Notas iniciais
Notas explicativas no final. Espero que gostem =)

Dez dias haviam se passado desde a conversa com Haru, e Yusuke permanecia exatamente no mesmo lugar de quando começara a investigação.

Nenhuma pista. Nenhum suspeito. Nada.

Haru tinha partido para o Makai como disse que faria, e os rumores sobre o clã Yuuma, pelo visto, pareciam mortos e enterrados. Ninguém tinha uma informação, sequer tinha ouvido falar num possível descendente. Nem mesmo os informantes de Yusuke, a maioria composta por youkais que viviam no limiar entre os dois mundos, o ajudaram dessa vez. Ele estava prestes a desistir.

Até aquele dia.

Era ainda o meio da tarde quando ele abriu a porta do apartamento que dividia com a mãe. Apagou o cigarro antes de entrar em casa, amassando a bituca com o pé. E a energia o atingiu. A sentiu tão logo girou a maçaneta. Um youki superior ao que estava acostumado a encontrar na cidade. Durou alguns segundos e sumiu, mas ele tinha certeza do que tinha sentido.

Correu para encontrar a fonte daquela força, mas não precisou avançar além da própria sala. Era uma jovem, pouco mais velha do que ele. Cabelos rosa-pálidos, olhos cinzas e frios. Ela estava de pé, de frente para Atsuko, em alguma discussão que ele não parou para ouvir.

— Está tudo bem por aqui? — ele perguntou, os olhos ainda pregados na jovem.

As duas se viraram ao mesmo tempo. A energia da estranha o atingiu novamente. Forte, sufocante, profunda. E Yusuke entendeu imediatamente quem era aquela garota. Sua busca havia terminado.

— Rina já estava de saída — Atsuko falou, imperativa, acordando Yusuke do transe.

Rina voltou a olhar para ela, a boca crispada com desprezo. Mas não disse nada. Em vez disso, se virou para sair, cruzando com Yusuke antes de alcançar a porta.

— Quem é você? — ele perguntou, fazendo com que ela parasse do seu lado.

A estranha sorriu, a dissimulação estampada nos lábios silenciosos.

— Saia logo dessa casa! — A voz de Atsuko berrou novamente.

— A gente se vê por aí — sussurrou de volta para ele.

Rina saiu do apartamento, deixando a porta bater. Yusuke, em um impulso, se virou para segui-la. A mãe chegou a gritar para que ele a deixasse ir, mas Yusuke ignorou a ordem — ainda que isso fosse virar uma discussão depois — abriu a porta e correu para o lado de fora.

O corredor do prédio já estava vazio, mas Yusuke a sentia nas proximidades. Voou pelas escadas, ouvindo seus passos se misturarem aos dela. Pulou os degraus, esperando a encontrar nos andares próximos, mas a cada lance de escadas, mais ela se distanciava.

Saiu do prédio ainda ao seu encalço. Quando achou que a alcançaria, Rina subiu em uma moto estacionada na calçada e deu a partida. Antes que Yusuke tivesse qualquer reação, ela já havia sumido entre os carros.

Tudo que restou foi soltar um palavrão.

(…)

Kurama ajeitou a gola da jaqueta, protegendo o pescoço do frio. Apertou o passo. A pequena cafeteria o esperava do outro lado da rua. O lugar já estava cheio, como de costume.

Yusuke tinha solicitado aquele encontro, mas não explicara o motivo. Kurama não insistiu, mas pelo tom do amigo no telefone, sabia que não seria apenas para uma conversa casual.

— Você lembra quando Genkai falou que o fim da barreira poderia trazer conflitos? — Yusuke perguntou.

A pergunta pegou Kurama desprevenido. Sim, ele lembrava. E sim, ele pensava nisso com certa frequência, reconheceu. Mais de um ano havia se passado desde o fim do bloqueio entre os mundos e a paz não parecia ameaçada. Ainda assim, parte dele se recusava a negar tal possibilidade, ainda que aparentemente remota.

— Algum motivo para essa preocupação de repente? Você viu ou sentiu alguma coisa?

Yusuke se ajeitou na cadeira.

— Clã Yuuma, já ouviu falar?

Ele fitou Kurama, aguardando por alguma reação. O amigo franziu a testa, como se estranhasse aquela pergunta. Esperou vários segundos antes de confirmar, tomando cautela antes de responder.

— Essa linhagem não existe mais — disse — Foram massacrados séculos, talvez milênios atrás — Fez uma pausa — Quem está desenterrando uma história dessas?

