Visceral

2 O Clã Yuuma


Era tarde da noite quando ele chegou. Trajes de seda macia, cabelos ralos e um rosto macilento eram tudo que Yusuke viu ao olhar de esguelha para o sujeito parado a poucos passos de seu quiosque de ramen.

Acostumado como estava com ameaças, ele não se alarmou. Continuou com as tarefas habituais que realizava toda noite, se limitando apenas a manter o alcance de suas percepções um pouco mais abrangente do que de costume. Qualquer movimento que indicasse hostilidade, e Yusuke atacaria.

Não era humano, Yusuke logo reparou. Seu youki podia ser sentido de longe. Não que isso fosse novidade. Desde que a barreira entre o Ningenkai e o Makai havia sido permanentemente removida após o último torneio, alguns demônios passaram a frequentar com certa curiosidade o Mundo dos Humanos. A maioria, de forma pacífica. Mas Yusuke era calejado demais para baixar a guarda.

Tirou o lixo, limpou o balcão e guardou os utensílios em seus respectivos lugares, com a mesma calma de sempre. O demônio não moveu um músculo sequer, tampouco desgrudou o olhar que mantinha sobre ele. Exceto por um segundo. Foi o segundo que Yusuke precisou para desaparecer.

O demônio franziu o cenho. Comprimiu os lábios com força enquanto mexia milimetricamente o rosto para o lado, se concentrando para captar novamente a energia que tinha acabado de perder de vista.

Prendeu a respiração quando foi surpreendido de repente.

— O que você quer comigo? — A voz de Yusuke surgiu subitamente às costas do demônio. Ele se virou, guiado pelo brilho intenso que enxergava pelo canto dos olhos.

— E então? — Yusuke perguntou de novo, intensificando a luz que emitia do dedo indicador, agora apontado para o homem.

— Você é mesmo o filho de Raizen... — falou, com um sorriso discreto — O que faz no mundo dos homens com essa barraquinha ordinária de comida?

— O que eu faço é problema meu! Agora diga por que está aqui.

O youkai suspirou lentamente, cerrando os olhos. Quando os abriu, sua expressão estava completamente transformada.

As sobrancelhas caíram, acompanhando o movimento dos ombros. A boca tremia e todas as linhas do rosto se acentuaram. O semblante era a pura face do desespero.

— Estou aqui porque não tenho mais a quem recorrer…

(...)

Em algum lugar ermo do Makai, Hiei observava o demônio que tivera o azar de cruzar o seu caminho naquele dia. Não conseguiu evitar um sorriso sarcástico ao perceber que o oponente se preparava para atacar. Era exatamente aquela a atitude que ele esperava. Sentiu todos os pelos do corpo se eriçarem, excitado pela situação que provocara.

Desde o fim do torneio, que elegeu Enki como o grande vencedor, as funções de Hiei se limitavam a patrulhar determinadas áreas e resgatar humanos que se perdiam por aqueles lados devido à ausência da barreira que separava as duas dimensões. Continuava levando a arma em todas as rondas, mas cada vez menos tinha oportunidade de usá-la. Por isso, vez ou outra, debandava da equipe e se embrenhava sozinho em alguma área remota, buscando algum oponente para aplacar a sede de sangue da katana.

Hiei levou sua mão ao punho da espada, apertando com firmeza. Sentir a arma viva entre seus dedos era uma de suas sensações preferidas, um prazer quase erótico. A puxou lentamente, enquanto o outro youkai corria em sua direção. Deixaria que ele chegasse bem perto, que achasse que tinha alguma vantagem. Tal antecipação só o deixava mais e mais atiçado. Só quando o demônio estava a menos de meio metro de distância, Hiei se mexeu, saltando em uma velocidade incrível para o outro lado e atacando o rival.

O corte no peito foi fatal, dando ao youkai uma morte rápida. Hiei olhou o demônio cair sem vida no chão, enquanto o sangue se espalhava pela terra batida. Seus olhos, tão vermelhos quanto o fluído que agora jorrava, pareciam duas labaredas, consumidos pelo desejo ardente daquela morte.

Limpou os respingos que lhe atingiram o rosto e olhou para a espada, também suja. Não queria manchar a própria roupa com aquele líquido imundo, então apenas se abaixou e passou a lâmina pelas vestes do morto até conseguir extrair toda a sujeira. Fitou a katana mais uma vez antes de guarda-la na bainha. A espada, antes opaca, agora brilhava. Sua sede de sangue estava saciada.

