegue? — atiçou.

Rina rosnou, apertando seu pescoço ainda mais, querendo esfregar da cara dele aquela expressão petulante. Chegou seu rosto bem perto. As testas quase se colaram. Ela deixou a energia se expandir só mais um pouco, crescendo gradativamente em tom de ameaça. Se segurou para não explodir.

Mas antes que ela conseguisse prever, Hiei agarrou seu pulso e o torceu, forçando a mão a soltar a faca.

Ela xingou. Se distraiu com o tilintar da lâmina caindo no chão.

E Hiei se livrou da pressão na garganta com desembaraço, aparecendo às suas costas, a faca agora na sua mão. Quando Rina se virou, a ponta da lâmina tocou seu pescoço.

— É um bom começo — ele falou — Talvez ainda tenha salvação.

Ela tentou pegar a faca de volta, mas ele não deixou. Seus olhos se cruzaram. O youki de Rina agora vibrava em ondas instáveis.

— Vai. À. Merda — Rina enunciou cada palavra.

Hiei riu, sarcástico. Se virou, deu alguns passos e jogou a faca por cima da cabeça. Ela pegou no ar.

— Depois que eu acabar com Haru — Rina avisou, a respiração curta e rápida — você vai ser o próximo.

Ele parou. Olhou por cima do ombro. Um sorriso atravessou seu rosto ao ouvir a ameaça vazia.

— Já está começando a soar como uma youkai de verdade.

Sem esperar resposta, saltou para o alto de uma árvore, sumindo entre os galhos e deixando Rina sozinha.

Ela permaneceu de pé, se sentindo traída. Não apenas zangada, mas magoada. Achou que as coisas estariam diferentes agora. Que haveria um respeito mútuo entre os dois. Teria se enganado sobre ele?

O corpo ainda estava em brasas quando finalmente decidiu se deitar. Levou vários minutos até acalmar e a raiva ceder, e mais muitos outros até conseguir pegar no sono, exausta tanto pelo confronto físico quanto pelo emocional.

(…)

Rina acordou com a garganta seca e o corpo doendo como se tivesse lutado a noite inteira. E, de certa forma, tinha. Precisou respirar fundo algumas vezes antes de levantar.

A fogueira já estava apagada. Hiei não estava por perto, mas sabia que iria reaparecer logo. Aproveitou a solidão e a cabeça já fria para relembrar com mais lucidez o que ele tinha dito — ou melhor, o que ele tinha jogado na sua cara. Havia uma certa verdade naquelas palavras que ela não gostava de admitir.

Quatro meses atrás, quando começou sua jornada, Rina tinha plena confiança que daria um jeito de alcançar seu objetivo por conta própria. Mesmo que se machucasse no processo. Mas cada dia que passava no Makai mostrava que nada era tão simples quanto ela pensava. E a passagem pela fortaleza de Mukuro tinha dado a ela mais do que apenas hematomas pelo corpo. Tinha selado de uma vez por todas a impotência de Rina diante daqueles seres de poder incalculável.

E sua confiança, antes sólida como um cristal, agora começava a apresentar ranhuras — e fazia seu orgulho sangrar como um animal ferido. As palavras de Hiei tinham servido somente para jogar mais sal em cima dessa ferida.

Mas não era só aquilo que corroía a mente de Rina e a fizera acordar abalada mesmo depois de uma noite inteira de sono.

A provocação de Hiei tinha trazido à tona um outro lado dela, um lado perigoso, que ela tentava ao máximo sufocar. Quando lembrava do que tinha feito, o que restava era uma mistura de sentimentos confusa, uma inquietação que tanto a tinha deixado aflita quanto ansiosa por mais. A vontade que sentiu de romper totalmente com as rédeas que segurava de sua energia tinha sido alucinante — por pouco, muito pouco, não o fez.

E a sensação eletrizante que teve durante os segundos em que apertou Hiei contra a rocha… essa era difícil de esquecer.