Algo pareceu trincar no fundo da cabeça de Kurama ao ouvir a resposta. O rosto se contorceu em uma expressão confusa que misturava incredulidade com uma aparente apreensão. Balbuciou um "como assim?" e se perdeu nas palavras que se seguiram.

— Eu não sei o que pensar, Yusuke — Kurama disse, após ouvir o relato do amigo sobre Haru e sobre o breve encontro com Rina — De fato, é possível. É apenas… surpreendente demais, eu diria.

—Se for verdade... acha que pode ser um problema?

Kurama fez uma pausa, pensativo. A informação era tão inesperada que claramente o pegara de surpresa.

Inicialmente, Yusuke não tinha dado muita bola para a história de Haru, mas depois de ter visto Rina, uma leve preocupação começou a ocupá-lo. Começava a acreditar que tudo aquilo talvez escondesse mais do que a princípio parecia. Mas a verdade é que as implicâncias que um possível ressurgimento do clã traria para os três mundos era ainda um grande ponto de interrogação na cabeça do ex-detetive — ponto esse que ele esperava Kurava pudesse ajudar a esclarecer.

— Não temos como prever o que pode acontecer — Kurama falou — Talvez eles cresçam e se fortaleçam o suficiente para se rebelar contra as regras atuais do Torneio. Talvez realmente fiquem na encolha e entrem no jogo. Talvez nunca mais atinjam o ápice. Difícil dizer. Ainda é cedo demais para tirarmos uma conclusão, mas de qualquer forma, a notícia é preocupante.

Yusuke balançou a cabeça, concordando.

— O que você pretende fazer?

— Eu não faço ideia… — Yusuke falou.

— Você disse que sentiu algo diferente vindo dela. Tem certeza que é a pessoa certa?

Yusuke lembrou da energia que o tomou de assalto quando a encontrou pela primeira vez, na sala de casa. De como era diferente do que costumava encontrar e de como aquilo o remetia ao Torneio do Makai, aos tipos mais poderosos que enfrentou no passado, à atmosfera pesada típica da terra dos demônios. Na cabeça dele, não havia mais dúvidas.

— Por que nunca sentimos a presença dela antes? Acha que estava escondida? Que ela sabe manipular a energia tão bem assim?

— Talvez… mas se você está certo, a melhor coisa a fazer é levá-la para o Makai. Não podemos arriscar que outros descubram que uma descendente dos Yuuma está viva e tragam problemas para o Mundo dos Humanos. Além do mais… — ele fez uma pausa, pensativo — não acho que vai demorar para que o Reikai também rastreie essa energia incomum e queira se livrar de Rina. Você lembra como agiram com você.

— Acha mesmo que as coisas chegariam nesse ponto?

— Eu prefiro não arriscar, Yusuke. Paz é um conceito muito frágil. É preciso muito esforço para mantê-la, e quase nada para destruí-la. Vamos encontrar logo essa moça antes que alguém mais o faça.

Yusuke assentiu, com uma sensação inquietante no peito.

Rina estivera na sua casa. Estivera com a sua mãe. O que teria acontecido se ele não tivesse interrompido? Se sentiu mal só de pensar.

(…)

Demoraria ainda mais alguns dias para que Rina e Yusuke voltassem a se encontrar. Vários longos dias, que ele gastou pressionando a mãe para revelar mais detalhes sobre a presença perturbadora daquela estranha na sala de estar. Atsuko, no entanto, não estava muito interessada em perder tempo falando sobre ela e parecia já ter esquecido o assunto.

Ao menos munido de nome e uma descrição física, ele poderia voltar a procurar pelos guetos da cidade. Rina, no entanto, lhe poupou o trabalho.

Surgiu repentinamente às suas costas em uma das excursões de Yusuke pelas ruelas escuras. Perguntou se ele estava procurando por ela e esperou ele se virar abruptamente, defensivo.

— O que você quer comigo? — ela perguntou.

Yusuke a encarou.

— O que você estava fazendo lá em casa? — De todas as perguntas, essa foi a primeira que lhe ocorreu.

Rina continuou o olhando, agora o estudando de cima a baixo. Ela tinha o mesmo ar prepotente de antes, mas a energia tão avassaladora que ele havia sentido agora estava encolhida, controlada, fazendo Yusuke quase duvidar que tinha vindo da mesma pessoa. A única certeza que ele tinha, no entanto, era que ela não era humana.