(...)

"O Mundo dos Demônios sempre foi um lugar hostil. É um ambiente horrível para os mais fracos. Mas principalmente, para os mais poderosos. O poder pode trazer desgraça com a mesma rapidez que traz a fortuna. Multiplica os inimigos enquanto divide os aliados. O poder isola. Amaldiçoa.

E o clã Yuuma sabia disso.

A linhagem Yuuma era uma das mais antigas e puras entre a tribo Mazoku. Eles eram donos dos maiores tesouros e dos segredos mais ocultos do Makai. Tinham sabedoria, riqueza, aliados fortes e respeito. Tinham poder.

Mas também tinham rivais. Opositores invejosos e gananciosos que faziam de tudo para minar a influência dos Yuuma. Criavam intrigas, provocavam desavenças, articulavam ataques.

Durante séculos, guerras sangrentas fizeram parte do cotidiano dos Yuuma. Formado principalmente por soldados e combatentes, o clã aniquilava os inimigos sem piedade. Junto de seus aliados, eram invencíveis. E faziam questão de mostrar sua superioridade.

Os inimigos assassinados, degolados e mutilados eram expostos por toda a extensão das terras dos Yuuma. Qualquer um que entrasse em seu território logo seria recebido pela face do horror que eles representavam.

A estratégia afugentava alguns, temerosos demais para sequer ousar cruzar seus caminhos. Ao mesmo tempo, porém, alimentava o ódio.

A quantidade de batalhas diminuiu, mas a intensidade dos ataques, não. Chegavam a durar meses e traziam perdas cada vez mais numerosas para todos os lados.

Sedentos de sangue, os Yuuma não descansavam. Se os inimigos recuavam, eles iam atrás. Se pediam trégua, eram decapitados. Mulheres e crianças viravam seus escravos ou morriam com a mesma crueldade. Ninguém escapava de suas mãos.

Até que os próprios aliados começaram a temê-los. Um a um foram abandonando a batalha, se recusando a continuar aquele banho de sangue sem fim. Acusados de traição, viravam desafetos. E eram tratados com a mesma frieza e selvageria que os demais inimigos.

Logo, os Yuuma estavam sozinhos. Cegos pelo próprio poder, eles nem assim cessaram sua onda de massacres. E o nome que antes evocava respeito, agora se traduzia em rancor. Não percebiam que estavam selando o próprio destino.

Só que na guerra, inimigos em comum constroem aliados. E por mais poderoso que um exército seja, ele nunca é maior do que a sede de vingança pelos que pereceram pelo caminho e que não tinham mais nada a perder.

Famílias, clãs e tribos inteiras se uniram contra os Yuuma. Eles eram fortes, e resistiram por quase mil anos. Porém, cada vez mais isolados, os Yuuma por fim sucumbiram. E foram aniquilados com a mesma barbaridade que por tantos séculos eles impuseram. Seus tesouros, divididos como espólios da guerra.

A linhagem Yuuma, antes tão pura e renomada, se extinguiu para sempre do Makai. E o nome Yuuma, reduzido a um mito."

Yusuke tinha os braços cruzados enquanto ouvia a história do sujeito a sua frente. Sentados nos banquinhos altos de frente para o balcão do quiosque de ramen, os dois se encaravam, respeitando o silêncio que se formou no segundo em que o youkai se calou.

Haru — esse era seu nome — mantinha uma expressão dura, mas ao mesmo tempo, suplicante.

— Bela história, vovô, mas ainda não entendi o que você quer — Yusuke falou.

O demônio sorriu com tristeza.

— Por centenas de milhares de anos, essa história é contada para todas as gerações de demônios do Makai. Estaria absolutamente correta, se não fosse um detalhe...

Haru se calou um segundo, tomando coragem antes de continuar.

— A linhagem pura dos Yuuma não foi extinta como diz a lenda. Um dos herdeiros se refugiou no Mundo dos Humanos, esperando o momento certo para retornar e reconstruir sua família e sua riqueza.

— Como você tem certeza?

O demônio olhou para Yusuke, o encarando com seus olhos acizentados já quase sem vida.

— Porque eu sou esse herdeiro.