Mas Rina sacudiu o rosto e enterrou a sensação dentro dela.

Hiei voltou não muito tempo depois, sem falar nada. Rina levantou os olhos para ele mais por reflexo do que expectativa. A visão dele fez seu corpo formigar, como se estivesse revivendo o confronto de ontem.

O ar entre eles ainda estava carregado, como as cinzas mornas de uma fogueira que ainda poderia reacender a qualquer momento. Rina o encarou por um instante, mas não havia hostilidade no olhar dele agora, apenas uma avaliação silenciosa. Hiei parecia ter deixado a provocação da noite anterior para trás, agindo como se aquela fosse uma manhã como outra qualquer.

E, se não fosse o pequeno espasmo muscular que ele disfarçou quando seus olhos se encontraram, ela até teria acreditado nessa indiferença.

Sem rodeios, simplesmente sugeriu que partissem logo. Ela concordou. Tentava esquecer, para seu próprio bem, o que tinha se passado. Como se tudo tivesse sido apenas um sonho ruim.

— Acha que vão vir atrás de nós? — Rina perguntou, fingindo uma normalidade que não sentia.

— Já vamos estar longe quando vierem.

Ela assentiu, evitando o encarar. Por dentro, não estava tão tranquila assim. Tinha sido reconhecida. As notícias se espalhavam rápido por ali. Se alguém em seu encalço tomasse conhecimento da passagem dela pelo vilarejo, acharia fácil seu rastro. Mas não estava com disposição para vocalizar suas preocupações — ainda remoía todos os acontecimentos da noite passada.

Eles estavam na base de uma cordilheira, que parecia se estender para mais além do que podiam ver. Decidiram começar pelo sopé, na parte mais baixa, um terreno coberto de mudas rasteiras e árvores finas e compridas. Mais uma vez estavam entrando em território desconhecido, mas Hiei não parecia se importar nem um pouco.

A trilha era estreita, e Rina optou por deixar Hiei ir na frente. Com a katana, ele cortava parte da vegetação quando ela ficava muito espessa — o matagal naquela região era o mais denso que tinham atravessado até aquele momento, com samambaias duas vezes o tamanho deles e uma neblina úmida que cobria tudo à volta.

— É melhor irmos por cima — Hiei anunciou. Seria mais difícil segui-los assim.

Rina tentou olhar para o alto, ter algum vislumbre do cume, mas as folhagens bloqueavam a visibilidade. De qualquer forma, imaginava que não seria uma travessia tão simples.

Ela então inspirou fundo e concordou.

Mudaram de direção, agora procurando pela encosta. A trilha logo começou a ficar íngreme, serpenteando montanha acima.

(…)

Quando sentiram o primeiro pingo de chuva, não deram atenção. Mas em vinte minutos, um temporal caía sobre eles. O vento soprava com raiva, como se quisesse derrubá-los, e os trovões eram tão fortes que faziam a montanha tremer.

A subida passou a exigir mais deles. O terreno parecia querer desabar sob seus pés, cada passo mais instável que o anterior. Rina sentia a lama puxar suas botas como mãos desesperadas, e a água da chuva corria montanha abaixo feito um rio caudaloso.

— Nós temos que parar, não dá pra continuar assim — Rina falou, aumentando a voz para evitar que as palavras sumissem pelo som da tempestade.

Hiei praguejou. Apesar do céu escuro pelas nuvens carregadas, ainda não era noite, e ele queria continuar subindo. Mas ela estava certa — naquele ritmo, não iriam chegar muito longe de qualquer maneira. Já nem sabia se ainda subiam ou apenas lutavam para não descer.

Concordaram em continuar até encontrar abrigo. Precisaram seguir mais um pouco, mas logo avistaram uma abertura na rocha que aparentava ser larga o suficiente para os dois. Não muito comprida, mas iria servir.

Hiei foi para o fundo, tirou a capa e estendeu no chão para que secasse. Rina ficou na entrada, olhando a paisagem, deixando a chuva ainda espirrar no seu rosto quando o vento batia de lado.