— Então é disso que isso se trata? — Rina perguntou — Atsuko enviou você atrás de mim? Meu assunto com ela já foi encerrado. O que ela quer?

— Não — ele admitiu — Ela não tem nada a ver com isso. Mas quero saber por que uma youkai como você está metida com minha mãe.

Rina titubeou pela primeira vez. Franziu a testa e comprimiu os olhos desconfiados que ainda estavam fixos nele.

— Do que você me chamou?

— Você não sabe? Deve estar brincando.

O rosto dela pareceu se enfurecer ainda mais. Yusuke ficou na defensiva, aguardando alguma explosão de fúria, sem saber o que esperar. Uma aura daquele tipo só podia ser acompanhada de uma força sem igual. Mas em vez de atacar, ela recuou.

— Vamos embora daqui — ela falou entre os dentes.

Rina foi na frente, o guiando. Eles caminharam até uma parte isolada da cidade, onde uma estação de trem abandonada era tudo o que tinham ao redor. A grama crescia sem ninguém para apará-la e um rastro de lixo seguia margeando os trilhos parcialmente cobertos pelo mato alto. Ao longe um grupo de adolescentes conversava em uma roda.

— Está vendo aquele grupo ali? — Rina apontou para os adolescentes mais adiante — Moleques. O mais velho não tem mais do que 16 anos. Semana passada, um deles foi parar no hospital.

— E o que a minha mãe tem a ver com isso?

— Ele furtou um estabelecimento. Coisa à toa. Mas o lugar era operado pela máfia. E corre o boato que Atsuko viu e o entregou pra quitar alguma dívida de jogo. Eu fui tirar satisfações. Ela negou, mas eu a mandei ficar longe deles. E de mim.

Yusuke olhou para o grupo novamente, que lançava olhares rápidos aos dois de tempos em tempos. Havia alguma dinâmica acontecendo ali, mas ele não tinha o menor interesse em entender.

— Agora que eu respondi sua pergunta, é minha vez de perguntar. O que você disse que eu era?

Ele cruzou os braços. A analisou. Aquilo tudo era novidade para ela. E uma surpresa para ele — Yusuke achava impossível que ela não tivesse consciência da própria energia, ainda mais se conseguia a manipular tão bem.

— Uma youkai. Seus genes não são humanos.

— O que isso quer dizer?

Yusuke explicou em partes. Sobre o Makai, sobre os demônios, sobre a conversa com Haru. Rina ouviu em silêncio. No fim, desviou o rosto, balançou a cabeça. Os lábios estavam comprimidos em uma espécie de raiva reprimida.

— Você sabe que é diferente — Yusuke insistiu, pescando por alguma reação — Você sabe que tem que se esconder. É por isso que aprendeu a camuflar sua aura tão bem, não foi?

Ela o encarou, mais uma vez não falando nada. Não concordou, mas também não expressou nenhuma confusão. Era como se finalmente tivesse entendido.

— Quem te contratou? — ela perguntou — Como posso encontrá-lo?

— Ele não está mais aqui. Se quiser encontrá-lo, vai ter que ir para o Makai. É onde ele está, e é pra onde eu acho que você devia ir também.

Ela fez um aceno curto, contido. O rosto estava endurecido, o olhar firme, mas ligeiramente apreensivo. Rina olhou demoradamente para o grupo de garotos ao longe, mas depois se voltou para Yusuke.

— Quando podemos ir?

(...)

— O que você quer? — Hiei perguntou, fazendo Mukuro se virar.

A insolência típica do demônio de fogo provocou um sorriso discreto no rosto da comandante. Ela o estudou com cuidado, analisando as feridas recentes em seu torso descoberto. Algumas ainda estavam abertas. O vermelho vivo da carne lacerada parecia destacar ainda mais aqueles olhos flamejantes.

— Estão falando que você não tem comparecido às rondas. É verdade?

— É para isso que interrompeu meu treino?

O rosto de Mukuro permaneceu intacto. A resposta afiada não a impressionou. Não esperaria nenhuma outra vindo dele, de qualquer maneira.

— Você não tem privilégios — ela respondeu — E eu não preciso de dores de cabeça com Enki. Apenas cumpra sua maldita função.

— E se eu me recusar?

— Não me provoque, Hiei, nem ache que nossa intimidade mudou alguma coisa por aqui. Eu ainda sou sua comandante.