O garoto ergueu uma das sobrancelhas, ligeiramente surpreso com a revelação. Apoiou o cotovelo no balcão e inclinou o corpo para frente.

— E agora quer tentar reconquistar aliados, começando pelo sucessor de Raizen, é isso?

Haru se espantou. Balançou a cabeça efusivamente em negação.

— Jamais, meu clã sofreu com as guerras e eu aprendi da maneira mais dura a dor que elas podem gerar. Estou no fim da vida e não quero nada além de uma morte tranquila. Mas ainda tenho orgulho do meu nome e da minha ascendência e quero minha família de volta. Você, como descendente de Raizen, saberia encontrar o que estou procurando.

— E o que seria isso?

O youkai fez uma nova pausa.

— Meu filho.

O silêncio caiu entre eles. Por um instante, ficaram se olhando sérios, deixando os barulhos da noite falar por ambos. Yusuke tentava entender o significado daquilo, mas, não conseguindo, falou:

— Ok, preciso de mais detalhes aqui...

Haru suspirou, concordando.

— Mais de mil anos atrás, eu me refugiei no Mundo dos Humanos, em uma época onde não existia a barreira entre as dimensões. Eu sabia que se voltasse, seria perseguido, e por isso, me escondi por aqui, me isolando de tudo e todos. Mas eu temia que minha linhagem morresse, e eu não podia deixar que isso acontecesse. Por isso, procriei com uma humana...

Yusuke cruzou os braços novamente, intrigado com o rumo daquela história.

— Mas eu também sabia que seria inútil dar continuidade ao clã naquela época tão pouco segura. Sabia que teria que esperar para que os Yuuma pudessem viver em paz novamente. E então, forcei meus genes a pularem algumas gerações... programei para que eles voltassem muitos séculos na frente, em um período que esperava que fosse de paz. Ou ao menos, que o nome Yuuma já não suscitasse ódio no Makai, que talvez até estivesse esquecido

— Atavismo... — Yusuke murmurou, fazendo Haru concordar.

— Pelos meus cálculos, meu herdeiro já nasceu neste mundo, mas eu perdi contato com a linha humana que carregava meus genes. Venho procurando há anos, e desde a reabertura da barreira, essa certeza se fortalece. Viajei por vários lugares, e sei que é nesta região que ele está, eu posso sentir... mas não posso mais perder tempo nessa busca — Haru fez uma pausa. Suspirou, como se estivesse cansado — Como falei, não acredito ter mais muito tempo de vida.

— E você quer que eu o encontre pra você.

— Você é um dos poucos em situação semelhante a meu herdeiro… que também nasceu entre humanos, mas descende de uma das classes mais poderosas de youkais. Além do mais, sei que fez vários trabalhos para o Reikai. Ninguém seria mais capacitado.

Yusuke coçou o queixo, pensativo. Jamais tinha pego um caso assim antes, e não tinha muita certeza se seria tão simples encontrar uma pessoa da qual ele não sabia nada. Mas tinha que concordar: era uma história intrigante.

— Quero retornar ao Makai e morrer nas terras da minha família, que consegui reconquistar aos poucos e em sigilo. Claro, não são nem um décimo do que foram um dia, mas eu já estou em paz com isso — Haru continuou — E dinheiro não é o problema, se esse for o caso. Além das terras, também consegui recuperar algumas relíquias de família. São suas se conseguir encontrar meu filho.

Yusuke olhou desconfiado.

— Só isso? Só ajudar a localizar essa pessoa e mais nada?

Haru hesitou.

— Como falei, preciso retornar ao Makai. Não sei se poderei abandonar minhas terras por mais tempo. Preciso que encontre e leve meu filho até mim em segurança.

— Até o Makai? — Yusuke balançou a cabeça — Isso já foge da minha alçada, vovô.

— Por favor, Yusuke, eu estou suplicando! Encontre meu filho! — Haru pediu com os olhos marejados, e Yusuke podia enxergar a importância daquele pedido para o velho youkai —Encontre o verdadeiro herdeiro do clã Yuuma.

Yusuke respirou fundo, pensando na resposta.

— Está bem — respondeu — Vamos acertar os detalhes...

Notas finais
¹Ramen - Tipo de macarrão japonês ²Mazoku - Na mitologia japonesa, uma tribo de demônios super poderosos. No universo de YYH, é a mesma tribo do Raizen e de outros demônios classe S.