Ele então se aproximou com o saco de mantimentos que tinha sobrado da aldeia dos ogros. Estava úmido por fora, mas parecia ter conservado os poucos alimentos que restavam —um pedaço de carne e alguns poucos biscoitos, agora esfarelados.

— Coma. O resto da subida vai ser puxada — ele ofereceu.

Rina quase recusou, apenas pela teimosia. Mas a fome falou mais alto e ela aceitou, pegando os alimentos com pressa.

Partiu a carne em dois com a faca e devolveu uma das metades para ele. Hiei se juntou a ela, olhando a paisagem e mastigando devagar.

Ela ponderou se devia ou não entrar no assunto. Não queria dar brecha para outra discussão. Mas a verdade era que a cena da noite anterior se repetia infinitamente na sua cabeça desde a hora que acordara, e aquela convivência iria ficar cada vez mais infernal se não resolvessem de uma vez.

— Por que aquela provocação ontem à noite? — ela acabou perguntando.

— Eu precisava ver uma coisa.

— Ver o quê exatamente?

Hiei a observou por um momento antes de responder. Deu uma mordida na carne.

— Se você era apenas uma youkai assustada com o próprio poder. Ou se havia algo mais ali.

Ela suspirou. Hiei continuava arrogante, mas Rina conseguia entender sua lógica. E, principalmente, sua curiosidade. Afinal, era tudo que vinha atraindo naquele lugar, como se ela fosse um animal exótico.

A última Yuuma. Um clã que ela até pouco tempo nem sabia que existia era a única coisa que a definia agora.

— Só por que sou uma Yuuma?

— Não — ele respondeu, sem titubear — Por que você é você.

Rina absorveu as palavras em silêncio. A resposta, que soou impressionantemente sincera, a pegou de surpresa. Se virou para ele, que mantinha o rosto voltado para a chuva, arrancando mais um pedaço da carne com os dentes.

— E ficou satisfeito? Ou ainda quer ver mais?

Ele soltou uma risada. Breve, mas não de deboche dessa vez.

— Estou longe de estar satisfeito — respondeu, a mirando de lado, o sorriso afiado — Mas foi um bom começo.

— Não se preocupe, minha promessa de acabar com você ainda está de pé — ela disse, mas sem o mesmo peso na voz que tinha antes.

— Vou me lembrar disso.

Rina deu um sorriso também, se sentindo mais leve e também grata por ter perguntado. Deixou o corpo deslizar pela parede de pedra até sentar e recostou a cabeça. A chuva não dava sinais de trégua, mas ela nem se importava. Aquele descanso estava sendo bem-vindo.

Ela podia ver o Makai de cima agora. A paisagem era inóspita, mas estranhamente bonita. Por detrás da tromba d'água, se descortinava uma terra estranha, com florestas densas e rios escuros e cheios de curvas. Rina nunca tinha visto nada igual.

— Já tinha visto o Makai do alto assim?

Hiei olhou na direção dela.

— Algumas vezes — respondeu, parecendo desinteressado.

Para Hiei, aquilo não era novidade. Mas Rina admirou o cenário mais um pouco. Seria aquele lugar sua casa, afinal?

Ela não gostava de pensar nisso, mas sabia que, em algum momento, teria que decidir o que fazer. Viver como uma youkai lhe parecia um pesadelo, mas voltar ao Mundo dos Humanos também não a apetecia nem um pouco.

Era como se fosse humana demais para o Makai; e demônio demais para o Ningenkai.

— Shigure cobrou pelo tratamento na perna? — Hiei perguntou de repente.

Rina piscou ao ouvir a questão inesperada. Ficou um tempo em silêncio, pensando na pergunta. E, mais ainda, na resposta.

— Pelo tratamento, não.

— Hum — Hiei fez apenas o som, sem falar mais nada. Aquilo parecia atípico. Mas não pressionou mais.