Os olhos dos dois continuavam um sobre o outro, imóveis. Ficaram em um silêncio incômodo, deixando a tensão invadir o espaço entre eles por um tempo que pareceu interminável.

Até Hiei quebrar o contato visual. Repuxou o lábio em um meio sorriso mordaz e cruzou os braços. Ele, assim como ela, também não se intimidava fácil.

— Vai me expulsar do seu exército particular?

O desafio estampado na expressão de Hiei a perturbou. Ele por acaso achava que ela não teria coragem? Que era bom demais para ser dispensado?

— Volte para o seu treino — ordenou — Mas amanhã, retome o patrulhamento. E pare de reclamar. Ganhe o torneio da próxima vez e faça suas próprias regras. Enquanto isso, obedeça as que lhe foram impostas.

Se virou, querendo por um fim ao assunto. Não imaginou que, para Hiei, a conversa estivesse longe de terminar.

— Lute comigo — ele pediu — Me mostre a força que você se recusa a revelar.

— Mandei ir embora. Desde quando ficou tão insubordinado?

— Desde quando ficou tão frouxa?

Mukuro respondeu com um chute lateral. Fraco, mas forte o suficiente para derrubá-lo. Hiei se ergueu em um pulo — ou ao menos tentou. O braço da youkai o pressionando forte contra a parede era o aviso de que ela ainda estava no comando.

E por um segundo, Hiei achou que teria o combate que tanto almejava. Achou que tinha visto nos olhos de Mukuro a fúria necessária para libertar todo o potencial que ela escondia.

A sensação, no entanto, se desmanchou no instante em que ela afrouxou a mão que prendia seu pescoço. Mukuro se afastou, e o gesto o atormentou mais do que se ela tivesse levado a cabo o sonhado duelo.

— O que aconteceu com você? — Hiei perguntou, mais inconformado do que preocupado.

— Apenas saia daqui.

Ele não ousou ignorar a ordem dessa vez. Fechou a porta, a devolvendo ao breu. Foi a última vez que conversaram.

Fazia três dias que Hiei não a via quando decidiu abandonar a fortaleza de vez. Partiu sem se despedir ou oferecer alguma justificativa. Apenas saiu para mais uma ronda, se separou da equipe e nunca mais voltou.

Hiei vagou pelo Makai sozinho por alguns dias, aplacando seus desejos à medida que eles vinham. Quando os treinos solitários enfim o entediaram e os ataques a demônios incautos já lhe pareciam maçantes, Hiei acabou ele mesmo cruzando a barreira.

Fazia mais de um ano que não visitava o Ningenkai.

(...)

— Hiei? — Kurama falou ao ver a figura de preto na janela. Pouco havia mudado desde a última vez que se viram — O que está fazendo aqui? Fugindo das garras de Mukuro? — perguntou bem-humorado.

Hiei, porém, lhe lançou um olhar carrancudo.

— Estou entediado.

— Não me diga que já caíram na rotina?

Hiei fez um som que mais parecia um rosnado, se recusando a responder, e Kurama compreendeu que não arrancaria mais nada do amigo.

— Suponho que queira saber da novidade, então.

— Os assuntos do Ningenkai não me interessam.

Kurama suspirou. Ao que parecia, Hiei não havia notado o youki de Rina pela cidade, o que era impressionante, dada a capacidade meticulosa de Hiei de detectar esse tipo de presença com muito mais acuidade até mesmo do que Kurama. A jovem realmente tinha dominado o controle de sua energia com uma capacidade impecável.

— Talvez se interesse depois de ouvir o que é.

Hiei o olhou com certa curiosidade, mas Kurama agora parecia pensativo, como se uma ideia tivesse acabado de lhe ocorrer.

Talvez fosse difícil convencer o amigo, mas ele seria uma ótima escolta para Rina.

Notas finais
¹ - Isso faz referência ao episódio 4 do Eizou Hakusho (mini episódios com algumas cenas extras do anime) ² - Hirui seki é a pedra da lágrima da mãe de Hiei e Yukina. No final, Hiei fica com os dois pingentes, já que Yukina não aceita o dela de volta. Também em um episódio do Eizou Hakusho, Mukuro é vista usando o colar xD ³ - Kirin é um dos soldados de Mukuro, que chega a falar depois do Torneio que acha que Mukuro nunca irá lutar com toda a força que possui, pois ela está ligada ao seu estado mental (e que, ultimamente, ela andava bem mais tranquila, o que a impedia de invocar seu poder máximo)