— Foi ele quem implantou esse terceiro olho na testa, não foi?

— Foi.

— O que ele pediu pela cirurgia?

Um raio cortou o céu. Depois veio o trovão.

— É uma longa história — Hiei falou, a voz baixa e grave de quem não queria entrar no assunto.

Rina pensou em cutucá-lo mais um pouco, alegar que, a julgar pela chuva, teriam todo o tempo do mundo. Mas algo a fez mudar de ideia. Talvez o fato de que não estava sendo exatamente transparente com ele.

— Shigure não cobrou pelo tratamento — ela disse — Mas ele me ajudou a fugir. E pediu algo em troca.

Hiei a olhou de lado.

— Pretende cumprir?

Rina ficou pensativa.

— Talvez.

(…)

A caminhada só foi retomada nas primeiras horas da manhã, com o sol ainda escondido. A chuva havia parado, mas tinha deixado o terreno lamacento e escorregadio.

Hiei estava de pé antes dela, já a esperando do lado de fora da caverna que usaram de alojamento como se nem mesmo tivesse passado a noite ali. E talvez não tivesse: ela tinha notado uma movimentação dele durante a noite, os ruídos dos passos dele se afastando. Mas estivera cansada demais para averiguar e, naquela manhã, tudo parecia como antes.

Quanto mais subiam, mais o ar mudava. Rina sabia que no Makai as barreiras entre biomas podiam ser abruptas, quase sobrenaturais, mas ainda assim se surpreendia com a velocidade da transformação da paisagem.

As montanhas pareciam não ter fim. No terceiro dia, a vegetação ficou ainda mais escassa e uma camada de neve fina começou a cobrir o chão em alguns pontos. A temperatura despencou, e o ar estava tão rarefeito que Rina sentiu a respiração faltar em alguns momentos. A floresta e a chuva tropical que tinham enfrentado dias atrás agora parecia algo distante, como de outro país.

E a subida não era só íngreme, mas traiçoeira. A paisagem ao redor, com árvores retorcidas e congeladas, era fantasmagórica. Não havia mais neblina, mas uma poeira de gelo pairava no ar.

— Como está aguentando? — Hiei perguntou.

— Já estive pior — ela respondeu, ignorando os primeiros sinais de uma enxaqueca que começava a expor suas garras como se quisesse comer seu cérebro.

Hiei fez um ruído indiferente. Mas não parecia tão resistente ao frio quanto ela esperava. E a mão, ela notou, aparentava estar mais rígida que o normal. Ele a mantinha debaixo da capa, mas Rina podia ver como os movimentos não eram tão naturais como antes. E começou a suspeitar que as saídas noturnas de Hiei talvez tivessem algo a ver com isso.

Durante a noite, o frio os engolia ainda mais. O chão era gelado, o ar parecia perfurar seus pulmões, e a pele exposta ardia como se estivesse sendo arrancada à mão. Um cansaço incomum puxava Rina para baixo, querendo a derrubar — e quase conseguindo.

Rina tentava se esconder debaixo da capa fina que tinha roubado, mas ela parecia feita de papel quando o sol se punha. Acabavam tendo que passar as noites encolhidos, encostados um no outro para que o calor do corpo não escapasse tanto.

O frio era desconfortável demais para dormir, mas era a tensão que os mantinha acordados por mais tempo do que gostariam. Principalmente quando o menor movimento era suficiente para os lembrar da proximidade forçada pelo clima.

Rina fingia que o corpo dele colado ao seu não era nada. Que a respiração de Hiei em seu pescoço não existia e que o calor que sentia vindo dele era uma necessidade prática, de sobrevivência, e nada além disso. Mas quando se esbarravam por acaso durante a madrugada silenciosa, Rina sentia um sobressalto impossível de ignorar — mas que preferia não analisar.

Se protegiam do vento gelado acampando próximos a formações rochosas altas, que serviam de escudo precário contra as correntes de ar. A fogueira mal servia para os manter aquecidos, e as noites pareciam cada vez mais longas.

Longas demais.

No meio da tarde daquele dia, a neve rala começou a ganhar volume sob os pés. Não demorou para que estivessem mergulhando os tornozelos em centímetros de profundidade. Rina achou que os pés iriam congelar a qualquer instante, quase anestesiados pelo gelo. O rosto doía como se estivesse pegando fogo, e já nem sentia mais algumas partes do corpo.

E, de repente, tudo ficou mais silencioso. Quase nenhum som além de seus passos na neve. As árvores e plantas já tinham ficado para trás, e a paisagem, antes diversa, tornava-se de uma cor só. Hiei e Rina já tinham espaço o bastante para caminharem lado a lado, o terreno quase plano. Mas, apesar disso, se sentiam zonzos. Cada passo era uma agonia.

A neve se estendia por tudo que eles conseguiam ver, refletindo o sol pálido de uma maneira ofuscante. Era tão vasto que parecia infinito. E nenhuma pegada marcava a neve a não ser as que eles mesmo faziam. Tudo era liso e intocado, como se eles fossem as primeiras criaturas a pisar ali.

Eles pararam. Para onde se olhasse, o cenário era exatamente igual.

— Por favor, não diga que estamos perdidos — Rina falou, sentindo o frio entrando pelos ossos. Se não fossem as temperaturas negativas, teria deitado e dormido ali mesmo.

Hiei evitou responder. Examinava os arredores com os olhos cerrados tentando se situar, tentando captar qualquer coisa que o colocasse na trilha de novo. Costumava ter um bom senso de direção, mas o frio, a paisagem e a queda na pressão do ar tinham bagunçado seus sentidos, o deixado atordoado.

O que mais o assustava, no entanto, não era que estava simplesmente desorientado. Era mais do que isso. Era como se estivesse esquecido o caminho. Como se uma névoa cobrisse sua mente e a impedisse de funcionar como devia.

— Vamos continuar — ele falou, lutando contra a sensação.

Seguiram por mais um pouco, tentando se enganar de que estava tudo bem. A única coisa que os fazia ter certeza de que não estavam andando em círculos era a neve perfeitamente lisa e sem marcas na sua frente, indicando que ainda não haviam passado por ali.

No entanto, quanto mais andavam, mais tudo parecia difícil. Rina achou que podia ser o início de uma hipotermia. Estava fraca, mas não era exatamente um cansaço puramente físico. Era mental também. Hiei, do seu lado, estava igualmente devagar, se arrastando com o olhar perdido. Parecia uma casca vazia.

— Alguma coisa não está certa — ele falou, amaldiçoando, por entre os dentes, aquele lugar. Já tinha estado em ambientes inóspitos antes e nunca havia se abalado assim. Nem mesmo quando estivera no País de Gelo tinha sido tão afetado.

Mas não havia nada ao redor. Nenhum som, nenhuma imagem que não fosse a do chão coberto de branco até onde a vista alcançava, nenhum distúrbio sequer. Somente o ar estranho que mal tocava seus pulmões e uma neve iridescente que parecia brilhar sob o sol.

Hiei tentou usar o Jagan, mas descobriu que ele se recusava a mostrar qualquer coisa, o que era raro — para não dizer improvável. Era como se seu cérebro estivesse entrando em um estado de hibernação forçada, desligando pouco a pouco.

Até que viram um terceiro par de pegadas. Que não estava ali antes.

Hiei, por reflexo, procurou a empunhadura da katana. Rina fez o mesmo com a faca presa na cintura.

Seguiram com os olhos as marcas na neve. A resposta por elas estava logo adiante — um youkai corpulento, de focinho curto e cabelos rebeldes, coberto por um manto de pele branca que quase o camuflava na paisagem. Seus olhos, amarelos e verticais como os de um lobo, examinavam Rina e Hiei com uma mistura de curiosidade e cautela calculada.

— Viajantes por aqui, que surpresa… Não recebo a visita de forasteiros há séculos.